Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Vendo o que o Jorge, lá do Direito e Trabalho, escreveu aqui, percebi que não tenho mais como fugir (ainda mais considerando a nova situação peculiar em que me encontro): terei que me adaptar.

É que o Acordo Ortográfico entre os países da Língua Portuguesa, objeto de decreto presidencial em setembro último, efetivamente entrou em vigor agora no início de janeiro de 2009, sendo que as escorregadelas e adaptações poderão se dar até dezembro de 2012. A partir daí os recalcitrantes estarão escrevendo errado…

E, seguindo uma dica do próprio Jorge, fui parar na ótima página do Interney, que escreveu um resumão bem legal das novas regras. Resumo esse que serviu para alimentar mais um bocadinho da minha “página de lembretes” aí do lado, sob o peculiar título de O Bucéfalo

Aliás, as dicas do Interney foram baseadas no Guia Prático da Nova Ortografia, da autoria de Douglas Tufano. Caso alguém se interesse, é um arquivinho com cerca de 1Mb (apenas 32 páginas) e que, dentre outros lugares, pode ser encontrado para download bem aqui.

Enfim, passadas três décadas desde a última reforma ortográfica e ainda que as mudanças possam ser consideradas pequenas e até mesmo pouco significativas – inclusive porque foneticamente nada muda – considerando sob o ponto de vista da simplificação de muitas das regras existentes essa reforma será bastante valiosa para a alfabetização dessa criançada que está dando seus primeiros passos na língua portuguesa (meus filhos inclusive).

Então, como eu já havia dito, terei que me adaptar…

É phoda…

Sicrano ou siclano?

Antes que alguém atire algum Houaiss ou Aurélio em minha pobre cabeça, saibam que essa dúvida (que não é minha) é mais comum do que parece. Talvez por alguma questão de fonética (pronúncia de “L” em vez de “R”), caipirismo, chinesismo, sei lá… Mas vamos ao que interessa: a grafia correta é com “erre”, ou seja, SICRANO. E já que estamos falando nisso, para que nos prendermos somente a este dos três sujeitos? O negócio é dar asas à imaginação, como o fez Guimarães Rosa, nesse trecho de seu conto Mechéu:

Sumo prazia-lhe ouvir debicarem alguém: que fulano fora à casa de baiano e a moça de lá não lhe abrira a porta; beltrano não ia à Vila à noite, por medo dos lobos; sicrano surrara peixano que sapecara terciano que sovara marrano, sucessos eis faziam-no rir a pagar, não risada gargalhal, somenos chiada entre quentes dentes, vai vezes engasgava-se até, da ocasiãozada. Malvadezas contra outros o confortavam. (…)

Não sei por qual motivo, mas me identifiquei MUITO com esse personagem…

Talvez seja porque vai ao encontro de algo que sempre costumo dizer: pequenas malvadezas – nada como isso para alegrar o dia de alguém!

😉

O fio

Saboroso texto do Sérgio Rodrigues, sendo de se destacar o excelente conselho de Dorothy Parker.

Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: o fio

A boa escrita é a atualização, que parece se dar no ato mesmo da leitura, de um certo potencial literário da linguagem, coisa obviamente intangível: um jogo desesperado, uma dança sedutora, tapeçaria vaporosa de ritmos, vírgulas, climas e sabedoria vocabular lançada sobre um relevo concreto de topoi, de pressupostos culturais e sensoriais que compõem o território compartilhado por escritor e leitor. Um relevo de lugares-comuns que a escrita ora aceita, acariciando, ora confronta, batendo de frente nas pedras – mas esta é outra conversa. O que importa destacar aqui é que toda essa algazarra se dá, como se acontecesse pela primeira vez, no ato mesmo da leitura, aparecendo antes de mais nada sob a forma de um comboio de palavras. E já que estamos no terreno do intangível: quanto mais charmoso esse comboio, quanto melhor a escrita, maior o fio, o gume com que fere a página naquele momento.

É o fio, para não deixar de explorar a polissemia da palavra, que nos leva a passar de uma palavra à próxima, de uma frase às frases seguintes, e virar as páginas fascinados num mundo em que a cada dia há mais páginas, páginas excessivas, implorando nossa atenção como crianças malabaristas nos sinais. E é a consciência da ausência de fio que nos leva a ler cinco páginas e meia do romance cult recém-lançado como quem encara um suflê de alfafa, garfada a garfada, penosamente, antes de tomarmos coragem para seguir o conselho de Dorothy Parker: “Este não é um livro que se possa deixar de lado de forma leviana. Deve-se atirá-lo longe com toda a força”. Teríamos cometido uma injustiça? Brilharia milagrosamente a partir da página dezoito o gume até então cego? Nós e Dorothy jamais saberemos.

Mas como se dá, afinal, a avaliação da escrita por um critério tão impressionista? Quem diz onde está o fio, ou pior, quem diz o que é o fio? Quem leu o suficiente para dizer, é claro. Mas diz em primeiro lugar – e isso é importante – a si mesmo. Assim como a realidade do texto para o leitor se dá sempre agora, não importa quanto tempo o autor tenha investido nele nem quantos séculos tenham se passado entre escrita e leitura, da mesma forma esse leitor-juiz, se tiver dois gramas de sabedoria, saberá que é irremediavelmente idiossincrático ao julgar o fio. Isso não significa decretar um vale-tudo estético baseado apenas no “gosto pessoal”. Nenhum gosto é exclusivamente pessoal, mas sempre enraizado num patrimônio de cultura que pertence à sociedade. Ocorre apenas que, de tanto ler, o leitor, submisso leitor, acaba dando um jeito de instaurar sua própria tirania sobre os escritores: se puder, não permitirá de modo algum que aquelas palavras lhe arranhem a retina, a mente ou a alma. Eis porque uma boa pedra de amolar é mais importante na mesa de trabalho do escritor do que papel e caneta – ou um computador.

Autopirataria

Acho que Já li quase tudo que o Paulo Coelho publicou…

E antes que me atirem alguma pedra filosofal na cabeça, já esclareço que não, não acho que ele tenha o “cacife” de estar entre os ditos Imortais. Apenas é um caboclo bom de vendas e com alguns livros interessantes.

Mas a abordagem agora é outra.

No Link dessa semana (o suplemento de informática do Estadão) foi mostrada uma faceta do Paulo Coelho com relação à “pirataria” que vai exatamente ao encontro das idéias que eu já defendo faz muito tempo:

Coelho acredita que a rede “é livre e anárquica” e diz ser inútil lutar contra ela. Segundo o autor, a disponibilização gratuita de livros na web não prejudica a venda: “Pelo contrário, é uma forma de divulgar o trabalho.” Para ele, as pessoas podem gostar e, então, decidirem comprar o original na livraria mais próxima.

Na sequência da matéria alguns autores de renome discordam dessa colocação, sendo que um deles foi categórico ao dizer que “Não faria isso que ele fez sem ter certeza de que não afetaria a venda dos meus livros.”

Ora, na minha humilde opinião, ô pensamentozinho besta! E egoísta!

Outro dia mesmo o Sérgio Rodrigues, num excelente post, nos lembrava que Da Alemanha, em 1826, disse Goethe: ‘Aquele que não espera ter um milhão de leitores não deveria escrever uma linha’. Ao que respondeu o americano Gore Vidal, século e meio depois: ‘Idealmente o escritor só precisa ter como audiência os poucos que o entendem. É cobiça e falta de modéstia querer mais’.

Particularmente meu pensamento se alinha muito mais com Gore Vidal que com Goethe – que o digam meus quase cinco leitores!…

Enfim, apesar de não ter lá muita certeza dos “motivos altruístas” do caboclo, ainda assim o que importa é que uma idéia foi colocada, um pensamento foi divulgado e um passo foi dado. Talvez o primeiro. Talvez o derradeiro. Na prática uma atitude às vezes acaba sendo mais importante do que palavras.

Até porque, segundo Julien Green, “O pensamento voa e as palavras andam a pé. Esse é todo o drama do escritor.”

😉

Desenvolvimento predatório: há solução!

Sei que pode até parecer repeteco – mas distribuindo em mais de um ponto aumentamos a potencialidade do artigo!

E nada melhor que abrilhantar este nosso cantinho com tão ilustre presença…

Segue, pois, o artigo da amiga e eventual copoanheira Jose (já no aguardo de seus textos futuros):

A insustentável leveza do homem e do meio
Joselani Soares

O planejamento ambiental existe para lidar com os conflitos de interesses que opõem o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental. E é por conta do primeiro que existe fragilidade na aplicação do planejamento. Com um histórico de estagnação e de frustrações sobre melhores condições econômicas, o Brasil já deu mostras de querer o desenvolvimento a qualquer preço, ainda que para isso seja necessário colocar em risco um de seus maiores patrimônios: os recursos naturais.

A sanha desenvolvimentista, e ao mesmo tempo predatória, já deixou rastros em ocupações quase que totais de áreas de mananciais, de preservação ambiental. Em alguns casos sobrou pouco para recuperar. Isso significa que já não há o que preservar no Brasil? Não, ainda não. Ao longo do tempo, o País tem implementado medidas para colocar o meio ambiente e a sustentabilidade na ordem do dia. A legislação ambiental é abrangente, atual, há a Política Nacional de Unidade de Conservação (Snuc), Política Nacional de Recursos Hídricos, Lei de Proteção de Mananciais, Zoneamento Ambiental, e ainda a Agenda 21, que visa proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica.

A Política Nacional de Meio Ambiente, criada com a Lei 6.938/81, por exemplo, estabelece alguns passos visando a aplicação do conceito de sustentabilidade. A meta é garantir a adequação dos meios de exploração dos recursos às especificidades do meio ambiente. Com este viés, o planejamento demonstra que tem no conjunto de suas ferramentas legais e na força dos agentes sociais a sua grande potencialidade, caso de fato seja aplicado. É a chance de um país desenvolvido, mas com longevidade.

Em “A insustentável leveza do ser”, o escritor tcheco Milan Kundera fala sobre a condição humana e as fragilidades pelas quais esta é permeada. O romance político-filosófico descreve a oscilação do homem entre o peso e a leveza da vida, de acordo com seus próprios atos. A crônica pode se aplicar também à relação do homem com o meio ambiente. Ao mesmo tempo que cria instrumentos de controle, ele tem dificuldades para conciliar desenvolvimento e sustentabilidade. Entretanto, se a vida na Terra terá peso ou leveza caberá ao homem colocar em prática esta poderosa ferramenta que é o planejamento ambiental.

Joselani Soares é jornalista e pós-graduanda em Educação Ambiental.