Reflexionando…

Diante dessa falta de inspiração que já tem me acompanhado há meses (anos?), campeando entre minhas antigas publicações, encontrei uma, de 2018, que fala sobre “solitude”. E isso me fez lembrar de uma outra, ainda mais antiga, de 2015, no qual falo da mesma coisa mas sem saber que tinha esse nome. Então resolvi unir o inútil ao desagradável e, diretamente lá das catacumbas deste blog, resgatei ambos os textos.

Divirtam-se.

Ou não.

Vai depender somente do quanto vocês estão propensos para ler qualquer coisa que, diferente das redes sociais, contenha mais de um parágrafo…


Solidário à solidão

( 02/NOV/2015 )

Em 2011 fui apresentado a um livro de Rilke – “Cartas a um jovem poeta” – que contém uma passagem bastante interessante. Antes de mais nada, para que compreendam um pouco melhor essa história, esse livro é uma coletânea da correspondência trocada no período de 1903 a 1908 entre o poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) e um jovem chamado Franz Xaver Kappus, com dicas e conselhos do mestre ao aspirante a poeta… Isso é de uma época em que as missivas eram longas, bem escritas e levavam dias, às vezes até mesmo semanas – ou mais – para que chegassem ao seu destinatário. E o curioso é que foram publicadas somente as cartas de Rilke, mas como ele se esmerava tanto em suas respostas acaba sendo até mesmo desnecessário conhecer o conteúdo das cartas que recebeu.

A passagem à qual me refiro é de uma carta de dezembro de 1903, quando o jovem poeta provavelmente deve ter se queixado da solidão que sentia com a proximidade do Natal. Rilke, escritor experiente, lhe falou acerca de determinados momentos em que as pessoas sentem uma grande solidão, muito difícil de suportar, e que seriam até mesmo capazes de trocar essa solidão por um relacionamento qualquer, por mais banal ou indigno que fosse, somente pela aparência de uma mínima concordância com o próximo… E então desfiou:

“Mas isso não deve confundi-lo. O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres.”

Por mais de uma vez eu já disse por aqui o quanto é importante saber gostar de ficar sozinho. Mesmo em meio a uma multidão, no dia a dia de casa, até mesmo no trabalho. Cultivar esse tipo de solidão não quer necessariamente dizer que se está alheio ao mundo que o cerca, nem mesmo busca nenhuma conotação de tristeza, sequer significa que se é solitário! É que é bom ficar sozinho. É bom conversar com as próprias ideias. Assim como uma criança, como sabiamente ensinou Rilke. Vejam que poderosa compreensão: “ser solitário como se era quando criança”. E penso na minha infância, antes mesmo de começar a frequentar a escola – pois somente com sete anos de idade é que entrávamos direto no primeiro ano do primeiro grau; nada de creche, infantil I, II, III, o escambau! – o meu mundo era o quintal de casa. Meus pais moravam numa avenida movimentada (aliás é onde vivem até hoje) de modo que sair para rua não era uma opção, ambos trabalhavam o dia inteirinho, meus irmãos mais velhos já eram adolescentes e não tinham tempo para um fedelho como eu, e assim o que me restava era inventar estórias, coisas e brinquedos naquele quintal gigantesco – aliás, exatamente o mesmo que, hoje, acho minúsculo…

Mas com o tempo, começando a participar do “mundo lá fora”, fui esquecendo esse prazer dessa solidão. Pois era, sim, prazerosa. Cada vez mais me envolvendo com pessoas, estudos, trabalhos, clientes, situações – e em especial tendo conhecido o quão cativante era a companhia do sexo feminino – houve um momento em que eu não mais conhecia, nem queria, ter que sentir nenhum tipo de solidão. Equivocadamente, para mim, qualquer tipo de solidão significava ser solitário. Quão ingênuo!

E então o ano de 2011 chegou, lançando minha vida numa tortuosa corredeira natural, consequência de todas as cascatas e quedas dos anos anteriores, com um correnteza alucinante e que, curiosamente, não fez com que essa mesma vida passasse mais rápido – antes o contrário, ela se tornou mais lenta e perceptível. Muito provavelmente pelo fato de ter saído totalmente da rotina e da estagnação em que me encontrava, pude apreender melhor o mundo ao meu redor. E, apesar da canoagem selvagem a que me lancei, ora raspando o fundo de meu coração em afiadas pedras de desapontamento, ora arremessando as laterais de minh’alma em sólidos barrancos de incompreensão e, às vezes, quase perdendo totalmente o controle da canoa de minha vida em redemoinhos de confusão sentimental, ainda assim encontrei meu caminho, meu fluxo, minha estabilidade. E isso somente foi possível graças aos bolsões de solidão que esse rio chamado tempo me proporcionou, entre um apuro e outro.

Foram nessas águas mais lentas, longe da imperiosa necessidade de me envolver em coisas que pareciam importantes e grandiosas (ao menos para minha própria existência), sem precisar me preocupar ou sequer entender desses afazeres, é que pude realmente voltar meu olhar para mim mesmo, para aquela danificada canoa de minha vida, e que pude perceber o quão caótico é o fluxo das águas do tempo, finalmente compreendendo que esse era o segredo: não há que se combater o caos, há que se deixar levar! Todos os desafios lançados por aquela absurda correnteza somente me magoavam porque eram resistidos, porque eram combatidos. Apenas lá, nos bolsões da solidão, tal qual criança voltada a si mesma, é que pude me reencontrar e consequentemente encontrar o caminho para águas mais mansas de viver.

Com sequelas, é óbvio. Não se passa por tudo isso sem se transformar. Aquele eu que já fui um dia deu lugar a um outro eu que sou agora. E nessa canoa de minha vida materializou-se um baú para trancafiar tudo aquilo que nubla a percepção. Somente assim o horizonte se tornou mais claro. O que não implica necessariamente em dizer que eu tenha me tornado uma pessoa melhor ou pior. Talvez, no mínimo, mais intrigante…

Enfim, toda essa metáfora foi para deixar claro que, tal qual como num outro texto que li recentemente, “para ser um bom par é preciso ser um bom ímpar”. Ou seja, não há que se procurar em outra pessoa o que está dentro de si. É preciso ter a capacidade de se sentir feliz sozinho, de descobrir seu próprio valor – o que, em absoluto, significa viver só. Apenas que é bom, ao menos de quando em quando, estar só. Curtir isso. Permitir isso. Viver isso. Somente assim, sem cobranças, sem imposições, de acordo com o próprio sacrossanto livre arbítrio com que somos dotados, é que se torna possível se deixar levar pelo caótico fluxo do tempo, que sempre vai nos apresentar novas armadilhas aqui e ali, mas que com leveza, cuidando bem de si, torna-se possível contornar, desviar ou – por que não? – até mesmo enfrentar. Mas com a segurança de que não existem obrigações. Não existem amarrações ou, sequer, a necessidade de ancorar em alguma margem. Não existe destino certo. Só existe o navegar rio adiante.

E não é justamente para isso que essa nossa canoa da vida foi criada?

Para navegar?…

 


Solitude

( 26/DEZ/2018 )

Oi?

Alguém aí?

Ninguém?

ÓTIMO.

É que já tem meses que escrevi algo que tivesse saído de minha própria cabeça e, na prática, ANOS que escrevi algo que realmente eu mesmo possa rotular de “interessante”…

Esse distanciamento deste espaço virtual se deu em parte por conta da correria do dia a dia (que – vamos combinar? – nem é tão corrido assim…), um tanto de crise criativa e outro tanto de ceticismo generalizado após acompanhar o FEBEAPÁ que grassa nas redes sociais

E não foi sem motivo que fiz uma boa faxina por lá. Não, não exclui ninguém – ainda que muitos merecessem – apenas “me” exclui. Explico. Tirando o Instagram, que na maioria das vezes é uma simpática diversão, o Twitter, onde praticamente ninguém se importa se existo ou não, e o Linkedin, que até hoje não tenho certeza do que estou fazendo por lá, restou-me o degenerado Facebook, um sangrento campo de batalha em que qualquer tentativa de demonstrar algum posicionamento (político, religioso, humorístico, filosófico, pessoal, fiscal, sexual ou seja lá o que for) invariavelmente desanda numa flame war digna de Game of Thrones!

Quer passar incólume por lá? Fácil. Basta se limitar a postar: fotos ou vídeos que mostram os queridos amigos ou a excelente família que você possui e como todos vocês se dão bem, quer sejam recentes, antigas, verdadeiras ou não; frases e citações bonitinhas que servem para estimular o lado positivo das pessoas, ainda que você jamais tenha lido uma vírgula sequer do autor da frase ou, pior, naquele costumeiro exercício insano de recortar-e-colar-sem-nada-checar, que tenha atribuído o texto a quem nunca o disse (e, talvez, jamais o dissesse); e pets. Não as garrafas, mas sim aquelas fotos e vídeos fofinhos de animaizinhos de estimação, nas quais as pessoas gastam horas admirando e readmirando, curtindo, comentando e compartilhando com todo o restante do UNIVERSO – mesmo quando os demais mortais que estão em sua timeline não tenham a mínima vontade de ter o mesmo peculiar e carinhoso olhar do remetente no que diz respeito aos pequenos monstrinhos.

Existem variações, mas a receita básica é essa.

Só que esse negócio já me deu nos pacová, de modo que eu simplesmente apaguei tudo, TUDO, que existia na minha timeline desde 2010 até outubro deste ano. Fotos, frases, vídeos, curtições, postagens, compartilhamentos, comentários, bate-papos, etc. Tudo. Tá certo que eu continuo sendo o neurótico do backup de sempre, de modo que tenho tudo isso muito bem guardado nas catacumbas de meu computador (para eventuais referências futuras…) – mas, lá na rede, mais nada.

Por quê?

Porque preciso – mais uma vez – voltar ao básico. Ao que é simples. Ao que é objetivo. Preciso ter foco.

Mesmo este blog sequer começou como blog! Como já contei antes, lá nos idos de janeiro de 98, o que era para ser uma simples página para consultas jurídicas paulatinamente foi se transformando, se moldando, se ajustando, até que, anos depois, viria a assumir sua natural vocação para se tornar um verdadeiro blog. E só para não deslembrar: BLOG corresponde ao acrônimo de WEBLOG, que nada mais é que uma página da WEB (rede) em que o LOG de dados (registro de eventos) tem suas atualizações organizadas cronologicamente de forma inversa, do mais antigo para o mais atual. Isso mesmo, é exatamente como um DIÁRIO, em que a primeira página disponível também foi a última a ser escrita.

Ah, eu e esse meu didatismo…

Mas, enfim, é como a mais famosa frase de uma série que sempre adorei, Battlestar Galactica“all of this has happened before and will happen again”… E com este ano de 2019 se aproximando, juntamente com tudo o que ele representa para este Velho Causídico que vos tecla, essa frase é mais sintomática que nunca. Pois já passei por isso antes, como, há anos, contei neste texto.

E é bem como está escrito lá, pois “não me sinto nem um pouco diferente, mas sei que não sou mais o mesmo”, pelo que me faz falta “uma época em que as coisas eram mais simples, a vida mais doce e a morte mais distante”… “Desde então tenho procurado algo que estava faltando. Aquilo que eu esqueci. O Básico

“Quero poder escrever sem saber se e quando vou ser lido. De mim para mim. E deixar lá. Palavras ao vento. Úteis ou não. Não me importa, nem quero me importar mais com o que em qualquer exato momento outrem estiverem fazendo ou pensando. Deixem seus registros e eu, também quando e se quiser, os verei.”

E não, não estou velho e amargurado. Nem solitário. Nem sofrendo de solidão. Mas de uma outra coisa, sim.

Solitude.

Palavrinha interessante, que me foi generosamente apresentada há não muito tempo e cujo conceito não me era estranho – somente não sabia que existia um nome para esse conceito. Inclusive meio que já escrevi sobre isso antes

Diferente da solidão, que é encarar o vazio – que pode se dar pela ausência de contato com outras pessoas, de se expor a relações ou mesmo de poder confrontar as próprias ideias – criando um verdadeiro isolamento de si mesmo (ensimesmar-se), a solitude diz respeito ao pleno contato consigo mesmo, não havendo necessidade de estar sempre em companhia de outras pessoas – e não há solidão por conta disso. É poder estar sozinho viajando numa nave no vazio do espaço e, ainda assim, satisfeito.

solitude confunde quem olha de fora, pois o observador tem a sensação de que não estamos bem, que estamos sofrendo, enquanto que a realidade é outra: é de paz.

E é essa a paz que busco.

Para isso me é necessário aprofundar-me um tanto numa solitariedade – sem abraçar a solidão – para atingir uma plena solitude

E tentar voltar a escrever.

Escrever como nunca!

Mesmo que não seja lido, como sempre…


 

Boa escrita para advogados que querem ser lidos

Philippe de Oliveira Nader
Advogado e consultor jurídico da Petrobras,
com atuação especializada em tribunais superiores.
Doutorando e mestre pelo Centro Universitário de
Brasília e pós-graduado em Direito Empresarial
(com ênfase na indústria de Óleo e Gás) pelo IBMEC.

Artigo publicado no JOTA em 05/07/2025.

O que tirar, o que manter e o que nunca escrever em um bom texto jurídico

A palavra escrita, uma das invenções mais poderosas da humanidade, se entrelaça com o Direito desde as origens da civilização. Da petição inicial ao recurso extraordinário, dos memoriais ao parecer, tudo no ofício jurídico depende da forma como organizamos nossos pensamentos antes de convertê-lo em texto – seja na tela, seja no papel, para os que ainda guardam o antigo hábito.

Sem a linguagem escrita, não nos reconheceríamos plenamente como seres humanos, nem teríamos construído grande parte do mundo em que vivemos, inclusive o mundo jurídico.

Não é fácil, porém, transmitir com precisão uma ideia por meio da escrita. Não basta um ato de vontade, uma decisão tomada na hora de começar a escrever. O biógrafo Ruy Castro já advertiu: ninguém escreve bem, alguns reescrevem bem. A boa escrita não nasce pronta. Confesso que me senti aliviado ao me deparar com a lição. Se até um imortal da Academia Brasileira de Letras precisa se dar ao trabalho de reescrever um texto diversas vezes, nós, os mortais, não poderíamos esperar menos esforço.

Um texto legível e fluido é resultado de um processo: muitos vai-e-véns, sucessivas podas, acréscimos, meias-voltas, alguns insights, arrependimentos e muita reescrita. Primeiro, organizam-se as ideias; depois, lapida-se a forma. Este artigo, por exemplo, não fugiu à regra. Foi reescrito uma porção de vezes até chegar à sua versão final.

Diz-se, com razão, que a clareza é uma gentileza que o escritor presta ao leitor, um gesto de empatia. Mas como se escreve com clareza? Antes de começar, é preciso clareza de pensamento: saber exatamente sobre o que será o texto, evitar se perder em ramificações do tema, seguir passo a passo a linha do raciocínio. É preciso saber de antemão de onde se parte e aonde se quer chegar. Qualquer texto, inclusive o jurídico, deve ser compreensível até mesmo para quem não domina o assunto.

Mas não se iluda: a inteligência artificial não fará tudo isso por você. É necessário saber escrever bem para, só então, utilizar a máquina com proveito máximo. Ela pode ser uma aliada poderosa, mas apenas nas mãos de quem domina a linguagem escrita e sabe desenvolver ideias complexas.

Elementos de persuasão, argumentos, ganchos retóricos e princípios de estilo devem ser fornecidos previamente pelo autor, ainda que em pequenas amostras, como exemplos ou modelos que sirvam de guia. A IA multiplica o que recebe, mas ainda não inventa, com precisão e elegância, aquilo que não foi lhe dado.

Abandonemos o latim jurídico, de uma vez por todas. Por um lado, porque sua grafia, não raro, aparece em petições com erros; por outro, porque se trata de um arcaísmo incompatível com a comunicação contemporânea. (DISCORDO!)

Não há mais necessidade de prestar homenagem à tradição romana por meio de uma linguagem morta. Já importamos e ainda utilizamos inúmeros institutos jurídicos romanos em nosso Direito. A estética da simplicidade venceu. Fiquemos, portanto, com a nossa língua luso-brasileira (para usar a denominação de nossa língua dada pelo ministro e poeta Carlos Ayres Britto), tão bela e cheia de significados.

Outra sugestão é eliminar palavras e expressões inúteis como aquelas fórmulas de início de frase: “vale ressaltar que”, “é importante frisar” — tudo isso deveria acender o alerta do revisor. Em geral, dizem pouco ou nada. Pior ainda: mostram que o autor não confia no que vai dizer, já que precisa de reforço de si próprio. Se algo é relevante, que se diga logo o que é. A supressão desses conectores inúteis torna o texto mais direto, firme e respeitoso com o tempo do leitor. Retirá-los, quando não fazem falta (e raramente fazem), é abrir caminho para uma argumentação limpa e eficaz.

Armadilha comum, especialmente entre advogados, é recorrer ao uso de sinônimos para termos técnicos. Na literatura, isso pode funcionar. No texto jurídico (e em qualquer linguagem científica), porém, a repetição de termos técnicos é aliada da precisão. Petição inicial não é “exordial”, tampouco “peça de ataque”. Supremo Tribunal Federal não é “Excelso Pretório”, nem “Sumo Aerópago”. Recurso Extraordinário não é “apelo extremo”.

Substituir termos técnicos consolidados é arriscado porque pode gerar ambiguidade. Ainda que os sinônimos possam trazer, num primeiro olhar, elegância e estilo, pode gerar dúvida no leitor a respeito de qual instituto jurídico está sendo tratando. Utilizar variações para termos comuns – “decisão/pronunciamento judicial”, “tribunal/corte”, “autor/requerente” – é aceitável, desde que não comprometa a clareza. Mas a orientação é simples: use o termo técnico consagrado e mantenha-se fiel a ele ao longo do texto. Clareza e precisão técnica não são ornamentos: são instrumentos de persuasão.

Também é essencial o uso de parágrafos curtos e frases bem pontuadas com sujeito, verbo e predicado, nessa ordem. Essa orientação é corriqueira nas falas do ministro Luís Roberto Barroso e encontra eco em boas práticas de redação jurídica contemporânea. Use, sempre que possível, a voz ativa. O próprio JOTA, por exemplo, estabelece que os artigos submetidos ao periódico devem conter “parágrafos curtos e bem pontuados”. Não somos Saramago. Trata-se de uma escolha de estilo, sim, mas, sobretudo, de respeito ao leitor.

Substitua o uso dos gerúndios pelo ponto final. “Tendo em conta que”, “considerando que”, no meio das frases costuma tornar o parágrafo prolixo e impedir as necessárias pausas entre as frases. Orações explicativas em excesso, aquelas postas entre vírgulas, devem ser evitadas, sobretudo quando o parágrafo estiver longo. Perde-se o fio da meada. Inicie uma nova ideia com uma nova frase. Boas dicas também podem ser encontradas na famosa obra de Antonio Gidi sobre redação jurídica.

Em The sense of style: The thinking person’s guide to writing in the 21st century, Steven Pinker nos ensina como escrever melhor a partir de estudos sobre o funcionamento do cérebro humano. Ele ensina que a compreensão deve se dar sem esforço desnecessário por parte do leitor. Nesse contexto, o escritor precisa tomar cuidado com a chamada “maldição do conhecimento”: quando o escritor presume que os leitores possuem a mesma base de conhecimento que ele, tornando o texto inacessível ou de difícil acesso (desencontro entre texto e leitor).

Por isso, é fundamental ter em mente que, ao escrever, se está transmitindo uma ideia a alguém que não a conhece. Em outra passagem, o teórico afirma que escrever é o mostrar o mundo ao leitor. O quanto se consegue esse intento é a medida do sucesso de um texto.

Se há uma máxima que todo advogado deveria impregnar na consciência é que o leitor jurídico em geral é muito ocupado. O juiz lê uma dúzia de petições por dia. O desembargador precisa decidir dezenas de processos por semana. O assessor de ministro enfrenta centenas de recursos por ano. O tempo é muito escasso e a atenção é disputada.

Por isso, não se deve escrever para impressionar. Deve-se escrever para ser compreendido. Isso implica escrever menos, organizar bem o texto, sinalizar os tópicos com clareza, evitar floreios e manter o foco. Bons títulos, boas aberturas, subtítulos bem escolhidos e transições suaves entre as partes fazem toda a diferença.

A escrita jurídica não é mero receptáculo do argumento, ela é constructo do argumento. A forma como se escreve influencia a credibilidade do que se escreve. Um texto confuso desmerece uma boa tese. Um texto claro pode valorizar uma tese mediana.

Trata-se, portanto, de abandonar definitivamente o mito de que “juridiquês” é sinônimo de rigor técnico. Escrever bem, com clareza, não é simplificar o Direito, mas torná-lo mais acessível, mais racional e, por consequência, mais persuasivo. É ser sofisticado.

A tríade recomendável é a seguinte: reescrever, simplificar e convencer. Menos jargões e arcaísmos e mais leitura de livros não jurídicos, porque ninguém nasce com habilidades inatas de redação. Afinal, escrever bem é advogar melhor. (CONCORDO!)

Dream, a little dream of me

Permitam-me contar-lhes um causo.

Era de manhã, creio que num sábado – mas talvez fosse domingo.

Estava na casa de meu pai, só que não era a casa de meu pai, mas, no momento, isso não importa.

E meu pai, técnico em consertar TVs que era, muitas vezes vinham pessoas que precisavam de ajuda para levá-las. E eu pensei que era somente uma TV um pouco maior que estava na bancada, mas tinham mais duas: uma média e outra pequena, que a acompanhavam. Todas antigas, daquelas de tubo.

De alguma maneira eu tinha conhecimento de que foi ela quem a havia trazido, mas as outras duas fiquei sabendo que foi sua irmã.

Prontifiquei-me a ajudá-la a levar os aparelhos, mas eu intimamente já sabia que só o fazia porque queria acompanhá-la, para onde quer que fosse.

E conosco seguiu a irmã, mais nova, mais magra e mais serelepe.

Fomos levar as TVs no restaurante da família.

Antes de atravessarmos a rua, parei para conversar com um senhor japonês, magro e bem mais alto que a maioria. Estávamos na orla de uma praça. Fumamos um cigarro enquanto conversávamos. Disse-lhe algum um gracejo sobre sua filha. Pois ela era filha dele. Ele concordou e riu. E por um momento fiquei surpreso com aquela abertura, mas intimamente achei bom que ele fosse mais propensoo ao proseio, afinal de contas, para eles, eu sou um mero gaijin.

Então ela surgiu. Veio em minha direção, atravessando a rua. Nem alta, nem baixa, cerca de um metro e sessenta e poucos? Talvez isso. Era fácil de perceber suas coxas grossas, mesmo pelas justas calças jeans que estava usando. Corpo bem torneado, mais que o usual no caso das japonesas. Seios exatos. Um rostinho de lua cheia rasgado por um par de estreitos olhos siameses, adornados por um corte de cabelo “semi chanel”. Não sei se existe um corte assim, mas era um corte assim. E uma irresistível boquinha, pequena, reta, com lábios bem desenhados, sutilmente compondo de maneira perfeita esse quadro.

Assim que elas se aproximou, no momento em que ficou ao meu alcance, abracei-a e beijei rápida e sucessivamente aqueles lábios, numa incontável sequência de selinhos, percebendo que, com isso, ela meio que sorria, quando então parei, olhei surpreso para seus olhos e lhe disse:

— Oh! É você?

Eu finalmente a reconhecera. Mas ainda não sei quem era.

A irmã dela, ali por perto, nos rondando, riu com gosto.

E ela sorriu, mas me olhou preocupada. Disse que precisávamos conversar.

De repente me vi como acho que hoje me vejo: velho, sábio e cansado. E explicando algumas realidades da vida para ela.

— Já estou muito velho pra isso. Já passei por isso antes. Deixe-me tentar lhe explicar. É certo que as pessoas, em sua grande maioria, gostam de pensar somente na sacanagem da coisa. Mas, para mim, é muito mais que isso. É, antes de mais nada, uma questão de confiança. De ambos os lados. Sequer precisa haver sexo. É preciso dividir o afeto que se dá para multiplicar o carinho que se recebe.

E me lembrei de um episódio da série House. Mas não não tenho nem ideia de qual episódio era.

MAS ISSO TUDO FOI APENAS UM SONHO !!!

Não sei de onde veio toda essa situação, mas veio com uma nitidez de detalhes, como uma lembrança de algo que realmente tenha acontecido. Lembro-me do dia agradável, nem quente, nem frio, de meus dedos transpassados em seus cabelos, de seu cheiro, de seus lábios, de seu sorriso contido.

E toda vez que tento pensar em seu nome, ele me foge. Sabe quando você tenta lembrar de uma música e não consegue? É quando se tem tem aquela música em que algumas notas ficam tocando lá no fundo de sua cabeça – mas, de repente, surge alguma outra música por cima e encobre a que você tentava lembrar. Quando penso em seu nome, tenho certeza que começa com a letra “O”, mas quando começo a focar, quando começa a surgir uma sonoridade, a palavra “ORIGAMI” invade minha mente, surgindo como um gigantesco carimbo numa folha de seda, encobrindo totalmente seu nome.

E ainda me soa estranho essa certeza, essa tranquilidade ao tratar de um tema, de uma situação, pela qual nunca passei.

Até porque foi um sonho.

Ou não?…


Emenda à Inicial: Para os curiosos de plantão que estranharem o também curioso título deste post, trata-se do nome de uma música composta no início da década de 30 por Fabian Andre e Wilbur Schwandt, com letra de Gus Kahn, com várias regravações, inclusive com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong em meados da década de cinquenta e até mesmo por Zélia Duncan no começo dos anos 2000 – mas a que acabou fazendo mais sucesso e até hoje é relembrada é esta versão de 1968 com a interpretação de The Mamas & The Papas.


Invenção perfeita?

Vocês têm NOÇÃO de que um dos “instrumentos” que vocês usam provavelmente diariamente (ao menos eu espero que sim) foi inventado há cerca de 135 anos e permanece praticamente inalterado até os dias de hoje?

Para vosso “conhecimento técnico”, segue abaixo o pedido de patente feito em 1891 (via Google Tradutor, pois eu estou com preguiça):

ESCRITÓRIO DE PATENTES DOS ESTADOS UNIDOS.

SETH WHEELERR, DE ALBANY, NOVA IORQUE.

ROLO DE PAPEL HIGIÊNICO

ESPECIFICAÇÃO que faz parte da Patente nº 465,588, datada de 22 de dezembro de 1891.
Pedido apresentado em 8 de junho de 1891 – Nº de Série 395.473. (Sem modelo.)

A quem possa interessar:

Saibam que eu, SETH WHEELER, da cidade e condado de Albany, Estado de Nova Iorque, inventei certas melhorias novas e úteis em rolos de papel higiênico; e declaro que a descrição a seguir é completa, clara e exata, com referência aos desenhos anexos, que fazem parte desta especificação.

Minha invenção consiste em um rolo de folhas de papel conectadas para uso higiênico, dito rolo tendo incisões em intervalos que se estendem da lateral da bobina em direção ao centro, mas sem se encontrarem, e terminando em um corte angular, permitindo que a leve conexão restante seja separada sem danificar as folhas conectadas. Uma dificuldade com bobinas desse tipo, fabricadas até então, devia-se à largura da ligação que unia as folhas, a qual precisava ser consideravelmente resistente para suportar a tensão do enrolamento, mas que era desejável ser o mais estreita possível quando a bobina fosse desenrolada; caso contrário, as folhas não se separavam com certeza e muitas delas rasgavam. Tentativas foram feitas para remediar isso por meio de incisões na ligação que não a enfraquecessem longitudinalmente; mas tais incisões são pouco eficazes, a menos que as folhas sejam puxadas em uma determinada direção – uma condição que o usuário raramente considera ou da qual está ciente. Em minha bobina aprimorada, supero isso completamente reduzindo a ligação e terminando as incisões laterais em um corte angular, eliminando qualquer possibilidade de danificar as folhas ao separá-las. Com essa construção, uma folha pode ser separada da seguinte sem o risco de as incisões girarem em uma direção paralela à teia e rasgando uma parte considerável da folha contígua. Ao mesmo tempo, enrolo rolos contendo qualquer número desejado de folhas.

Nos desenhos, a Figura 1 é uma vista do meu rolo de papel com incisões arqueadas e serrilhadas com uma folha pendurada nele. A Figura 2 representa uma folha de papel destacada.

O rolo é composto de muitas folhas conforme b, na Figura 2, de papel macio adequado para uso de higiene pessoal. Essas folhas são produzidas por incisões arqueadas e serrilhadas, como mostrado em c’ c” c”‘ na Figura 1, que se estendem da borda de cada folha quase até o centro, onde as incisões terminam em um corte angular na direção do rolo e da linha central da série de folhas, deixando uma leve conexão d, que serve para manter as folhas juntas. O corte angular serve para dar ao rasgo final, quando a folha é separada, uma direção para a linha central da série de folhas e evitar que ele siga um curso paralelo a ela. As incisões são feitas suficientemente espaçadas para dar uma folha de papel adequada para uso, conforme mostrado na Figura 2.

A conexão d, conforme mostrado na Figura 1, permite o fácil corte de uma folha de papel de um rolo, que permanecerá intacta e sem gerar resíduos. O modo curvo de dividir as folhas permite encontrar a extremidade de uma folha mais facilmente, e as serrilhas auxiliam materialmente pra prender a extremidade de uma folha quando esta não estiver pendurada em um rolo; porém, não me limito a esta construção, pois é óbvio que uma terminação angular pode ser dada a incisões que não sejam curvas nem serrilhadas.

Eu reivindico —

Um rolo de papel parcialmente dividido em folhas por incisões laterais que se estendem das laterais da bobina em direção ao centro das folhas, cada folha sendo conectada à seguinte por uma lingueta em forma de A, substancialmente como descrito.

SETH WHEELER.

Testemunhas:
E. J. WHEELER,
WM. A. WHEELER.

E para quem duvidar, eis aqui uma cópia do pedido original: