Meu mais novo personagem favorito!

E então, por incresça que parível (talvez devido a um mórbido bom humor por esse período de férias), eis que anteontem tive a paciência e condescendência de ter uma longa conversa com uma atendente da Telefônica!

Não, isso, não é ficção, é verdade mesmo!

Bati o maior papo, sem pressa – achei até que ela é quem estivesse meio sem paciência comigo – e graças a uma substancial redução tanto da assinatura da linha fixa quanto do Speedy, sobrou mais que o suficiente para instalação do sinal da TV Digital. Depois alguém me explica se isso é TV a cabo, digital, ambos ou seja lá o que for, pois nunca tivemos isso em casa…

Combinado o combinado, já no dia seguinte (ontem) foi instalada a parafernália necessária para funcionamento de tudo.

Confesso que fiquei um pouco tenso com tantas opções pela frente, mas sinceramente feliz, senão pelo pacote assinado, pela qualidade da imagem, pois o sinal da TV aberta por aqui anda bem ruinzinho…

E ontem, depois de já ter trazido os filhotes da escola, todos com banho tomado e devidamente jantados, fomos dar uma fuçada nesse “brinquedo novo”.

De cara nos pegamos assistindo “The Grim Adventures of Billy & Mandy”. Não sei qual o título que resolveram adotar em português, mas o desenho é esse. Nunca havíamos visto antes. Sei, sei, bolha, quinze anos, faz tempo que existe, etc, etc, etc. Mas não é fantasticabulosamente delicioso conhecer algo assim? Mesmo que todos já estejam até enjoados? Todos nós gostamos muito do desenho!

Mas eu me apaixonei!

Pela Mandy, é lógico!

De um mau humor insuportável, cáustica, inteligente e absolutamente sem paciência nenhuma!

Que personagem adorável!

Caso com ela!

😀

Pra quem não conhece esse desenho, eis aqui (via Wikipedia) uma pequena sinopse:

“Billy e Mandy são duas típicas crianças da cidade de Endsville. No dia do aniversário do velho hamster de Billy, o Ceifador Sinistro, ou Puro Osso, aparece para ceifar a alma do hamster para o além. Mas, para sua surpresa, as duas crianças não sentem medo dele (Billy achou que era o Papai Noel), e apostam com Puro Osso: se ele ganhar, pode levar o hamster, mas, se perder, será escravo e melhor amigo dos dois até a eternidade. Puro Osso aceita e os leva para jogar limbo, seu jogo favorito.

Antes que Puro Osso pudesse vencer o jogo, Mandy diz “beija-beija” para o hamster, fazendo com que ele ataque Puro Osso e derrube o limbo, assim fazendo-o perder a aposta. Puro Osso fica bastante deprimido e triste, além de passar por humilhação e desdenho das outras entidades paranormais, mas, gradualmente, ele passa a se acostumar com sua nova vida, e passa a ter uma relação de amor-ódio para com as crianças, esperando que um dia seja libertado de sua escravidão.

A temática básica do enredo baseia-se numa referência ao filme de Ingmar Bergman, O Sétimo selo. Talvez por isso a origem medieval de Endsville. Neste filme, a Morte é desafiada pelo cavaleiro para uma partida de xadrez em troca da vida. O xadrez representa aqui, a oposição da Razão frente aos desafios dialéticos, metafísicos do divino frente as desgraças das Cruzadas e da morte presentes na Europa pela presença da Peste Negra. Aqui a morte vence o jogo.”

E Mandy, essa lindinha aí de cima, além de cruel e vil possui um grande conhecimento do sobrenatural, com ótimas sacadas (e porradas) durante todo o desenrolar de suas aventuras, tais como:

“Evolução não faz prisioneiros.”

“Dinheiro é a raiz de todo o mal.”

“O amor é para pessoas fracas.”

“…geralmente sou a favor do abuso e exploração dos tolos…”

“Não existem sonhos estúpidos, só pessoas estúpidas que nunca os realizam.”

“A felicidade é o caminho mais curto para a estupidez.”

“Somos só eu e você contra o mundo… Atacamos ao amanhecer!”

“Não basta ter sucesso… Outros tem que fracassar.”

Pronto.

Tá eleita!

Mais uma para minha galeria de personagens favoritos!

Recordâncias…

Até onde posso me lembrar, eu estava trabalhando.

Preocupado, vendo a papelada de sempre, com os telefonemas de sempre, pensando nas reuniões de sempre.

Quando menos esperava estava na hora do almoço.

Saí.

O ambiente, ainda que familiar, me parecia estranho…

Sei que, de cara, pouco antes da rua, numa mesa com outros dois rapazes (seria um deles seu marido?) eu a vi.

Evanilda.

Deixei de chamá-la de “falecida” há pouco tempo, por respeitosíssimas relevantes recomendações…

Olhei novamente, disfarçadamente, enquanto passava. Era ela mesma.

Cabelo bem mais curto, quase chanel. Um pouco mais morena, mas ainda assim com a pele quase alva de sempre…

Sim, era ela.

Saí encafifado.

Mas, afinal de contas, o que raios ela estava fazendo por ali?

E, pensando nisso, atravessei a rua olhando para o Colégio Olavo Bilac, onde estudei pouco antes de conhecê-la. Até mesmo vi alguns rostos familiares. Continuei meu caminho, desviando das barracas dos camelôs de sempre em frente às Lojas Americanas – movimentada como de costume. Novamente atravessei a rua, indo em direção ao Banco Nacional. Olhei para as grandes portas envidraçadas de correr, por experiência própria difíceis de serem puxadas. E olhei para minha imagem nelas refletida.

E percebi que estava sem barba.

E achei curioso.

Já tem quase um ano que ostento esta minha esbranquiçada barba. Eu deveria me lembrar claramente de quando a tirei. E busquei pela memória. Nada. Parei. Olhei novamente para aquelas grandes portas. E o movimento dentro da agência. E daí comecei a perceber o que na realidade estava acontecendo…

Eu estava sonhando!

Voltei-me e novamente encarei as Lojas Americanas: até o balcãozinho lá no fundo, onde eu costumava almoçar sentado nos tamboretes ainda estava lá! E visível!

Também olhei para o lado e a boa e velha pastelaria do chinês, com seu magnífico frango xadrez, também estava aberta!

Mas nada disso existe mais!

Então me apercebi de que, na realidade, estava sonhando. E me lembrei dos mais de quatrocentos quilômetros quase ininterruptos de viagem, de minha exaustão física, de que fui deitar cedo e de que já devia estar dormindo há, pelo menos, nove horas!

E me instalei naquele tênue limiar entre o sonhar e o acordar. Acordei dentro do sonho. Mas não despertei na vida real. Tomei consciência de que estava perambulando pelas paragens do mundo onírico, onde tudo é possível e qualquer coisa pode se tornar realidade.

E resolvi que minha realidade seria ter uma boa e franca conversa com ela.

Voltei correndo, torcendo para não acordar de vez, torcendo para que continuasse dormindo, semi-desperto, ou seja lá o que for que se chame esse estado.

Parei do lado de sua mesa, puxei de lado a cadeira em que estava sentada e encarei-a fixamente. Ela sorriu. Aquele sorriso tão completo que somente ela sempre soube dar. E ali mesmo, ignorando sua companhia, beijei-a. Profundamente. Sinceramente. Melhor: fui beijado. Aqueles lábios carnudos me tomaram por completo e podia perceber que ela também sorria durante esse desencontrado mas absoluto beijo.

E sentei-me.

E conversamos.

Conversamos sobre tudo. Sobre todos. Sobre mim. Sobre ela. Conversamos como sempre conversávamos quando nos tínhamos um ao outro à disposição. Conversamos sobre uma infinidade de coisas por uma eternidade de tempo. Pois o tempo se move de maneira diferente quando sonhamos. E o mundo parou de girar e nós continuamos a conversar. Eternamente pra sempre enquanto durou.

Mas, como diz a música, “o pra sempre, sempre acaba”

Acordei.

Sem saber como terminou a conversa. Como nos despedimos. Quase, sequer, como nos encontramos.

Aquela estranha sensação de não saber bem onde se está ou o que falar ou com quem falar.

Mas acordei.

Estranhamente impressionado por algo tão recente e tão vívido em minha mente. Seu gosto ainda estava em minha boca. E, mesmo assim, eu não havia saído dali.

Como explicar?