O Mundo Neuro Explodiu

Eduardo Marcondes
É jornalista há mais 20 anos, com ênfase na atuação em rádio e televisão.
Foi repórter, editor e apresentador, com passagens por diversas emissoras
com sede na capital paulista, principalmente o Grupo Bandeirantes e o SBT.
Atualmente faz pós-graduação em Marketing Digital e Mídias Sociais

Crônica publicada no Blog do Eduardo Marcondes em 08/05/2026.

Hoje em dia tá puxado. Tudo começou discretamente, quase inocente. Apareceu o neurologista. Certo. Faz sentido. O cara cuida dos seus neurônios — essas pequenas maravilhas elétricas que ficam no seu cérebro mandando mensagens uns para os outros como se fossem vizinhos fofoqueiros numa lista de WhatsApp. Um neurônio recebe um sinal, passa para o próximo, que passa para o seguinte, e assim seu braço levanta, seu coração acelera, você lembra que esqueceu o aniversário da sua mãe. Tudo bem. Médico de neurônio. Aceitável.

Daí veio a neuropsicologia. Aí começou a bagunça. A neuropsicologia é a ciência que resolveu juntar o cérebro com o comportamento — como se não bastasse um ser complicado, precisavam complicar os dois ao mesmo tempo. O neuropsicólogo olha pro seu cérebro e diz: “interessante, a forma como você procrastina às 23h sugere uma disfunção no seu córtex pré-frontal.” Você responde: “ou então eu tô com preguiça.” Ele insiste. Você desiste. Afinal, ele tem diploma.

Logo depois surgiu a neuropedagogia e eu já comecei a ficar um pouco confuso. Neuropedagogia é quando a pedagogia olhou pra neurociência e falou: “posso entrar também?” É o estudo de como o cérebro aprende. O que, convenhamos, é uma ideia magnífica — exceto pelo fato de que toda criança de 6 anos já sabia que aprende melhor brincando, e não precisou de nenhum escâner para descobrir isso.


Mas aí a coisa foi escalando. Foram chegando, um a um, como convidados que ninguém chamou para a festa: a neurociência cognitiva, que estuda como você pensa. A neuroeducação, que estuda como você aprende a pensar. A neurolinguística, que estuda como você fala sobre o que pensa. A neuropolítica, que estuda por que você vota em quem você pensa que vai resolver o que você aprendeu que é problema. E a neuroeconomia, que descobriu que você gasta dinheiro de forma irracional — novidade que qualquer dono de mercadinho já sabia há cinquenta anos.


Daí virou bom humor total. Abriu-se o banquete.

Hoje tem comida neuro. Alimentos que ativam, estimulam, nutrem, potencializam e praticamente fazem seus neurônios dançar. A amêndoa agora não é mais amêndoa — é um neurocognitivo funcional de alta biodisponibilidade lipídica. O café é uma bebida de modulação dopaminérgica com efeito estimulante no sistema de recompensa. Tradução: amêndoa e café. Sempre foi amêndoa e café.

Tem neurovisagismo — que analisa o formato do seu rosto para entender sua personalidade. Espera. Isso não era frenologia? Não, não. É completamente diferente. A frenologia analisava o crânio. O neurovisagismo analisa o rosto. Completamente diferente. Totalmente.

Tem neurocabeleireiro. Juro. O profissional que, ao cortar seu cabelo, leva em conta sua neurologia, seu estado emocional, os hemisférios cerebrais e a harmonia energética do seu ser. O resultado é um corte que te faz sentir bem. O que, se você parar para pensar, é exatamente o que qualquer bom cabeleireiro sempre fez — mas agora com um nome mais caro.

E tem o neurofitness. Exercícios que não apenas malharam seu corpo, mas reprogramaram seus circuitos neurais. Você não faz agachamento. Você está estimulando a neuroplasticidade motora e o eixo hipocampal-cerebelar. Você não corre. Você modula sua resposta ao cortisol através de protocolos aeróbicos de ativação frontal. O resultado? Você cansa igual. Mas chega em casa achando que ficou mais inteligente.


Sério, agora: o estudo dos neurônios importa — e muito.

As descobertas sobre o funcionamento cerebral revolucionaram a medicina, a educação e a psicologia. Compreender como os neurônios se conectam, como se perdem nas doenças degenerativas, como se reorganizam após um acidente vascular — isso salva vidas e muda a qualidade delas.

Mas o estudo do cérebro humano é genuinamente difícil. Extraordinariamente difícil.

A ressonância magnética funcional consegue detectar pequenas alterações no fluxo sanguíneo e na oxigenação dos tecidos cerebrais onde ocorre ativação neuronal — mas ela mostra onde o sangue flui, não o neurônio em si disparando. É uma sombra da atividade, não a atividade. O desenvolvimento da ressonância magnética e da tomografia por emissão de pósitrons revolucionou a imagem cerebral, proporcionando uma visão detalhada da estrutura e função do cérebro vivo — mas há limites que a física impõe e a medicina ainda respeita. Dr. Erich Fonoff.

Quando não basta observar de fora, existe a craniotomia com paciente acordado — sim, abrem a cabeça e o paciente conversa com os médicos durante a cirurgia. A cirurgia com paciente acordado combinada com ressonância magnética intraoperatória permite identificar áreas residuais de tumor não visíveis ao neurocirurgião — e o paciente permanece consciente justamente porque o cérebro não tem receptores de dor. A cabeça dói. O cérebro, não. NIH.

E quando acontece o acidente que ninguém esperava — aí a ciência aprende com a tragédia.

Em 1848, Phineas Gage sofreu um acidente no qual uma barra de ferro de cerca de 1 metro foi lançada diretamente em seu crânio, atravessou seu cérebro e emergiu do outro lado, causando danos graves ao seu córtex pré-frontal. Ele sobreviveu. E foi aí que a neurologia aprendeu algo que não conseguia aprender de outra forma: antes considerado um trabalhador responsável e respeitado, Gage se tornou impulsivo, rude e incapaz de controlar suas emoções. O caso da barra de metal sinalizou as bases biológicas em que se apoiam processos psicológicos abstratos, como a gestão de emoções e a tomada de decisão. NeuroConhecimento.

Uma barra de ferro ensinou à humanidade que a personalidade mora no lobo frontal. Às vezes o conhecimento vem de onde menos se espera — e doendo muito, muito mais do que uma sessão de neurofitness.


Bem. Chegamos ao fim.

Este texto foi escrito por mim — um neurocronista —, que atingiu com precisão cirúrgica os circuitos de atenção do seu córtex pré-frontal, ativou sua amígdala com pitadas de humor, modulou seu sistema de recompensa com informação relevante e ancorou memórias afetivas com o uso estratégico da ironia.

Em outras palavras: apliquei neuromarketing em você.

Espero que tenha gostado.

Seu cérebro, com certeza, gostou.

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