Trindade – II

De casa, com nossas tralhas, praticamente bastava atravessar a rua para o ponto de ônibus, quase em frente. “Ah, então vocês foram de ônibus?” – Não! Prestenção! Nós fomos para o ponto de ônibus, o melhor lugar para se batalhar uma carona.

Sim, carona. Tenho certeza que vocês já devem ter visto isso em filmes. Daqueles antigos. Na boa e velha década de oitenta ainda era possível viajar meramente de carona…

Uma vez que Trindade ficava um pouco antes de Paraty (era a única referência que tínhamos para a cidade), então teríamos que conseguir alguma carona lá na Tamoios, a estrada que leva ao litoral. Mas, antes mesmo, precisaríamos chegar até lá – coisa de, sei lá, uns dez quilômetros de onde estávamos, em Santana.

Nossa sorte já começou boa. É que, pertinho da casa de meu pai fica o Senai, escola que arregimenta estudantes vindos de todos os cantos da cidade. Por ser um período de férias, não teríamos que disputar carona com nenhum dos alunos de lá (que ficavam às pencas, também tentando uma carona), e, não demorou muito, um caboclo que passava num Golzinho simpatizou com a cara daqueles dois palermas enmochilados e resolveu nosso problema.

– Vai pra onde, chefia? – é, desde aquela época eu já tinha esse costume de tratar todo mundo por “chefia”…

– Vou aqui pro Centro. Tá bom pra vocês?

– Tá ótimo!

Regra número um de um bom caronista: se alguém vai, ainda que minimamente, pro mesmo lado que você pretende ir, aceite. É uma pernada a menos. Regra número dois: seja sempre cordial. Sempre. Converse, demonstre-se interessado, puxe assunto, seja educado. Normalmente quem dá carona costuma ser bom de proseio e está mais interessado em você, para onde pretende ir e como pretende fazer para chegar lá. E não se esqueça de sorrir!

Mas, hoje em dia, creio que essas regras já não valem tanto. Ou melhor, nada. Ao menos aqui nesta nossa terrinha, ou, no mínimo, na região. Já não se dá mais carona, já não se pede mais carona… Todos transitam sozinhos, encastelados dentro de seus próprios veículos, com os vidros fechados, no ar condicionado, blindados à exposição de outras pessoas, transeuntes, pedestres, pedintes, artistas, vendedores e o que mais quer que o mundo lá fora possa oferecer para ofender sua pseudo-segurança. Permitir que um estranho entre no seu carro? Que viole sua intimidade? Jamais! Tá me achando com cara de táxi? Ou de Uber? Quer ir pra algum lugar, que pegue um ônibus! Ou que compre um carro você mesmo, então!

Não… A “carona” é de uma outra era, uma época romântica, quando as pessoas se preocupavam com o próximo além de si mesmas e ainda olhavam nos olhos umas das outras – em vez de, como hoje, passarem ao léu de todos, absortas cada qual no seu mundo virtual de redes sociais. Acho que, na prática, o nome correto deveria ser “redes antissociais”…

– Aqui já tá bom, chefia!

“Apeamos” no Centro, próximos da Rodoviária Velha. É, dali não teria como, o negócio era caminhar, mesmo. O melhor lugar para batalhar uma nova carona seria lá no comecinho da Tamoios, no posto Caminho das Praias (que hoje já nem mais existe). Com o sol a pino e mochilas nas costas, atravessamos todo o centro velho da cidade, seguimos pela Paraibuna e, coisa de uma horinha depois, chegamos no nosso primeiro destino.

– Carái! Essa deu pra cansar, hein?

– Nah! É só porque esse solzão tá forte. Eu é que tô ferrado: se dali do Centro até aqui já tô vermelho assim, imagine depois de uns dias na praia!

– Hah! Vai ficar igual o homem-cobra: soltando a pele!

– Filmaço, né?

– Filmaço.

– Pelo menos aquela caroninha já ajudou. Imagine a gente, assim, carregado, de Santana ao Centro, a pezão na “subida da Rui Barbosa”?

– Putz! A gente tava ferrado! Não aguentava chegar até aqui não.

– Nem eu.

Essa “subida” nem era tanta assim. Mas fugíamos como o diabo da cruz toda vez que tivéssemos que enfrentá-la. Era preferível ficar mais de uma hora tentando uma carona que encarar aquela ladeira! Se tivéssemos a mínima ideia do que nos aguardava…

Enfim, carona de estrada já era um negócio mais complicado, pois normalmente quem ia viajar para o litoral já ia de mala, cuia, família, cachorro, gato, galinha e o escambau. Naqueles tempos o pessoal alugava uma “casa de temporada”, que normalmente só tinha o básico do básico da mobília, e tinham que levar todo o resto: panelas, pratos, mantimentos, lençóis, até mesmo a tevê da sala às vezes ia no porta-malas, junto com o resto das tralhas. E ói que estou falando daquelas tevês enormes, de tubo, hein… Espaço para mais dois caboclos e suas mochilas? Difícil, muito difícil.

Foram horas ali no posto, na beira da estrada. Mas éramos teimosos e determinados. Alguém ainda iria parar. Alguém TINHA que parar… Até porque o tempo já estava começando a fechar, anunciando uma daquelas chuvas de verão se avizinhando. E carona na chuva é algo que beira o impossível! Foi quando um caminhão deu uma guinada, quase em cima da gente e parou, uns trinta metros adiante. O Vilaça deu uma corrida pra conversar com o motorista, enquanto eu fiquei no mesmo lugar, um tanto quanto cético. É que uma das “diversões” do pessoal das estradas era justamente parar o carro lá adiante e quando os pretensos caronistas iam correndo para alcançá-los, faltando alguns metros, eles aceleravam e iam embora dando risada. E a cabine do caminhão estava lotada – eu vi! Estava mais que na cara que era mais um daqueles tiradores de sarro.

Mas não saíram. Apesar de já estarem até atrapalhando o trânsito ali naquela curva de estrada, ficaram parados e trocaram uma rápida ideia com o Vilaça. Fiquei olhando, de orelha em pé…

– Bora!

– Cumassim?

Ligaram o motor e já foram dando seta ao mesmo tempo que o Vilaça já foi subindo na traseira do caminhão.

– Só tem espaço aqui atrás! Bora, bora, bora!

Merda! Saí correndo ao mesmo tempo que o caminhão engatou a primeira. Estava a uns dois metros dele, arranquei a mochila e joguei pro Vilaça, que já estava lá em cima. O filha da puta do motorista engatou a segunda e eu ali correndo os cem metros rasos, a centímetros da carroceria. É, não ia ter jeito, seja o que Deus quiser.

Pulei.

Pulei e me agarrei na madeira do jeito que dava. O Vilaça se cagando de rir da minha situação, e eu ali, pendurado, tentando descobrir onde apoiar ao menos um dos pés – até que encontrei o para-choque e, com o coração na boca, consegui me apoiar firme e decentemente na traseira da porra do caminhão. Foi só o tempo de recuperar o fôlego para, antes mesmo de subir, descarregar nos ouvidos do Vilaça toda a farta coleção de palavrões e impropérios ao meu alcance…

Subi. Olhamos um pro outro. Ele ainda rindo. Menos, mas ainda. Não teve jeito: tivemos ambos um ataque de riso monumental, que deve ter durado de uns cinco a dez minutos! Daqueles de fazer doer a barriga, sabem?

Só então, recuperando o fôlego e tentando manter o equilíbrio, ainda com lágrimas nos olhos é que pudemos dar a devida atenção à situação em que nos encontrávamos.

Não estávamos sozinhos.

( Continua. Serra abaixo e morro acima, mas continua… )

 
 
# Perdeu o começo? Liga não. Tá aqui.

Trindade

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Então, crianças, ando meio que encantado com leituras alheias de alhures e acabei percebendo o quanto cada vez mais, menos tenho escrito por aqui neste nosso cantinho virtual. Poderia dizer que é excesso de trabalho (que é verdade), que nas horas vagas tenho me dedicado a outros hobbies (que é verdade), que passei os últimos meses num sufoco cerebral e/ou emocional que não me permitia parar para pensar em novos ou velhos causos (que é verdade), ou poderia simplesmente dizer que estava com uma inenarrável preguiça e sem vontade de escrever (que é mentira, mas tem mais a minha cara).

Então, apesar de muitas ideias para muitos causos de coisas recentes e atuais que vêm acontecendo, preferi me pautar um pouco no longínquo passado de minha infância e adolescência (como se isso interessasse pra alguém… – mas o blog é meu e gosto de encará-lo como minha própria “penseira virtual”) e dentre três ou quatro episódios, me lembrei de Trindade.

Ou seja, é isso mesmo: senta que lá vem história!

Antes de mais nada é preciso falar do Vilaça. Até hoje não consigo me lembrar de como foi que nos conhecemos. Talvez tenha sido da ETEP, quando de minha rápida passagem por lá – o que por si só já dá um outro causo… Só sei que em determinado momento e período de nossas adolescências ficamos amigos e vez ou outra saíamos juntos para uma ou outra desventura. Filho único, morava com os pais e era um ou alguns anos mais velho que eu. Hoje em dia, para todos nós, “adultos” que somos, uns anos a mais, outros a menos, não fazem diferença nenhuma; mas na adolescência – entendam – isso muda tudo! Os adolescentes de quatorze olhavam com respeito para os de quinze, já no segundo grau, que eram desprezados pelos de dezesseis, mais experientes, que por sua vez eram ignorados pelos de dezessete… E os de dezoito? Esses já eram praticamente adultos! Bem, vocês entenderam. Anos ou mesmo meses já faziam toda a diferença para determinar com que turma você andava.

E por isso mesmo essa nossa amizade, com ele um pouco mais velho, era diferente: não tínhamos muitos amigos em comum, pois a turma dele já era de “outro nível”… Como nunca dei a mínima trela pra esse negócio de turma, invariavelmente aprontávamos as nossas somente a dois mesmo.

Assim foi com Trindade.

Estava eu lá em casa, no bom e velho bairro de Santana, do alto dos meus quinze ou dezesseis anos (meados da década de oitenta, tá bom?), numa época em que para gente simplesmente não existia internet, blogs, tevê a cabo, séries, celulares, redes sociais – nenhum desses nossos vícios modernos que, invariavelmente, nos custam um pedaço da alma. Ou, ao menos, da sanidade. Estava lá, fazendo o que qualquer bom adolescente daquela época fazia durante as férias numa tarde abafada de verão: bestando.

Do nada, surge o caboclo no portão de casa.

– Adautô! Adaaauto! Ô, Adauto!

Fui até a sala, abri a portinhola da porta (isso mesmo: as casas de antigamente não tinham o tal do “olho mágico” – algumas até tinham, mas só as de gente mais abastada… – e, na sua falta, as portas tinham uma portinha, mais ou menos do tamanho de um caderno escolar, na altura dos olhos), e de lá mesmo gritei:

– Calma, ô desinfeliz! Já ouvi. Péraê…

Abri a porta e, como desde aquela época eu e minha pele moreno-hipoglós já tínhamos treta da brava com sol quente, dali mesmo do alpendre já falei…

– Desembucha.

– Vamos pra Trindade?

– Quando?

– Agora.

Essa era boa. Dois moleques durangos, assim, do nada, resolvem viajar. Cumassim? E dinheiro? E preparativos? E dinheiro? E locomoção? E dinheiro? E planejamento? E, sobretudo, dinheiro?

Bem, parem de pensar com essas suas cabeças adultas de século vinte e um. Estamos falando de um outro tempo, uma outra época, uma outra vida. Nada disso era necessário. Tá, talvez um tiquinho de dinheiro ajudasse um pouco – e normalmente era só esse pouco mesmo que nós tínhamos.

– Beleza! Me dá um tempinho…

Corri pra dentro de casa, peguei minha mochila de lona, coloquei umas mudas de roupas (que é como chamávamos cada um dos conjuntos de calça-meia-cueca-camisa para uso a cada um dos dias fora), uma ou duas blusas (caso esfriasse), o único calçado era o que já estava no pé mesmo, assaltei umas duas latas de feijoada pronta da despensa (melhor coisa pra não morrer de fome quando não se tem opção acampando), juntei a velha barraquinha canadense de dois lugares que um abilolado de um amigo de meu irmão, lá da USP, e que morou um tempo em casa, acabou deixando pra trás, fucei em todas as gavetas ajuntando todo o pouco de grana que tinha e pé na estrada!

Tenho certeza que entre uma coisa e outra deve ter havido um momento em que eu deva ter falado com minha mãe, talvez pedindo permissão, mais provavelmente comunicando que iria viajar. Mas esse detalhe simplesmente não existe mais na minha memória. Deve fazer parte dos bad blocks do meu cérebro, danificados ao longo dos anos por uma nada suave vida etílica…

( Continua, devagar como a Trindade daquela época,
na medida em que eu não ficar com pressa de contar logo essa história… )

Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?

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O que é um coelho branco? O que ele representa? Uma mensagem de esperança? Um sentimento de renovação? Uma firmeza de propósito? Promessas estranhas que ele mesmo significava sem saber que o fazia… Seja lá como for, quando passou, consultando seu relógio no bolso do colete, já estava atrasado. Aliás, como sempre, como tudo na vida de Alice.

E ao se meter num profundo buraco, eis que Alice, inconsequente, sem pestanejar também se atirou de corpo e alma atrás do coelho e de suas promessas não ditas.

E ao cair naquele buraco sem fim (mal sabendo que, na realidade, tudo na vida tem um fim), enquanto aguardava um fundo que não chegava, fez o que melhor sabia fazer: tagarelava de si para si, pois toda Alice – principalmente as escorpianas – é sonhadora e perguntadeira. E quando o fundo chegou, meio que sem avisar, meio trôpego até, lá ela encontrou um corredor, e do corredor encontrou um salão, e no salão encontrou uma chave de ouro que para sua decepção não abria baús, mas sim portas. Mas, diferente do que possam imaginar, essa chave abria todas as portas. Ora essa, e agora? Como decidir que rumo tomar, qual porta revelaria qual destino, qual futuro?

Ah, essa Alice imprudente! Quis porque quis beber da garrafa do desconhecido e se inebriou, mesmo sabendo que não haveria antídoto que lhe resolvesse! Mesmo com a garrafa quebrada, com lascas e cacos a cortar-lhe as mãos, os lábios, o juízo, a alma – ainda assim ansiava por dela sorver novamente. E seus efeitos mediatos e imediatos era fazer com que seu coração crescesse e diminuísse, que sua alma se expandisse e encolhesse, nunca sem dor, nunca sem mágoa, nunca sem alegria, nunca sem esperança.

E, em sua tagarelice, se ouvia a tecer recomendações para que não sofresse, pois “em geral dava conselhos muito bons para si mesma (embora nunca os seguisse)”

E da porta que escolheu, na jornada em que se meteu, no jardim que desbravava, encontrou abrigo sob um belo cogumelo, onde, ensimesmado, pairava lânguida e senhora de si, fumando seu narguilé, uma lagarta azul. E, não há de se saber como, mas ela sabia, aquela lagarta detinha todo o conhecimento do mundo que ela precisava. Todas as respostas a todas as perguntas estavam com ela, com essa lagarta-bruxa, que sabia ser sua amiga, que exalava mística sapiência. E que não estava só. E, num mundo que para qualquer outro seria de uma realidade atordoante, exceto para as Alices, que sabem que o impossível é apenas uma questão de ponto de vista, pela primeira vez esta Alice duvidou de seus sentidos!

Pois, incorpóreos, na fumaça do narguilé, Gandalf, Yoda e Dumbledore pairavam, numa muda conversa com a lagarta. Todos bruxos, todos poderosos, todos mortos como sua própria magia.

Desconcertada, assustada e, sabe-se lá o porquê, com uma certa raiva por não poder ter a atenção toda para si perante aqueles gigantescos vultos, sentindo-se pequena (e nem fôra por causa da beberagem), deu meia-volta e resolveu afastar-se dali. No meio àquela fumaça e vultos que se dissipavam, lágrimas no rosto, firmou seu passo.

“Volte!” chamou a Lagarta. “Tenho uma coisa importante para dizer!”

Isso parecia promissor, sem dúvida; Alice se virou e voltou.

“Controle-se”, disse a Lagarta.

“Isso é tudo?” quis saber Alice, engolindo a raiva o melhor que podia.

Mas o silêncio e o vazio foram suas únicas respostas.

E tudo que Alice queria era saber que caminho tomar. Sabia que caminho queria, era o que a levava de volta onde esteve, mas não aguentava mais seu coração e sua alma a esticar e encolher, como borracha prestes a arrebentar. E, às vezes, de fato se sentia arrebentada. E então, do nada, um sorriso lhe sorriu. E, por trás dele, um gato, o Gato de Cheshire. Perguntou-lhe:

“Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”

“Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato.

“Não me importa muito para onde”, disse Alice.

“Então não importa que caminho tome”, disse o Gato.

“Contanto que eu chegue a algum lugar”, Alice acrescentou à guisa de explicação.

“Oh, isso você certamente vai conseguir”, afirmou o Gato, “desde que ande o bastante”.

Mas, apesar da pouca idade, Alice já carregava um cansaço de séculos… Ainda assim o Gato lhe apontou algumas direções, dizendo que tipo de gente encontraria por ali: todos loucos!

“Mas não quero me meter com gente louca”, Alice observou.

“Oh! É inevitável”, disse o Gato; “somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca”.

“Como sabe que sou louca?” perguntou Alice.

“Só pode ser”, respondeu o Gato, “ou não teria vindo parar aqui”.

E assim, tomou seu rumo. E o Chapeleiro foi quem encontrou. Talvez o mais louco entre os loucos daquelas paragens. E era justamente a última pessoa que precisava encontrar. E era justamente a primeira pessoa que desejava encontrar. Pois esse Chapeleiro alquímico, super-herói de meia pataca, tinha justamente o poder de destilar aquela estranha beberagem que estava arrasando com Alice. E seu silêncio é o que mais comprovava sua loucura, deixando Alice e sua tagarelice a mercê de um destino incerto. “Renda-se” disse ela. “Fale comigo, fale qualquer coisa, mas fale! A vida se nos passa e não há suficiente tempo!”

“Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu”, disse o Chapeleiro, “falaria dele com mais respeito.”

E ela pensou naquela frase enigmática (mas talvez nem tanto), olhou para aqueles olhos juvenis, velhos como estrelas, para seu sorriso de criança que acumulava uma experiência de eras, e entendeu que não havia o que entender.

Louco, louco, louco.

E que também a estava deixando louca.

Melhor enfrentar o Jaguadarte.

Não sabia como, mas sabia. O Jaguadarte, imortal, com garras e bocarra, olhos de fogo e riso louco (por que afinal tudo tem que ser louco na vida de Alice?), ferível apenas pela Espada Vorpal – que ela não tinha – era o destino a que se prestava, era sua sina. Ali estaria o descanso que precisava: esquecer, esquecer e esquecer…

E finalmente ao encontrá-lo, sentado na esquina, sob a árvore Tamtam, ao fitar aqueles olhos, ao vislumbrar aquele sorriso, finalmente compreendeu: ele era ele. Um era o outro. Seu maior louco era também seu pior inimigo, eis que a levava às raias da loucura!

E lembrou-se das palavras da Duquesa: “Nunca imagine que você mesma não é outra coisa senão o que poderia parecer a outros do que o que você fosse ou poderia ter sido não fosse senão o que você tivesse sido teria parecido a eles ser de outra maneira”.

Já havia começado pelo começo e prosseguido até chegar ao fim. Sem dúvida era hora de parar.

Melhor ser normal, que sofrer.

E (Neo entenderia) em busca de um espelho se deu sua nova jornada.

E em sua pressa de se ver livre, tentou repelir todos aqueles pensamentos que lhe atormentavam, como quem repele mosquitos numa noite de calor, e se viu deitada no sofá, a cabeça no colo de Dinah, sua menina, que afastava delicadamente alguns insetos que esvoaçavam por perto de seu rosto.

“Acorde, Alice querida!”, disse-lhe. “Mas que sono comprido você dormiu!”

“Ah, tive um sonho tão curioso!”

E, tentando recapitular, ficou ali sentada, os olhos fechados e quase acreditou estar de volta a seu momento no País das Maravilhas, embora soubesse que bastaria abri-los e tudo se transformaria em insípida realidade… E tudo que ela queria, agora que adulta, era conservar aquele mesmo coração simples e amoroso de sua infância, reencontrar todas as alegrias simples de criança, sempre pronta para se doar mas também exigente em receber.

“E como foi seu sonho, bem?”

E com a certeza de que esse sonho, de que aqueles momentos somente a ela pertenciam, limitou-se a responder:

“Não tenho a menor ideia…”

Além da vida

Desde pequeno ele sempre quis realidades diferentes para sua vida. Queria, sobretudo, ser feliz. Mas sabia, não só por convicção como também por experiência de outrem, que realidades somente surgem após um longo e quase sempre árduo caminho.

Foi assim, almejando essas realidades, que começou a cultivar desejos e sonhos.

Era uma plantação linda: desejos das mais variadas formas, cores e tons. Alguns mais perfumados que outros, outros mais consistentes que uns. Mas desejos, por mais que crescessem depressa e rápido chegassem ao ponto de colheita, ainda assim não têm o condão de se tornar uma sólida realidade. São efêmeros e passageiros, esses desejos. Uma verdadeira realidade normalmente é fruto de um bem cultivado sonho.

E, naqueles seus campos existenciais, bem ao fundo, vislumbrava-se o bosque de sonhos que, desde sempre, vinha cultivando. Alguns mais consistentes que outros, outros mais enraizados que alguns. Mas sonhos são de crescimento lento e devem ser muito bem cuidados, acalentados. Deixe um sonho de lado, esqueça-o por algum tempo e provavelmente ele murchará por pura e simples falta de atenção. Não se tornará uma realidade e, muitas vezes, jamais voltará a brotar de novo.

E, a cada dia que passava, ele olhava para esse bosque com esperança…

Mas tinha seu dia a dia, seus afazeres, e, mais que todo o restante, suas responsabilidades… RES-PON-SA-BI-LI-DA-DES! Palavra complicada que nos traz sentimentos ambíguos, tanto implicando nos felizes resultados de um trabalho bem feito quanto nos levando a uma amarga sensação de ceticismo perante tudo e perante todos. E ceticismo é uma praga que se multiplica rapidamente.

E, esquecido que estava de seu bosque de sonhos, tendo deixado de lado sua plantação de desejos, não percebeu aquela nuvem de ceticismo que se avolumava, zumbindo, preenchendo os vãos de esperança, avidamente devorando seus campos, consumindo tudo aquilo que vinha acalentando e que, sem sequer perceber, acabou deixando de lado…

Quando finalmente, num intervalo indesejado entre uma responsabilidade e outra, decidiu dar atenção aos seus próprios campos existenciais que havia largado ao léu, surpreendeu-se com toda aquelas plagas vazias, com a erosão que invadiu aquela outrora terra fértil, única lembrança deixada pra trás por todo aquele ceticismo que sequer percebeu surgir.

Desolado, mas ainda no firme propósito de ter realidades em sua vida, de ser feliz, passou então a criar expectativas.

E expectativa é um bicho curioso, pois nasce e cresce solto, aqui e ali, ciscando as ranhuras de nossas memórias, às vezes vinculadas a alguém, às vezes do nada. E as expectativas que criava cresciam em tamanho e número. Mas, daí a se tornarem realidades, havia uma distância muito longa.

E ele, que já não fôra capaz de cuidar de uma bela plantação e de um frondoso bosque, que demandavam apenas de alguma atenção, que se dirá então com relação a essa criação de expectativas, que requerem vigília constante para que não sucumbam ou, pior, para que não se devorem umas às outras (pois expectativas, dizem os especialistas, são antropofágicas e as maiores sempre acabam devorando as menores).

E, pior, uma expectativa mal cuidada pode nem sequer vir a se tornar uma minguada realidade, mas certamente pode se transformar numa forte desilusão!

E, ocupado que sempre estava, com foco em suas responsabilidades (olha ela aí de novo…), uma a uma apenas percebia suas expectativas sucumbirem.

Até que nada mais sobrou.

E nos campos de sua própria existência quase mais área nenhuma restava, eis que em estado de desolação por sua própria falta de atenção.

Desejos ao pó…

Sonhos putrefatos…

Expectativas em decomposição…

E, aqui e ali, algumas gordas e fétidas desilusões chafurdavam naquela lama existencial… Sempre com algum ceticismo sobrevoando os campos, em busca de algum mínimo vestígio de esperança…

E, olhando de si para si, pela talvez primeira vez depois de tanto tempo, naquele restinho dos campos que intactos ainda lhe restava, descobriu um pequenino espaço cercado que nunca sequer tinha reparado que existia. Um pequenino jardim, protegido por vigorosas rochas de confiança, fé, paz, bem querer e outras mais da mesma natureza. Ali, bem no meio de um vistoso gramado de esperança, à parte do mundo devastado que ele mesmo deixara para si, rodeadas por alguns sonhos que sequer lembrava da existência, crescendo em algumas colunas de certeza, permanecia uma única e vigorosa roseira de amor.

Há quanto tempo estaria ali?

Como nasceu, floresceu e se manteve forte sem que jamais tivesse tomado nenhum cuidado com ela?

Por que não foi afetada como todo o resto que praticamente arruinou os campos de sua existência?

E, agora mais velho e mais sábio, acabou por perceber que nada disso importava. Não se questiona o imponderável! Era um dádiva. Estava ali – como, aliás, sempre estivera – com perfumadas rosas com amor de todas as matizes, prontas para serem colhidas. Independentemente das realidades que pairassem no mundo lá fora, quer tivessem sido criadas por ele ou não, à margem de seus desejos, sonhos, expectativas ou o que quer que fosse. Tudo que precisava era simplesmente ter prestado um pouco mais de atenção em si próprio. Ou, ao menos, que não tivesse dado tanta atenção fora de si.

E com o que lhe resta do campos de sua existência, despreocupado com o passado – que já foi, que já não pode mais lhe afetar – foi ao lado dessa roseira, desfrutando de todo esse amor que ela teria para lhe proporcionar, que pôde sorver com felicidade até a última gota do regato de vida que ainda o alimentava e o mantinha vivo.

E no seu último suspiro, renasceu.

E deparou-se com novos campos a serem explorados!

Mas desta vez fez diferente: tratou de, antes de mais nada, localizar todo o amor necessário para, desta vez, pautar sua vida da maneira certa desde o início.

E todo o restante seria apenas consequência…

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Minha Casa

Minha casa não existe. Talvez já tenha existido em algum lugar de minha memória, quando eu era jovem e crédulo o suficiente para fazer planos, mesmo daquelas coisas que eu sabia que jamais viriam a se realizar.

Mas não desisti de minha casa.

Ainda que eu jamais venha a conhecê-la. Ou construí-la.

Minha casa será num terreno amplo – algo como uma chácara – mas não tão grande que se possa descuidar. Será cercada não por muros, mas por cercas – de madeira, bambu ou qualquer outra coisa do gênero. Serão cercas baixas o suficiente para se pular de uma só toada ou mesmo de se encostar para jogar fora um bom proseio com o vizinho.

Arame farpado, jamais. Ainda carrego no rosto a cicatriz do desinfeliz encontro com um desses…

Não terá portões, mas terá uma porteira. Perto o suficiente da entrada da casa para que se possa reconhecer o amigo que lhe bate à porta, mas longe o suficiente para ignorar quem não se queira receber. E da porteira até a soleira, árvores de ambos os lados. Árvores de sombra. Grandes o bastante para formar um túnel de frescor ao se adentrar, mas baixas o suficiente para que as crianças possam nelas subir e fazer suas estrepolias.

E será daquelas casas com três ou quatro degraus para subir, com varandas de todos os lados. Amplas varandas, para as festas, os amigos ou simplesmente para descanso numa tarde quente. Cadeiras de vime, almofadas e sofás descombinados espalhados aos quatro cantos. Afinal o conforto é mais importante. E mesinhas. Mesinhas de centro, altas, baixas, várias delas. Prontas para servir de apoio a um bom livro, alguma revista, uma cerveja bem gelada, um cinzeiro, uma taça de vinho ou mesmo um uísque. Caubói ou não.

O assoalho terá que ser de madeira, sempre bem encerada para permitir que as crianças (filhos, netos, visitas – não importa) possam se arrastar umas às outras em tapetes ou pedaços de carpete improvisados. Terá o pé direito alto, dando a sensação de espaço, para sempre me lembrar que uma casa não deve confinar seu morador, mas sim lhe dar espaço para poder viajar sem sair do lugar.

Terá muitos quartos espalhados de ambos os lados do amplo corredor que cortará a casa de ponta a ponta – todos eles com mais de uma janela. E serão janelas altas, de duas folhas, como aquelas antigas casas de fazenda. Os moradores e visitantes poderão sempre acordar com o frescor da manhã e abrir as janelas de par em par, deixando se espalhar pelo recinto um ar puro que renove as energias. Janelas na altura exata de se apoiar ou mesmo de se sentar, recostado, para chupar uma laranja enquanto se aprecia o por do sol.

Sim, é óbvio que as janelas não terão grades.

E na minha casa não haverá uma sala de jantar ou sala de estar – apenas uma sala de tamanho condizente com um aparelho de TV de bom porte, pois não consigo imaginar minha vida sem uns bons filmes para assistir, sozinho ou acompanhado. Sempre com pipoca. De preferência doce por baixo, salgada por cima – e com muita manteiga…

E a cozinha – ah, a cozinha! – será uma grande cozinha, com uma grande mesa, com mais lugares do que se possa preencher. Afinal toda casa tem seu coração, e é na cozinha que ele fica. Ali riremos, brindaremos, cearemos e nos divertiremos. Não basta dividir o pão, há que se dividir o suor e a alegria de fazê-lo. E ali, enquanto todos ajudam e riem e bebericam e provam deste ou daquele prato, levando um eventual tapinha na mão por ter provado aquilo que “ainda não está pronto”, comungaremos a felicidade da amizade e da família e todos esses bons fluidos ficarão indelevelmente impregnados nas paredes da casa para todo o sempre…

E, do lado de fora, junto da cozinha, junto da janela, haverá uma churrasqueira. Os amigos e amigas vegetarianos que me perdoem, mas não sou evoluído o suficiente para deixar de apreciar uma boa carne bem preparada, após horas sob meus cuidados, já antevendo o prazer da degustação.

E na minha casa haverá um pomar! Sim, um pomar com vários tipos de árvores com frutos das mais diversas espécies. Para se colher do pé e aproveitar ali mesmo. Para criançada correr e brincar de pique, para os adultos se recostarem e descansarem, para todos se saciarem. E, entre a casa e o pomar, uma horta bem cuidada, com os legumes, temperos, chás e seja mais lá o que for importante para dar sabor à vida.

E flores!

Sim, flores no chão, nos vasos, recostadas e penduradas. Samambaias, orquídeas, flores de maio e todas outras que servirão para dar prazer aos sentidos, para que se possa ver, para que se possa cheirar, para que se possa tocar.

Ainda do lado de fora, à parte da casa, um bom galpão que será uma garagem. Garagem de colocar veículos, máquinas, ferramentas, de pendurar bicicletas e de guardar todas aquelas quinquilharias que toda casa deve ter. Pois todo mundo no mundo tem alguma coisa guardada num canto, que arrasta uma mudança após a outra, mas nunca – nunca! – joga fora… Será um canto de refúgio para um conserto no carro, um reparo num móvel, para a feitura de um artesanato. E terá todas as ferramentas necessárias para tudo isso.

E, falando em refúgio, minha casa terá aquele que será meu refúgio predileto: um quarto com prateleiras até o teto repletas de todos os livros e revistas que tenho e que ainda vou ter. Aqueles que ainda não li e aqueles que vou reler. Será meu canto de repouso, de meditação, um lugar para que eu possa olhar para trás, para a frente e para o presente e poder escrever sobre tudo aquilo que fervilha em minha mente.

E minha casa terá tudo isso e muito mais: terá personalidade, terá alegria em seus cômodos, terá esperança em suas paredes, terá um tiquinho de tristeza também – não muito – pois faz parte da vida passar por tudo isso. E minha casa terá vida, uma vida feita para cuidar de quem nela habita, de refletir seus humores e dar-lhe conforto e segurança.

E é nessa casa que passarei o resto de meus dias com minha amada, onde compartilharemos as noites frias e os dias quentes do porvir, onde contarei em conto e prosa como foi minha passagem desta vez por esta vida, até que eu mesmo me vá.

E então, somente então, minha casa deixará de ser minha…