A História dos Quadrinhos – no Brasil e no mundo

O que são “Quadrinhos”?

Quadrinhos ou Histórias em Quadrinhos, as conhecidas HQs, são narrativas feitas com desenhos sequenciais, em geral no sentido horizontal, e normalmente acompanhados de textos curtos de diálogo e algumas descrições da situação, convencionalmente apresentados no interior de figuras chamadas “balões”.

Difundidos em revistas e jornais, os quadrinhos se tornaram um dos mais importantes veículos de comunicação de massa e criaram linguagem própria, com uma série de signos inovadores, em grande parte incorporada posteriormente pelo cinema, pela televisão e pela publicidade.

As tirinhas de jornal e as revistas de HQs, tornaram-se inquestionavelmente o maior e mais influente campo iconográfico da História, com bilhões de ilustrações produzidas desde 1900 ou um pouco antes. Essa produção certamente representa a mitologia gráfica dominante no Século XX. Nem mesmo o cinema e a televisão podem vangloriar-se de ter conseguido atingir um terço da humanidade, como os quadrinhos o fizeram.

Um início despretensioso

No mesmo período histórico em que surgiu o cinema, o telégrafo e o raio x, surgiu nos Estados Unidos uma forma singular de comunicação que se tornaria um gênero característico do Século XX: as histórias em quadrinhos.

Nos anos de 1895-1900 surgiram nas tiras de jornais dominicais nos Estados Unidos, os primeiros personagens das HQs. Dentre os quais, o primeiro a fazer fama: Yellow Kid, de Richard Outcault. Alguns anos depois, o êxito de Yellow Kid levou Rudolph Dirks a produzir Katzenjammer Kids, a primeira criação a desenvolver totalmente as características da moderna tirinha: usava balões, tinha elenco permanente e era dividida em quadros.

A novidade se espalhou pelo mundo. O Japão e a Europa se mostraram terrenos férteis para material de HQs e surgiram muitos cartunistas célebres no início do Século XX. A revolução estética ficou à cargo de Little Nemo in the Slumberland, lançado em 1905 por Winsor McCay, que usava pela primeira vez a perspectiva em seus desenhos.

Um crescimento assombroso

Nessa época os quadrinhos começavam a se tornar um elemento indispensável nos jornais diários. Foi quando George Herriman lançou Krazy Kat, a história de um mundo poético, ao mesmo tempo surreal e cômico, no qual, com extrema simplicidade gráfica, eram expostas as relações entre os membros de um pequeno elenco de personagens. Essa foi a primeira tirinha para o público adulto e inaugurou as histórias com animais, que culminaria com o aparecimento do famoso Gato Félix, de Pat Sullivan, e do Mickey Mouse, de Walt Disney. Em 1930, Hergé cria Tintin, cujo êxito se prolongou por décadas.

No ano seguinte surgiram Betty Boop, de Max Fleischer e Tarzan, de Harold Foster. Buck Rogers e Popeye (criado por Elzie Crisler Segar) também estrearam em 1931.

A década de 30 trouxe ainda criações quase imortais para os quadrinhos, que introduziram a aventura como tema principal. Alex Raymond, criou Flash Gordon, Jim das Selvas e o agente secreto X-9. Chester Gould criou Dick Tracy. Lee Falk concebeu o Fantasma e o Mandrake.

O sucesso das histórias de aventura gerou as revistas exclusivamente sobre quadrinhos. As pioneiras foram as japonesas (da década de 20). Em 1933 surgiu a primeira revista americana de quadrinhos, a Funnies on Parade. Depois vieram a Famous Funnies, Tip Top Comics, King Comics, Action Comics (onde Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o Super-Homem) e Detective Comics (onde Bob Kane, em 1939, criou o Batman).

Com a disputa da Segunda Guerra Mundial, muitos personagens, sobretudo os heróis, passaram a se envolver em tramas de guerra e violência. Surgiram então, outros personagens célebres, como Capitão Marvel, Tocha Humana, Namor – O Príncipe Submarino, e toda uma legião de justiceiros devotados à causa da paz e da democracia.

Em meio a tantos, a Marvel Comics criou, sob a batuta de Stan Lee e Jack Kirby, o Capitão América. O personagem, que tem o uniforme inspirado na bandeira americana e um escudo de um metal indestrutível, foi como uma personificação da luta dos povos livres contra o nazismo. O personagem tinha todas as características ideais de um americano, como senso de justiça e liberdade e força para lutar pela preservação destes ideais, contra os inimigos alemães.

Nessa época, foi lançada a revista Mad (que satirizava as historietas clássicas) e também o personagem The Spirit, de Will Eisner. Para se ter uma idéia da importância do Spirit, hoje o maior prêmio do mundo das HQs leva o nome do seu criador (se chama Prêmio Will Eisner) e é conhecido como o Oscar dos Quadrinhos.

A entressafra

Fora do controle dos jornais, editados em suas revistas próprias, os quadrinhos foram ficando mais violentos e psicóticos. Surgiam personagens e revistas especializados em terror e violência. Contra essa tendência, se organizaram pais e educadores do todo o mundo e até legisladores de países europeus e, principalmente dos Estados Unidos, levantaram a voz contra os quadrinhos. Eles achavam que as HQs influenciavam negativamente as crianças e queriam proibir suas publicações.

A situação foi ficando cada vez mais tensa e o governo americano chegou ao ponto de censurar vários quadrinhos de heróis. O principal defensor da idéia dizia que as HQs ajudavam negativamente na formação dos jovens americanos. Chegaram a insinuar que a amizade entre o Batman e o Robin sugeria uma relação homossexual e que isso afetava as crianças.

A perseguição da justiça, aliada ao fim da Guerra, fez despencar as vendas de revistas de quadrinhos, pois os heróis já eram o carro-chefe da Nona Arte na época. A criação de códigos de ética e de postura por parte das editoras, para combater a censura, só foi dar resultados alguns anos mais tarde.

Enquanto o mercado de revistas e heróis desmoronava, as tirinhas de jornais voltaram aos dias de glória e surgiram personagens importantes, como Asterix – o Gaulês, de Albert Uderzo e René Goscinny, Mortadelo e Salaminho e Os Smurfs, de Peyo. O personagem Pogo, de Walt Kelly, fez muito sucesso na época.

A recuperação

A década de 60 marcou a recuperação do mercado de heróis. Isso se deveu a vários motivos. O código de ética, que previa menos violência já estava em vigor a algum tempo, a perseguição da justiça americana já estava em baixa e as editoras lançaram heróis com características mais humanas e filosóficas, com dramas psicológicos e problemas cotidianos.

Surgiram nessa época personagens como o Homem-Aranha, o Quarteto Fantástico, o Thor – o Deus do Trovão e o Surfista Prateado. Todos foram criados pela editora Marvel, concebidos pelas mentes dos mestres Stan Lee e Jack Kirby.

Com o mercado de heróis em alta novamente, os quadrinhos ganharam nova explosão de criação. As outras categorias vinham no embalo. Surgiram personagens femininas que inspiravam a moda das mulheres no mundo inteiro. Surgiram também personagens eróticas como Vampirela, de Jean-Claude Forrest, Jodelle, de Guy Peelaert, Valentina, de Guido Crepax. No fim da década, surgiu o gênero underground, que abordava o submundo das drogas e do sexo livre, satirizando as situações. Em 1973, Hagar – o Horrível, é criado por Dirk Browne e vira sucesso instantâneo.

A situação atual

Nas últimas décadas do século XX, os heróis se firmaram e ganharam mais revistas. Os criadores de histórias (roteiristas e desenhistas) passaram a ser celebridades mundialmente famosas e seus nomes nos créditos das histórias passaram a contar tanto quanto o nome de um ator famoso em um filme.

Nomes como Frank Miller, Dan Jurgens, John Byrne, Grant Morrisson, Mark Waid, Kelley Jones, Jim Lee, Leph Loeb, Neil Gaiman, Alan Moore e outros se firmaram e despontaram dentre os demais.

Revistas alternativas, na linha sexo-terror, surgiram e fizeram sucesso com edições de alto nível gráfico, sempre destinadas ao público adulto. São dessa fase revistas como Zulu, Hara-Kiri e a mais clássica de todas, Heavy Metal.

Os personagens continuaram a aparecer. Surgiram Tank Girl, de Jamie Hurlott, Hellblazer, de Alan Moore e Sandman, de Neil Gaiman. É dessa época também a febre X-Men, os heróis mutantes, que se firmou como a maior vendedora de revistas da atualidade. Garfield, de Jim Davis e Calvin, de Bill Waterson se firmaram como os maiores personagens de tirinhas de jornais do fim do século XX.

No fim da década de 90 surge uma editora de peso, a Image Comics, fundada por ex-funcionários da Marvel e da DC Comics (as duas maiores produtoras de heróis), que achavam que não tinham o espaço necessário para criar seus personagens e tinham que seguir as ordens dos editores. Da Image saiu o maior sucesso editorial do fim do século: Spawn, de Todd McFarlane, que se tornou tão popular quanto o Super-Homem e o Batman. O personagem faz enorme sucesso em sua revista e alavanca produtos secundários como bonecos, roupas, jogos e até filmes.

O século termina consagrando McFarlane como um dos grandes nomes das HQs, ao lado de gênios como Alan Moore (que criou a obra-prima dos quadrinhos, a mini-série Watchmen), Frank Miller (autor das fantásticas Batman – Cavaleiro das Trevas e Demolidor – homem sem medo) e do desenhista Alex Ross (que ilustrou as históricas obras Marvels, Reino do Amanhã e Super-Homem – Paz na Terra), que deu uma realidade nunca antes vista nos desenhos das HQs. Ross foi o primeiro desenhista a ganhar tanta fama quanto os roteiristas de quadrinhos de heróis.

Quadrinhos no Brasil

Muitos estudiosos querem o crédito pela invenção do gênero ao cartunista italiano Angelo Agostini, que, radicado no Brasil, escreveu, em 1869 (muito antes de Yellow Kid), As Aventuras de Nhô Quim ou impressões de uma viagem à corte, uma autêntica história em quadrinhos. Quinze anos depois ele seria responsável pela criação dos primeiros quadrinhos brasileiros de longa duração, com as Aventuras do Zé Caipora.

Em 1905 começaram a surgir outras histórias em quadrinhos nacionais com o lançamento da revista O Tico-Tico. Surgiu o personagem Chiquinho, de Loureiro. Também graças à revista, surgiram Lamparina, de J. Carlos, Zé Macaco e Faustina, de Alfredo Storni, Pára-Choque e Vira-Lata, de Max Yantok e Reco-Reco, Bolão e Azeitona, de Luis Sá.

Em meados de 1930, Adolfo Aizen lançou o Suplemento Juvenil, com o qual introduziu no Brasil as histórias americanas. O sucesso o levou a editar mais duas revistas: Mirim e Lobinho. Em 1937, Roberto Marinho entrou no ramo com O Globo Juvenil e dois anos depois lançou o Gibi, nome que passaria a ser também sinônimo de revistas em quadrinhos.

Na década de 50, começaram a ser publicados no Brasil, pela Editora Abril, as histórias em quadrinhos da Disney. A revista Sesinho, do SESI, permitiu o aparecimento de figurinhas carimbadas das HQs no país, como Ziraldo, Fortuna e Joselito Matos.

Para enfrentar a forte concorrência dos heróis americanos, foram transpostos para os quadrinhos nacionais aventuras de heróis de novelas juvenis radiofônicas, como O Vingador, de P. Amaral e Fernando Silva e Jerônimo – o herói do Sertão, de Moisés Weltman e Edmundo Rodrigues. Personagens importados tiveram suas versões brasileiras, como o Fantasma.

A partir da década de 60, multiplicaram-se as publicações e os personagens brasileiros. Destaque para Pererê, de Ziraldo (que mais tarde criaria O Menino Maluquinho), Gabola, de Peroti, Sacarrolha, de Primaggio e toda a série de personagens de Maurício de Sousa, dentre os quais, Mônica, Cascão e Cebolinha.

Maurício de Sousa é o maior nome dos quadrinhos nacionais. Foi o único a viver exclusivamente dos lucros de suas publicações. A Turma da Mônica é o maior sucesso do ramo no país, em todos os tempos. Virou uma linha de produtos que vão desde sandálias, a macarrões, passando por material escolar, roupas, etc. Também já foram produzidos desenhos animados longa-metragem com os personagens.

O jornal Pasquim ficou famoso por suas tirinhas de quadrinhos, principalmente os de Jaguar. O cartunista Henfil também se destaca nessa época. Daniel Azulay também criou e manteve um herói brasileiro, o Capitão Cipó, que representou um dos melhores momentos dos quadrinhos nacionais.

A Editora Abril passa a publicar os heróis da Marvel e da DC Comics no Brasil, com as revistas Capitão América e Heróis da TV. Posteriormente, com Batman, Super-Homem, Homem-Aranha e Incrível Hulk, dentre outros.

A partir da década de 80, os grandes jornais brasileiros passam a inserir trabalhos de autores nacionais em suas tirinhas, antes exclusivamente americanas. Dentre eles, destacam-se Miguel Paiva (Radical Chic), Glauco (Geraldão), Laerte (Piratas do Tietê), Angeli (Chiclete com Banana), Fernando Gonsales (Níquel Náusea) e Luís Fernando Veríssimo (As Cobras). Também a edição brasileira da revista americana Mad passa a publicar trabalhos com autores brasileiros.

Nos anos 90 o mercado brasileiro cresce um pouco mais. Novas revistas em quadrinhos de heróis passam a ser editadas no país, sobretudo da recém criada Image Comics. A Editora Abril continua na frente das rivais e publica a Spawn norte-americana.

O Brasil entra no Século XXI com o mercado de quadrinhos em expansão. A Editora Globo continua a publicar com grande sucesso os gibis da Turma da Mônica; a Editora Abril segue firme com os quadrinhos de heróis das americanas Marvel, DC e Image; a revista Heavy Metal americana lança sua edição brasileira, a Metal Pesado, e editoras menores publicam materiais de outras origens. Alguns cartunistas nacionais lançam a revista caricata Bundas.

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A História da História em Quadrinhos

História em quadrinhos… quando será que ela começou? com a primeira história do Donald? Ou do Mickey? Não, muito antes, amigos… na era das cavernas!

Já na Pré-História o homem primitivo desenhava, nas paredes das cavernas em que morava, cenas de sua própria vida: homens armados de lança, correndo atrás de um bisonte. Eram desenhos contando uma história, a história de suas caçadas. Assim começaram as histórias em quadrinhos.

Muito tempo depois, no Egito, sua escrita, os hieróglifos, já eram uma mistura de letras e desenhos em continuação. Os monumentos egípcios trazidos pelo Império Romano – como a “Coluna de Trajano” – mostram, numa sucessão de desenhos feitos numa coluna de pedra, como o faraó construiu uma pirâmide para seu túmulo, glorificando seu governo. Essa historieta começa lá em cima e vem se desenvolvendo até embaixo.

A história em quadrinhos – ou comics, nos Estados Unidos, bande dessinée, na França, fumetti na Itália – surgiu, tal como a conhecemos hoje, com a invenção da imprensa.

Os primeiros jornais quase que só traziam texto; as ilustrações eram raras. O desenho era incluído ocasionalmente nos artigos e havia três tipos de ilustração: a caricatura, o desenho de um objeto ou retrado de uma pessoa e o que reproduzia, de maneira realista, o acontecimento descrito no texto.

A caricatura era quase sempre de caráter político, refletia a opinião do jornal sobre personalidades famosas ou fatos históricos.

A ilustração das reportagens ou narrativas reproduzia sempre o que estava contado no texto.

Quando a fotografia foi inventada, essa técnica antiga foi inteiramente modificada. em 1886, o fotógrafo Nadar, do jornal francês Le Figaro, sugeriu que as fotos do seu entrevistado fossem montadas na primeira página do jornal, numa série de instantâneos. Era a dinamização da imagem ao lado do texto que se iniciava.

Os editores de jornais americanos começaram a notar que o público preferia os textos com imagens. As duas maiores empresas jornalísticas eram lideradas por Pulitzer e Hearst, nos fins do século XIX. Foi Pulitzer o primeiro a dar oportunidade a um desenhista de quadrinhos. Chamava-se Richard Outcault, e passou a apresentar (no jornal World), The Yellow Kid (O Garoto Amarelo).

As aventuras desse personagem eram mostradas por meio de desenhos em quadros sucessivos. O que mais sensação causou foi o aparecimento do texto dentro da própria imagem, circundado por um traço que se fechava apontando para a boca do personagem. Esse artista lançava, assim, em 1896, uma das técnicas fundamentais da história em quadrinhos: o “balão”.

Hoje a história em quadrinhos tomou conta do mundo inteiro e não só diverte crianças, jovens e adultos, mas também é estudada nos cursos de comunicação, ela que é um poderoso meio de comunicação pela imagem-texto.

Algumas curiosidades sobre as histórias em quadrinhos:

– Lee Falk foi o criador do Fantasma e Mandrake, e um dos maiores roteiristas (escritor de histórias em quadrinhos) à sua época;

– Os Sobrinhos do Capitão são os mais antigos personagens que ainda saem em revistas;

– Alex Raymond, criador de Flash Gordon, foi considerado o maior desenhista de quadrinhos de seu tempo pela beleza de seu traço;

– Al Capp, o criador de Li’l Abner (Ferdinando), o maior humorista;

– Milton Caniff (Terry e os Piratas) e Will Eisner (Spirit), os maiores estilistas;

– Walt Disney, por sua vez, criou a maior galeria de personagens, começando pelo Mickey, Donald e outros.

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Incidência de apelidos de família no Rio de Janeiro e em Porto Alegre

Pércio Pinto
do INGERS (Instituto Genealógico do Rio Grande do Sul), e
CBG (Colégio Brasileiro de Genealogia)

Antroponímia é o estudo do nome das pessoas. O vocábulo foi cunhado em 1887 pelo filólogo português Leite de Vasconcelos, que dedicou um capítulo de suas ‘Lições de Filosofia Portuguesa’ ao: ‘Onomástico Antigo e Moderno’. Ambos os vocábulos foram criados a partir do grego: onomatos, ‘nome’, e anthropos, ‘homem’, mais onoma. Diz o mestre: “O ‘estudo dos nomes próprios em geral’ chama-se onomatologia. O dos nomes geográficos tem em particular o nome de toponímia. Podíamos dizer paralelamente, com relação aos nomes de pessoas e seres personificados, antroponímia.”

O nome, genericamente falando e dentro do conceito de antroponímia, refere todos os vocábulos que compõem a denominação pela qual nos identificamos como pessoas, como estabelece o prof. Franz August Gernot Lippert em: ‘O Nome das Pessoas Físicas no Direito Brasileiro’. Coloquialmente chamamos nome aquele ou aqueles vocábulos que identificam o indivíduo: João ou João Antonio. Da mesma forma coloquial, chamamos sobrenome os apelidos das famílias: Silva, Santos, Oliveira, Souza, Pereira.

Os estudiosos da legislação brasileira mencionam, contudo, que esta não é uníssona nem rigorosa na conceituação dos vocábulos que compõem o nome. A expressão sobrenome, tão comum no Brasil, sequer existe na legislação; existe de fato.

Os franceses distinguem prenomes e nomes, utilizando os primeiros na identificação do indivíduo, e os segundos na identificação das famílias a que ele pertence, como ensina Albert Dauzat.

Estudiosos portugueses e brasileiros admitem apenas as designações clássicas: nomes, para os indivíduos, e apelidos, para as famílias. De um e de outro difere a alcunha, codinome que alguns indivíduos conquistam, ou sofrem.

Os apelidos de família, ou de clã, remontam a mais de cinco mil anos, como se pode ver na Bíblia, Números, 1, 20 a 50, quando o Senhor ordenou a Moisés, no Sinai, que fizesse o recenseamento dos filhos de Israel após a saída do Egito. Foram contados 603.550 homens de mais de vinte anos e toda esta gente, mais a família de cada um, foi dividida em doze tribos, mais a tribo de Levi que ficou encarregada do sacerdócio. Do nome de cada um dos patriarcas originou-se o nome da tribo ou, modernamente, seu apelido. Da tribo de Judá, a Bíblia dá minuciosa genealogia até Jesus.

Como os nomes individuais se sucediam, os judeus adotaram o apelido patronímico: Jacó filho de Abraão, que se distinguia de outros Jacós.

O patronímico foi o primeiro apelido de família; mais tarde foi usado o toponímico, que se refere ao lugar de nascimento ou vivência; e finalmente adotou-se, em certos casos, a alcunha.

O patronímico se caracteriza pelo uso da preposição, prefixos ou sufixos. Por exemplo: judaica, Bar Abas, filho de Abas; gaélica, Ab; árabe: Ibn; são preposições. MacNamara, escocês; O’Henry, irlandês; FitzGerald, inglês; são prefixos. São sufixos: o son, em Johnson, inglês; sen em Andersen, escandinavo; Álvarez, espanhol; Álvares, português. Todos significam: filho de.

São toponímicos portugueses: de Souza, da terra de Souza; de Maia, da terra de Maia; Chaves, da cidade de Chaves; Porto, da cidade do Porto, etc. Os toponímicos formam-se em geral com a preposição de, que não implica origem nobre como muitos entendem.

Finalmente os apelidos de família decorrem de alcunha: Calvo, Velho, Alegria, Negrão.

Essas introdução permitirá que o leitor possa identificar seu apelido de família com a provável origem.

O acadêmico R. Magalhães Jr. publicou em 1974 o livro ‘Como você se chama?’, dando origem a outros estudos de diferentes autores. Como curiosidade publicamos os 28 apelidos mais populares no Rio de Janeiro, por ele levantados a partir do guia telefônico, e 106 apelidos mais comuns em Porto Alegre, da mesma fonte, da lista deste ano (1979). Referem-se naturalmente às classes média e alta apenas, mas tem seguramente boa representatividade.

Em ambas as listas o leitor encontrará apelidos formados das três maneiras que indicamos (a preposição fica implícita em certos apelidos como: da Silva, de Souza, de Oliveira, da Costa, de Barros, e outros).

O exame das duas listas permite certas conclusões, como, por exemplo:

1. No Rio, como em Porto Alegre, os apelidos portugueses predominantes são precisamente os mais antigos registrados nos estudos genealógicos. A coincidência dos cinco primeiros é impressionante.

2. Alguns apelidos tradicionais portugueses comuns no Rio, como Araújo, Barbosa, Castro, Azevedo, Barros e Cardoso, tem menor incidência na lista de Porto Alegre. São famílias reinóis que, de preferência, se radicaram entre Salvador e Rio de Janeiro.

3. Alguns apelidos mais frequentes em Porto Alegre sequer constam da lista do Rio. É que para cá vieram de preferência os açorianos: Silveira, Machado, Rosa, Morais, Soares, Lopes, Gonçalves e Nunes.

4. Na lista de Porto Alegre, quatro grandes famílias alemãs chegadas em 1824 figuram com certa expressão. Nenhum apelido não português consta da lista do Rio. Os alemães são Schmidt (ferreiro), Müller (moleiro), Becker (padeiro) e Schneider (alfaiate). As famílias Bittencourt, Brum e Goulart, de origem francesa ou holandesa, chegaram a Porto Alegre via Açores. Note-se a ausência de grandes grupos familiares italianos. Os alemães chegaram em 1824, a seis ou sete gerações e os italianos a partir de 1875, a três ou quatro gerações.

5. Contrariamente à crença nacional, os espanhóis tiveram pequena influência na composição demográfica de Porto Alegre. Talvez um que outro ramo dos Garcia e dos Ávila.

6. Apesar da preeminência econômica e cultural da comunidade israelita, nenhum grupo familiar se salienta. Os israelitas gaúchos procedem de ambos os grupos mais importantes, asquenásis da Europa Central, na grande maioria, e alguns poucos sefarditas, entre os quais se arrola uma tradicional família Rodrigues. Alguns autores supõem ter havido uma grande colônia israelita nos fins do século XVII e início do XVIII. Se houve, foi absorvida sem deixar traços culturais.

Rio de Janeiro-1974

Silva
Santos 
Oliveira 
Souza 
Pereira 
Costa
Carvalho
Almeida 
Ferreira 
Ribeiro 
Rodrigues 
Gomes 
Lima 
Martins 
Rocha 
Alves 
Araújo 
Pinto 
Barbosa 
Castro 
Fernandes 
Melo 
Azevedo 
Barros 
Cardoso 
Correia 
Cunha 
Dias 
11.520
  7.200
  6.480
  6.480
  5.280
  5.040
  4.600
 4.080
  4.080
  3.360
  2.800
  2.800
  2.800
  2.800
 2.400
  2.400 
  2.400
  2.400
  2.400
  2.400
  2.400
 2.160
  1.920
  1.920
  1.920
  1.920
  1.920
 1.920
Porto Alegre-1979

Silva 
Santos 
Oliveira 
Souza 
Pereira 
Silveira 
Costa 
Machado 
Rodrigues 
Ferreira 
Lima 
Martins 
Rosa 
Ribeiro 
Carvalho 
Gomes 
Morais 
Rocha 
Soares 
Lopes 
Almeida 
Cunha 
Dias 
Gonçalves
Nunes 
Pinto 
Alves 
Correia 
Fernandes 
Melo 
Marques 
Azevedo 
Freitas 
Schmidt 
Teixeira 
Vieira 
Araújo 
Barbosa 
Castro 
Moreira 
Cardoso 
Borges 
Duarte 
Pires 
Garcia 
Ramos 
Andrade 
Fonseca 
Vargas 
Barcelos 
Coelho 
Dorneles 
Flores 
Leite 
Campos 
Medeiros 
Müller
Amaral 
Becker 
Bittencourt
Schneider 
Dutra 
Guimarães 
Porto 
Viana 
Abreu 
Aguiar 
Albuquerque 
Antunes 
Ávila 
Azambuja
Barros 
Braga 
Bueno 
Camargo 
Cruz 
Faria 
Fagundes 
Fiqueiredo 
Fontoura 
Fraga 
Leal 
Lemos 
Matos 
Mendes 
Nascimento 
Neves 
Pacheco 
Pinheiro 
Xavier 
Borba 
Brasil 
Brito 
Brum 
Chaves 
Goulart 
Jardim 
Luz 
Meneses 
Miranda 
Monteiro 
Neto 
Peres 
Santana 
Tavares 
Trindade 
5.250
2.835
2.625
1.785
1.365
1.312
1.260
1.207
1.207
   945
   945
   945
   945
   945
   735
   735
   735
   735
   735
   682
   668
   630
   630
   630
   630
   630
   577
   577
   577
   577
   550
   525
   525
   525
   525
   525
   472
   472 
   472
   430
   427
   420
   420
   420
   420
   420
   367
   367 
   320
   315
   315
   315
   315
   315
   300
   300
   270
   262
   262
   262
   240
   260
   230 
   220
   220
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   210
   200
   200
   200
   200
   200
   200
   200
   200
   200
   200
   200
   200
   200
   200
   200
   200

O porquê do nome Gibi

Os quadrinhos tiveram início nos Estados Unidos em 1895 nos suplementos dominicais coloridos, usando a dimensão total do jornal. Em 1933-1934 surgiram os Comics Books em meio tablóide com estórias completas, passando a se chamar popularmente no Brasil de gibis, por causa do lançamento da revista Gibi, com 32 páginas, papel jornal. Em 1940 começa a ser publicado o Gibi mensal com estórias completas, iguais aos Comics Books. A partir disso crianças e jovens passam a se chamar de “gibi” qualquer revistinha em quadrinhos.

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Notícias do Cyberworld

Vocês viram na televisão os sites que foram hackeados no últimos anos? Não? Então leu nos jornais! Também não? Talvez em revistas especializadas? Ah, algumas… Bem, eu também não vi nada em nenhum dos grandes meios de comunicação, e olhe que são sites dignos de nota: DNER, OAB, Supremo Tribunal, Governo do Brasil… O que ocorre é que a mídia dominante insiste em mostrar hackers como seres desajustados e prontos para invadir, roubar, saquear, destruir tudo que for possível em um computador ligado (ou não) à Internet e até um raio de 23,7 metros do equipamento instalado… Ora, sabemos que não é por aí. Não digo que concordo ou incentivo essas atitudes, entretanto são fatos que ocorreram e devem ser expostos. Mas para que você tenha uma idéia do que está rolando no submundo informático, dê uma olhada nas seguintes invasões, que ficaram algum tempo no ar, frutos do mais puro e genuíno “hacktivismo político”:

Governo do Brasil
DNER
PFL
Embaixada do Brasil em Tóquio
Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina
Polícia Militar de Santa Catarina
Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal
Instituto de Previdência dos Servidores Militares do Est. de Minas Gerais
Escola de Equitação do Exército
OAB
Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região
Ministério do Trabalho
Ministério da Justiça
Microsoft do Brasil
Congresso Nacional
Network Associates
Empresa de Obras Públicas do Governo do Rio de Janeiro
Governo do Mato Grosso
Ministério da Defesa
Agência Brasileira de Cooperação – Ministério das Relações Exteriores
Jornal do Brasil Online
Agência Espacial Canadense
Comissão de Instituições Financeiras Canadense
3rd Center Lake Burnaby Sea Scouts & Venturers (Escoteiros Canadenses)
Emmanuel Bible College
Medical Education Institute – Canadá
Posto Fiscal Eletrônico da Secretaria da Fazenda de São Paulo
Portal X – Loja Virtual da Xuxa
Folha de São Paulo – FolhaInvest
Instituto de Ciências Matemáticas e Computação da USP de São Carlos
FEBRABAN
ANEEL
Supremo Tribunal Federal
iG
Energia Brasil
Terra Networks S.A.
Universidade Federal do Maranhão
Banco Rural
ATT Informática
ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica
SEBRAE
Vésper
Exército Brasileiro
Copoanheiros (sim, até mesmo esse!!!)


(Publicado originalmente em algum dos sites gratuitos que armazenavam o e-zine CTRL-C)

Visão Poética da triste estória do apenado José

Artigo enviado por e-mail para publicação

 
Cláudia Vieira Maciel
Acadêmica do 10º Período de Direito do
Instituto Luterano de Ensino Superior de Ji-Paraná, RO

José foi condenado.
Seu destino: a casa de detenção.
Já nos primeiros dias descobriu uma triste realidade:
Que o cárcere é uma escola,
escola para a marginalização.

José que conhecia apenas o revólver,
Descobriu que tudo pode ser uma arma,
– depende da situação;
E que no submundo carcerário,
Quem faz a lei é o ladrão.

Descobriu também que sem qualquer ato,
Pode-se “puxar” mais anos de prisão;
Pois em troca da própria vida,
Cria-se uma confissão.
E de um crime que José nem sabia,
Nem viu a consumação…

Antagônica realidade a de José.
Prejudicado na lide judicial,
(José agora é reincidente)
Mas, favorecido na sociedade artificial.
– Agora ele é da gente!
Dizem os cabeças da organização.

E José que teria iniciado sua pena,
Sob o fundamento do duplo objetivo:
Castigo e ressocialização,
descobriu que lá se aprende,
é viver mais tempo dentro da prisão.

José nunca foi homem de muitos planos;
E até mesmo dizia, que um dia abandonaria
essa vida de “roubação”;
Que tinham razão os doutores:
“O crime não compensa não.”

– A gente vive roubando, e quando nos pegam,
perdemos o respeito e a própria consolação;
O dinheiro acaba ligeiro e os sonhos são trancafiados
Junto as grades da prisão.

José sabe que vai passar mais sete anos,
Isso com os benefícios da progressão;
Mas desconhece o seu futuro,
Pois seu receio, é quando tiver que encarar de frente,
A sociedade e os reflexos da estigmatização.

José se preocupa com seu egresso
Pois desde que vem puxando cadeia
Só viu os muros e a segurança aumentarem
Como repressões à fuga e a rebelião.

E com isso vão distanciando,
A tão almejada ressocialização;
Pois esquecem que os atos devem ser primados em favor
do apenado
E não da instalação.

José soube que com a LEP,
Apresentaram uma grande inovação;
Instituíram a assistência ao egresso,
Com apoio e orientação para reintegrá-lo à liberdade
E ainda se necessário, alojamento e alimentação.

Mas como a letra é fria, é morta,
Precisa que não só o governo, mas toda a sociedade
A coloque em ação.
Pois o artigo 78 prevê o “patronato”,
Que poderá ser integrado por membros
De qualquer entidade, grupo ou religião.

Então José faz uma apelo, para toda população;
Para que todos se preocupem com os egressos
em favor da própria segurança,
Pois o Brasil está cheio
De quem voltou a ser ladrão,
Por falta de oportunidade
e excesso de discriminação.

E ainda arrisca uma dica,
que vai além dos cursos de profissionalização:
que para as empresas que admitam ex-detentos
seja oferecido um incentivo
nos tributos com o leão.

( Publicado originalmente em meu antigo domínio “HABEASDATA”, em outubro/2001 )

Manual de Paleografia Portuguesa

Instituto Genealógico do Rio Grande do Sul

Paleografia Portuguesa

A Paleografia pode ser definida tanto como escritos antigos, ou o estudo de escritos antigos. Qualquer pessoa empenhada em pesquisas genealógicas de registros portugueses antigos, necessitará de saber ler, entender e transcrever tais registros.

A capacidade de ler e escrever paleografia exige duas habilidades importantes: (1) saber transpor os caracteres do documento original para caracteres com os quais estamos mais familiarizados, e (2) saber identificar as abreviações usadas no texto do registro.

Além dessas duas habilidades mais importantes devemos também ser capazes de interpretar os sinais de pontuação usados, separar ou unir palavras que não foram separadas ou unidas no texto original, ler e transcrever números, identificar erros no texto original e, finalmente, obter, através de tudo isso, o significado do texto.

É claro que cada pessoa tem um estilo ou método de escrever, o qual é único. No entanto, tem sido possível, no correr da história, reunir em grupos ou estilos definidos, muitos desses métodos individuais de escrita. Tais estilos podem variar de época a época, de país a país, e até mesmo entre tipos diferentes de documentos. Entretanto, uma vez que se tenha aprendido as características especiais de qualquer estilo, deveríamos ser capazes de ler qualquer documento escrito naquele estilo, usando para isso, de um esforço apenas ligeiramente maior do requerido para ler os atuais estilos de caligrafia. Naturalmente, teríamos que lidar com variações daquele estilo, má caligrafia, tinta desbotada etc. Mas o segredo de poder ler qualquer estilo determinado de caligrafia é simplesmente ser capaz de reconhecer as características daquele estilo.

Os estilos típicos da Ibéria e Ibero-América se originaram do alfabeto romano, usado desde pouco tempo antes época de Cristo. No início, tal alfabeto consistia de 21 letras: A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, V e X. As letras Y e Z foram adicionadas aproximadamente em 50 A.C. Desde aquele tempo tem havido muitos estilos diferentes, ou modificações de estilos que foram adotados, rejeitados, modificados e remodificados. Esses estilos foram agrupados e classificados e incluem, entre outros, a caligrafia Carolínea, resultante de uma reforma introduzida durante o reinado de Carlos Magno, a caligrafia Gótica, a caligrafia Cortesa, a caligrafia Secretária e a caligrafia Secretária Encadeada.

Devemos chamar a atenção para o fato de que como em muitas outras disciplinas, a categorização pode ser perigosa. é conveniente que sejamos capazes de classificar esses vários estilos em grupos e dar-lhes nomes e títulos. Entretanto, logo que se cria uma categoria ou um grupo, automaticamente surgem dúvidas quanto a se um estilo pertence a este ou àquele grupo, ou se está em algum lugar no meio. Como Eduardo Nunes explica: “A classificação das letras é um rito sagrado, mas ao qual, atualmente todos os paleógrafos desejariam poder furtar-se … ; porque, tanto a terminologia (base da classificação), como a própria metodologia (postulado da terminologia) se encontram em plena crise de refundição. ” (Nunes, Eduardo, álbum de Paleografia Portuguesa, Vol. 1, Lisboa, Portugal: Instituto de Alta Cultura, Universidade de Lisboa, 1969, p. 11.) As categorias, no entanto, são convenientes e por essa razão são e continuarão a ser usadas.

Uma vez que a maioria dos registros de valor genealógico na Ibéria e Ibero-América, não foram iniciados até o princípio do século XVI, somente os estilos predominantes usados desde aquele tempo nos interessam. Nesses estão incluídas a caligrafia Secretária, a caligrafia Secretária Encadeada e a Itálica, as quais são brevemente descritas nas passagens que se seguem.

A Escrita Processual e Encadeada

“A escrita processual é eminentemente cursiva, permitindo dessa forma aos escreventes, grande liberdade no traçado. Como consequência, surgiu a degeneração da letra, sendo difícil encontrar, em toda a paleografia latina e suas aplicações nas línguas vernáculas, uma escrita com tantas formas divergentes como o é a processual. À primeira vista, os variados manuscritos examinados por pessoas que não estão a par do traçado da escrita processual, podem levar à conclusão de que se trata de vários tipos de escritas. O motivo para tal, é que os tipos de caligrafia processual oscilam entre os parecidos à cortesa, que ainda mantém algumas das formas anglicanas herdadas da gótica cursiva – da qual se originou – até os extremamente redondos da caligrafia encadeada, sendo esta a última degeneração do ciclo – cortesa – processual e encadeada. ” (Aurélio Tanodi – Interpretação Paleográfica de Nomes Indígenas, Córdoba, Argentina: Editor, 1965, p. 38.)

A Escrita Itálica ou Bastarda

“O ensino sistemático constitui uma das principais características da escrita bastarda. Os calígrafos do século XVII e anos posteriores, seguiam a escrita itálica ou bastarda, porém, com pequenas modificações. Os escreventes tiveram então exemplos calígrafos aos quais podiam recorrer e o ensino dispunha de bons manuais.

Apesar do ensino sistemático e dos exemplos caligráficos, nem todos aderiram extremamente à formação caligráfica. Havia pessoas que aprendiam a escrever sem haver tomado cursos especiais, isto é, sem passar por um aprendizado sistemático. Outras, embora o fizessem, degeneravam sua escrita pessoal, afastando-se dos preceitos caligráficos, devido a ser a caligrafia bastarda um tipo de escrita cursiva usada para uma grande variedade de manuscritos. Dessa forma, encontramos na mesma região e época, manuscritos de diversos aspectos – desde os altamente caligráficos até os extremamente descuidados. Isso dependia de muitos fatores: a perícia gráfica do aprendizado, a intenção com que se confeccionava o manuscrito, a importância do mesmo, o aspecto externo e sua composição interna etc…

Em geral, a escrita bastarda é muito mais clara e legível do que a processual ou a encadeada; não obstante, existem textos que apresentam sérias dificuldades e requerem estudo especial.” (Aurélio Tanodi, idem, p. 40.)

Introdução

Cada pessoa tem um método único de escrita. Esses vários métodos podem ser agrupados em estilos. Estilos variam de época para época, de país para país, e podem variar até mesmo de um tipo de documento para outro. Os estilos utilizados em séculos atrás podem variar tanto daqueles que usamos atualmente que se torna difícil lê-los. O estudo de estilos de escrita e a ciência da interpretação e da compreensão de documentos antigos é chamado de paleografia.

Dois grandes desafios envolvidos na leitura e na transcrição de caligrafia antiga são:

1) ser capaz de transcrever as letras e os números do documento original para um estilo com o qual você esteja mais familiarizado;

2) ser capaz de identificar as abreviaturas usadas no texto do registro.

Além desses dois desafios você deve ser capaz de (l) interpretar os sinais de pontuação usados; (2) separar ou unir palavras que não estejam separadas ou unidas no texto original; (3) ler e transcrever números; (4) identificar palavras que são escritas de maneira diferente da que seriam em português moderno; (5) identificar erros no texto original, e (6) determinar o significado de termos não familiares ou arcaicos.

Cada um desses desafios será abordado nesta apostila.

A intenção desta apostila é a de servir como introdução à paleografia portuguesa. Estude o material por completo e ele o capacitará a começar a pesquisa genealógica; de outra forma, será difícil ler os registros. Se você tiver interesse ou necessidade de tornar-se mais experiente na sua habilidade em ler registros antigos, há uma bibliografia anotada no final desta apostila. Você deve usá-la para continuar seus estudos. Há, entretanto, apenas uma maneira de tornar-se perito em ler e transcrever documentos portugueses antigos, e é através da prática. Estão incluídos nesta apostila textos para praticar. Use-os, e quando você os tiver dominado, pratique usando outros textos originais. Se você persistir, logo será capaz de ler qualquer documento português antigo.

Notas Históricas

A Língua Portuguesa é uma Língua Latina

Os estilos de escrita encontrados em Portugal e no Brasil têm sua origem no alfabeto romano. Os romanos ocuparam a península ibérica (Espanha e Portugal) aproximadamente do século III A.C. até a queda do Império Romano o século V DC. É claro que outros grupos, além dos romanos, contribuíram para a formação da língua portuguesa. Originalmente a península ibérica foi habitada por um grupo de pessoas conhecidas como Celta-Ibéricos. Esse povo foi conquistado pelos romanos. Depois dos romanos vieram as tribos germânicas e depois os mouros, os quais deixaram evidência de seus costumes, não apenas na linguagem, mas também na cultura dos Ibéricos. Todavia, a despeito dessa influência, a língua portuguesa permaneceu sendo uma língua latina, e é principalmente aos romanos que ela deve sua origem.

Existem Poucos Registros de Valor Genealógico Datados de Antes de 1500

Lá pelo século XII os portugueses declararam seu país reino e lá pelo século XIII eles expulsaram os mouros e estenderam suas fronteiras até sua atual localização.

Registros têm sido conservados desde a formação do reino de Portugal. Entretanto, umas poucas evidências restaram daquele remoto período. Foi a partir do século XVI que os padres paroquiais da igreja católica foram solicitados a começar a registrar batismos, casamentos e falecimentos. Esses decididamente são os registros genealógicos mais valiosos em Portugal e no Brasil. Durante o século XVI outros tipos de registros de valor genealógico também começaram a proliferar. Por essa razão esa apostila não só tratará dos estilos de escrita usados antes de 1500, como também dos estilos pós-1500 encontrados em registros de valor genealógico. Para uma descrição completa deles consulte “Registros de Valor Genealógico em Portugal” e “Registros de Valor Genealógico no Brasil” ambos publicados pelo Departamento Genealógico.

Tradicionalmente, a Escrita Foi Classificada em Estilos

Desde que a paleografia é considerada uma ciência, métodos individuais de escrita têm sido agrupados em estilos. Algumas vezes é conveniente fazer isso e dar nomes a esses estilos. Eles incluem, entre outros, a caligrafia carolínea, a gótica, a cortesa, a secretária, a secretária encadeada e a itálica. Se você está para se tornar um perito na leitura de registros de todos os períodos, será necessário um conhecimento de cada um desses estilos. Todavia, assim como com muitas disciplinas, a categorização pode ser perigosa. Automaticamente surgem perguntas do tipo “se certos estilos pertencem a um grupo ou a outro ou a algum entre eles”.

Como Eduardo Nunes explica: “A classificação das letras é um rito sagrado, mas do qual, atualmente, todos os paleógrafos desejariam poder furtar-se; … porque, tanto a terminologia (base da classificação) como a própria metodologia (postulado da terminologia) se encontram em plena crise da refundição.” (Nunes, Eduardo – álbum de Paleografia Portuguesa, Vol. 1, Lisboa, Portugal: Instituto de Alta Cultura, Universidade de Lisboa, 1969, p. 11.)

Por ser esse o caso, e como a maioria dos registros de valor genealógico no Brasil e em Portugal surgem apenas a partir de 1550 (quando um ou dois estilos predominaram sobre os outros), esta apostila não procurará identificar o estilo usado em cada documento. Ao invés disso, você estudará as técnicas e os métodos usados necessários para se tornar familiarizado com qualquer estilo. Depois, utilizando-se dessas técnicas, poderá adquirir as habilidades básicas necessárias para ler e transcrever a maioria dos registros usados na pesquisa genealógica portuguesa.

O Alfabeto

O Alfabeto Permaneceu Virtualmente Inalterado

Originalmente o alfabeto romano era constituído de 21 letras: A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, V e X. Aproximadamente em 50 AC foram adicionadas as letras Y e Z. Desde aquela época tem havido muitas mudanças nas línguas latinas e na maneira de escrevê-las, mas o alfabeto, com poucas exceções, permaneceu inalterado. Por essa razão, uma vez que você tenha aprendido as características únicas de qualquer estilo de escrita e supondo que você esteja familiarizado com o vocabulário e com a gramática usados na época da escrita, você deverá ser capaz de ler qualquer documento escrito naquele estilo, com um esforço levemente maior do que levaria para ler os estilos de escrita de hoje.

É claro que você ainda assim terá que lidar com má grafia, tinta borrada e falta de informação. A chave, porém, é ser capaz de reconhecer as características do estilo usadas pela pessoa que escreveu o documento.

Quase todos os exemplos seguintes de letras foram tirados diretamente dos exemplos de textos usados nesta apostila. Houve, é claro, muitos outros estilos pessoais usados por milhares de escribas através do curso de quatro ou cinco séculos. Aprender todos levaria uma vida inteira. Esses exemplos devem ajudar a dar uma idéia de algumas das muitas variações. Estude-os cuidadosamente e recorra a esta seção frequentemente enquanto você pratica o restante da apostila. À medida que você continuar seu estudo de paleografia ou quando você começar sua pesquisa em registros originais, será bom adicionar a essa lista amostras de letras que provaram ser especialmente difíceis para você. Dessa maneira você estará compilando seu estoque particular de letras, ao qual desejará recorrer.

Você também poderá vir a desejar praticar a escrita de algumas das letras que são difíceis para você transcrever. Isso pode ser feito numa folha de papel separada. Essa também é uma boa idéia quando se encontra uma combinação de letras que lhe seja nova ou estranha. Escrevendo as letras você entenderá melhor o estilo do escriba e se recordará dele por mais tempo.

A – H
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H – O
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O – Z
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