{"id":1341,"date":"2011-10-07T06:34:38","date_gmt":"2011-10-07T09:34:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.projeto676.com.br\/?p=1341"},"modified":"2011-10-07T06:34:38","modified_gmt":"2011-10-07T09:34:38","slug":"bilhete-para-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/legal.adv.br\/projeto676\/20111007\/bilhete-para-a-vida\/","title":{"rendered":"Bilhete para a vida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto n\u00e3o acabo de me organizar para esse per\u00edodo de f\u00e9rias e de viagem com o <em>Poseidon<\/em>, deixo registrado aqui esse delici0so texto do <a href=\"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/flaviogomes\/2011\/10\/06\/bilhete-para-a-vida\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Flavio Gomes<\/a> sobre um tema que, ainda outro dia, falava com a Dona Patroa. Quem j\u00e1 n\u00e3o passou por isso? Quem ainda passar\u00e1?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"vertical-align: top;\" src=\"http:\/\/www.legal.adv.br\/img\/builds\/aspas-abre.gif\" alt=\"\" width=\"21\" height=\"16\" \/>S\u00c3O PAULO<\/strong> <em>(n\u00e3o tem jeito) <\/em>&#8211; Registre-se: ontem, no dia da gra\u00e7a de 5 de outubro de 2011 da era crist\u00e3, o mais velho andou de \u00f4nibus sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode parecer algo banal, \u00e9 banal. Bem, seria mais banal ainda alguns anos atr\u00e1s, eu mesmo andava de \u00f4nibus sozinho aos 10, mas estamos falando de 2011, vila de S\u00e3o Paulo de Piratininga, quase 20 milh\u00f5es de habitantes, vila onde se explodem caixas eletr\u00f4nicos, vaza g\u00e1s metano, camaros e porsches atropelam e matam, balas se perdem, sequestram-se gentes, n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 um lugar muito seguro e apraz\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas apesar de n\u00e3o ser um lugar muito seguro e apraz\u00edvel, como era um pouco mais quando eu tinha 10 anos, talvez nem tanto, talvez seja apenas nostalgia barata e fosse ainda pior, h\u00e1 uma vida pulsando l\u00e1 fora, e n\u00e3o \u00e9 justo que se prive ningu\u00e9m dela s\u00f3 porque ela parece pouco segura e apraz\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele fez 13 anos, puxa, como mudou neste ano\u2026 Ficou mais alto, ganhou forma, vai ao cinema \u00e0s sextas, parece at\u00e9 que andou dando uns beijos numas meninas. J\u00e1 n\u00e3o faz tantas perguntas, prefere procurar as respostas, come\u00e7o a me achar menos \u00fatil e mais tolo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou de \u00f4nibus, pai, me disse, e achei \u00f3timo, mas disse que ia junto, e ele n\u00e3o se op\u00f4s. O trajeto era curto, de casa at\u00e9 a escola, o ponto fica ali na esquina, ele sabia o n\u00famero da linha e o nome, ganhou at\u00e9 um bilhete \u00fanico da av\u00f3, exibido de forma t\u00e3o solene quanto ser\u00e1 a chave do primeiro carro daqui a algum tempo, e n\u00e3o vai demorar demais, cinco anos passam r\u00e1pido. Aquele bilhete, cuidadosamente guardado numa capinha pl\u00e1stica, \u00e9 a chave que abriu as portas do mundo para ele ontem, no dia da gra\u00e7a de 5 de outubro do ano de 2011 da era crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o lembro das circunst\u00e2ncias que cercaram minha primeira viagem-solo de \u00f4nibus. Acho que meu guia foi meu irm\u00e3o mais velho, n\u00e3o meu pai, que nunca teve hor\u00e1rios muito flex\u00edveis e deve ter delegado tal fun\u00e7\u00e3o ao primog\u00eanito, dois anos mais safo que eu. A escola era a mesma, aqui \u00e9 o metr\u00f4, pega assim para aquele lado, desce na esta\u00e7\u00e3o tal, pega aquele \u00f4nibus bege e verde, Mercado da Lapa \u00e9 o nome, desce l\u00e1 na frente, atravessa a avenida com cuidado, boa sorte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tinha 10 anos, um passe de metr\u00f4 magn\u00e9tico, um passe de \u00f4nibus de papel, aprendi r\u00e1pido, creio, e j\u00e1 no segundo dia comecei a desenvolver meus truques, onde sentar, quando passar pela catraca, como lidar com a mochila, mudar a esta\u00e7\u00e3o do metr\u00f4 para pegar o \u00f4nibus mais vazio, observar se algu\u00e9m puxava a cordinha para avisar ao motorista que era para abrir a porta porque eu nunca alcancei a bendita, trocar olhares com o cobrador quando isso n\u00e3o acontecia e ele batia a moeda no metal, c\u00f3digo de \u00f4nibus para abrir a porta, me oferecer para segurar pacotes, qual o lado da esta\u00e7\u00e3o para esperar o trem, qual a cal\u00e7ada melhor para chegar em casa, tudo se aprende muito r\u00e1pido quando se \u00e9 uma crian\u00e7a e por isso mesmo que datas como essa do primeiro \u00f4nibus se perdem no tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A de ontem vai se perder tamb\u00e9m para ele, a partir do segundo dia deixa de ser uma novidade e um rito de passagem, mas para mim n\u00e3o, como n\u00e3o se perdeu o dia em que recebi seu primeiro telefonema, ou quando o mais novo viajou sozinho pela primeira vez na excurs\u00e3o da escola e eu fiquei l\u00e1, olhando para dentro do \u00f4nibus tentando encontrar seus olhinhos assustados, e assustado estava eu, ou quando participou da apresenta\u00e7\u00e3o de Natal do outro col\u00e9gio, vivo colecionando esses primeiros dias, esses marcos que meio sem querer apontam para onde cada um vai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Subimos no \u00f4nibus, ele passou seu bilhete no leitor da catraca eletr\u00f4nica com certa desenvoltura, conferiu o valor debitado, calculou quantas viagens ainda poderia fazer, sentou, procurou demonstrar naturalidade, misturar-se \u00e0 multid\u00e3o. Trocamos uma ou outra observa\u00e7\u00e3o, evitei ficar dando conselhos e dicas de como-se-dar-bem-como-usu\u00e1rio-de-transporte-coletivo-na-vila-de-S\u00e3o-Paulo-de-Piratininga, sua \u00fanica d\u00favida foi sobre quando apertar o bot\u00e3o para solicitar a parada, algo simples, sem mist\u00e9rio. Uma mo\u00e7a observava a gente sorrindo, acho que entendeu a solenidade daquele momento. Talvez seu pai tenha feito o mesmo com ela um dia, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos no ponto final, a escola logo ali, fui at\u00e9 a porta com ele, ficou decidido que voltaria sozinho e que me avisaria pelo telefone quando terminasse a aula de futebol, quando entrasse no \u00f4nibus, quando descesse no ponto perto de casa, quando estivesse em seguran\u00e7a l\u00e1 em cima, quatro telefonemas programados, pois, mas eles n\u00e3o foram necess\u00e1rios, dois resolveram, estou saindo, pai, j\u00e1 cheguei na pra\u00e7a, pai, passei um ponto, me confundi, mas est\u00e1 tudo bem, o \u00f4nibus estava vazio, por mim pode dispensar a perua amanh\u00e3 mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo passou a ser outro para ele desde ontem. A cada dia a depend\u00eancia dos carros velhos do pai vai diminuir, aos poucos a descoberta das linhas e dos itiner\u00e1rios ser\u00e1 como encontrar o caminho das \u00cdndias, uma reedi\u00e7\u00e3o das Grandes Navega\u00e7\u00f5es, em pouco tempo acontecer\u00e1 o mesmo com o mais novo e a cidade pouco segura e apraz\u00edvel ganhar\u00e1 mais dois cidad\u00e3os que aos poucos v\u00e3o se incorporar a ela, dela receber\u00e3o as b\u00ean\u00e7\u00e3os e as trag\u00e9dias em doses mais ou menos iguais, suas ruas e avenidas ser\u00e3o deles, e aos poucos vamos saindo de cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que me diz respeito, deixarei dois bem melhores que eu, minha modesta contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 humanidade.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"vertical-align: text-top;\" src=\"http:\/\/www.legal.adv.br\/img\/builds\/aspas-fecha.gif\" alt=\"\" width=\"21\" height=\"16\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto n\u00e3o acabo de me organizar para esse per\u00edodo de f\u00e9rias e de viagem com o Poseidon, deixo registrado aqui esse delici0so texto do Flavio Gomes sobre um tema que, ainda outro dia, falava com a Dona Patroa. 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