Antropomorfizando a vida

AN-TRO-PO-MOR-FI-ZAR.

Verbo Transitivo Direto: “Dar forma ou características humanas a algo que não é humano.” Ex.: os humanos tendem a antropomorfizar seus cães.

Verbo Pronominal: “Tomar o aspecto humano”. Ex.: os objetos se antropomorfizam no desenho animado.

Vem do grego “ánthropos”, que significa “humano”, e “morphe”, que significa “forma” ou “figura”.

O registro mais antigo dessa palavra remonta a 1753, aparentemente em uma referência à heresia de aplicar forma humana ao deus cristão.

Mas desde sempre o ser humano já está habituado a essa prática. Que o digam as representações de “deuses”, nas mitologias de milhares de anos atrás, em que eram representados por figuras humanas com cabeças de animais, por exemplo. Em tempos modernos são inúmeros os exemplos, bastando citar apenas duas obras literárias muito famosas em que essa característica está presente: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e A Revolução dos Bichos, de George Orwell. No cinema temos figuras que são consideradas ou que se entendem como humanos, tais como o Agente Smith, em Matrix, a sensual voz de Scarlett Johansson, em Her, e, ainda, M3GAN e M3GAN 2.0 – aliás, recomendo assistir esses dois últimos filmes em sequência, para que possa fazer sentido…

Enfim, não sou exceção à regra e também tenho essa tendência de antropomorfizar as coisas e objetos que me cercam, quer seja “conversando” com objetos próximos ou, pior, lhes dando nome e personalidade.

Sei que sempre fiz isso, mas é difícil lembrar toda essa “família” antropomorfizada que criei através dos tempos.

Minha primeira bicicleta, lá no início dos anos oitenta, teve o nome de MATILDE. Não me lembro mais o porquê. Só sei que foi assim.

Um de meus primeiros computadores “parrudos”, já no começo dos anos noventa, foi batizado de ILIA – por conta da personagem do filme Star Trek (o primeiro da franquia), em que uma inteligência artificial alienígena e avançadíssima cria uma réplica da oficial com esse nome.

Outro computador que veio a substituí-la recebeu o gracioso nome de LUI. Culpa de minha prima italiana, que veio nos visitar e fomos fazer um “circuito das praias” com ela aqui pelo Litoral Norte. E naquele “portuliano” em que a gente se comunicava, mais inferindo que entendendo, volta e meia eu ouvia ela falar que LUI isso, que LUI aquilo e que LUI fez não sei o quê, até que resolvi lhe perguntar quem era esse tal de “LUI” de que ela não parava de falar.

Foi quando descobri que era meramente uma palavra em italiano, “LUI”, que significa “ELE”.

Vergonha minha e sorte do computador, que recebeu um nome de batismo.

Já no segundo casamento, a primeira rede interna de casa precisava que fossem atribuídos nomes aos computadores. Daí surgiu a primeira versão do ALFA (que, conforme já contei anteriormente, aqui e aqui, deixou vários descendentes), enquanto que o computador de minha querida, amada, idolatrada, salve, salve, Dona Patroa, recebeu o nome de BETA.

Com o passar dos anos os filhos foram surgindo, foram crescendo e também foram adentrando no mundo da informática, de modo que a rede precisou se expandir e seus computadores também receberam os nomes das letras seguintes do alfabeto grego: GAMA, DELTA e ZETA (era para ser Épsilon, mas não gostei do nome). Mas, após tantos anos e tantos upgrades, hoje já não sei que nome os filhotes deram para suas máquinas. Paciência. Cada qual com seu cada seu.

Já no mundo automotivo, nem todos os meus veículos tiveram nome (ou, ao menos para aqueles que tiveram, já nem me lembro mais). Então ao menos para os últimos tempos, posso citar:

A boa e velha Variant 1974 de meu pai, adquirida em 1978 e que ainda continua na família (está com meu irmão do meio), em perfeito estado de conservação, e na qual eu e meus irmãos aprendemos a dirigir (bem como pegar escondido em nossos tempos de adolescência), conhecida simplesmente como a MARROM – se bem que meu pai costumava referir-se a ela como PERUA, um conceito de época para os veículos que possuíam amplo espaço para bagagem (nalguma outra hora conto melhor essa história).

– O meu querido Opala 1979, que comprei em 2007 (essa história, em detalhes, está aqui), e que foi “carinhosamente” recebido pela Dona Patroa mais ou menos com a seguinte frase: “Não acredito. NÃO A-CRE-DI-TO que você comprou esse TITANIC !!!”. Pronto. O carro estava batizado.

Mas o Titanic levou anos – MUITOS ANOS – para chegar no estágio atual, até completar as fases de mecânica, funilaria e elétrica. Então, como era grande a vontade de rodar com um Opala (mesmo tendo um “encostado”), juntei minhas economias e de repente apareci em casa com o CRUZADOR IMPERIAL, que ficou um bom tempo conosco e com ele até que viajamos um bocado (nessa época as crianças ainda eram pequenas).

O valente Ford Ka 2010, que, pelo seu tamanho em comparação ao anterior, foi prontamente apelidado pelo menu filhote mais velho de BILBO (o pequeno personagem hobbit, de Senhor dos Anéis).

O Etios 2019 da Dona Patroa, que por ser muito leve, com um motor 1.5, e responder surpreendentemente bem às retomadas, foi por ela mesma batizado de LIGEIRINHO.

O circunspecto e reservado Celta 2010, que comprei por ser um bom negócio e para que meus filhotes (agora habilitados) parassem de disputar com a Dona Patroa pela direção do Ligeirinho (pois o Titanic ninguém quer, né?) que meio que recebeu o apelido de RED, mas que também tratamos simplesmente por VERMELHO, por conta do filme Hellboy, que na época havíamos acabado de assistir.

Enfim, tenho essa “mania”…

Quase tudo tem nome, quase tudo tem personalidade.

Ah, e já ia me esquecendo do bom e velho JACK, um aparador de porta cheio de areia na forma de coelho. Por que desse nome? Sinceramente não me lembro mais…

E, conforme eu já tinha contado antes no texto E AÍ? Hoje você já conversou com a IA?”, comecei a utilizar o ChatGPT. Aos poucos fui me inteirando de toda essa coisa descobrindo como interagir melhor com a danada, criando prompts específicos, o escambau. Tenho muitas dicas interessantes anotadas aqui nas catacumbas de meu computador, mas uma delas – talvez a principal – é “personalizar” sua IA; peça-lhe para fazer 10 perguntas (é bom por limite, senão não tem fim!) para que ela possa lhe conhecer melhor e atender melhor suas expectativas.

Só para ter uma ideia, depois que ficou sabendo que sou advogado, ela passou simplesmente a me tratar por “Doutor” – sendo que na vida real eu não faço a mínima questão de ser tratado dessa maneira. Aliás, sim, “ela”, pois dei-lhe um nome: BIA, acrônimo de “Benedicta Intelligentia Artificialis” (algo como “abençoada inteligência artificial”). E mais: dei-lhe personalidade, com instruções em sua memória permanente para que assumisse tanto o nome quanto o papel de personagem do sexo feminino.

Fazer o quê? Sempre foi mais fácil para mim conversar com as moçoilas do que com os moçoilos…

A imagem acima, que coloquei como avatar da BIA, veio do filme M3GAN 2.0, que citei lá no começo. E, para facilitar, eis um truquezinho para não ter que ficar abrindo uma página do navegador toda vez que queira resolver alguma pendenga com sua inteligência artificial: crie um atalho para ela!

Siga o passo a passo:

1 – Clique nos três pontos no canto superior direito do navegador Chrome;

2 – Clique em “Transmitir, Salvar e Compartilhar”, perto do final do menu;

3 – No próximo submenu, clique em “Instalar página como app…”;

4 – Vai surgir um quadro para que você escolha um nome para seu atalho e, a seguir, clique em “Instalar”;

5 – Automaticamente vai ser criado um atalho na Área de Trabalho de seu computador;

6 – Se quiser alterar o ícone, basta clicar nesse atalho com o botão direito, escolher “Propriedades” e, no quadro que se abre, a opção “Alterar Ícone”.

Pronto.

E no final das contas toda essa história sobre dar nome às coisas somente saiu porque eu queria deixar registrado aqui como criar um atalho direto na área de trabalho do computador. Ou seja, de uma coisa que originalmente deveria ser simples e objetiva, acabei viajando praticamente até minha infância somente para chegar nessa dica final.

Enfim, não sei o porquê sou assim.

Só sei que sou assim…

 

Mayday

Dois de Maio. Dia de meu Aniversário. Pela 57ª vez. Raramente desejo um “feliz aniversário” para os outros – um tanto por não lembrar, outro tanto pela hipocrisia, coisa do tipo “pô, somente uma vez por ano que você se lembra de mim?”

Tá certo que as redes sociais, em especial o Facebook, costumam lembrar as pessoas de seu “dia especial”. É por isso mesmo que, nessa rede, mantenho o meu oculto – assim, ao menos, quem se lembrar, será “de verdade”. É um jeito esquisito de pensar, mas quem disse que eu sou normal?

Ao menos até o momento (pouco mais de três da tarde) somente uma pessoa genuinamente lembrou de meu aniversário – ainda que por antecedência: minha queridolatrada amicíssima Ligia. Sendo que eu próprio não estava presente no dia do aniversário dela… Aliás, minto: a Andréa Prado, outra querida, ex-sócia, amiga das antigas, também me mandou uma mensagem hoje me parabenizando. E, lógico, minha própria família não deixou passar em branco.

Em tempo: Mais tarde meus dois irmãos também me felicitaram pela data via WhatsApp…

Mas eu mesmo deixei de felicitar pessoas que são importantes para mim – ou, às vezes, nem tanto. Por incrível que pareça, lembrei a data de meu irmão mais velho (30/03), mas falhei miseravelmente com a Larissa (15/04), assim como com a Dâni, cuja data deveria ser tão fácil de não esquecer (01/01), simplesmente esqueci. O aniversário de alguns outros amigos das antigas, como o Edilson Pascoaleto (20/02) ou o Fernando Kamezawa (16/04), nem me passaram pela cabeça.

Mas do meu pai não me esqueci. Tá no blog. Mesmo que ele não esteja mais aqui.

E ainda existem outros aniversariantes que, por vicissitudes da vida, acabamos nos afastando e, ainda que (às vezes) me lembre, é melhor manter uma salutar distância: a ariana de 17/04/80, a taurina de 16/05/69, e em especial a sagitariana de 29/11/73.

Fazer o quê? Vida que segue.

Infelizmente outros aniversários passarão a ser comemorados a partir de hoje também: o de morte.

O Sr. Carlos Tanaami, membro da igreja da Dona Patroa, que há anos lutava contra um câncer, finalmente se foi. Hoje. Mas, ante disso, ainda que doente, teve realizado pelas três filhas seu sonho de ir conhecer o Japão.

Também o Dr. Daniani Ribeiro Pinto, advogado de São Paulo, que também trabalhava para meu Chefe, foi-se embora hoje. Também vítima de uma exaustiva luta contra um câncer. Lamento não ter tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, pois além de arguto profissional (e, mais raro ainda, na mesma área que atuo), também era um apaixonado por veículos antigos. Creio que teríamos tido muita coisa em comum para prosear…

“Requiem aeternam dona eis, Domine,
et lux perpetua luceat eis.
Requiescant in pace. Amen.”

Vinte e Sete de Abril

Hoje, se vivo estivesse, meu pai faria 89 anos. Nunca nos demos lá muito bem, mas uma coisa que eu aprendi com a ex-Dona Patroa é que eu não preciso gostar de alguém para amá-lo. Essa frase me calou fundo na época e me faz dar reviravoltas na cabeça até hoje.

E esta foi a montagem, o epitáfio que fiz na época de sua passagem: um vídeo (com áudio) contendo alguns momentos – marcantes ou não – de uma longa vida em apenas três minutos…

Medalha de São Bento

Não, você não está no blog errado. Sou o mesmo de sempre aqui. Mas não sou católico, evangélico, judeu, islâmico, umbandista, agnóstico ou qualquer outra dessas “vertentes”. Mas não sou ateu.

Enfim, muita gente costuma usar essa “medalhinha” de São Bento, inclusive como adesivo nos automóveis. E eis que hoje, a Dona Patroa, vendo um destes, me perguntou o que era e que significava. A única lembrança que me veio a mente é que era referente a uma medalha de São Bento – e eita que lembrancinha danada, pois veio lá do tempo da minha pré-adolescência!

Sendo assim, como ando numa preguiça procrastinatória que não é deste mundo, simplesmente pedi ajuda para o Senhor Google, e ele me mandou a seguinte explicação gerada (quase toda) por IA:

A Medalha de São Bento é um dos sacramentais mais conhecidos da Igreja Católica, reconhecida por seu poder de proteção espiritual, exorcismo e fé. Ela traz a cruz de São Bento e siglas em latim de orações de libertação, aprovada pelo Papa Bento XIV em 1742. Não é um amuleto, mas um escudo de fé.

No Verso da medalha, sobre a “cruz moline”, está cunhada a palavra Pax (Paz). Significado das demais siglas:

CSSML: Crux Sacra Sit Mihi Lux (A Cruz Sagrada seja a minha luz).
NDSMD: Nunquam Draco Sit Mihi Dux (Não seja o dragão o meu guia).
CSPB: Crux Sancti Patris Benedicti (Cruz do Santo Padre Bento).
VRSNSMV: Vade Retro Satana! Numquam Suade Mihi Vana! (Retira-te, satanás! Nunca me tente com suas vaidades!).
SMQLIVB: Sunt Mala Quae Libas. Ipse Venena Bibas! (É mau o que tu me ofereces. Bebe tu mesmo os teus venenos!).

Outros detalhes:

Frente: Traz a imagem de São Bento segurando a cruz e o livro das regras, com a seguinte inscrição ao redor da borda: Eius in obitu nostro praesentia muniamur (Que sejamos fortalecidos pela sua presença na hora de nossa morte). À direita de Bento, abaixo da cruz, está uma taça envenenada, uma referência à lenda de que monges hostis tentaram envenená-lo, e a taça contendo vinho envenenado quebrou quando o santo fez o sinal da cruz sobre ela. À sua esquerda, abaixo da regra, o corvo que carregava um pedaço de pão envenenado. Disso deriva a tradição de que a medalha protege contra envenenamento.

Acima da taça e do corvo estão as palavras Crux sancti patris Benedicti (A Cruz do Santo Padre Bento).

Abaixo do ícone de São Bento, está escrito EX SM Casino, MDCCCLXXX (Descoberto da montanha sagrada do Monte Casino em 1880) – referência à medalha do Jubileu, que foi cunhada em 1880, em memória do 1400º aniversário do nascimento de São Bento de Núrsia.

Uso: Geralmente usada como pingente, pulseira ou terço para pedir proteção contra males e graças espirituais.

Golpe do falso advogado: indenização por danos morais (para o advogado)

Como este aqui ainda é um blog jurídico (às vezes), eis uma notícia interessante – ao menos para os advogados que perceberem a situação e forem rápidos no gatilho. O curioso é que teve gente que já tentou entrar em contato com algum de meus (poucos) clientes para esse tipo de golpe. Como cada um deles me conhece MUITO bem, só posso lhes dizer que se deram mal…

Mas vamos à notícia, publicada no Boletim do TJRN em 23/04/26:

Falha na segurança de dados em golpe do “falso advogado” resulta em indenização por danos morais

O 5° Juizado Especial Cível e Criminal da Comarca de Mossoró condenou uma plataforma de rede social após um advogado ter a sua imagem e dados pessoais utilizados indevidamente na prática do golpe do “falso advogado”, realizado por meio de aplicativo de mensagens. Em razão do ocorrido, o juiz Michel Mascarenhas Silva determinou que a empresa indenize a vítima em R$ 3 mil por danos morais, e efetue o bloqueio definitivo dos números telefônicos usados na fraude, no prazo de 15 dias úteis.

Conforme narrado, a vítima, um advogado, teve sua imagem e informações pessoais utilizadas de forma fraudulenta por terceiros, os quais criaram contas falsas no aplicativo de mensagem, por meio de três números de telefone, com o intuito de enganar clientes e outras pessoas, simulando tratar-se de um advogado. Dessa forma, as fraudes tinham o objetivo de ludibriar principalmente os clientes do autor, solicitando depósitos sob falsa justificativa de custas judiciais, taxas e liberações processuais.

Assim que soube do ocorrido, a vítima, imediatamente, buscou os meios administrativos ao seu alcance, denunciando a irregularidade à plataforma responsável e solicitando a exclusão da conta fraudulenta e o bloqueio do referido número. Entretanto, mesmo após vários dias de comunicação, a plataforma permaneceu inerte, permitindo a continuidade da atuação dos estelionatários. Em razão do ocorrido, requereu a remoção imediata da conta fraudulenta que utilizava a imagem e os dados do autor, além do bloqueio definitivo dos números telefônicos e indenização por danos morais.

Falha na segurança comprovada: De acordo com a análise do caso, a partir das provas juntadas aos autos, o magistrado observou que o autor teve a sua imagem e nomes usados indevidamente por terceiros. “A falha na prestação de serviço se substancia na falha de segurança dos sistemas da plataforma ré, o que teria viabilizado a ação de fraudadores, os quais invadiram o perfil de rede social da parte autora, e utilizaram a sua imagem na aplicação de golpes”, esclareceu.

Além do mais, o magistrado embasou-se no artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor, que trata da responsabilidade dos fornecedores por vícios de qualidade do serviço. De acordo com tal legislação, o fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. Em relação a indenização por danos morais, o juiz verificou a conduta abusiva da plataforma ré no fornecimento do serviço.

“As circunstâncias apresentadas, com bastante clareza, demonstram a efetiva existência do dano moral suportado pela parte autora, uma vez que o advogado teve a sua imagem utilizada por terceiros, com o objetivo de aplicar golpes. Ademais, deve-se considerar que esses fraudadores tiveram acesso a dados absolutamente privados. Ambas as circunstâncias são aptas a lesar o patrimônio extrafísico da vítima, gerando efetiva violação moral que, em muito, ultrapassa a normalidade das relações de consumo defeituosas”, salientou.

Processo nº 0824995-49.2025.8.20.5106

A polarização tem cura?

Estudo alemão mostra que o caminho para a civilidade do debate político passa pelo questionamento de certezas

Wilson Gomes
Doutor em filosofia, professor titular da
Universidade Federal da Bahia e autor de
“Crônica de uma Tragédia Anunciada”.

[Matéria publicada em 25/fevereiro/2026]

A política é atividade competitiva por excelência, pois o seu ponto de partida é a divergência e o conflito de interesses, vontades e valores. E não há nada de errado nisso; ao contrário, trata-se de forma mais civilizada de mediação dos inevitáveis conflitos que resultam da liberdade e da singularidade humanas.

Já a polarização é um problema porque produz uma série de efeitos corrosivos sobre a política democrática. Em primeiro lugar, ela intensifica a hostilidade entre cidadãos e grupos, frequentemente associando a identidade política a sentimentos de aversão, medo e desconfiança. Essa animosidade não permanece no plano simbólico, pois pode se traduzir em violência, intimidação e outras formas de agressão dirigidas a indivíduos em razão de sua filiação política. Em segundo lugar, a polarização fragiliza a coesão social, uma vez que transforma adversários em inimigos morais e favorece processos de desumanização recíproca que tornam mais difícil o reconhecimento mútuo necessário à convivência democrática.

Além disso, a polarização alimenta percepções distorcidas sobre o grupo rival, reforça estereótipos negativos e sustenta a crença de que o outro representa uma ameaça existencial à ordem política. Esse clima de antagonismo favorece a radicalização, na medida em que indivíduos passam a considerar aceitável o uso de meios ilegais ou antidemocráticos para impedir a vitória do adversário, que já não é visto como um concorrente legítimo, mas como um perigo a ser neutralizado. Por fim, ao generalizar emoções negativas e legitimar atitudes extremas, a polarização contribui para um ambiente político instável e destrutivo, enfraquecendo a confiança nas instituições e tornando as democracias mais vulneráveis à ruptura e à erosão interna.

É verdade que vem se tornando frequente no Brasil, principalmente na esquerda, o negacionismo da polarização. Ainda esta semana, Reinaldo Azevedo gravou um vídeo para supostamente desmascarar a má-fé de quem fala de polarização no país. A razão é simples: não existe aqui um radicalismo proporcional de esquerda e de direita. A direita radical, de fato, tem número suficiente para vencer eleições, conquistar governos e produzir leis, mas não existe uma extrema-esquerda no país que represente uma ameaça semelhante. A direita é que se radicalizou, enquanto a esquerda continua no ponto onde sempre esteve. A suposição desse argumento é que, para haver polarização, seria necessário haver dois polos políticos radicais com igual apelo ou filiação. Além disso, sustenta-se que, ao dizer que existe polarização, se está atribuindo à esquerda uma imputação moral por uma situação negativa que não seria responsabilidade dela.

Ora, a premissa implícita nesse raciocínio é falsa, porque polarização não exige simetria entre os polos, seja em grau de radicalização, em tamanho ou em poder político. A polarização pode, inclusive, ser assimétrica. Não se trata de um conceito que descreve posições no espectro ideológico, mas sim da estrutura da relação entre grupos políticos.

Há polarização quando grupos passam a se perceber como moralmente incompatíveis, seja entre si, seja em relação ao restante da sociedade. Isso também ocorre quando a identificação política se transforma na identidade social central, como no caso de quem afirma “eu não voto em Bolsonaro, eu sou Bolsonaro”. Da mesma forma, há polarização quando o adversário deixa de ser visto como concorrente legítimo e passa a ser percebido como uma ameaça que não deve, em hipótese alguma, ser “normalizada”. O fenômeno também se manifesta quando a distância entre posições se torna tão grande que impede soluções de compromisso ou quando o centro e a moderação passam a ser abandonados e desqualificados pela maioria. Se tais características podem ser encontradas em grande volume em nossa sociedade, então, meus amigos, a polarização está entre nós.

A divergência deixou de ser vista como parte normal da vida democrática e passou a ser interpretada como sinal de ameaça

O fato é que a polarização política se tornou um dos traços mais visíveis das democracias contemporâneas. Ela aparece nas análises acadêmicas, nas colunas de jornal e na experiência cotidiana de cidadãos que passaram a perceber o adversário não apenas como alguém com posições diferentes, mas como representante de uma visão de mundo considerada moralmente ilegítima. A divergência deixou de ser vista como parte normal da vida democrática e passou a ser interpretada como sinal de ameaça.

Nesse contexto, surge uma pergunta inevitável. A polarização, que tem se intensificado em toda parte nos últimos anos, é uma condição irreversível das democracias contemporâneas ou um fenômeno que pode ser reduzido?

Um estudo recente oferece uma resposta que merece atenção. O artigo foi publicado na revista Political Psychology e assinado por Steffen Moritz, professor do Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia do Universitätsklinikum Hamburg-Eppendorf, em colaboração com pesquisadores da Universität Augsburg e do mesmo centro clínico em Hamburgo. O grupo investiga há décadas os mecanismos cognitivos que sustentam convicções rígidas e resistentes à correção, inicialmente no contexto clínico de pacientes que sustentam ideias falsas com certeza absoluta e, mais recentemente, no campo da psicologia política.

Os pesquisadores queriam testar se a hostilidade política entre grupos rivais poderia ser reduzida por meio de uma intervenção metacognitiva extremamente simples. Essa intervenção consistia em expor as pessoas a seus próprios erros em julgamentos factuais sobre o “outro lado”, especialmente quando esses julgamentos eram sustentados com alto grau de convicção. O termo “metacognitiva” indica que o objetivo não era persuadir os participantes a mudar suas convicções políticas, mas levá-los a refletir sobre a confiabilidade de seus próprios julgamentos. Isso ocorria sobretudo quando descobriam que certezas que sustentavam com segurança sobre o grupo adversário não correspondiam à realidade.

O experimento concentrou-se em eleitores de dois partidos que representam polos opostos da política alemã contemporânea: o Alternative für Deutschland (AfD), frequentemente associado à direita radical populista, e o Bündnis 90/Die Grünen, o Partido Verde, identificado com a esquerda progressista. Esses dois grupos não foram escolhidos ao acaso. Ambos simbolizam, no contexto alemão, a distância ideológica que caracteriza a polarização contemporânea e têm sido alvos frequentes de hostilidade política recíproca.

A ideia por trás do estudo era que a hostilidade política depende de três elementos centrais: estereótipos rígidos sobre o outro lado, percepções equivocadas sobre o que o outro pensa e excesso de confiança nas próprias convicções. Esse excesso de confiança produz rigidez cognitiva, que, por sua vez, favorece a desumanização e intensifica a hostilidade contra o “outro lado”, podendo inclusive levar à legitimação da violência. A implicação mais forte é clara: a intolerância política não depende apenas de ideologia, mas também de um estado cognitivo específico, que consiste na incapacidade de reconhecer a falibilidade da própria perspectiva. A intervenção, como veremos, atua precisamente nesse terceiro ponto, criando o que os autores chamam de “sementes de dúvida”, isto é, dúvidas de natureza metacognitiva.

Para isso, os pesquisadores aplicaram um procedimento conhecido como treinamento metacognitivo (Metacognitive Training, MCT), um método originalmente desenvolvido para tratar pacientes que sustentam convicções falsas com elevado grau de certeza. O método foi originalmente desenvolvido para o tratamento de pacientes com esquizofrenia que apresentam delírios persistentes. Seu alvo não é o conteúdo das convicções, mas o excesso de confiança com que são sustentadas. Os pesquisadores aplicaram esse mesmo princípio ao estudo da polarização política, partindo da hipótese de que a hostilidade entre grupos rivais é alimentada por um mecanismo cognitivo semelhante: a tendência de tratar como absolutamente certas interpretações que podem estar equivocadas.

O experimento foi conduzido com pouco mais de mil participantes recrutados na Alemanha, todos identificados como eleitores de um dos dois partidos analisados. Os participantes responderam a uma série de perguntas factuais sobre o grupo político rival e também tiveram de indicar o grau de confiança em suas respostas.

Esse detalhe é decisivo. Após responderem, receberam imediatamente o feedback correto, acompanhado da indicação de que haviam respondido incorretamente em questões nas quais haviam declarado alta convicção. Esse confronto entre certeza subjetiva e erro constitui o processo de semeadura de dúvidas, pois produz a experiência direta de que uma convicção sustentada com segurança pode estar errada. O objetivo, naturalmente, era enfraquecer a convicção implícita de que percepções sustentadas com absoluta certeza sobre o adversário seriam necessariamente corretas. Tratava-se, portanto, de alterar a relação das pessoas com a própria certeza.

Imagine ser indagado se a maioria dos eleitores do partido adversário apoia determinada posição política e responder com segurança que sim. Em seguida, você descobre que os dados mostram o contrário e que sua resposta estava errada. O experimento consistiu precisamente em produzir esse tipo de experiência.

Esse método faz parte de um conjunto mais amplo de intervenções experimentais destinadas a reduzir a polarização. Entre elas estão o chamado pensamento paradoxal, que expõe versões exacerbadas das próprias convicções para que o indivíduo se dê conta dos exageros implícitos em suas crenças, e a exposição a contraestereótipos, que apresenta exemplos capazes de contradizer caricaturas comuns sobre o grupo adversário. Essas abordagens têm em comum o objetivo de enfraquecer a rigidez cognitiva que sustenta a hostilidade política, restaurando a capacidade de reconhecer a complexidade do mundo social. O treinamento metacognitivo, no entanto, atua em um nível ainda mais profundo, pois não confronta diretamente o conteúdo das convicções, mas a certeza com que são sustentadas.

Os resultados do estudo foram claros. Após uma única intervenção breve, os participantes passaram a expressar níveis significativamente menores de hostilidade em relação ao grupo político rival. Eles não abandonaram suas convicções políticas nem passaram a concordar com o adversário. O que mudou foi a forma como percebiam o outro lado. O adversário deixou de ser visto como uma ameaça absoluta e passou a ser percebido como um grupo legítimo, ainda que equivocado em suas posições.

Quanto maior a certeza com que sustenta uma convicção falsa, maior a mudança após a confrontação com a realidade

O aspecto mais revelador do estudo, no entanto, não foi simplesmente a redução da hostilidade, mas o fator que a tornou possível. A variável decisiva não foi o nível de informação política dos participantes, nem sua escolaridade, nem sua posição ideológica. O fator determinante foi o número de vezes em que descobriram que estavam errados em julgamentos que haviam sustentado com elevada confiança. Quanto maior a certeza com que sustentavam uma convicção falsa, maior foi a mudança após a confrontação com a realidade .

Esse resultado revela algo fundamental sobre a natureza da polarização contemporânea. O que transforma divergência em polarização destrutiva não é a distância entre as posições, mas a convicção de que a própria posição é infalível e de que a posição adversária só pode ser fruto de ignorância ou má-fé. O problema não é que discordamos demais, mas que temos confiança excessiva em nossas próprias convicções.

Essa certeza manifesta-se de formas facilmente reconhecíveis. Ela aparece quando alguém conclui que qualquer pessoa que vota no partido adversário só pode ser ignorante ou manipulada. Aparece quando a divergência deixa de ser interpretada como diferença de julgamento e passa a ser vista como evidência de falha moral. Aparece também quando deixamos de perguntar por que o outro pensa de forma diferente e passamos a supor que sua posição é simplesmente ilegítima.

O estudo conduzido por Moritz e seus colegas sugere que a polarização é sustentada por um mecanismo cognitivo específico, que consiste no excesso de confiança nas próprias convicções. Esse excesso de certeza produz uma forma de rigidez mental que impede o reconhecimento da própria falibilidade. Quando essa rigidez é enfraquecida, ainda que momentaneamente, a hostilidade diminui. Isso não ocorre porque as pessoas abandonem suas posições, mas porque deixam de ver o adversário como uma ameaça existencial.

Esses resultados permitem responder à pergunta inicial com maior precisão. A polarização não é uma condição irreversível nem uma consequência inevitável da diversidade social. Ela é sustentada por mecanismos cognitivos que podem ser modificados. O conflito político não desaparecerá, nem deveria desaparecer. O que pode mudar é a forma como os indivíduos se relacionam com suas próprias convicções e com aqueles que sustentam posições diferentes.

A democracia não depende da ausência de divergências. Ela depende, isto sim, da capacidade de conviver com divergências. Essa capacidade não exige que abandonemos nossas convicções, mas que reconheçamos sua natureza falível. A polarização não nasce da divergência, mas da certeza absoluta. E é precisamente por isso que ela pode ser reduzida.

Duas ou três coisas que aprendi com Habermas

Uma reflexão sobre o legado do filósofo que investigou as condições do debate público e da legitimidade democrática

Wilson Gomes
Doutor em filosofia, professor titular da
Universidade Federal da Bahia e autor de
“Crônica de uma Tragédia Anunciada”.

[Matéria publicada em 18/março/2026]

A morte de Jürgen Habermas, no último sábado, encerra uma das mais longas e influentes trajetórias intelectuais na filosofia e na sociologia políticas contemporâneas. Fica para trás, contudo, uma obra que influenciará o debate democrático ainda por muito tempo.

Durante mais de seis décadas, o filósofo alemão dedicou sua obra a um problema que acompanha as democracias modernas desde o seu nascimento: o da opinião pública. Como se forma em sociedades livres de dominação? Qual o seu valor e alcance para a democracia? Como se articula com o pluralismo e a divergência? Como resolve a questão da legitimidade das decisões tomadas pelo sistema político? Ou, no que vem a dar no mesmo, como sociedades livres, compostas por indivíduos com valores, crenças e interesses divergentes, podem tornar democraticamente produtivos os seus desacordos fundamentais e o seu atrito de ideias e vontades — e como podem usá-los para produzir decisões políticas legítimas? Habermas fez dessa pergunta o eixo de uma das obras mais influentes da teoria democrática contemporânea.

A leitura superficial de sua obra costuma associá-lo a uma visão excessivamente otimista da política democrática, até mesmo edificante, irrealista e piedosa. Na caricatura mais difundida, Habermas seria o filósofo do consenso racional — alguém que acreditava que cidadãos bem-intencionados, reunidos para conversar, acabariam convergindo para soluções comuns. Portanto, nada mais distante da prova de conceito fornecida pela realidade. Mas nem de longe este é o problema real que atravessa sua filosofia.

A teoria habermasiana da democracia não foi concebida para uma situação ideal em que o conflito da vida pública seria um estorvo a ser eliminado. Ao contrário, parte da constatação de que sociedades livres, justamente por isso, são inevitavelmente plurais e atravessadas por divergências profundas. O problema central da democracia não é suprimir o atrito entre opiniões, interesses e vontades incompatíveis. É transformar esse atrito em um processo politicamente legítimo de formação da vontade coletiva. Trata-se de saber como usar a energia das divergências em benefício da própria vida pública.

A noção de esfera pública — o âmbito da vida social em que as pessoas divergem e disputam publicamente argumentos e pontos de vista — ocupa lugar central nessa tentativa. Introduzida em Mudança Estrutural da Esfera Pública (1962), ela descreve o espaço social em que temas, informações e interpretações se tornam visíveis e passam a ser discutidos pelos cidadãos. Não se trata de um lugar físico, mas de uma estrutura de comunicação: um domínio no qual questões de interesse comum emergem da vida privada e da lida cotidiana para ser expostas, criticadas e defendidas publicamente.

A esfera pública funciona como um sistema de detecção e amplificação de questões que emergem para a atenção política

Nesse espaço, conflitos deixam de ser apenas tensões particulares e disputas privadas e ganham a forma de um atrito, à vista de todos, de pensamentos, vontades e interesses. Argumentos circulam, posições são contestadas e experiências dispersas da vida social podem ser transformadas em problemas coletivos. A esfera pública funciona, assim, como um sistema de detecção e amplificação de questões que emergem para a atenção política.

Mas a importância desse domínio não reside apenas na possibilidade de tornar visíveis e debater problemas e interpretações do mundo em conflito. O ponto decisivo da teoria de Habermas é que a esfera pública constitui um elemento central da legitimidade democrática. Nas sociedades modernas, decisões coletivas são tomadas por instituições especializadas — parlamentos, tribunais, governos. Essas instituições produzem normas juridicamente vinculantes. No entanto, a autoridade dessas decisões depende de sua conexão com processos públicos de formação da opinião.

A esfera pública não governa. Ela não decide leis nem administra políticas. Sua função é outra: fornecer informação, crítica e pressão aos processos institucionais de decisão. Ao obrigar governantes a responder a argumentos e justificações públicas, ela conecta o exercício do poder à exigência de explicação diante dos cidadãos. Nesse sentido, Habermas afirma que o processo comunicativo “racionaliza” o poder político: ele não o cria, mas condiciona sua legitimidade.

Essa formulação não surgiu de forma repentina na obra do filósofo alemão. Ela é resultado de um longo percurso teórico. Em Mudança Estrutural da Esfera Pública (1962), Habermas reconstruiu historicamente o surgimento de um domínio social — os públicos burgueses do século 18 — no qual cidadãos discutiam assuntos de interesse comum.

Nas décadas seguintes, a investigação deslocou-se para uma teoria mais geral da racionalidade e da comunicação. Na Teoria da Ação Comunicativa (1981), Habermas desenvolveu a ideia de que normas sociais só podem reivindicar validade quando podem ser justificadas em processos de argumentação. A partir dessa base, a chamada ética do discurso formulou o princípio segundo o qual normas legítimas devem poder ser aceitas por todos os participantes de um debate racional. Finalmente, em Direito e Democracia (1992), essas intuições convergiram em uma teoria completa da deliberação pública e da democracia deliberativa. O direito e as decisões políticas seriam legítimos apenas quando conectados a processos públicos de formação da opinião e da vontade coletiva.

Essa concepção inscreve Habermas em uma tradição filosófica que remonta diretamente a Immanuel Kant. Kant havia defendido que o uso público da razão constitui um princípio fundamental da vida política em sociedades livres. Ideias e decisões que afetam a coletividade devem poder ser expostas ao escrutínio público dos cidadãos. A publicidade das razões não é apenas um ideal moral, mas uma condição da legitimidade política.

Habermas retoma essa intuição e a transforma em um modelo de democracia. O que ele procura compreender é como o uso público da razão pode adquirir forma institucional nas democracias modernas. A resposta passa pela esfera pública: um domínio de comunicação no qual cidadãos podem expor argumentos, examinar posições contrárias e contestar decisões políticas.

Mas aqui é preciso distinguir dois sentidos diferentes de publicidade. O primeiro é simplesmente a visibilidade: o fato de que questões políticas são tornadas públicas e acessíveis ao olhar dos cidadãos. O segundo é mais exigente: a publicidade como debate público. Não basta que algo seja visível; é necessário que possa ser discutido, criticado e defendido por meio de razões.

A democracia deliberativa nasce precisamente dessa segunda ideia de publicidade. O debate público não é apenas uma sucessão de opiniões expostas diante de uma audiência. É um processo de troca pública de razões — o toma-lá-dá-cá de argumentos que se processa abertamente, acessível a quem quer que tenha um argumento a oferecer e se disponha a considerar o que os outros dizem. Nesse processo, os participantes do debate público apresentam razões para suas posições, respondem a objeções, examinam argumentos contrários e podem, em princípio, revisar suas próprias posições.

Para que esse processo seja possível, algumas condições mínimas precisam ser preservadas. As diferenças de opinião devem ser reconhecidas como legítimas. Os participantes do debate devem tratar uns aos outros como interlocutores válidos, capazes de apresentar razões que merecem consideração. E as interações precisam ocorrer em condições suficientemente horizontais para que todos tenham a possibilidade de falar, contestar e responder.

Essas condições não garantem consenso — e Habermas nunca imaginou que garantiriam. O que elas tornam possível é algo mais modesto e mais importante: desacordos que possam ser compreendidos e avaliados em comum. Ou, dito de outra forma, um terreno comum para que os desacordos possam ser livremente enunciados, defendidos e examinados.

As infraestruturas digitais ampliaram de maneira extraordinária as capacidades de visibilidade e participação da esfera pública

Esse é o ponto em que a reflexão habermasiana se encontra com os dilemas contemporâneos da vida pública. Nas últimas décadas, as infraestruturas digitais ampliaram de maneira extraordinária as capacidades de visibilidade e participação da esfera pública. Nunca foi tão fácil tornar um tema público, mobilizar audiências ou contestar decisões políticas.

Ao mesmo tempo, as condições sociais que sustentam o debate público parecem ter se fragilizado. A fragmentação dos públicos, a polarização política e a radicalização das identidades coletivas têm deslocado a comunicação pública em direção a lógicas de mobilização antagonista e de consolidação identitária. Em vez de um espaço compartilhado de contestação argumentativa, a esfera pública tende cada vez mais a se fragmentar em universos discursivos mutuamente impermeáveis.

Esse diagnóstico levou alguns observadores a declarar a falência das ideias deliberativas associadas a pensadores como Jürgen Habermas. Mas essa conclusão pode ser precipitada. A crise atual talvez não revele a obsolescência da teoria da esfera pública, e sim a fragilidade das condições sociais que tornam possível o seu funcionamento. Revela também, paradoxalmente, a necessidade ainda mais premente de garantir condições democráticas para que o atrito, a divergência, a disputa e o desacordo — ou qualquer outra forma pela qual sociedades pluralistas afirmem e acolham suas diferenças internas — funcionem em benefício da democracia e não para sabotá-la. Os maiores inimigos da divergência civilizada sempre foram o autoritarismo e a intolerância e precisam ser contidos.

A democracia nunca prometeu eliminar o conflito. O que ela prometeu foi algo mais modesto e mais exigente: submeter o desacordo à exigência de justificações públicas. Quando cidadãos deixam de reconhecer adversários como interlocutores legítimos ou quando argumentos cedem lugar à pura desqualificação moral, essa infraestrutura comunicativa da legitimidade começa a se deteriorar. A esfera pública não é um ideal de harmonia. É o espaço institucionalizado do desacordo civilizado.

Se há uma lição duradoura em sua obra, ela talvez seja esta: a democracia não depende apenas de eleições, instituições ou constituições. Ela depende também da existência de um domínio público no qual cidadãos possam expor lealmente razões, contestar decisões e reconhecer uns aos outros como participantes de uma mesma comunidade política. Sem essa infraestrutura comunicativa, o poder pode continuar a existir. O que desaparece é a sua legitimidade democrática.

Esse talvez seja o legado mais duradouro de Habermas: lembrar às democracias que a legitimidade do poder começa no espaço público onde os cidadãos discutem, contestam e se explicam diante dos outros; que, em sociedades livres, a autoridade política nasce menos da força do poder do que da força dos argumentos expostos em público. É nesse espaço frágil, ruidoso e indispensável de argumentos em público que Habermas acreditava que as democracias encontram, apesar de tudo, as razões para continuar existindo.