Principais erros a se evitar num processo licitatório

Prof. Randolfo Costa
Especialista em licitações públicas.
Chefe do Setor de Licitações
e pregoeiro no TRT21
Palestrante
Professor de Licitações e Contratos

 

Atenção profissionais de Licitações e Contratos! Mais um importante precedente do TCU sobre a aplicação da Nova Lei de Licitações (Lei 14.133/2021).

No recente Acórdão 1742/2026 – Plenário, o Tribunal de Contas da União determinou a anulação de um Pregão Eletrônico para serviços de engenharia conduzido pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE).

O motivo?

Uma série de irregularidades que culminou na desclassificação de 34 licitantes e na adjudicação do objeto apenas para a 35ª colocada.

O caso traz lições valiosas para gestores públicos e empresas licitantes. Confira os 5 principais erros apontados pelo TCU que você deve evitar nos seus processos:

1. Subjetividade na habilitação técnica: Exigir comprovação de aptidão para serviços “similares” sem definir de forma expressa, clara e objetiva os parâmetros dessa similaridade no edital é ilegal e fere o princípio do julgamento objetivo.

2. Barreira geográfica indevida: É proibido exigir, na fase de habilitação, que a empresa comprove ter sede, filial ou escritório na cidade ou região metropolitana onde o serviço será prestado. Isso viola o art. 9º, inciso I, “b”, da Lei 14.133/2021 e restringe a competitividade.

3. Desclassificação baseada apenas no ETP: O Estudo Técnico Preliminar (ETP) integra a fase de planejamento e tem caráter essencialmente informativo para os licitantes. Uma proposta não pode ser desclassificada com base exclusiva em um item constante apenas no ETP e ausente no edital e em seus anexos.

4. Uso de e-mail para diligências: A condução de diligências via e-mail direto fragiliza o certame. O TCU reforçou que as comunicações devem ocorrer exclusivamente pela ferramenta oficial do Portal de Compras, garantindo publicidade, transparência, rastreabilidade e segurança jurídica.

5. Excesso de formalismo e “pegadinhas” no chat: Convocar licitantes no chat apenas para confirmarem presença na sessão pública em prazos curtíssimos (ex: 5 minutos), sob pena de desclassificação imediata — e sem que houvesse ato processual a ser praticado —, foi considerado um formalismo excessivo e prejudicial à razoabilidade.

A grande lição: Decisões como esta reforçam a urgência de um planejamento rigoroso (fase interna) e da necessidade de fundamentar e motivar detalhadamente todas as análises de documentação e julgamentos de recursos.

Quando a tecnologia exclui, o direito fica distante

Vander Ferreira de Andrade
Advogado. Reitor do Centro
Universitário de Santo André

Para muitos idosos, aquilo que deveria facilitar a vida se transforma em uma verdadeira barreira: aplicativos complexos, senhas, códigos de verificação, reconhecimento facial, atualizações constantes, telas pouco acessíveis e serviços que simplesmente deixam de oferecer atendimento presencial.

Agendar uma consulta, acessar um benefício, emitir um documento, pagar uma conta, utilizar serviços bancários ou até mesmo buscar atendimento em um órgão público pode exigir conhecimentos tecnológicos que nem todos tiveram oportunidade de desenvolver.

O problema não é o idoso “não saber usar tecnologia”. O problema é criar um sistema em que o acesso a direitos e serviços essenciais dependa exclusivamente dela.

A inclusão digital precisa caminhar junto com a acessibilidade, a dignidade e o direito de escolha. Tecnologia deve aproximar, facilitar e incluir, jamais se tornar um mecanismo de exclusão.

Garantir atendimento acessível, canais presenciais e suporte adequado não é um favor. É respeito à cidadania e à dignidade da pessoa idosa.

Tecnologia para incluir, não para excluir. Envelhecer não pode significar perder o direito de acessar serviços.

Mas será que vale a pena?

Dia desses, já não lembro por indicação de quem ou de qual site, me deparei com um artigo cujo título me chamou a atenção: How to remember everything you read (stop trying), de autoria de um tal de Dan Koe, seja lá ele quem for. Realmente não concordo com tudo que ele escreveu, mas resolvi selecionar ao menos alguns trechinhos que até que me pareceram interessantes.

As pessoas acham que, se não retêm o conhecimento do que leem, são um fracasso ou desperdiçaram seu tempo, quando esse não é o objetivo da leitura.

Por que alguém iria querer memorizar cada palavra de um livro, para começo de conversa?

Eu sei porquê.

Você quer parecer inteligente.

É um símbolo de status inconsciente para você.

Você quer impressionar os outros com sua eloquência e inteligência, mas não percebe que parecer inteligente vem da compreensão, não da memorização, e a compreensão exige uma abordagem de aprendizado muito diferente. Também não ajuda o fato de as escolas testarem sua capacidade de memorização. Você estudava por horas só para poder marcar a resposta certa no lápis. A vida não funciona assim.


Quando a maioria das pessoas tenta aprender algo novo, elas se concentram no conteúdo. Elas acumulam material e tentam absorvê-lo com repetição espaçada, flashcards, cursos e aprendendo os fundamentos. Elas partem do princípio de que aprender é um processo de entrada de informações .

Na realidade, a aprendizagem é um processo de produção, porque a produção exige entrada.


Uma pessoa que foi condicionada a vida inteira a ter o objetivo quase inconsciente de ir à escola e conseguir um emprego, naturalmente aprenderá e se comportará nessa direção. O destino que lhe foi reservado inevitavelmente se concretizará.

A pessoa profundamente condicionada a seguir o caminho padrão sequer perceberá oportunidades de ganhar dinheiro fora de um emprego, porque seu cérebro as filtra. Os grandes objetivos de vida que lhe foram atribuídos ao nascer ditam seu comportamento e aprendizado. Ela é uma marionete dos ideais de outra pessoa. Não tem controle sobre a própria vida.

Mas se você criar conscientemente sua própria perspectiva, sabendo exatamente o que não quer da vida e comparando isso a uma visão em constante evolução do que deseja , só então será capaz de perceber quando está se desviando do caminho, notar o erro, corrigir a direção em que está seguindo e aprender com isso.


Torne -se obcecado por um objetivo significativo.

A forma de se tornar obcecado é observar suas ações atuais e perceber onde sua vida vai parar se você não mudar.

Para a maioria das pessoas, esse resultado não é nada agradável.

Contemple essa imagem, deixe que ela o preencha com uma emoção intensa e redirecione essa energia emocional para uma direção melhor em sua vida.

Só então você poderá alinhar seus objetivos com a meta do seu futuro. Só então um processo de aprendizagem útil começa, o oposto da escolarização tradicional, onde seu aprendizado é determinado pela direção e pelos objetivos que a sociedade define para você.

Ser radical transforma o cérebro e aumenta a neuroplasticidade. Na minha opinião, é melhor fazer uma mudança radical do que várias mudanças pequenas.

Queimem os barcos. Mudem de vida.


Leonardo da Vinci preencheu milhares de páginas de cadernos com esboços, observações, perguntas e ideias emprestadas.

Mark Twain, H.P. Lovecraft, Thomas Jefferson, Ronald Reagan, Montaigne, Rick Rubin e muitos outros tinham, cada um, alguma variação disso.

Mas existe uma grande diferença entre o fã comum do segundo cérebro e eles.

O conjunto de ideias que reuniram serviu de combustível para as suas criações.

Suas invenções, escritos e músicas não seriam o que são hoje, e eu diria até que você nem saberia quem são essas pessoas famosas se elas não tivessem tido alguma variação de um livro de notas.

Quando você cria algo, seu subconsciente gera ideias relevantes que contribuem para a qualidade da criação, mas sua capacidade de processamento ainda é limitada e, às vezes, decide não te ajudar em nada, deixando você em um bloqueio criativo.


E podem crer: de “bloqueio criativo” eu entendo. 😞

Gerações em conflito. Será?

Eu realmente gosto do jeito de escrever do advogado Egon Bockmann Moreira, que usualmente publica seus artigos lá no JOTA. Mas desta vez não roubartilhei o artigo inteiro, mas somente os trechos que achei interessantes ou, no mínimo, curiosos. O nome do artigo é Advocacia e novas gerações: O desafio da adaptação recíproca. Até porque, sendo quem eu sou e com a idade que tenho, conheci figuras de todas essas gerações descritas! Mas confiram por si próprios:


A geração silenciosa, integrada por nascidos entre 1928 e 1945, estava presente no meio jurídico quando alguém começou a advogar em 1987. O seu traço mais visível, tomado com cautela, era a institucionalidade majoritariamente masculina: respeito à forma e à hierarquia, sobriedade de linguagem, disciplina na rotina e uma compreensão das profissões como ofício de longa duração. O contexto que ajuda a explicar isso é conhecido: infância na Grande Depressão ou nas Grandes Guerras, entrada na vida adulta no pós-guerra e um imaginário de conformidade cívica. Na advocacia, isso se traduzia em reverência à liturgia, centralidade da biblioteca, aprendizado por observação passiva e progressão lenta de autoridade.

Os baby boomers, nascidos entre 1946 e 1964, dominaram por muitos anos os quadros da advocacia e do ensino jurídico. Aqui, percebe-se a valorização do trabalho como eixo identitário, a crença em carreiras longas, o investimento em reputação e o senso de responsabilidade institucional. Os boomers foram moldados por um pós-guerra expansivo, pela massificação da televisão em um mundo profissional ainda organizado em hierarquias estáveis. No direito, isso coincidiu com a advocacia de papel (datilografado e, depois, impresso), de presença física e de ascensão baseada em tempo, confiança e capacidade de suportar demora.

A geração X, situada entre 1965 e 1980, tornou-se a grande ponte da profissão entre boomers e millennials. Aprendeu no analógico, amadureceu com a revolução digital e traduz um mundo ao outro. Seu traço é a adaptabilidade: menos nostalgia combinada com baixo fascínio pela velocidade do presente. Reúne autonomia, capacidade operacional e aptidão para fazer a travessia entre o arquivo físico e a nuvem.

Os millennials, vindos entre 1981 e 1996, chegaram em massa já no ambiente virtual (internet, e-mail, bases digitais e comunicação horizontal). O que os singulariza é a conectividade: passaram à vida adulta com maior escolarização e diversidade do que as anteriores e, no mercado de trabalho, aparecem associados à busca por significado, flexibilidade e reconhecimento (não somente a ascensão linear). O que ajuda a explicar a preferência por feedbacks frequentes, formação continuada, cultura menos opaca de escritório e maior conforto com situações colaborativas.

A geração Z, nascida a partir de 1997, é a que começa a entrar de modo mais nítido na advocacia a partir de 2020. O seu ponto de partida é a tecnologia: smartphones, plataformas, vídeos curtos, pandemia, ensino remoto e a IA generativa. Sua memória é toda deste século 21: são nativos do planeta digital. Começando agora nas profissões jurídicas, têm a tarefa de conferir legibilidade contemporânea a um mundo antigo, que é aplicado no modo digital, mas lecionado e ao vivo e impresso em preto e branco.

Ou seja, convivemos ativamente com múltiplas gerações diferentes entre si. Os mais velhos trabalhando mais tempo e os mais jovens a expressar como o mundo se transforma depressa demais. Afinal, se a televisão moldou os boomers e a revolução do computador marcou a geração X, a explosão da internet caracterizou os millennials e as redes sociais e smartphones se tornaram o pano de fundo da geração Z. Quando isso se combina com um Judiciário profundamente digitalizado, com escolas conectadas e a rápida incorporação da IA, o intervalo subjetivo entre seniores e iniciantes se encurta.


Mas, quem sabe, o tema das gerações seja menor do que parece. Ele importa, sim, mas apenas até o ponto em que nos ajuda a compreender como cada um foi moldado por seu tempo. Depois disso, há algo mais exigente e mais simples. A advocacia continua a pedir estudo, ética, lealdade, discrição e responsabilidade. O dever de honrar a profissão não se submete a modismos.

Retrospectivando

Nestes últimos tempos, apesar de ter muito pensado e por muito ter passado, ainda assim a inspiração resolveu tirar férias prolongadas em algum lugar desconhecido e até o momento sequer um postal me enviou. Então continuemos com o resgate de alguns textos antigos – pois todos os textos, depois de escritos, são como filhos. Você os ama a todos, talvez nunca pelas mesmas características de cada qual, porém o amor é igual – ainda que diferente – e ainda assim você os ama. E este é um deles.

Cicatrizes

( 13/JUN/2016 )

Hoje, logo após me levantar, já tendo enxaguado o rosto com água em abundância, comecei a olhar aquele sujeito que me mirava do outro lado do espelho. Aquela vetusta barba branca (outrora preta, num longínquo passado), o cabelo mais grisalho do que se poderia esperar (cada nova preocupação na vida, um novo fio de cabelo branco), olheiras cansadas, já denotando o acúmulo de responsabilidades dos últimos anos… Enfim, estava à procura de mim mesmo quando a percebi, ali, onde sempre estivera: uma pequena cicatriz do lado de meu olho esquerdo.

Não sem um sorriso me lembrei de quando adquiri essa, que talvez tenha sido a primeira de muitas outras. Criança, uns cinco anos eu acho, correndo desembestado e olhando pra trás, provavelmente por conta de alguma brincadeira ou traquinagem (sendo a segunda opção a mais provável), quando resolvi olhar pra frente… BONC! Tá, não foi bem esse o barulho, mas vocês pegaram o espírito da coisa. Dei de cara com o muro do vizinho, daqueles com chapiscão grosso, com pedra e tudo, formando uma camada totalmente não uniforme, com pelotas de cimento sobressaindo por todos os lados. É lógico que cheguei em casa aos berros, com um olho a mais no rosto. Do pouco que me lembro, sei que meu pai decidiu que não iria me levar para nenhum lugar para dar pontos, pois ficou com receio que, de alguma forma, aquilo afetasse minha vista.

E essa foi só a primeira de muitas outras cicatrizes…

Provavelmente a seguinte deva ser uma outra que tenho também no rosto, também do lado esquerdo, na base inferior da bochecha. Hoje, quando imberbe, muitas vezes quem me olha acha que alguém deixou ali uma marca de batom… Mas quando a adquiri, era bem diferente! Numa festa de casamento num local cheio de escuridões chamado Piraquara Clube, à beira do Rio Paraíba, a criançada se divertia na brincadeira de pega-pega. Eu inclusive. Devia ter uns sete, talvez oito anos… E, naquela correria no meio da escuridão, não mais que de repente senti bater em alguma coisa que esticou e me jogou pra trás, tal qual a corda de um arco que se retesasse antes de disparar a flecha. E a flecha era eu. Imaginei que fosse algum tipo de varal – que, de fato, era – mas após colocar a mão no rosto e vê-la voltar totalmente ensanguentada, só sei que saí (novamente) aos berros a procurar meus pais, para desespero de todos na festa que viam aquele moleque gorducho empapado em sangue passando a seu lado. Mais tarde vim a saber que se tratava realmente de um varal, só que, conforme o costume dos antigos, de arame farpado (que era pra não precisar de prendedores). Isso me custou sete pontos na parte mais profunda da contusão e pequeninas outras cicatrizes que foram desaparecendo com o tempo, que vinham desde a orelha até o queixo, bem próximo de meu lábio inferior.

Após alguns anos de relativo bom comportamento, foi na adolescência que arrebentei meu joelho direito. A tropinha da época “rachava” uma cinquentinha para uso de todos e fui atrás do rapaz que estava com ela naquele dia. Casa bonita, com grades baixas, muros e paredes de ardósia. Bati a mão na grade e pulei para o lado de dentro para tocar a campainha. Toca, toca, toca… Nada! Ninguém em casa. Paciência. Do mesmo jeito que entrei foi o mesmo jeito que resolvi sair: pulando sobre a grade baixa. Mas calculei mal a distância e quando me arremessei por sobre a gradezinha enfiei o meio do joelho bem na quina da coluna de ardósia. Foi como abrir um livro. Só que no joelho. Apenas cinco pontos desta vez e a consciência de que voltar a dobrar a perna após um longo período de imobilidade é simplesmente uma droga.

Não muito tempo depois outra cicatriz, dessa vez por queimadura, na minha mão esquerda (ô ladozinho ativo!). Basicamente em decorrência de Longa Sina de Desastres, acho que uma de minhas mais arraigadas características desde que me conheço por gente. Pra todos efeitos foi por conta de prender a mão num escapamento quente enquanto consertava uma moto. Só pra constar: outra de igual monta e quase a mesma justificativa encontra-se hoje no peito de meu pé. Desta vez o direito.

A cicatriz seguinte foi mais “bem comportada”, digamos assim… É que fui acometido de um troço chamado cisto cóccix lombar, uma espécie de espinha eterna que fica bem em cima do último ossinho da coluna, quase lá na porta do… Bem, vocês sabem onde. Uma porcaria que dói pra diabo e não termina nunca, por mais que se esprema a maldita espinha. A remoção desse coiso é cirúrgica e – pasmem! – a cicatrização tem que ser feita de dentro pra fora, com trocas diárias de curativo, sem poder dar um ponto sequer. Foi quando fiquei uma temporada comportado em casa, de quina pra lua, lendo tudo que tinha pra ler, sob os cuidados de um enfermeiro amigo meu. E foi também quando, na época, minha cunhada entrou no meu quarto para “conferir o material” e poder esfregar na cara de meu irmão: “Isso sim é que é bunda! Não é como você, que tem que andar com uma carteira em cada bolso pra poder dar enchimento!”

Passada a vergonha – e a cicatriz – daquele momento, a próxima, clássica, dar-se-ia, muitos anos e uma ou duas vidas depois, quando do acidente, matéria exaustivamente explorada nas entranhas deste blog. Basta lembrar que dormi ao volante e atropelei uma desavisada árvore que passeava no meio da rua lá pelas onze e meia da noite. Me rendeu uma senhora de uma cicatriz na perna esquerda (garanto-lhes que ver o próprio osso enquanto sua pele cicatriza não é das experiências mais agradáveis), uma outra no pulso direito, decorrente de uma cirurgia que tive que fazer para remover um cisto que se formou por conta da trombada e, por fim, uma outra, longa, esqueci quantos pontos, no próprio joelho esquerdo, para uma vã tentativa de reaujuntar os ligamentos posteriores rompidos. Religou, mas a porra dói. O. TEMPO. TODO. Às vezes mais, normalmente menos. Verdadeiro House encarnado, este sou eu, hoje.

Mas existem também cicatrizes totalmente ocultas que incomodam muito mais que qualquer uma das que citei. Cicatrizes do coração são dessas: perturbam quando não mais queremos lhes dar atenção e se fazem presentes nos piores momentos possíveis. E saibam que cicatrizes de paixões mal resolvidas são piores que as de amores sepultados. Enquanto estas somente coçam de vez em quando, aquelas não fecham, ficam expostas, doem quando querem e fazem nosso peito quase explodir. São difíceis de administrar, quase impossíveis de controlar. Somente com o tempo e com boa dose de indiferença (ou de uísque) conseguimos colocá-las em seu devido lugar.

E mais uma vez olhando para aquele espelho e me achando tão imperfeito quanto poderia me achar, encontrei meus próprios olhos. E também encontrei aquele meu próprio olhar que, mesmo nitidamente cansado, ainda era o mesmo olhar de dez, vinte, trinta anos atrás! Reconheci naqueles combalidos olhos o mesmo olhar de quando acordava quando criança, mirando outros espelhos, antes de sair para minhas estripulias.

Mas, apesar daquele meu olhar ainda estar ali presente, uma singela faísca num templo que caminha para a ruína e para o esquecimento, ainda assim os olhos são espelhos da alma

E quem meus olhos hoje vê, acaba por não perceber mais aquele meu olhar (mérito apenas de quem sabe me enxergar). Percebe apenas as cicatrizes. Da alma.

Cicatrizes causadas pelos desapontamentos, pelas desilusões, pelos fracassos. Sempre por conta de outrem – e, sim, tenho consciência de minhas culpas e responsabilidades, mas o que efetivamente marca a alma são as atitudes daqueles que logram nossas expectativas.

E por acreditar – porque sempre vou tentar buscar o melhor de cada ser humano que conheço – também sempre acabo por me machucar. Reiteradamente. De novo, de novo e de novo. Queria voltar a ter a singeleza da ignorância, que me permitia passar incólume a tudo e a todos: ignorava os pré-conceitos, ignorava as arrogâncias, ignorava as atitudes vis, ignorava as mesquinharias, ignorava as mentiras, enfim, ignorava a parte mais baixa que cada ser humano – sem exceção – possui dentro de si e utiliza para satisfazer suas próprias vontades, suas próprias crenças, seus próprios interesses.

E a vida em harmonia com a sociedade me parece algo cada vez mais distante…

As instituições estão falidas? Não, meus caros, o ser humano está falido.

Simples assim.

E mais uma vez, agora exausto por tantas conclusões, volto minha face para o espelho. Sim, estou velho. Velho e cansado. Como as estrelas…

Mas…

Mesmo as estrelas, ainda que velhas e cansadas – até as que já deixaram de existir – ainda assim não cumprem sua tarefa? Não são elas que existem para brilhar e dar vida e compartilhar vida? Não quero – não posso – crer que somos meros frutos do acaso, que meramente habitamos a terceira rocha que circunda um sistema solar periférico por conta de algum capricho da natureza, que nos tenha feito brotar de um nada só para que a esse nada voltemos. Creio, sim, no sagrado, no sentido traçado, no destino planejado. Que há Alguém lá do outro lado que se ri da infantilidade de todas essas minhas incertezas.

E, derradeira, vez, olho para o espelho. E lá está ele. Aquele meu olhar. Não mais fagulha, não mais mortiço. Agora ressurge pleno, vívido, sagaz, brilhando, fechando e dissipando as cicatrizes de minha alma. Dissipando minhas dúvidas. Gritando para mim que não devo me deixar abater. Não vou. Não por conta de outrem – jamais! A vida é, sim, bela – e azar daqueles que não sabem apreciá-la, presos que estão em suas próprias torpezas!

E, assim, nesse embaçado espelho, nesta fria manhã, por trás da barba e cabelos brancos, das rugas e das olheiras, consigo finalmente (re)encontrar meu ponto de fé, em tudo e em todos. E volto a enxergar novamente minha alma que brilha: criança que sou e sempre serei.

Até o fim de meus dias.

Administração Pública: tem IA por AI?

Não se olvida, pois, que a tecnologia continuará avançando independentemente das hesitações brasileiras. Isto posto, se os bons gestores não utilizarem a IA de maneira qualificada, os ruins a utilizarão de forma irresponsável; se instituições democráticas não desenvolverem capacidade tecnológica, grupos oportunistas o farão; e, se determinados países optarem por permanecer presos à resistência cultural e ao improviso administrativo, países outros avançarão em produtividade, governança e crescimento econômico numa velocidade dificilmente recuperável a posteriori.

André Castro Carvalho & Murilo Ruiz Ferro
em artigo no JOTA

Boa escrita para advogados que querem ser lidos

Philippe de Oliveira Nader
Advogado e consultor jurídico da Petrobras,
com atuação especializada em tribunais superiores.
Doutorando e mestre pelo Centro Universitário de
Brasília e pós-graduado em Direito Empresarial
(com ênfase na indústria de Óleo e Gás) pelo IBMEC.

Artigo publicado no JOTA em 05/07/2025.

O que tirar, o que manter e o que nunca escrever em um bom texto jurídico

A palavra escrita, uma das invenções mais poderosas da humanidade, se entrelaça com o Direito desde as origens da civilização. Da petição inicial ao recurso extraordinário, dos memoriais ao parecer, tudo no ofício jurídico depende da forma como organizamos nossos pensamentos antes de convertê-lo em texto – seja na tela, seja no papel, para os que ainda guardam o antigo hábito.

Sem a linguagem escrita, não nos reconheceríamos plenamente como seres humanos, nem teríamos construído grande parte do mundo em que vivemos, inclusive o mundo jurídico.

Não é fácil, porém, transmitir com precisão uma ideia por meio da escrita. Não basta um ato de vontade, uma decisão tomada na hora de começar a escrever. O biógrafo Ruy Castro já advertiu: ninguém escreve bem, alguns reescrevem bem. A boa escrita não nasce pronta. Confesso que me senti aliviado ao me deparar com a lição. Se até um imortal da Academia Brasileira de Letras precisa se dar ao trabalho de reescrever um texto diversas vezes, nós, os mortais, não poderíamos esperar menos esforço.

Um texto legível e fluido é resultado de um processo: muitos vai-e-véns, sucessivas podas, acréscimos, meias-voltas, alguns insights, arrependimentos e muita reescrita. Primeiro, organizam-se as ideias; depois, lapida-se a forma. Este artigo, por exemplo, não fugiu à regra. Foi reescrito uma porção de vezes até chegar à sua versão final.

Diz-se, com razão, que a clareza é uma gentileza que o escritor presta ao leitor, um gesto de empatia. Mas como se escreve com clareza? Antes de começar, é preciso clareza de pensamento: saber exatamente sobre o que será o texto, evitar se perder em ramificações do tema, seguir passo a passo a linha do raciocínio. É preciso saber de antemão de onde se parte e aonde se quer chegar. Qualquer texto, inclusive o jurídico, deve ser compreensível até mesmo para quem não domina o assunto.

Mas não se iluda: a inteligência artificial não fará tudo isso por você. É necessário saber escrever bem para, só então, utilizar a máquina com proveito máximo. Ela pode ser uma aliada poderosa, mas apenas nas mãos de quem domina a linguagem escrita e sabe desenvolver ideias complexas.

Elementos de persuasão, argumentos, ganchos retóricos e princípios de estilo devem ser fornecidos previamente pelo autor, ainda que em pequenas amostras, como exemplos ou modelos que sirvam de guia. A IA multiplica o que recebe, mas ainda não inventa, com precisão e elegância, aquilo que não foi lhe dado.

Abandonemos o latim jurídico, de uma vez por todas. Por um lado, porque sua grafia, não raro, aparece em petições com erros; por outro, porque se trata de um arcaísmo incompatível com a comunicação contemporânea. (DISCORDO!)

Não há mais necessidade de prestar homenagem à tradição romana por meio de uma linguagem morta. Já importamos e ainda utilizamos inúmeros institutos jurídicos romanos em nosso Direito. A estética da simplicidade venceu. Fiquemos, portanto, com a nossa língua luso-brasileira (para usar a denominação de nossa língua dada pelo ministro e poeta Carlos Ayres Britto), tão bela e cheia de significados.

Outra sugestão é eliminar palavras e expressões inúteis como aquelas fórmulas de início de frase: “vale ressaltar que”, “é importante frisar” — tudo isso deveria acender o alerta do revisor. Em geral, dizem pouco ou nada. Pior ainda: mostram que o autor não confia no que vai dizer, já que precisa de reforço de si próprio. Se algo é relevante, que se diga logo o que é. A supressão desses conectores inúteis torna o texto mais direto, firme e respeitoso com o tempo do leitor. Retirá-los, quando não fazem falta (e raramente fazem), é abrir caminho para uma argumentação limpa e eficaz.

Armadilha comum, especialmente entre advogados, é recorrer ao uso de sinônimos para termos técnicos. Na literatura, isso pode funcionar. No texto jurídico (e em qualquer linguagem científica), porém, a repetição de termos técnicos é aliada da precisão. Petição inicial não é “exordial”, tampouco “peça de ataque”. Supremo Tribunal Federal não é “Excelso Pretório”, nem “Sumo Aerópago”. Recurso Extraordinário não é “apelo extremo”.

Substituir termos técnicos consolidados é arriscado porque pode gerar ambiguidade. Ainda que os sinônimos possam trazer, num primeiro olhar, elegância e estilo, pode gerar dúvida no leitor a respeito de qual instituto jurídico está sendo tratando. Utilizar variações para termos comuns – “decisão/pronunciamento judicial”, “tribunal/corte”, “autor/requerente” – é aceitável, desde que não comprometa a clareza. Mas a orientação é simples: use o termo técnico consagrado e mantenha-se fiel a ele ao longo do texto. Clareza e precisão técnica não são ornamentos: são instrumentos de persuasão.

Também é essencial o uso de parágrafos curtos e frases bem pontuadas com sujeito, verbo e predicado, nessa ordem. Essa orientação é corriqueira nas falas do ministro Luís Roberto Barroso e encontra eco em boas práticas de redação jurídica contemporânea. Use, sempre que possível, a voz ativa. O próprio JOTA, por exemplo, estabelece que os artigos submetidos ao periódico devem conter “parágrafos curtos e bem pontuados”. Não somos Saramago. Trata-se de uma escolha de estilo, sim, mas, sobretudo, de respeito ao leitor.

Substitua o uso dos gerúndios pelo ponto final. “Tendo em conta que”, “considerando que”, no meio das frases costuma tornar o parágrafo prolixo e impedir as necessárias pausas entre as frases. Orações explicativas em excesso, aquelas postas entre vírgulas, devem ser evitadas, sobretudo quando o parágrafo estiver longo. Perde-se o fio da meada. Inicie uma nova ideia com uma nova frase. Boas dicas também podem ser encontradas na famosa obra de Antonio Gidi sobre redação jurídica.

Em The sense of style: The thinking person’s guide to writing in the 21st century, Steven Pinker nos ensina como escrever melhor a partir de estudos sobre o funcionamento do cérebro humano. Ele ensina que a compreensão deve se dar sem esforço desnecessário por parte do leitor. Nesse contexto, o escritor precisa tomar cuidado com a chamada “maldição do conhecimento”: quando o escritor presume que os leitores possuem a mesma base de conhecimento que ele, tornando o texto inacessível ou de difícil acesso (desencontro entre texto e leitor).

Por isso, é fundamental ter em mente que, ao escrever, se está transmitindo uma ideia a alguém que não a conhece. Em outra passagem, o teórico afirma que escrever é o mostrar o mundo ao leitor. O quanto se consegue esse intento é a medida do sucesso de um texto.

Se há uma máxima que todo advogado deveria impregnar na consciência é que o leitor jurídico em geral é muito ocupado. O juiz lê uma dúzia de petições por dia. O desembargador precisa decidir dezenas de processos por semana. O assessor de ministro enfrenta centenas de recursos por ano. O tempo é muito escasso e a atenção é disputada.

Por isso, não se deve escrever para impressionar. Deve-se escrever para ser compreendido. Isso implica escrever menos, organizar bem o texto, sinalizar os tópicos com clareza, evitar floreios e manter o foco. Bons títulos, boas aberturas, subtítulos bem escolhidos e transições suaves entre as partes fazem toda a diferença.

A escrita jurídica não é mero receptáculo do argumento, ela é constructo do argumento. A forma como se escreve influencia a credibilidade do que se escreve. Um texto confuso desmerece uma boa tese. Um texto claro pode valorizar uma tese mediana.

Trata-se, portanto, de abandonar definitivamente o mito de que “juridiquês” é sinônimo de rigor técnico. Escrever bem, com clareza, não é simplificar o Direito, mas torná-lo mais acessível, mais racional e, por consequência, mais persuasivo. É ser sofisticado.

A tríade recomendável é a seguinte: reescrever, simplificar e convencer. Menos jargões e arcaísmos e mais leitura de livros não jurídicos, porque ninguém nasce com habilidades inatas de redação. Afinal, escrever bem é advogar melhor. (CONCORDO!)