Ócio criativo

Já tem dias que estou querendo somente cumprir o que me propus aqui neste espaço virtual: escrever um texto original ao menos uma vez por semana.

Mas não vai.

Não sai.

Não sei, ou melhor, não consigo identificar o motivo… Talvez seja a diminuição de ritmo e de tensões pós-eleição. Talvez seja o aumento de ritmo e de tranquilidade no trabalho. Talvez seja porque não quero pensar na vida alheia e no mundo como me cerca. Talvez seja porque absolutamente tudo que acontece ao meu redor me chama a atenção e de alguma forma me preocupa. Talvez seja pelo velho costume de ouvir e aconselhar mais que opinar. Talvez seja pela saudável rotina do lar. Ou, talvez, seja simplesmente porque estou sem assunto. Minto. Assunto sempre existe. Qualquer casualidade NO MUNDO é capaz de gerar algum texto. Às vezes nem sempre um bom texto, mas, no mínimo, UM texto.

E casualidades existem de sobra. Nem tão casuais assim. Coisas grandes como novos rumos na política regional ou julgamentos hipócritas desde já considerados históricos. Ora, vamos combinar? Deixemos que a história selecione por si própria o que vai ou não permanecer relevante com o passar do tempo!

Mas tergiverso.

(Sempre gostei dessa palavra. Sempre odiei essa palavra. Mas não podia deixar de usá-la…)

Falávamos de casualidades. Das grandes. Mas as pequenas, aquelas que me cercam e me afetam, também dariam algum conto. Como, por exemplo, o tradicional abrir dos cofrinhos de moedas para o Dia das Crianças (lembram-se?); a cirurgia amputacional que nossa velha gata, a Lua, está prestes a sofrer; uma raridade genealógica encontrada a preço de banana num obscuro sebo da Capital; os odiosos sonhos e pesadelos que me afligem sempre que durmo demais (entenda-se por dormir demais: qualquer coisa que extrapole minhas usuais 4 a 6 horas de sono); enfim, pequenos detalhes do dia a dia que poderiam ser transformados num saboroso (ou insípido) texto para degustação alheia.

Mas nada me apetece e continuo nesse ócio criativo. Nessa inatividade, uma indiferença, uma inércia, uma preguiça, ou quaisquer outras palavras que o dicionário queira me abastecer para expressar meu estado de espírito…

Pode ser mesmo que seja um sinal destes tempos cada vez mais modernosos e conectados pelos quais passamos. Este blog – ou, como carinhosamente costumo dizer, este cantinho virtual -, que aproxima-se de seu décimo quinto ano de existência (apesar de através do tempo variar em seus próprios nomes e formatos), já foi mais profícuo. Já foi mais produtivo. Mas isso foi num passado que sequer sei avaliar se recente ou não, dada a velocidade dessa tecnologia de comunicação em massa que caminha a passos largos demais para que velhos dinossauros como eu possam acompanhá-la. Afinal de contas pra que escrever algo mais elaborado, haja vista que a maioria das pessoas mal consegue passar do segundo parágrafo? Aliás, se você conseguiu chegar até aqui nesta minha maçante narrativa, parabéns! O mundo da comunicação atual é visual, impactante, de frases curtas e de efeito. Eu mesmo já brinquei – e brinco – um pouco com tudo isso. Vejam só:

– o Facebook me instiga a rapidamente expressar o que estou pensando;

– o Twitter o tempo todo me questiona o que estou fazendo;

– o Foursquare não sossegua enquanto eu não informar onde estou;

– o Instagram vive me tentando a mostrar o que estou vendo;

– e, como se já não bastasse tanta coisa, os celulares que carrego não me dão sequer um momento de solidão ou privacidade!

Resta algo, depois de tudo isso?

O público imediato e a pronta resposta a essas telegráficas possibilidades de mensagens ao mundo, bem, esse “poder” de fato cativa. Não há que se escrever. Não há que se desenvolver uma idéia. Não há que se ter técnica ou conhecimento. Basta, às vezes, apenas o apertar de um botão.

E isso, acho eu, tem me cansado.

Muito.

Mas o talvez do talvez do talvez seja simplesmente porque ainda não acabei de ler um livro com crônicas selecionadas de Rubem Braga. É encantador. Ele, certamente, foi o mestre dos (bons) cronistas modernos. O melhor blogueiro que já conheci – de uma época em que não existiam blogs. Nem Internet. Sequer computadores! É totalmente delicioso seu jeito simples e despretensioso – melancólico até – de contar pequenas passagens, muitas vezes da própria vida. Para se ter uma idéia, uma simples borboleta amarela avistada num trajeto qualquer no centro da cidade foi capaz de render um dos mais cativantes textos que já li. E constatar isso, essa riqueza e multiplicidade de emoções que um bom texto pode ser capaz de proporcionar, me deixa quase que envergonhado de renegar o poder e a força da escrita em prol de uma rápida manifestação com audiência cativa.

Ora, afinal de contas nunca me propus a escrever pra ninguém!

E talvez seja o momento de começar a me silenciar nessas chamadas “redes sociais”. Até porque nunca fui lá muito sociável mesmo… Não, não hei de me calar – acho que não conseguiria. Já tentei antes. Mas, creio eu, minhas energias podem e devem ser concentradas no desenvolvimento de histórias e estórias com, ao menos, alguma qualidade. Ou utilidade. Ou satisfatoriedade. Sei lá. Escolham o substantivo que melhor lhes aprouver!

E, vejam só, pra quem não tinha nada para dizer, acabei por dizer muita coisa para poder, ao fim, não dizer nada…

Momento National Geographic?

E eis que ontem pela manhã estávamos numa caminhada debaixo de um sol – literalmente – de rachar taquara. Paramos por alguns momentos à sombra de algumas árvores para descansar, prosear e reidratar (estou falando de água, ô cambada de hereges!). Foi quando percebi numa das árvores flores em botão e outras já despertas. Me interessei, analisei, até fotografei – quando então a vi.

À minha esquerda, praticamente gritando por atenção.

Um tom violáceo perfeito!

Que fazia ele ali?

Despontando teimosamente pelas frestas de um alambrado, uma flor de uma delicadeza impossível de se captar com uma câmera, exuberante e orgulhosamente se exibia.

Apaixonei-me!

Perdida num caótico verde de um ainda mais caótico quintal ela se destacava por si só…

Da foto que tirei, mais tarde a Dona Patroa, numa mera visão de relampejo sentenciou-lhe o nome. Sim, era em japonês. Não, não me lembro. Mas, segundo ela, seria uma flor que dura apenas uma manhã.

Fucei mais um pouco e me deparei com uma enorme gama de nomes para essa mesma flor, começando com Morning Glory e passando para as mais diversas variações, tais como Glória da Manhã, Corda-de-Viola, Hipoméia, Jitirama, Corriola, Campainha, Flor-de-Cardeal, Trepadeira-de-São-João e muitos outros mais. Cientificamente falando, apenas Ipomoea purpurea.

Não importa aqui descrever seu caráter malandro e vaidoso, de quem é conhecida como flor ornamental mas, por muitos, só é vista como erva daninha. Ela é assim mesmo, vai chegando, se espalhando, possuindo, se alastrando e, quando menos se espera, esse verdadeiro súcubo floral, já tomou conta de tudo! Difícil de se prever, impossível de se controlar!

Não vou falar de seu lado oculto, que até passa despercebido daqueles que a cercam. Não, não se incomode, não é vergonha nenhuma! Você é assim, foi criada assim, aceite isso… Só cuide para que suas sementes fiquem sob controle, essas mesmas, que tem um antigo histórico de uso como psicodélico. Nossos antepassados da cultura asteca, para seus ritos mágicos, não conheciam o LSD mas conheciam a você…

Não vou sequer falar de todo o simbolismo ocultista (ou mesmo sexual?) que suas folhas em formato de coração podem trazer para aqueles que estão à sua volta.

O que quero falar é sobre sua tão serena quanto pequena existência.

Vejam só: apenas uma manhã.

Uma flor que, ainda que tenha seu nascimento sob um glorioso sol, está fadada a jamais ver as estrelas.

Existe por tempo suficiente apenas para que os insetos e pássaros possam cumprir sua função de polinização, garantindo a existência de sua espécie, mas jamais a sua própria.

Não aguardará, ansiosa, por dias de chuva. Não se incomodorá se a tarde promete ser de ventania. Não acompanhará as crianças que diariamente passam por sua calçada, rumo à escola, à casa da tia, ou para qualquer outra traquinagem. Não servirá como um buquê para ser presenteada à paixão da vida de alguém. Sequer poderá ornar os cabelos da amada, numa noite quente, regada a vinho e seresta sob o luar.

Pois você já não estará mais lá.

Terá cumprido sua função e terá partido.

Não retornará, por si, nunca mais.

Então fiz bem em encontrá-la.

Então fiz bem em apaixonar-me.

Em, ao menos, tentar registrar sua cor, suas voltas, seu sutil e imperceptível perfume natural.

Pois, ainda que eu volte ao mesmo local, jamais a encontrarei novamente. No abafado calor desta noite, enquanto insone semeio palavras neste texto, você já partiu. Para sempre. Para nunca mais.

Efêmera.

Ou seja, ligeira, passageira – até mesmo ilusória.

Efêmera.

Essa, de fato, é a palavra que te define. Que te traduz.

E é somente na minha memória que você continuará existindo.

Então, adeus, pequenina flor…

Pequenas surpresas

“A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória.”

Esse é um “ditado” que sempre ouvi por aí – e do qual também sempre gostei. É a materialização, duma forma mais poética, de outro: “aqui a gente planta, aqui a gente colhe”. Uma bela filosofia. É, na minha opinião, uma espécie de lei universal. Faça o bem, colha o bem. Faça o mal, colha o mal. Simples assim.

Mas o que eu não sabia – e que sinceramente me surpreendeu – é que a provável fonte de tais palavras seria um tantinho quanto mais antiga…

Basta uma pequena consulta àquele livro que provavelmente todos têm, mas que certamente pouquíssimos leram. Não, não. Esqueçam o missal. Estou falando de LER mesmo, como leriam um romance, uma aventura, ou, até mesmo, um livro de poesias. É fato que raros são aqueles que realmente o fazem – ou fizeram…

Hm? Qual livro? A Bíblia, é lógico!

E o trecho ao qual me refiro está lá em Galátas, capítulo VI, versículo 7:

“Tudo o que o homem semear, ele há de ceifar.”

Bonito, não é mesmo?

Aliás, só pra contextualizar: Paulo, em suas pregações, enviou epístolas (cartas) a uma boa parte do mundo antigo – que se encontram reproduzidads na forma de diversos dos livros do Novo Testamento. No caso da Galácia, esta era uma província romana da Ásia Menor e as epístolas às igrejas de lá foram escritas provavelmente entre os anos de 55 e 57 – quanto Paulo encontrava-se em Corinto.

O curioso é que naqueles primórdios nem sempre havia uma distinção clara entre judaísmo e cristianismo. Ou seja, entre os costumes daqueles voltados às tradições do Velho Testamento e daqueles que abraçavam os ensinamentos que viriam a constituir o Novo Testamento. No caso dos Gálatas, tratavam-se de judeus convertidos, que continuavam a observar a Lei Antiga e, por isso mesmo, encontravam-se numa espécie de “crise de identidade cristã”. Paulo lhes escreveu num momento em que o cristianismo corria o risco de perder a força e tornar-se meramente uma seita judaica…

Questão de equilíbrio

– Querida!

– Querida!

– Há quanto tempo! Como você está?

– Ah, sei lá… Estou bem, sabe? Numa correria danada, mas faz parte, né?

– É, eu sei. A gente só acaba encontrando quem a gente gosta assim, meio de sopetão!

– E não é que é? E você, menina? Também continua na correria, sempre cuidando dos outros, né? Falando nisso, e aquele seu tio que eu gosto tanto? Como ele está?

– Ah, daquele mesmo jeitinho. Um pé na cova e o outro na casca de banana!

– ?

– Mas agora preciso ir, já me chamaram para a próxima audiência! Um beijo!

– Beijo! Tchau!

E fiquei eu lá, cuidando das minhas coisas, da minha papelada, das minhas audiências. Mas aquela frase ficou na minha cabeça! Como assim “um pé na cova e outro na casa de banana”? O complicado de frases como essa é que a gente fica imaginando a situação… E na minha mente o pobre tio de minha amiga, meio que moribundo, meio que melhorando, bailava sobre sua própria cova, ora indo para um lado, ora indo para outro…

Mas a vida não nos dá tempo para devaneios! E a correria do dia a dia se sobrepõe a tudo! Dali para as compras, das compras pra casa, e em casa os gêmeos que me dão tanta felicidade quanto trabalho… Não tanto trabalho quanto o maridão, mas essa é uma outra história! Mas, pouco antes de dormir, mais uma vez lembrei-me de minha amiga, seu tio e a inusitada frase que usou para descrever a situação…

E naquela noite sonhei com ele, com covas, com paisagens deslumbrantes que conheço e jamais vi, e – lógico – com cascas de banana!

Dia novo, vida nova, afazeres de sempre, audiências de sempre.

Entretanto, mais certo que em eventos sociais, é no balcão do fórum que a gente sempre se encontra. E dali a duas semanas lá estávamos nós, novamente.

– Querida!

– Querida!

– Vai consultar algum processo?

– Não, não! Já fiz carga. Inclusive já estou até indo!

– Então tá bom. Mas, escuta: e seu tio? Como está?

– Ah, daquele mesmo jeitinho, né? Um pé na cova e o outro na casca de banana!

Pronto. Lá veio ela com aquela bendita frase de novo! Levei dias para esquecê-la e agora eis que ela volta pra me assombrar…

E não demorou muito, eu, já no mercado, durante as compras semanais de sempre – que talvez seja um dos únicos lugares fora o salão de beleza em que conseguimos pensar com calma – voltei a pensar naquela frase. E só pude concluir que normalmente ficamos tão absortas na correria que deixamos a vida passar. Deixamos de viver, de passear, de nos divertir, de conhecer gente nova, lugares novos, até mesmo de simplesmente comer todos os chocolates que pudermos, só para tentar dar conta desse carceireiro chamado tempo que teima em nos roubar o que de mais precioso temos. E quando menos esperamos podemos ficar numa situação como a desse tio de minha amiga. Nem bem, nem mal, mais pra lá que pra cá. E esse tempo que nos foi levado? Pra onde foi? Como pegá-lo de volta?

Semanas se passaram até que a vi de novo. Lógico, nos corredores do fórum. Lá vinha ela com aquele seu tradicional passinho lépido e já antevi o nosso usual encontro de segundos. E de antemão aquela frase também já me veio à cabeça: “um pé na cova e outro na casa de banana”

– Querida!

– Querida!

– E seu tio, como está?

– Então, menina. Escorregou!