Mais Roseanices

E essa minha criançada não cansa de me surpreender…

Desta vez novamente foi o Jean, tal e qual a anterior.

Ontem à noite, meio que perdido em meus pensamentos enquanto a chuva fina e insistente despencava fora da área, estava lá eu empurrando o balanço e conversando com esse pequenino senhor que, do alto dos seus seis anos de idade, me contava como foi seu dia, suas opiniões, relatos e conclusões. No meio disso tudo, me veio com essa:

– Sabe, tem aquele brinquedo que você nos deu – que é um igualzinho ao outro? Então, o Kevin quebrou o dele. O meu não, o meu tá guardadinho. Mas o dele só quebrou porque ele deixou num lugar descuidadoso!

Solidão

FÁTIMA IRENE PINTO

Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo…
isto é carência.

Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem
mais voltar…
isto é saudade.

Solidão não é o retiro voluntário que a gente
se impõe às vezes, para realinhar os pensamentos…
isto é equilíbrio.

Tampouco é a pausa involuntária que o destino
nos impõe compulsoriamente, para que revejamos a
nossa vida…
isto é um princípio da natureza.

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado…
isto é circunstância.

Solidão é muito mais que isto…

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão, pela nossa Alma!


Viver não dói

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos, por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.

Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante
e paga pouco, mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim
que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.

Pois é…

Meu xará sempre me surpreende com algo que jamais vi escrito antes – o que comprova o quão profundamente conheço tão superficialmente sua obra…

Consignações

Eu, sinceramente, gostaria de ter o dom da escrita…

Àqueles que pensarem em me contradizer, já contradigo: sou um mero narrador. Exagerado. Bem humorado. Floreado, Ríspido até. Mas, ainda assim, um mero narrador.

Fico imaginando como seria delicioso poder contar histórias e estórias, experiências de vida, convicções pessoais, sentimentos sinceros e confusos – tudo isso nunca através de minha própria boca, mas sim por meio de personagens!

Mas o dom da criação da vida literária me foge…

Pequenos avatares imersos em seu próprio mundo fictício – ou não – que dariam vazão às mais profundas e ocultas ideias que se passam na minh’alma. Situações ocorridas ou apenas imaginadas dentro de um passado ou futuro que poderiam se materializar virtualmente por intermédio de personalidades criadas com o intuito final de compartilhar tanto minha visão quanto minhas impressões do mundo e das pessoas que me cercam.

Confesso que já tentei.

E já me frustrei.

É fácil, para mim, me colocar na situação de qualquer outra pessoa. Mas é extremamente complicado conseguir passar qualquer mensagem como se fosse outra pessoa. E isso, por si só, já mata qualquer personagem no nascedouro.

Complicado.

E – vamos combinar? – eu sou um cara complicado.

Mas, em termos de narrativa, quero crer que consigo me manifestar razoavelmente bem. Muito melhor, inclusive, que pessoalmente. Ou seja: escrevo melhor que falo. As palavras, pensamentos, tiradas, ideias, enfim, tudo que se passa na minha cabeça acaba fluindo muito mais fácil e naturalmente para as pontas dos dedos que para a ponta da língua.

Porém, sempre em primeira pessoa.

É e sempre será o meu ponto de vista.

E, às vezes, tenho a nítida impressão de que seria preciso um avatarzinho qualquer para poder falar o que é preciso, interessante ou necessário. Lobato que o diga! Ou melhor, Emília.

E o que necessariamente eu quero dizer com tudo isso?

Boa pergunta.

Nada.

Tudo.

Talvez seja simplesmente porque acho que tenho ideias demais transbordando para todos os lados (rompendo os diques d’alma, como costumo dizer) – mas espaço, leitores ou ouvidos de menos para poder materializá-las…

Ocaso

Tirando o pó da estante, eis que me deparo com Alphonsus de Guimaraens (tem mais um pouquinho dele aqui). Apesar de suas poesias serem um tanto quanto lúgubres – amor e morte sempre estiveram presentes em suas linhas – particularmente vejo encanto em sua obra. Um trechinho em particular me fez lembrar tanto Supernatural quanto outras séries e assuntos afins. Taí uma palhinha:

Perdido como estou nesta grande charneca,
Cheio de sede, cheio de fome,
Disse-se Deus: “Sê bom!” E o Diabo diz-me: “Peca!”
E os anjos e demônios repetem o meu nome.