O Bicarato que não era Bicarato

( Publicado originalmente em 07/01/2015 no blog Legal.adv.br. )

Quebra-cabeças.

Definitivamente, eu gosto desse tipo de desafio.

E, pior, aventureiro genealogista que sou, os quebra-cabeças que me atraem são aqueles que dizem respeito ao misterioso passado das famílias. De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? Qual o porquê desse desgraçado calor insuportável?

Enfim, como já costuma dizer a amiga virtual Regina Cascão, sempre estou na busca dos “meus mortinhos”…

Mas minha curiosidade extrapola minha família! Basta eu ouvir um nome diferente e já fico pensando de onde é que veio, qual sua história, como se formou.

E com o amigo e copoanheiro Bicarato não foi diferente. Paulo Henrique de Almeida Bicarato. Sim, um nome de família com todo jeitão de ser italiano, mas de onde? Ninguém nunca descobriu. E resolvi assumir esse desafio já tem um bom tempo – mas as correrias do dia a dia sempre foram deixando essa pesquisa para trás. Até agora.

Tudo (re)começou quando o Bica me encaminhou a transcrição da certidão de nascimento de seu avô, Bento, nascido em 09/10/1913. Filho de Giovanni Bicarato e Colomba Muscini. A notícia é que esse Giovanni quem teria vindo da Itália para trabalhar no Brasil.

Mas o raio é que esse nome, “Bicarato”, teimava em se esconder em todas as pesquisas que fiz, pois jamais encontrei qualquer referência genealógica fora do contexto da própria família no Brasil. Daí resolvi ir atrás das ilações sobre a grafia errada do nome – coisa muito comum na virada do século, quando a grande maioria dos imigrantes aportou neste nosso país. Poderia ser Bicaratto, Biccarato, Bigarato, ou qualquer outra coisa do tipo. Mas a luz no fim do túnel começou a surgir quando, das pesquisas detetivescas de meu amigo, cogitou-se a possibilidade de, de repente, ter existido alguém cujo nome seria B. Carato e daí, da corruptela da escrita e da pronúncia, ter surgido o atual Bicarato. Idéia interessante a ser explorada, até porque existem vários núcleos de famílias Carato na Itália.

Resolvi tentar essa hipótese através de uma busca no acervo digital do Museu da Imigração. Lancei o nome Carato, apertei a tecla Enter e cruzei os dedos. De cara surgiram 37 ocorrências espalhadas por várias páginas e justamente num dia em que a conexão estava péssima! Paciência. A busca retornou a parte final do nome de várias famílias, além de Carato, tais como Boscarato, Macarato, Zacarato e por aí afora.

Fui pacientemente avançando, página por página, já sem esperanças mas ainda munido da minha habitual teimosia. Espera, carrega página, consulta nome a nome, nada; espera mais um pouco, carrega nova página, consulta, nada… E assim foi indo. Quando cheguei na última página, passando pelos nomes, justamente no penúltimo registro, lá estava ele: Giovanni! Seria ele mesmo? Fui conferir a cidade de destino: conferia. Fui conferir se, nos membros da família que vieram com ele, estaria o nome de sua mulher: também conferia! Só podia ser ele!

Mas o mais curioso e a revelação do dia foi outra: Ele não era um Bicarato, mas sim um RICARATO!

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Como esse negócio de escrita antiga é complicado, ainda fiquei com uma pulguinha atrás da orelha com a grafia utilizada. Aquilo seria mesmo um “R”? Poderia, na prática, se tratar de muitas outras letras… Mas a essa altura do campeonato, feliz com minha “descoberta”, mais que prontamente comuniquei a alvissareira notícia ao amigo e copoanheiro! Juntos, explorando um pouco mais, ele percebeu o nome do navio em que viajou seu antepassado: “Re Umberto”. Lembrei-me que poderia constar seu nome na lista de passageiros e lá fomos explorar. Sucesso!

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Apesar de ter sido ticado bem em cima da primeira letra, vendo a letra de baixo, nitidamente um “B”, não tem como confundir. Aquilo é um “R”!

Enfim, mais algumas peças foram encontradas nesse quebra-cabeças familiar que é o nome Bicarato. Dali teremos condições de explorar novas alternativas, audaciosamente indo onde nenhum Bicarato jamais esteve! Os becos sem saída continuam, pois o nome Ricarato, na Itália, parece ser tão misterioso quanto sua versão brasileira.

Mas tempo ao tempo, paciência e perseverança. Tenho certeza que ainda vou encontrar mais alguma coisa por aí afora.

Agora, a pergunta que não quer calar: devo notificar todos os atuais membros da família Bicarato para que providenciem a alteração de seus nomes para a correta forma Ricarato?…

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