Ah, essas dificulidades…

– Oi, moça, bom dia!

– Bom dia.

– Você cobra pra mim, por favor? Tá aqui a comanda!

– Foi um pingado e um pão de queijo, isso mesmo?

– Isso, isso. Você sabe como é, né? Um bom cafezinho da manhã pra começar o dia!

Ãh-han…

– …

– São cinco reais, senhor.

– Tá bom. Passa no cartão, por gentileza.

No cartão??? CINCO REAIS???

– É. No cartão, oras bolas! Por quê?

– Não, me perdoe, é que um valor pequeno assim todo mundo costuma ter no bolso!

– E eu sou “todo mundo”, por acaso? Não tenho nem um centavo no bolso e nem por isso deixo de ter minha dignidade! Atualmente as pessoas trabalham com cartão, com PIX, QR Code, transferência direta pelo celular, o escambau! O dinheiro virtual está fazendo com que deixemos o dinheiro real no passado. Raro é quem anda com dinheiro na carteira! Aliás, nos dias de hoje, ter dinheiro na carteira não só é uma raridade, como é também um perigo. Se o assaltante chega e você tiver apenas alguns míseros trocados, vai querer saber onde é que você “escondeu” o resto. E não encontre pra ver o que acontece! Agora, se você não tiver nada de dinheiro, apenas uns cartõezinhos, a foto dos filhos ou da amada, a medalhinha do santo e um ou outro boleto pra pagar, é capaz mesmo de que ele fique é com dó de você e te deixe ir embora sem problema, enquanto espera alguma outra vítima que esteja, de fato, “endinheirada”!

– Tudo bem, tudo bem, senhor! Não precisa se exaltar! Foi só uma observação, então, mais uma vez, peço que me perdoe!

– Tá bom. Deixa pra lá. É que essas coisas me deixam irritado, sabe? É como se não ter dinheiro em espécie fizesse com que a gente se tornasse algum tipo de cidadão de segunda categoria…

– Imagine! Jamais pensei nisso, senhor. Seu cartão, por favor.

– Tá aqui, ó. É por aproximação, tá?

– Tudo bem, hoje em dia com todo mundo é assim.

“Todo mundo?”

– Errr… Deixa pra lá. Tá aqui a maquininha. Pode aproximar, por favor. Não, na tela não, é aqui, ó. Não, embaixo não, aqui atrás. Isso. Põe mais pertinho. Assim.

– Ah, antes que eu me esqueça: é no crédito, tá bom?

NO CRÉDITO???

– É, no crédito, sim, por quê? E eu sou lá homem de deixar dinheiro parado? Dinheiro na conta corrente não rende, minha filha! Com a inflação do jeito que está qualquer centavo é bem-vindo! Se os bancos possibilitam que eu pague tudo no crédito, pra que é que eu vou passar no débito? Tenho absoluta certeza que vocês, comerciantes, já embutiram a taxa da maquininha até mesmo em cada bala que sai deste estabelecimento, então, quer seja no débito ou no crédito, vocês vão receber de qualquer jeito. O fato de eu não pagar minhas contas com cartão de débito não significa que eu seja mais pobre por causa disso, pois estou apenas aproveitando todas as possibilidades que esse sistema bancário feudal e corrupto pode me proporcionar! Você deveria parar de medir as pessoas pela forma com que elas pagam suas contas, viu, menina? Isso por si só já é uma espécie de preconceito e que pode acabar muito mal, muito mal mesmo!

– Ai, meu Deus, mais uma vez me desculpe! O senhor pode deixar que daqui pra frente eu vou me policiar, tá bom? Eu nunca imaginei que poderia causar esse tipo de impressão nas pessoas!

– Pois é, mas com esse tipo de atitude, causa sim!

– Entendi, entendi. Mas vamos em frente, tudo bem, senhor? No crédito, então, certo?

– Certo, certíssimo! Ah, só mais uma coisinha, por favor?

– Pois não, senhor?

Dá pra parcelar?…

E esse alemão me deixa louco…

… ou não.

Mas vamos lá.

Meus pais já estão bem velhinhos.

Isso é fato.

Meu pai, com seus 86 anos completos, até que ainda está razoavelmente lúcido, apesar de o raciocínio estar beeeeeem devagarzinho; porém, fisicamente, está muito debilitado. Não que as condições gerais do organismo não estejam boas, tais como coração, pulmão, circulação, etc. Mas é que nos últimos anos ele simplesmente “desistiu”. Não quis mais saber de executar as pequenas tarefas de casa, de sair, de andar, de tomar sol, de ver gente, de nada. Atualmente só fica deitado. O dia inteiro. E, é lógico, o corpo atrofia, né?

Já minha mãe, com quase 80, fisicamente até que está bem, apesar da batelada de remédios que tem que tomar diariamente. Mas há aproximadamente um mês a cabecinha desarranjou. Teima que “aquele homem” deitado na cama não é o marido dela, que o “verdadeiro” marido saiu e vai voltar a qualquer momento, às vezes não lembra que tem netos, não lembra que tem noras (nesse caso não sei se seria de propósito…), e de quando em quando ainda teima que quer ir embora, pois não reconhece a casa onde ela viveu praticamente desde que casou.

Aparentemente é “esse tal de Alzheimer”

Mas vamos tentar entender melhor essa bagaça. Na prática, “demência” é um termo geral que engloba várias doenças que se manifestam com declínio na memória ou de outras habilidades de pensamento suficientemente severas para reduzir a capacidade de uma pessoa de realizar as atividades diárias, sendo que a Doença de Alzheimer é responsável por aproximadamente uns 70% dos casos de demência. Antigamente a demência era incorretamente referida como “senilidade” ou “demência senil”, o que refletia a crença generalizada, porém incorreta, de que um declínio mental grave seria uma parte normal do envelhecimento.

O nome oficial dessa doença se deve ao médico alemão Alois Alzheimer, o primeiro a descrever a doença, ainda em 1906. Ele estudou e publicou o caso de uma paciente, uma mulher saudável que, aos 51 anos, desenvolveu um quadro de perda progressiva de memória, desorientação, distúrbio de linguagem, dificuldade para compreender e se expressar, tornando-se incapaz até mesma de cuidar de si própria.

E, ao que parece, é “esse tal de alemão” que anda atormentando minha mãe…

Dia desses, por exemplo, ela me ligou e não dizia coisa com coisa, que queria ir embora daquela casa e coisa e tal. Pacientemente falei com ela e acabei desligando. Segundos depois ela ligou novamente com a mesma ladainha. Ainda com paciência, conversamos. E em seguida novamente. A mesma coisa. E depois de novo. E de novo. E mais uma vez. E novamente, de novo, outra vez. Na décima quinta vez (e não, não estou exagerando), simplesmente parei de atender os telefonemas.

Toda essa história foi somente para situar.

Hoje estou aqui na casa de meus pais, dando-lhes suporte para passar este final de semana, no que revezo com meus irmãos nos demais finais de semana. Muito bem. Conectei meu notebook na tomada do telefone e, estando eu na lida com meus processos, vejo minha mãe indo e vindo, passando de um lado para outro, resmungando em voz baixa. É que ela queria ligar para uma de minhas tias para apresentar a ladainha de reclamações de praxe. Tentou o celular (sem bateria), tentou o fixo (desconectado) e já tem coisa de mais de uma hora que ela está com o controle da televisão tentando fazer uma ligação…

E eu aqui, quieto.

Tudo bem, me julguem.

Já sei mesmo que, por essas e outras, devo ir para o inferno.

Mas pelo menos, por hoje, estou conseguindo trabalhar…

Um momento de ternura

Invariavelmente tenho o costume de, após o café da manhã, ir para a varanda para tomar um “café preto” e soltar umas baforadas. Como a casa foi construída acompanhando um morro, então tenho a garagem no nível da rua e, em cima, uma varanda com uma mureta para me recostar e acompanhar o movimento dos carros, dos pedestres, das bicicletas, dos caminhantes e outros quetais.

Temos duas árvores defronte, uma grande, com 18 anos (sei disso porque plantei-a logo após o nascimento de meu caçula) e outra pequena, resquício de uma anterior que caiu sozinha de velhice, fungos e podreira.

Na árvore maior, enganchada numa de suas forquilhas mais baixas, uma latinha de cerveja. “Que raios! E nem fui eu que tomei.” Ali mesmo já pensei em, após terminar meu café, descer, recolhê-la e colocá-la junto com o restante do lixo reciclável.

Mas eis que, antes disso, me surgiu de passagem um caboclo em andrajos, carregando duas madeiras num ombro e com a outra mão, quase que arrastando, um saco cheio de latinhas de alumínio. Bem, do ponto onde fico os transeuntes não têm ideia que estão sendo observados, de modo que fiquei aguardando se ele iria ver e recolher a bendita da latinha.

Mas ele vinha cabisbaixo, não que procurando por algo, mas simples com um evidente ar de desalento. E passou reto. “Bem, paciência. Daqui a pouco eu mesmo desço e recolho a bendita da latinha.” Mas eis que o sujeito para e fica acocorado, observando alguma coisa no chão. Cutuca o que quer que seja que estivesse cutucando e fica observando.

“Uai?…”, pensei.

Então, com nítido cuidado, ele pega seu objeto de observação e volta para a árvore em frente de casa. Daí eu pude ver o que estava em sua mão: uma cigarra. Com delicadeza ele estica o braço e a acomoda no tronco da árvore. Só então percebe a latinha ali enroscada. Dá um sorriso, arranca a latinha da forquilha, enfia no saco, se certifica que a cigarra está bem acomodada (talvez intimamente agradecendo a sorte por tê-la encontrado e lhe feito encontrar mais uma latinha) e vai embora cantarolando baixinho uma canção que não consegui identificar.

Embevecido, por esse momento de ternura, não pude deixar de sorrir.

Taí um sujeito castigado pela vida, numa fria manhã de domingo, de bermuda e chinelo de dedo, procurando “tesouros” no meio do lixo alheio para sua própria sobrevivência. Ainda assim, diante de um ser ainda mais frágil, que no meio da calçada poderia ser pisoteado a qualquer momento por um caminhante desavisado (e que provavelmente ainda iria se indignar por ter sujado a sola do calçado), esse rapaz tem a preocupação de resgatá-lo e devolvê-lo para seu próprio meio, para viver sua própria vida, longe daqueles que poderiam feri-lo.

Penso comigo se ele mesmo não gostaria de também receber esse tipo de tratamento…

Isto é, na atual sociedade ele está ali, frágil, na calçada do viver, podendo a qualquer momento ser pisoteado e esmagado pela falta de condições mínimas de sobrevivência. Alimento. Saúde. Abrigo.

E mesmo assim teve humanidade suficiente para se preocupar com quem está em situação ainda mais frágil que a sua própria!

Pois é. Quando falamos em políticas públicas em prol da sociedade, diferente do que pensam alguns (idiotas), não é “ficar dando condições pra vagabundo”, mas sim paea dar condições mínimas de subsistência para que os mais desafortunados possam ter, no mínimo, a oportunidade de ascender e disputar em igualdade de condições vagas de estudo e de trabalho com aqueles que não precisam ter essa diuturna preocupação com sua própria sobrevivência.

Mas como fazer isso se não tiver o que comer?

Mas como fazer isso se não tiver saúde?

Mas como fazer isso se não tiver onde morar?

E não, este não é um “texto político” (apesar de que a vida em sociedade, em si mesma, é política), mas simplesmente meras reflexões e divagações deste Velho Causídico que vos tecla diante de uma situação que acabei de presenciar. Sinceramente não me importaria se o partido A, B ou C estivesse no poder, ou se o governante fosse fulano ou beltrano. Desde que quem estivesse à frente da nação tenha um mínimo de solidariedade, compaixão e até mesmo de misericórdia para olhar por este povo que (sobre)vive em precárias condições, estaria tudo bem. Mas, diante do recente caos político que passamos, incomodou-me sim – e muito – toda a óbvia cortina de fumaça lançada para deixar a Casa Grande cada vez mais intocável e distante da Senzala. Mas, queira Deus, esse reinado cruel está próximo do fim.

E quando eu falo de “solidariedade, compaixão e misericórdia” entendam que não é meramente uma questão política. E muito menos religiosa. Até porque, na minha nada humilde opinião, religião e política deveriam obrigatoriamente trilhar caminhos separados. É uma questão de humanidade.

Aliás, recentemente o Padre Julio Lancellotti disse algo muito interessante: “A solidariedade, a compaixão, a misericórdia, a empatia não são dimensões religiosas, são dimensões humanas. Até porque os ateus também podem ser compassivos, misericordiosos e os que não têm religião, também.”

Enfim, meus caros, todo esse devaneio dominguístico-matinal surgiu tão somente porque tive olhos para ver (e enxergar) um momento de humanidade de alguém para outro alguém que sequer humano era.

E acho que é isso que anda faltando em nossa sociedade.

Humanidade.

Ditados do arco da velha

Dia desses, numa experiência facebookesca, resolvi publicar alguns ditados e frases que não se ouve mais nos proseios de hoje em dia e lancei um “desafio”: se alguém se habilitava a continuar essa lista do arco da velha. Aliás a própria expressão “arco da velha” por si só já é démodé (que já não está mais na moda), pois há muito tempo não ouço ninguém utilizá-la.

Aliás do aliás, a origem da expressão é interessante, eis que antes do significado que atualmente lhe é dada de coisa antiga ou de antigamente, dizer “isto é do arco da velha” ou “são coisas do arco da velha” seria o mesmo que dizer que são coisas incríveis, invulgares, mirabolantes. É uma expressão que tem origem no Antigo Testamento, segundo Orlando Neves no seu Dicionário de Expressões Correntes:

Fez Jeová um pacto de paz com Noé, quando, depois de findo o Dilúvio, lhe disse: “Este é o sinal da aliança que faço entre mim e vós e todo o animal vivente que está convosco, para perpetuar gerações: o meu arco tenho nas nuvens, e será ele o sinal de uma aliança entre mim e a terra. Quando eu trouxer nuvens sobre a terra e aparecer o arco nas nuvens, então me lembrarei da minha aliança que está entre mim e vós e todo o animal vivente de toda a carne; as águas não mais se tornarão em dilúvio para destruir toda a carne. O arco estará nas nuvens; olharei para ele, a fim de me lembrar da aliança eterna entre Deus e todo o animal vivente de toda a carne, que estará sobre a terra. Disse Deus a Noé: este é o sinal da aliança que tenho estabelecido entre mim e toda a carne que está sobre a terra” (Génesis, 9,12-17). Assim nasceu, biblicamente, o maravilhoso arco-íris, o arco-celeste, o arco-da-velha. Velha porquê? Porque é descrito no Antigo Testamento, no Velho Testamento, ou seja, na lei velha.

Bem, agora que já tiveram sua cota de cultura inútil, voltemos à nossa tarefa principal. Dos ditados a seguir eu compartilhei somente alguns e todo o restante veio da colaboração coletiva.

“Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.”

“Num dia, calça de veludo; noutro, bunda de fora.”

“O sujeito roeu a corda.”

“O sujeito não vale o que o gato enterra.”

“O que arde, cura; o que aperta, segura.”

“Vou te mostrar com quantos paus se faz uma canoa.”

“O pau que bate em Chico é o mesmo que bate em Francisco.”

“A grama do vizinho sempre é mais verde.”

“O que aqui se faz, aqui se paga.”

“Cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça.”

“Casa de ferreiro, espeto de pau.”

“Quem com ferro fere, com ferro será ferido.”

“Mais tem Deus para dar que o diabo pra tirar.”

“Filho criado, trabalho dobrado.”

“Um olho no gato e outro no peixe.”

“Quanto mais você é bom, mais te fazem de trouxa.”

“Apressado come cru.”

“Quem não tem cão caça com o gato.”

“Quem tem amigo não morre pagão.”

“O roto falando do esfarrapado.”

“Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.”

“Vão os anéis, ficam os dedos.”

“Não confunda bife de caçarolinha com rifle de caçar rolinha.”

“Finge que me engana e eu finjo que acredito.”

“É de pequenino que se torce o pepino.”

“Quem espera sempre alcança.”

“Quem tem filhos tem cadilhos.”

“Farinha pouca, meu pirão primeiro.”

“Vai que a coruja erra o toco.”

“Morrem as vacas para a alegria dos urubus.”

“O vento que venta lá, venta cá.”

“Coruja quando gaba o toco é porque tá podre.”

“Quando a esmola é muita, o santo desconfia.”

“Desgraça de pobre só tem começo.”

“Fulano é que nem biscoito de polvilho: faz barulho, mas não resolve.”

“É andando que cachorro acha osso.”

“Se tem uma chance de dar errado, vai dar errado.”

“Quem tem um backup não tem nenhum.”

“Achado não é roubado.”

“Quem perdeu é relaxado.”

“Dois bicudos não se beijam.”

“Chuta que é macumba da brava.”

“Cabeça vazia, oficina do diabo.”

“Falando no diabo, apareceu o rabo.”

“De grão em grão a galinha enche o papo.”

“O sujo falando do mal lavado.”

“Chutou o balde.”

“Panela velha faz comida boa.”

“Chutou o pau da barraca.”

“Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.”

“A cavalo dado não se olha os dentes.”

“Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.”

“Quem vê cara não vê coração!”

“Enquanto houver cavalo, São Jorge não anda a pé.”

E aí? Vocês também não teriam pelo menos alguma contribuiçãozinha para este nosso interessante rol de ditados do arco da velha? 😀

Evangélico, eu?

Comecemos pelo princípio. Minha querida, amada, idolatrada, salve, salve Dona Patroa faz parte de um Pequeno Grupo da igreja evangélica que ela frequenta e, para fins de estudar a Bíblia, praticamente todas as sextas feiras eles se reúnem – e não me venham com críticas, pois em tempos de pandemia a reunião é virtual, tá o seus incréus!

Dia desses o foco do estudo foi a oração do Pai Nosso. Aqueles que a conhecem poderiam perguntar: “mas o que há para estudar numa oração tão curtinha que todo mundo já sabe de cor e salteado?”… Para de perguntar, ô criatura! Eu vou chegar lá. E a questão, na minha opinião, é exatamente essa. Esse Pequeno Grupo realmente se preocupa em compreender o conteúdo daquilo que professam.

Diferentemente da igreja católica, que acabou promovendo um Grande Cisma em decorrência principalmente das bulas papais – a história na realidade é bem mais complexa, mas basicamente essas bulas seriam “cartas de graças ou indulgências” por atos meritórios ($$$) -, as igrejas evangélicas de um modo geral parecem seguir mais o conteúdo dos Evangelhos do que o rastro do dinheiro.

E entendam que quando falo de igrejas evangélicas estou me referindo àquelas que verdadeiramente estão preocupadas e voltadas aos ensinamentos de Cristo e não aquelas reuniões caricatas para “expulsão do demo” ou para venda de canetas e vassouras “consagradas” pela bagatela de mil reais a unidade. Isso, para mim, juridicamente tem outro nome. E moral e pessoalmente tem um ainda pior, mas este aqui continua sendo um blog de família e me recuso a transcrever palavras (muito) chulas neste nosso espaço virtual.

Mas, para variar, estou perdendo o foco. Estávamos falando da oração do Pai Nosso. Comecei a pensar nisso tudo ao me pegar ainda hoje, quase dormitando, naqueles últimos momentos de sanidade enquanto o sono vai nos inebriando e começando a tomar conta da gente e que, no modo “piloto automático”, fiz minhas preces – que se resumem a recitar mentalmente as orações da Ave Maria e do Pai Nosso. É um hábito que adquiri há muito, muito tempo, da época de adolescência em que ainda era frequentador da igreja católica.

E então tive um momento de lucidez (e lá se foi o sono pelo ralo abaixo!) e perguntei para mim mesmo: “mim mesmo, qual é o porquê disso?”, quero dizer, por que repetir mecanicamente determinadas “fórmulas” e acreditar que nisso aí estaria a salvação? No fundo, no fundo, como eu disse, é mais um hábito que uma convicção, pois na prática – ainda que participe e comungue da fé de muitas – não frequento nenhuma igreja ou grupo religioso, pois ainda prefiro um bom proseio sem intermediários (como já lhes contei aqui e aqui)…

E isso me fez lembrar que as “novas bulas papais” já estão inseridas no contexto da igreja católica há tempos, na forma dos confessionários e a nova moeda seria a quantidade de reza e não a qualidade da oração. Pecou? Ora, não se preocupe! Seus problemas acabaram! Vá até o confessionário, ouça um entediante sermão e retire seu boleto de rezas! Mentiu? Dez ave marias! Roubou? Cinquenta pai nossos! Traiu? Trinta terços completos e suba de joelhos os 382 degraus da Escadaria da Penha! E pronto! Tá tudo resolvido, pois lavou, tá novo: a alma tá limpinha e novinha em folha para os próximos pecados!

Tá, é exagero, eu sei, mas eu sou assim mesmo, fazer o quê? “Vocês sabem que não posso resistir ao dramático”… Aliás, disso tudo o terço me parece ainda mais inócuo agora que parei para pensar. Você recita dezenas de vezes as mesmas fórmulas sem se ater a uma só palavra do que está repetindo! Isso é reza, não é oração… Lembro-me de uma vida que já não mais me pertence que das diversas vezes que já participei de novenas, minha boca se mexia em consonância com todas as demais, mas a minha alma e pensamentos divagavam em outras plagas bem distantes de onde eu estava.

Antes de encerrar, quero que entendam que não vim aqui para ofender nenhuma igreja, religião, grupo, congregação ou seja lá como for que se autodenominem. Este texto simplesmente traduz meu modo de ver as coisas e não tem nada do que escrevi que já não seja do conhecimento e entendimento até mesmo do reino mineral…

E mesmo que eu esteja falando do Evangelho, também é bom deixar claro que na verdade nenhum livro, qualquer que seja, teria a capacidade de trazer um “manual para a vida”. Não existe “receita de bolo”. Temos, sim, que pensar muito, interpretar muito, compreender seu conteúdo e ter o tirocínio pessoal acerca de sua aplicabilidade ou não nesta nossa existência terrena. E conviver com as consequências de nossas decisões.

Enfim, o que eu estou tentando lhes dizer é que acho incrível a atitude desse grupo de pessoas que dedicou mais de uma reunião para estudar uma oração que pode ser repetida em menos de um minuto (cerca de sete segundos se for rezando o terço), pois eles não estão preocupados em simplesmente seguir o conteúdo do Evangelho, mas sim em compreender as palavras de Cristo.

E creio que talvez seja nisso que estaria o que realmente diferencia esse Pequeno Grupo dessa longeva dicotomia assimétrica que tanto caracteriza a distinção entre católicos e evangélicos, pois eles não se enquadram em nenhuma “definição clássica” para nenhum desses grupos, pois eles são simplesmente o que são: cristãos.

Simples assim.

E após todas essas elucubrações mentais que me vieram à tona (e acabaram com meu sono), para que não digam que mesmo nestes tempos de pandemia não lhes deixei uma mensagem de Páscoa, então lá vai! 😁