Pais e Filhos

Você me diz que seus pais não entendem
Mas você não entende seus pais
(…)
São crianças como você
‘O que você vai ser quando você crescer?’
(Pais e Filhos, Legião Urbana)

        

O cartaz de meu primeiro Dia dos Pais com o Kevin, a tampa da caixinha porta-treco (que uso até hoje) que ganhei do Erik e “arte” feita pelo Jean…

Dia dos Pais… Trata-se de uma data comemorativa para homenagear a paternidade, atualmente celebrada no segundo domingo de agosto – e que neste ano de 2020 cairá no próximo dia nove.

Ainda que em outros países seja celebrado em datas diversas, no Brasil somente foi comemorado pela primeira vez em 1953 – tendo sido “pensado” por um publicitário chamado Sylvio Bhering, à época diretor do jornal O Globo (do grupo empresarial de Roberto Marinho), um tanto com objetivos sociais – homenagear, de fato, os pais – quanto com nada nobres objetivos comerciais – movimentar a sociedade de consumo em busca de presentes para esse dia. Inicialmente a tentativa foi associar a data ao dia de São Joaquim, pai de Maria, mãe de Jesus Cristo (16 de agosto no calendário litúrgico da Igreja Católica), mas já nos anos seguintes a data também foi deslocada para um domingo, certamente por ser um dia mais fácil de se reunir a família, no caso o segundo domingo do mês de agosto – e assim permanece até hoje.

Apesar de seu apelo inicial ao consumismo, a comemoração do Dia dos Pais acabou ficando arraigada na sociedade brasileira, sendo uma data em que muitos filhos, ainda que distantes, se lembram de mandar ao menos um “oi” para seus pais – o que se torna muito mais relevante nestes tempos de pandemia e de forçado isolamento social. É, enfim, uma data em que um pai gostaria de se sentir amado e lembrado por seus filhos.

Mas, na minha livre interpretação da letra da música Pais e Filhos, do Legião Urbana, todo pai já foi também um filho. E mais: também teve por sua vez seu próprio pai. E suas diferenças. E discussões. E reconciliações. Aquele que hoje deveria ter todas as respostas também já foi ontem um garotinho cheio de perguntas. É um ciclo que se repete. Ou melhor, são ondas, tais como as ondas do mar, que vêm e vão. Explico.

Quem me conhece minimamente sabe que também é do conhecimento até do Reino Mineral o quanto gosto de história e genealogia. Então, para manter o foco genealógico do que tenho a dizer, vamos ficar somente na minha linha paterna – sem entretanto deslembrar os acontecimentos históricos, sociais e econômicos de cada época para que possamos compreender como veio se dando a relação de pais com filhos desde então. Somente assim a conclusão deste texto deverá ficar menos ininteligível…

Apesar de ter traçado minha ascendência nesse ramo até o ano de 1629, comecemos já com meu trisavô, Joaquim Theodoro de Andrade, que em fins do Século XIX foi um dos herdeiros das diversas fazendas deixadas por seus pais na região de Madre de Deus, MG. Ora, pela tradição familiar não é muito difícil cogitar que ele provavelmente também tenha se dedicado à vida no campo, nos tratos de lavoura e de gado. Estamos falando do ano de 1868 (quando da abertura do inventário), em pleno Brasil-Império ainda governado por Dom Pedro II, mas já em pleno declínio da cultura cafeeira, principalmente pela falta da mão de obra escrava – o que já vinha ocorrendo desde os anos seguintes à proibição do tráfico de escravos (1831) e que ainda iria se agravar com o advento da Lei do Ventre Livre (1871) e a própria Abolição da Escravatura (1888). Diante desse quadro cabe supor que, diferente de seu pai, e em conjunto com seus 11 irmãos, Joaquim deve ter vivido muito mais para tentar manter (e ver se desfazer) um patrimônio que não foi construído por ele.

“Pai rico, filho nobre, neto pobre”. Este é um antigo ditado que parece retratar bem o que aconteceu em diversas famílias não só pelo Brasil, mas também pelo mundo afora.

O filho de Joaquim, nascido em 1877 na cidade de Madre de Deus, MG, foi meu bisavô João Agnello de Andrade. Há notícias de que teria falecido cedo, com cerca de apenas 40 anos. Apesar de seus ancestrais terem sido fazendeiros na região de Sul de Minas – e diante da falta de documentação da época – num gigantesco exercício de suposições é plenamente possível imaginar que a fortuna amealhada nas gerações passadas não veio a agraciar essa nova geração. Ora, logo após a Proclamação da República (1889) e com as sucessivas crises do café, na virada do Século XIX para o XX tivemos o começo da Revolução Industrial no Brasil (com cerca de cem anos de atraso em relação à Inglaterra) bem como a Crise do Encilhamento, conjunto de fatores que veio a resultar no início da industrialização no Rio de Janeiro (então Capital do País). Assim, em que pese a cultura familiar de fazendeiros, é bem provável ter sido esse o motivo que fez com que meu bisavô tenha migrado ainda mais para o Sul, para a cidade de Santa Rita de Jacutinga, MG, onde em 1901 casou-se. Há registros de que não só ele como também parte de seus filhos, tenham trabalhado na cidade vizinha de Valença, no Rio de Janeiro. Ou seja, diferente de seu pai, quebrou uma tradição, saiu do campo e, talvez com um quê de esperança, para criar seus 10 filhos resolveu abraçar aquele novo mundo que se lhe surgia.

Mas ainda estamos falando da virada do século. Num curto período de tempo o mundo ainda seria flagelado pela Primeira Guerra Mundial (1914), pela Gripe Espanhola (1918), pela Grande Depressão (1929) e pela Segunda Guerra Mundial (1939). Como resultado direto desses acontecimentos, em cerca de apenas 30 anos, foram diretamente consumidas mais de 140 milhões de almas por todo o planeta. Restaram ainda outros tantos milhões de mutilados e com sequelas. Não deve ter sido um período nada fácil para aqueles que sobreviveram e só posso imaginar uma densa falta de esperança que pairava no ar por esses tempos. Algo como tudo isso que estamos vivendo especificamente neste ano de 2020 em virtude do Coronavírus.

E o filho de João Agnello, meu avô nascido em 1909 em Santa Rita de Jacutinga, MG, Antonio de Andrade passou por tudo isso. Não o conheci, pois faleceu em 1970, quando eu tinha apenas um ano de idade. Até onde pude descobrir, diferente de seu pai, foi um homem que tinha um pé na cidade e outro no campo (talvez mais para este último). Ao que tudo indica o que lhe interessava era tentar possuir seu próprio canto para poder criar os 12 filhos que viria a ter, de modo que abraçava as oportunidades que se lhe apresentassem. Tanto o é que montou e manteve um salão de barbeiro próximo à estação ferroviária local, o que lhe garantia tanto o sustento como o dinheiro para as cachaças que tanto gostava.

Mais tarde, no final da década de 40, veio de trem com toda a família para São José dos Campos, SP, após seu irmão já ter vindo e se certificado de que haveria trabalho para ele. Antes de ter sua própria terra, morou em diversos locais na zona rural, entre São José e Igaratá, sempre cultivando a terra (feijão, milho, arroz, etc) e criando um “gadinho”… Mas nem só da terra viveu, pois também empregou-se pelas fazendas da região, onde fazia serviços diversos, principalmente de marcenaria. E apesar da vida sofrida, era bem animado, adorava os arrasta-pés, foguetórios e tomar umas e outras sempre que podia.

A cidade de São José dos Campos (que agora em 2020 completou 253 anos) até então era classificada como estância climatérica, pois desde 1918, com a construção do Sanatório Vicentina Aranha (assim como de várias outras casas depois), foi o centro de migração de centenas de doentes vindos de várias regiões do país para tratamento da tuberculose. Aqui ficavam todos aqueles que não tinham posses suficientes para serem tratados na estância de Campos do Jordão, escolhidas à época pelo fato de ambas serem cidades afastadas dos grandes centros urbanos, o que minimizava o risco de contágio. Essa fase sanatorial durou até cerca de 1950, quando começou a transformação de São José dos Campos em um polo industrial e tecnológico, tendo início com a instalação do Centro Técnico de Aeronáutica – CTA (1950), do Parque Industrial da Johnson & Johnson (1954), do Complexo Industrial da General Motors do Brasil (1958), bem como de diversas outras empresas e indústrias dos mais diversos setores. Foi um período de prosperidade para a região e ainda levariam alguns anos para que se instalasse a Ditadura Militar no Brasil.

E foi por essa época que o filho mais velho de Antonio, nascido em Santa Rita de Jacutinga, MG, em 1937, José Bento de Andrade (também conhecido como meu pai), resolveu que já era hora de deixar o campo e seguir seu rumo para a cidade. Meu avô foi contra, pois queria que ele tivesse uma “profissão de sucesso”, o que no seu entender era ser tropeiro pela região e pelo Brasil afora. Mas esse “sonho” era dele e não de seu filho. Do alto de seus cerca de 20 e tantos anos ele lhe disse que não queria nada com isso não, que a vida ali era muito sofrida, que queria ir para a cidade tentar a sorte. E assim o fez. Apesar de ser um homem de estudos primários escassos, fez-se a si mesmo. Construiu-se. Com um inafastável esforço próprio no desejo de ser alguém, veio para cidade, arranjou emprego numa mecânica, casou-se, levantou sua casa no bairro de Santana (onde vive até hoje), teve três filhos, e por fim mudou-se para outro emprego numa indústria onde ficou até sua tranquila aposentadoria. Ele nunca foi de mudanças drásticas, de vida atribulada no campo, nem nada disso, e, ainda, apesar de à sua época até ter tomado suas cervejinhas, nunca gostou de bebida alcoólica em excesso – ou seja, ordenou toda sua vida de um modo bem diferente de seu pai

A assim chamada Geração X abrange aqueles que nasceram no início dos anos 60 até o final dos anos 70 (pegando, talvez, o comecinho dos anos 80). É considerada como um grupo de pessoas sem identidade aparente, mas que enfrentariam um mal incerto, sem definição, um futuro hostil de pós-guerra, num tempo de incertezas e de Guerra Fria (a longeva polarização entre Estados Unidos e União Soviética). Essa geração nasceu, cresceu, passou pela fase hippie, teve ideais, esqueceu-se dos mesmos e foi fazer carreira no mercado de trabalho. Atravessou todo o período de evolução tecnológica, tendo presenciado o surgimento e desenvolvimento dos modernos meios de comunicação, viu surgir o computador pessoal, a Internet, o celular, a impressora, o e-mail, etc. O mundo ao seu redor mudou muito e adaptação nunca foi uma opção, mas sim uma necessidade.

Eu, filho do Seo Zé Bento, pertenço a essa geração. Nasci em São José dos Campos, SP, em 1969. Tive uma boa infância, meio de nerd, meio de pé descalço. Minha família era da chamada “classe média” (quando essa ainda existia), de modo que vivi plenamente minha adolescência, viajei um tanto (normalmente de carona) e paquerei outro tanto – pois ainda não existia o termo “ficar” e aqueles relacionamentos esporádicos não podiam ser chamados de namoro. Desde o início da adolescência aprendi a beber, a fumar, a teimar e a ser dono do meu próprio nariz. Sempre adorei estar com os amigos, no meio de gente, de falar alto, de curtir a vida. Eu e meu pai tivemos discussões homéricas por conta disso, pois eu não concordava com o modo e opção de vida dele, assim como ele também não concordava com o meu. Foi somente alguns anos após meu primeiro casamento (casei aos 18) e depois de um tanto de lambadas existenciais que finalmente entendi que ambos estávamos errados: não fazia sentido nos compararmos. Ele, com todos seus defeitos, era ele, assim como eu, também com todos os meus, era eu. Apesar de aparentemente contraditório, foi somente com essa compreensão que veio a aceitação de que eu não precisava gostar de meu pai para amá-lo. Pois não adianta: eu sempre fui, sou e serei diferente de meu pai.

Do meu primeiro casamento, que durou cerca de dez anos, não tive filhos. Se os tivesse, provavelmente seriam da Geração Y, também conhecidos como Millenial: aqueles nascidos do começo dos anos 80 até meados da década de 90. Uma geração que desenvolveu-se em uma época de grandes avanços tecnológicos e prosperidade econômica, tendo crescido com muito do que seus pais não tiveram, como TV a cabo, videogames, computadores, vários tipos de jogos e muito mais. Internalizaram a tecnologia desde pequenos, acostumaram-se à multitarefa e a conseguir o que queriam, não gostando de se sujeitar às tarefas subalternas de início de carreira e por isso sempre trocando de emprego com frequência em busca de oportunidades que oferecessem maiores desafios e crescimento profissional.

Não, meus três filhos, todos de meu segundo (e último) casamento, pertencem à Geração Z, também chamada de Centenial. São aqueles nascidos a partir do final dos anos 90 até aproximadamente 2010 – o que é justamente o caso deles: Kevin em 1999, Erik em 2001 e Jean em 2004. Os que pertencem a essa geração são “nativos digitais”, pois nunca viram o mundo sem computador. São multitarefa, mas seu tempo de atenção é muito breve. Como informação não lhes falta, estão sempre um passo à frente dos mais velhos, concentrados em adaptar-se aos novos tempos. Seu conceito de mundo é desapegado de fronteiras geográficas, pois para eles a globalização não foi um valor adquirido no decorrer do tempo e a um custo elevado. Aprenderam a conviver com ela já na infância. Daí serem desapegados de conceitos históricos ou mesmo da história em si, pois o que interessa é que o presente é a estrada a ser pavimentada para o futuro. Seus maiores problemas são relacionados à interação social, pois, paradoxalmente, por estarem tão conectados virtualmente acabam por sofrer de falta de intimidade com a comunicação verbal.

Quando pequeninos e ainda cabiam em meu colo e eu em seus corações.

Acho que já perceberam onde essa história vai dar, né?

Sim, é isso mesmo: meus filhos são diferentes de mim. E principalmente com a chegada da adolescência essa diferença aumentou de forma exponencial. Tenho absoluta certeza de que a responsabilidade é só minha, pois no decorrer de sua infância até que fomos bastante parceiros, mas quando estavam crescendo e provavelmente mais precisavam de minha presença, eu estava ausente. Seria muito cômodo de minha parte alegar que foi em razão do trabalho, das responsabilidades, da política, ou do que quer que seja. Foi tudo isso, também. Mas na sua essência, não. Não mesmo. Eu estava muito ocupado (ainda) sendo e fazendo tudo aquilo que meu pai não gostava e não queria e não percebi que estava mais uma vez repetindo um ciclo de gerações. Ou sendo apenas o refluxo de mais uma onda na areia, afastando-me cada vez mais da margem. Não só o fosso que começou a nos distanciar acabou por se transformar num imenso vale, como eu ainda tive a capacidade – ainda que involuntária – de queimar todas as pontes pelas quais passei.

Kevin, Jean e Erik em 2020: Geração Z.

Talvez por sermos de gerações tão distintas – afinal “pulamos” toda a Geração Y – essa situação estivesse fadada a acontecer. Não sei. Não posso ter certeza. Mas sei que foi n’o ano que passei fora que tudo se consolidou pra pior, quando minha ausência começou a se fazer presente e nosso distanciamento de gostos e coisas se acentuou. Afinal, diferente de meus filhos, eu vivo com um pé nos dias de outrora pois acredito que a história, o passado, é que verdadeiramente nos ensina o caminho para o futuro para que não cometamos os mesmos erros – nem os nossos, nem os de nossos pais (ainda que, mesmo conscientes disso, acabemos por fazê-lo). Acredito também que a vida é feita de momentos (e mesmo assim, com eles, eu os estou perdendo um a um devido à minha própria negligência), por isso tenho uma profusão deles na minha memória: situações tanto corriqueiras quanto inusitadas que vivenciamos, momentos de carinho e de amor, circunstâncias de dor e de sofrimento, mas principalmente aqueles especiais, marcantes, o primeiro passo, a primeira palavra, a primeira conquista… Não os tenho todos de memória, mas esforço-me para guardá-los.

E é por isso que escrevo. Porque sei que a memória é curta e delével. Não conseguirei reter para sempre esses momentos, pois tudo é inconstante e passageiro. Até nós mesmos. Então é preciso deixar registrado. Porém a comunicação se torna tão mais difícil já que as poucas paixões que tenho (veículos antigos, motos, mecânica, história, genealogia, a família) sequer lhes interessam. E pela falta de interesses comuns até mesmo nosso diálogo restou comprometido. Ou praticamente inexistente. Quero ter a certeza de que meus filhos me amam, mas também sei que meramente me toleram. Então guardo tanto os meus quanto os nossos momentos em palavras impressas para que fique registrado que, de fato, existiram. Ainda que não se lembrem. Ainda que não se interessem. Ainda que não queiram. Mas essa foi a maneira que encontrei de conservá-los para mim, para eles e para quem mais queira apreender desse passado. Pois, independentemente de todos os meus erros, tenho um orgulho gigantesco de cada um de meus filhos, cada qual a sua maneira, e meu maior desejo é que algum dia eles venham também a ter orgulho de mim.

Essa é, hoje, a nossa realidade.

Talvez algum dia mude, não sei.

Como já havia dito, queimei as pontes pelas quais passei e não há retorno fácil, pois é preciso reconstruí-las. Sei que reconstruir pontes é uma tarefa árdua e difícil, mas também sei que tem que ser feito através de esforço mútuo a partir de ambas as margens que se encontram isoladas.

E é esse o desafio que devo me impor… É bem como diz a música: “É preciso amar as pessoas / Como se não houvesse amanhã / Por que se você parar pra pensar / Na verdade não há”. Estou desperdiçando tempo, idade, saúde e sanidade sem dar um passo sequer para consertar essa situação. É difícil. É doído. Mas é necessário ao menos tentar reconstruir o diálogo enquanto ainda há tempo. E mudanças drásticas serão necessárias. Rogo sinceramente para que eu tenha perseverança e que me seja concedida oportunidade para isso – bem como dizem as primeiras linhas da Oração da Serenidade:

“Deus,
Conceda-me a serenidade
Para aceitar aquilo que não posso mudar,
A coragem para mudar o que me for possível
E a sabedoria para saber discernir entre as duas.
Vivendo um dia de cada vez,
Apreciando um momento de cada vez (…)”

PS1: Tenho em casa muito bem guardada uma pasta que contém a maioria dos desenhos e recadinhos que meus filhotes costumavam me deixar antigamente, quando ainda tínhamos diálogo. Dentre eles tenho esta “planta da casa” – segue com a planta em escala (da época) para fins de comparação…

         

Legenda: no gramado do fundo nós jogando bola, à direita a churrasqueira soltando fumaça, no corredor à esquerda nossa cachorrinha Léa, no corredor à direita os latões de lixo, os quartos identificados com os móveis dispostos nos exatos lugares, o escritório com dois computadores, no banheiro alguém no chuveiro com sabonete na mão, a cozinha com sua bancada externa e na sala a mesa redonda que costumávamos ter.

PS2: A partir dessa música veio boa parte da inspiração para este texto. Ouçam a letra, com calma e atenção, do começo ao fim. Vale a pena.

Primo-de-quê?

Primeiro grau, segundo grau, terceiro grau… Afinal de contas, como é que funciona essa bagaça de parentesco?

Para aqueles que ainda não sabem, sou advogado. Minha especialidade é a área de licitações e contratos públicos, mas de quando em quando, mais por gentileza que por necessidade, costumo ajuizar outros tipos de ações para dar uma força para os amigos.

O caso em questão é que faleceu um grande amigo – não, meu melhor amigoPaulo Bicarato. Divorciado, sem filhos, pais já falecidos, restaram seus quatro irmãos. E nenhum bem. Ou quase. Acontece que quando do inventário de seu pai ele ficou sendo coproprietário de um automóvel, na realidade 1/5 do veículo.  E assim ficou registrado no documento do carro. Todos os irmãos combinaram que seria transferido para a irmã mais velha, mas o Bica faleceu antes de concretizar essa vontade e por isso me coloquei à disposição para entrar com a ação, pois, ainda que isso pudesse ser feito diretamente no cartório, o custo do registro da escritura seria alto e como cada um deles mora em uma cidade diferente em tempos de pandemia seria melhor resolver tudo pela Internet.

Para facilitar criamos um grupo no WhatsApp para trocar informações sobre a ação, juntar documentação, recolher guias, tirar dúvidas, etc. Assim, uma vez que toda a documentação foi reunida, mandei uma minuta da petição inicial para o grupo para que todos verificassem. Foi então que o Marcelo, irmão do meio, perguntou:

– Adauto, na página 2, final do 2º parágrafo do item “I-DO FALECIMENTO”, somos definidos como “irmãos de 2º grau”; é isso mesmo? Não seríamos “de 1º grau”?

Esse tipo de dúvida é mais comum do que se imagina, pois temos essa mania de chamar os primos diretos de primos de primeiro grau e quando mais afastados de primos de segundo grau. Aliás, nem sei de onde saiu isso.

Pois bem. Daí lhe expliquei:

– Pelo Código Civil você define o grau de parentesco subindo até o ascendente em comum e descendo até o indivíduo. Assim temos o Paulo, subindo até o “Seo Antonio” (pai – 1º grau), daí descemos até o indivíduo com o mesmo ascendente (irmão – 2º grau) e se fosse o caso de descer até o filho do irmão teríamos o sobrinho – 3º grau. Ou seja, fica tranquilo que é assim mesmo…

Essa regrinha tá lá no Código Civil, artigo 1594, que esclarece: “Contam-se, na linha reta, os graus de parentesco pelo número de gerações, e, na colateral, também pelo número delas, subindo de um dos parentes até ao ascendente comum, e descendo até encontrar o outro parente.”

Para esclarecer melhor: o parentesco em linha reta pode ser de  ascendentes, que são as gerações da família que antecederam a chegada no mundo do indivíduo (pais, avós, bisavós, trisavós, etc) e de descendentes, que são as gerações que vêm após o nascimento do indivíduo, diretamente ligados a ele (filhos, netos, bisnetos, trinetos, etc). Esse tipo de parentesco é ilimitado, não importando o número de gerações que separam os indivíduos.

Já o parentesco em linha colateral (ou transversal) diz respeito às pessoas que não ascendem ou descendem diretamente do indivíduo, mas fazem parte do mesmo tronco familiar, pois têm um ancestral em comum. De acordo com o Código Civil  (artigo 1592) na linha colateral somente é considerado parente aquele até o quarto grau.

E temos ainda o parentesco por afinidade, que é a ligação aos parentes do cônjuge (por casamento) ou do companheiro (por união estável), que é limitado aos ascendentes, descendentes e irmãos da outra parte. Aqui temos a figura dos sogros, enteados e do cunhados. Já o cônjuge ou o companheiro propriamente dito não é parente.

Voltando à nossa história,  o Cacá, irmão caçula, gaiato que é, me veio com essa:

– trivia: qual o grau do primo do irmão do sobrinho do pai do tio avô nesse caso, Adauto?

É óbvio que eu entendi que era uma brincadeira. Mesmo assim eu lhe disse que iria “calcular” e depois informava…

Passados alguns dias resolvidos tantos outros problemas, lembrei-me da pergunta estapafúrdia e resolvi que já era hora de respondê-la. Abri o GenoPro – um programa antigo, lá de 1999, mas que considero o melhor de todos para montar genogramas e árvores genealógicas – e fui destrinchando item a item o parentesco que ele inventou. Deu nisso aqui, ó:

E por fim, dei-lhe a seguinte resposta:

– Creio que sem que você percebesse acabou tendo uma “pegadinha” na sua pergunta… Por um lado temos que o próprio avô do indivíduo é que é o primo do irmão do sobrinho do pai do tio avô e nesse caso o grau parentesco seria em linha reta de 2º grau. Mas se o primo for outro, então o grau de parentesco seria em linha colateral de 6º grau. Por nada. Servimos bem para servir sempre…

De onde viemos – Parte I

Toda história deve ter um começo.

E a nossa começa muito, muito tempo atrás…

Embora os primeiros hominídeos tenham surgido na zona tropical do continente africano há aproximadamente 2 milhões de anos – e a partir dali lentamente se espalharam e se multiplicaram pelo restante do mundo, gradativamente começando a assumir características físicas próprias de acordo com cada região – foi somente há cerca de 60 mil anos que surgiram os primeiros sinais de um despertar da criatividade na raça humana, notadamente com o desenvolvimento da fala e de primórdios da escrita, bem como com a criação de ferramentas rudimentares para utilização na caça e no seu dia a dia.

Eram, então, pequenas tribos nômades ou seminômades que se deslocavam sistematicamente dentro de sua região em busca de recursos naturais que lhes garantisse a sobrevivência. Há aproximadamente 15 mil anos a.C. teve início um lento processo de degelo, elevando o nível do mar e fazendo com que o planeta assumisse seus atuais contornos físicos. A elevação da temperatura global ampliou as áreas habitáveis e permitiu à raça humana as condições necessárias para que começassem a se estabelecer de forma mais perene em seus territórios. Há cerca de 10 mil anos a.C. o clima se estabilizou e a humanidade passou a dominar as técnicas de cultivo de grãos e de domesticação de animais, de modo que não era mais necessário o constante deslocamento atrás de caça ou frutas, pois passaram a ter condições de produzir seu próprio alimento, o que lhes garantiu a comodidade de se fixar e construir moradias mais elaboradas.

Mas ainda que essas mudanças tenham acontecido de forma gradativa, não necessariamente ocorreu com toda a raça humana. Os povos de algumas localidades se desenvolviam mais rapidamente que o de outras – até por conta do clima e da geografia de cada região – de modo que para uns a lavoura era o foco principal de seu cotidiano enquanto que para outros a criação de animais vinha em primeiro lugar, também existindo aqueles que se mantiveram através da caça, bem como alguns que de tudo faziam um pouco, inclusive mantendo-se nômades em vez de se fixarem em determinado lugar.

Foi com a criação da escrita, ocorrida há cerca de 5 mil anos a.C., que finalmente, ainda que à sua própria maneira e segundo seu próprio sistema, cada um desses povos passou a ter a possibilidade de registrar sua história, criando assim um conceito de civilização e passando cada qual a ter uma identidade cultural única.

E nas diversas regiões do mundo muitos desses povos que não tinham mais a necessidade do nomadismo passaram a se organizar em pequenas aldeias, que com o tempo se transformaram em cidades, cidades essas que constituíam reinos e reinos esses que travavam disputas entre si pelos mais variados motivos…

Para nossa história em particular o que vai nos interessar especificamente são os povos que se fixaram em dois pontos quase opostos do planeta. Em primeiro lugar temos aqueles que habitavam o sudoeste da continente europeu, na Península Ibérica – que recebeu esse nome por se tratar de uma península, ou seja, uma porção de terra quase toda circundada por água com exceção de uma estreita faixa que a liga ao continente, e, no caso, cortada pelo maior rio da região, naquela época conhecido como Rio Iber. E vem daí o nome de seus habitantes: Íberos.

A presença humana na Península Ibérica remonta a aproximadamente 35 mil anos, mas foi a partir de cerca de 8 mil anos a.C. que esse território passou a servir de ponto de encontro para migrantes de várias origens e que nele acabavam por se estabelecer, já que o mar formava uma barreira intransponível para seguir adiante. E para lá, dentre outros povos existentes, os primeiros colonizadores vieram principalmente da Fenícia, de Cartago e da Grécia. E assim eles foram se mesclando, se confundindo, e através desse milenar processo de miscigenação de sangue e de sucessivas sobreposições culturais foram modelados em um determinado tipo humano, mas não se definiram nos moldes de uma raça específica. E ali desenvolveram uma cultura voltada à agricultura e a construções que tinham por base grandes blocos de pedra rude.

Por volta do ano 1.000 a.C., quando estávamos em plena Idade do Bronze, o continente europeu sofreu a invasão dos Celtas, vindos da região das ilhas britânicas, um povo culturalmente mais avançado, dotado de muita ciência e muita mística, que, inclusive, tinham uma enorme vantagem técnica sobre os demais povos já instalados: sabiam trabalhar o ferro, metal muito superior ao bronze em relação à dureza e abundância de jazidas, o que permitia a fabricação de armas e ferramentas melhores e mais duradouras.

Os Celtas lutaram durante um bom tempo com as populações locais, mas no decorrer dos séculos seguintes acabaram por se estabelecer e se fundir com elas, ocupando o noroeste da Península Ibérica, especificamente onde nos dias de hoje encontram-se a comunidade de Galiza (cujo nome significa “a terra dos Celtas”), na Espanha, bem como o norte de Portugal. Essa fusão entre Celtas e Íberos fez surgir os assim denominados celtíberos, antepassados dos atuais habitantes dessas regiões.

E assim a Península Ibérica, com o passar do tempo, passou a ser formada por diversas tribos e reinos, os quais se reuniam em territórios distintos segundo seus próprios costumes: a Lusitânia e a Hispânia. Mas esses costumes acabaram por ser gradualmente romanizados, o que se deu a partir de 197 a.C. em decorrência da guerra entre Cartago e Roma, sendo que esta, num movimento expansionista que viria a culminar em um novo império, acabou por anexar toda a Península Ibérica. Essa situação perdurou até o ano 418 d.C., quando houve a invasão de povos germânicos, os Visigodos, que viriam a assumir o domínio de toda a região pelos trezentos anos seguintes, trazendo novos hábitos e costumes aos habitantes locais. A seguir, em 711 d.C., se deu a invasão muçulmana, que não dominou toda a península, mas fez com que os íberos convivessem com os árabes até sua expulsão em definitivo, o que só viria a ocorrer no ano de 1492.

Foi desse modo, através da miscigenação de todos esses povos e da assimilação de novas culturas e línguas, que consolidaram-se as características daqueles povos e as nações de Portugal e da Espanha. Portugal começou a adquirir independência e identidade a partir do ano de 1139, quando, após uma série de batalhas para manter o Condado Portucalense, D. Afonso Henriques autoproclamou-se Rei de Portugal.

E foi aproximadamente nessa época que lá na região de Galiza, um reino situado ao norte de Portugal, bem na pontinha da Península Ibérica, em determinada localidade às margens do Rio Eumes, pouco antes de desaguar num braço de mar do Oceano Atlântico, veio a surgir em pleno século XII um pequeno povoado que recebeu o nome de Freguesia de Andrade.

E esta é apenas uma parte da nossa história…

Ascendentes de Bragança

Acabei aprendendo – na raça – que quando alguém se propõe a montar uma árvore genealógica vai encontrar inúmeras dificuldades, a começar da “desconfiança” dos parentes de que você está atrás de alguma herança, a complicada (e muitas vezes cara) burocracia para levantamento de documentos, certidões, inventários e outros quetais, a escassez de livros de consulta e obras de genealogia e vai por aí afora.

Porém o mais complicado é quando sua árvore remonta a um passado longínquo, praticamente impossível de ser cabalmente comprovado através de documentos, baseado principalmente em autores de séculos atrás e que mesmo à sua época já encontravam-se num tempo distante dos fatos quando ocorreram.

É esta a nossa situação.

Assim, baseado em vários livros e um tanto de estudos que já foram feitos a respeito dessa linhagem, bem como através de algumas considerações e deduções lógicas, consegui reconstruir a linha de meus ascendentes até aproximadamente o ano 1.000 em Portugal, em Bragança, uma região situada no nordeste do país, divisa com a Espanha.


Mapa de Portugal

Essa área, onde já existia uma povoação desde a época da ocupação romana, foi destruída durante as guerras entre cristãos e mouros e estava localizada num território que pertenceu ao mosteiro beneditino de Castro de Avelãs. Fazia divisa, à época com os reinos espanhóis de Leão e também de Castela.

E ali, na época do reinado de Afonso VI de Leão e Castela (pai de Teresa de Leão e avô de Afonso Henriques, que viria a ser o primeiro rei de Portugal), é onde começa a nossa história…

      
Afonso VI   /   Teresa de Leão   /   Afonso Henriques

1 – MENDO ALAM (*980 +1050)

Também encontrado como Mendo Alão. Nascido na Bretanha (França), dizem alguns estudiosos que se refugiou no reino de Leão para evitar um confronto com seu primo, que reivindicava o Condado da Bretanha e por isso mesmo já teria assassinado seu pai, conforme se refere José Carlos Lourinho Soares Machado em sua obra “Os Braganções”, Lisboa, 2004. Corrobora essa tese o fato de que o patronímico Alam ou Alão – derivado de Alanus – simplesmente não existia na região de Leão, nem sequer na Península Ibérica, sendo entretanto comum na região da Bretanha.

Esse Mendo foi senhor de muitas terras em Castela e também senhor da Vila de Bragança, localidade esta que teria tomado dos mouros. Muito provavelmente deve ter sido ele que fundou o Mosteiro de São Salvador de Castro de Avelãs, onde vivia.

Quando a princesa armênia JOANA DE ROMAES ARDZROUNI-HOMAZ (*1010 + 1083), filha do último rei de Vaspuracânia, viajou com seu pai em peregrinação para Santiago de Compostela, na Galiza, para visitar o túmulo do apóstolo São Tiago, hospedou-se nesse mosteiro, Mendo tomou-a à força e a fez sua esposa, conforme conta Pedro Taques ao transcrever a obra de Arroio, de 1757. Teve aí o início da linhagem dos Braganções. Mendo Alam veio a falecer em Bragança, Portugal.

Filho(s): Fernando Mendes e Ouroana Mendes, casada com Fafes Serracin de Lanhoso (com geração).

2 – FERNANDO MENDES, “O VELHO” (*1030 +1117)

Também encontrado como Fernão Mendes de Bragança, foi ele que sucedeu seu pai no Senhorio de Bragança e de outras terras na província de Trás-os-Montes, entre Bragança e Miranda, tornando-se assim o Segundo Senhor de Bragança.

Casou-se com SANCHA DE LEÃO, filha legítima do rei Afonso VI de Leão e Castela e sua segunda esposa, Constança da Borgonha. É o que consta no “Livro Velho de Linhagens do conde D. Pedro”. Alguns autores colocam este Fernando Mendes casado com Teresa Soares, o que é um equívoco, pois ela foi na realidade casada com seu neto homônimo.

Filho(s): Mendo Fernandes.

3 – MENDO FERNANDES

Também encontrado como Mem Fernandes de Bragança e foi quem por sua vez sucedeu ao pai no Senhorio de Bragança, provavelmente tendo sido alferes-mor do rei D. Afonso I de Portugal (Afonso Henriques) por volta de 1147.

Casou-se com SANCHA VIEGAS DE BAYÃO, filha de Egas Gosendes, O Senhor de Bayão, e de sua mulher Gotina Nunes.

Filho(s): Fernando Mendes e Ruy Mendes.

4 – FERNANDO MENDES, O BRAVO (*1095 +1160)

Também encontrado como Fernão Mendes II de Bragança. Ficou conhecido como “O Bravo” tanto por ter participado com o rei D. Afonso Henriques em todas as guerras de seu tempo quanto pelo seu caráter violento (para se ter uma ideia, foi ele quem matou o próprio irmão por este ter rompido um pacto de não agressão que haviam ajustado entre si). Também foi quem sucedeu seu pai, assumindo o Senhorio de Bragança bem como um vasto território na fronteira leonesa.

Contribuiu ativamente para o povoamento de suas terras através de várias doações, permitindo assim o surgimento de diversas instituições ligadas às Ordens Templária e Hospitalária.

Foi casado com TERESA SOARES DE MAYA filha de Soeiro Mendes da Maya, O Bom. E com essa estratégia acompanhava seus antepassados, sempre unir-se cada vez mais a Portugal através de sucessivos casamentos com damas portuguesas garantindo assim uma linhagem bastante influente.

Em 1130 já era viúvo quando dizem que se deu o célebre episódio em que estavam presentes o rei D. Afonso Henriques, Gonçalo de Souza e Sancho Nunes de Celanova, o qual era casado com Sancha Henriques, legítima irmã do rei. Acontece que estes dois riram de Fernando na presença do rei por conta da nata que escorria da barba dele, D. Afonso, “em reparação”, não só confiscou e doou as terras de Gonçalo para Fernando, como também permitiu que ele tomasse para si a esposa de Sancho, irmã do rei. Na realidade – se é que foi assim – não passou de uma manobra política para garantir o apoio tanto político quanto estratégico de Fernando ao próprio rei.

Deste segundo casamento não teve filhos. Entretanto Fernando e Teresa deixaram geração.

Filho(s): Pedro Fernandes.

5 – PEDRO FERNANDES, O BRAGANÇÃO

Também encontrado como Pero Fernandes de Bragança. Foi também o Senhor de Bragança e alto oficial da corte de D. Afonso Henriques, além de, provavelmente, mordomo do infante D. Sancho, filho do rei. A essa época sua família já possuía domínio incontestável de toda região hoje conhecida como de Trás-os-Montes, nas fronteiras do reino português, bem como possuíam reputação de valentes guerreiros.

Mesmo assim, dentre outras, foi acusado de assassinatos, raptos e até mesmo de matricídio, tendo sido inclusive excomungado pelo arcebispo local por ter ocupado algumas fazendas pertencentes à Sé de Braga.

Foi casado com FROILHE SANCHES DE BARBOSA (*1140), filha de Sancho Nunes de Barbosa e de Theresa Affonso, neta pelo lado materno de D. Afonso Henriques e de Châmoa Gomes (um relacionamento que tiveram antes de o rei se casar “oficialmente”).

Filho(s): Vasco Peres, Sancha, Teresa, Nuno, Fernão e Garcia.

6 – VASCO PIRES, O BEIRÃO

Ou Vasco Pires. Seu cognome “Beirão” ou “Veirão” vem do fato de que a maior parte de seus bens situava-se ao sul do Rio Douro, ou seja, na “beira” do rio. Viveu em fins do século XII e início do século XIII. Provavelmente o Senhorio de Vimioso deve ter passado para seu irmão mais velho, Garcia Pires de Bragança.

Casou-se com URRACA ESTEVES DE ANTAS, filha de Estevão Annes de Antas, O Senhor do Paço de Antas, e de Gracia da Cunha, neta paterna de Vasco de Antas – sendo este, segundo Gayo, o primeiro de que se tem notícia como Senhor do Solar de Antas.

Para que compreendam melhor a origem desse patronímico “De Antas”, cabe esclarecer que não tem absolutamente nada a ver com os nossos paquidermes mamíferos aqui do Brasil… “Anta”, em Portugal, é uma espécie de dólmen, um monumento constituído de uma laje, geralmente bastante larga, descansando sobre outra, quase sempre duas, bastante acima do nível do solo onde estão enterradas suas bases. Em vários pontos de Portugal ainda se encontram, com essa designação, rudes altares, que serviam como marcos ou balizas, bem como para, segundo a tradição, o uso sagrado. E Paço, por sua vez, nada mais é que uma habitação suntuosa, corruptela de palácio. É daí que vem o termo “Paço de Antas”, ou seja, o lugar em que estava situado deveria ter muitas antas (dólmens) espalhados pela região.

E ainda: como veremos mais à frente a forma de sucessão dos bens em Portugal é de uma maneira tal que esses bens são sujeitos a regras estritas de indivisibilidade, primogenitura e masculinidade, de modo que os bens (“morgado”) se transmitem por sucessão a um único sucessor e não por herança (divisão), sempre visando preservar o poder econômico das Casas Nobres – evitando diluir a herança e enfraquecer a Casa – pois cabia sempre ao primogênito a posse do morgado.

E foi a partir desse Vasco, após sua união com Urraca, que seus descendentes passaram a herdar o Paço de Antas.

Filho(s): João Vasques de Antas, Estevão Vasques de Antas.

7 – JOÃO VASQUES DE ANTAS

Foi o Senhor da Vila de Vimioso, localizada nas proximidades de Bragança, tendo vivido por volta de 1242. Não se tem notícias de seu casamento – ou se sequer foi casado – entretanto é certo que teve ao menos um filho.

Filho(s) Estevão Annes de Bragança.

8 – ESTEVÃO ANNES DE BRAGANÇA

Não se tem notícias de quem teria sido sua esposa. Entretanto a sua descendência se comprova através da documentação referente a uma demanda que seu neto João Mendes de Moraes teve em face da Câmara de Vimioso, que lhe pretendia tapar uma herdade, de modo que ele teve que comprovar nos autos toda sua linhagem para garantir seus direitos.

Foi, também, Senhor da Vila de Vimioso, haja vista que foi sucedido por seu filho Gonçalo.

Filho(s): Mendo Esteves e Gonçalo Esteves.

9 – MENDO ESTEVES DE ANTAS

Casou-se com a neta de Ruy Martins de Moraes (é importante frisar: neta), chamada IGNEZ RODRIGUES DE MORAES. Voltaremos a falar deste casal e de seus filhos logo adiante. Seu irmão Gonçalo Esteves, provavelmente o mais velho, foi o Senhor da Vila de Vimioso.


7 – ESTEVÃO VASQUES DE ANTAS, O LIDADOR

Não, a numeração não está errada. Este Estevão é irmão do João Vasques de Antas já citado. Foi o Senhor do Paço de Antas e padroeiro das abadias de S. Paio de Água Longa e Romarigães. Por volta de 1243 foi cabeça de grandes brigas entre os criados da Rainha Mafalda, produzindo grandes danos na Albergaria de Monforfe. Casou-se com DORDIA MARTINS, filha de Martim Dode e de sua segunda mulher, Urraca Pires.

Filho(s): Pedro Esteves de Antas.

8 – PEDRO ESTEVES DE ANTAS

Sucedeu a seu pai como Senhor do Paço de Antas, bem como no papel de padroeiro das abadias. Casou-se com MAYOR MENDES, filha de Egas Lourenço da Cunha, Senhor do Solar dos Encourados.

Filho(s): Vasco Pires de Antas, Garcia Vasques de Antas, Gonçalo Fernandes de Antas, Rui de Antas, Maria Pires de Antas.

9 – VASCO PIRES DE ANTAS

Ou Vasco Peres de Antas. Sua descendência segue descrita por Gayo, mas equivocadamente ele o colocou como filho de Vasco de Antas (o patriarca dos Antas), o que é cronologicamente impossível haja vista a sequência de sua linhagem, colocando Balthazar (que veremos mais a frente) como seu sexto neto. O mais lógico a considerar é que houve um erro na classificação do avô, não sendo este Vasco Pires filho do patriarca, mas bisneto d’O Beirão. Corrobora essa teoria a afirmação de Gayo que seu descendente Afonso Pires viveu na época do Rei D. João I (1385-1433).

Muito bem. Seguindo nesta linha temos que ele não sucedeu seu pai como Senhor do Paço de Antas, que ficou para seu irmão mais velho Garcia Vasques de Antas.

Vasco casou-se com IGNEZ RODRIGUES DE MORAES, a filha de Ruy Martins de Moraes (é importante frisar: filha) e de sua mulher Alda Gonçalves.

E é aqui, justamente por não termos documentos a serem consultados, que utilizaremos um pouco mais de lógica dedutiva do que simplesmente seguir a linha dos autores. Acontece que Goya traz a linha da família Antas através do filho de Vasco Pires, o Beirão, com Urraca: Estevão Vasques de Antas (que foi o Senhor do Paço de Antas). Já Pedro Taques, tendo copiado Arroio, traz a linha da família Antas através de outro filho de Vasco Pires, o Beirão, com Urraca: João Vasques de Antas (que foi o Senhor da Vila de Vimioso).

Ou seja, é plenamente compatível supormos que Vasco Pires, o Beirão, teve mais de um filho – até porque somente um o sucedeu como Senhor do Paço de Antas.

E amarrando essas informações, temos que Goya afirma que Vasco Pires de Antas (descendente de Estevão Vasques de Antas) casou-se com a filha de Ruy Martins de Moraes, enquanto que Pedro Taques afirma que Mendo Esteves de Antas (descendente de João Vasques de Antas) casou-se com a neta de Ruy Martins de Moraes.

Ora, homônimos entre gerações na mesma família eram tão comuns tanto do lado masculino quanto do lado feminino! Assim podemos supor que Ignez Rodrigues de Moraes teve uma filha cujo nome era idêntico ao seu. Considerando, ainda, que Vasco Pires de Antas foi seu segundo marido e que do primeiro não teve geração, restaria justificado o casamento entre Mendo e Ignez, reatando assim os dois lados da família (de João e de Estevão).

E mais um detalhe: depois de Vasco Pires de Antas não há mais notícia de sucessão como Senhor do Paço de Antas, o que pode indicar a quebra da varonia nesse caso.

E um último detalhe: para que essa teoria se sustente teremos que “rearranjar” a posição de Afonso Pires de Moraes de Antas, que não teria como ser filho de Vasco, mas sim seu neto. Mas veremos isso a seguir.

Filho(s): Ignez Rodrigues de Moraes.

10 – IGNEZ RODRIGUES DE MORAES

Essa Ignez, filha de Vasco Pires de Antas e de outra com o mesmo nome, casou-se com MENDO ESTEVES DE ANTAS (já citado anteriormente e descendente de João Vasques de Antas), conforme fica claro na obra de Pedro Taques.

Mas em ambas as obras (a de Gayo e a de Pedro Taques) resta evidente que essa Ignez teve um filho chamado Afonso (ainda que varie o restante do nome) e que casou com uma mesma pessoa: Aldonça. Também em ambas as obras é informado que ele foi o Senhor da Vila de Vimioso. Então é por essa linha que seguiremos.

Filho(s): Afonso Pires de Moraes de Antas, João Mendes de Moraes.

11 – AFONSO PIRES DE MORAES DE ANTAS

Ou, ainda, Afonso Mendes de Antas. Esse Afonso casou-se com ALDONÇA GONÇALVES DE MORAES (ou de Moreira), filha de Luís Pires de Távora e de Alda de Moraes. Ele sucedeu seu tio, irmão de seu pai, Gonçalo Esteves (que não deixou herdeiros) como Senhor da Vila de Vimioso e de outras terras, tendo vivido à época do rei D. João I (1385-1433). Fio seu irmão João Mendes de Moraes (já citado anteriormente) que teve uma demanda em face da Câmara de Vimioso.

Filho(s): Mendo Afonso de Moraes de Antas, Estevão Mendes de Moraes de Antas, Lourenço Mendes de Moraes de Antas.

12 – MENDO AFONSO DE MORAES DE ANTAS

Filho primogênito, foi ele que sucedeu seu pai como Senhor da Vila de Vimioso. Entretanto morreu sem ter filhos varões, de modo que Vimioso passou à Coroa Portuguesa, que por sua vez a deu para D. Francisco de Portugal por carta passada pelo rei D. Manoel I (1495-1521) em 02/02/1515. Casou-se com MARGARIDA DE VASCONCELOS.

Filho(s): Izabel de Moraes de Antas, Francisca Mendes de Antas.

13 – IZABEL DE MORAES DE ANTAS

Casou-se com NUNO NAVARRO. Daqui a pouquinho voltaremos a falar de sua filha e com quem ela se casou.

Filho(s): Ignez Navarro.


12 – ESTEVÃO MENDES DE MORAES DE ANTAS

Este Estevão é irmão do Mendo Afonso Moraes de Antas já citado acima. Ele entrou com uma demanda em face de D. Francisco de Portugal para que lhe fosse devolvida Vimioso, que pertencera a seu irmão, entretanto foram tantos anos de litígio perante o corregedor da comarca que ele acabou falecendo antes que fosse decidida a causa. Casou-se com MARIA DE MADUREIRA.

Filho(s): Vasco Esteves de Moraes de Antas, Juliana Mendes, Isabel Mendes, Leonor Mendes de Moraes, Joana Mendes.

13 – VASCO ESTEVES DE MORAES DE ANTAS

Ou Vasco Rodrigues de Moraes de Antas. Casou-se com MICAELA DE ALBUQUERQUE.

Filho(s): Pedro de Moraes de Antas.

14 – PEDRO DE MORAES DE ANTAS

Consta que foi cavaleiro fidalgo dos chefes Moraes do reino de Portugal da província de Trás-os-Montes, tendo servido ao rei em vários empregos nas comarcas da Beira e de Trás-os-Montes e foi Mamposteiro-Mor dos Cativos – fazia a arrecadação de bens ou valores advindos de esmolas, penas, resíduos ou deixas testamentárias que eram destinados a recuperar a liberdade de prisioneiros de guerra.

Casou-se com sua prima IGNEZ NAVARRO (já citada anteriormente), bisneta de Afonso Pires de Moraes de Antas.

Filho(s): Balthazar de Moraes de Antas, Belchior de Moraes de Antas, Gaspar de Moraes de Antas e mais uma irmã.

15 – BALTHAZAR DE MORAES DE ANTAS (*1537 +1600)

Balthazar nasceu em Mogadouro, na região de Bragança e veio para o Brasil aproximadamente em 1556. Foi nomeado Juiz Ordinário da Vila de São Paulo, porém foi taxado de “Cristão Novo” e, orgulhoso que era por ser descendente de uma nobre Casa portuguesa, não se conformou com a acusação, de modo que voltou para Portugal e conseguiu comprovar sua nobreza através da fraternidade com Belchior, bem como ter reconhecida sua linhagem perante o juiz do Mogadouro através de Carta de Nobreza que lhe foi passada em 11/09/1579.

Casou-se em Santo André com BRITES RODRIGUES ANNES, portuguesa, filha de Joanne Annes Sobrinho e de Isabel Duarte. Estabeleceram-se em São Paulo, onde teve fazenda no Ipiranga. Através deles teve início o tronco da família Moraes em São Paulo.

Filho(s): Anna de Moraes d’Antas, Pedro de Moraes d’Antas, Balthazar de Moraes d’Antas (O Moço), Izabel de Moraes.

16 – PEDRO DE MORAES D’ANTAS

Pedro foi vereador em São Paulo em 1600, onde casou-se com LEONOR PEDROSO (+1636), filha de Estevão Ribeiro Bayão Parente e de Magdalena Fernandes Feijó de Madureira. Leonor faleceu em São Paulo.

Filho(s): Pedro de Moraes Madureira, Magdalena Fernandes Feijó casada com Diogo de Lara.

17 – PEDRO DE MORAES MADUREIRA

Casou-se com ANNA DE MORAES PEDROSO (*1604), filha de Francisco Ribeiro, primeiro marido de Maria de Moraes, e por esta neta de Pantaleão Pedroso [Bayão Parente] e de Anna de Moraes d’Antas (irmã de seu tio-avô Pedro de Moraes d’Antas, já citado).

Filho(s): Carlos de Moraes Navarro, Ignez de Moraes Navarro casada com Domingos Leme da Silva.

18 – CARLOS DE MORAES NAVARRO (*1633 +1672)

Foi casado com MARIA RAPOSO, filha do bandeirante paulista Antônio Raposo Tavares e de sua primeira esposa Beatriz Furtado de Mendonça.

Filho(s): Francisca de [Macedo e] Moraes.

19 – FRANCISCA DE [MACEDO E] MORAES

Também encontrada simplesmente como Francisco de Moraes ou ainda como Francisca de Macedo. Casou-se em São Paulo com ANTONIO VIEIRA DOURADO (*1648).

Filho(s): Tereza de Moraes, Maria de Moraes Rapozo casada com Luís Marques das Neves.

20 – TEREZA DE MORAES (+1727)

Em 1707 casou-se com ANDRÉ DO VALLE RIBEIRO (*1675 +1720), filho de Domingos Francisco e de Maria do Valle. Possuíam um sítio na estrada do caminho velho junto ao Rio das Mortes Pequeno, com casas de vivenda, senzalas e plantações. Possuíam também um outro sítio na paragem chamada Cajuru, com uma senzala de meio alqueire de planta.

Filho(s): Maria de Moraes Ribeira, Manoel do Vale Ribeiro, Antonio do Vale Ribeiro, Luzia do Vale, Ângela de Moraes, André, Quitéria.

21 – MARIA DE MORAES RIBEIRA (*1711 +1794)

Também encontrada como Maria de Moraes ou Maria Ribeira do Vale. Natural da Vila de São João del Rei, Freguesia de Nossa Senhora do Pilar, onde foi batizada. Casou-se em 1725, em Rio das Mortes Pequeno, com ANTÔNIO DE BRITO PEIXOTO (*1696 +1750), filho de Inácio de Andrade Peixoto e de Helena de Brito. Antônio era natural da Freguesia de São João de Souto, da Cidade, Concílio, Comarca, Distrito e Arcebispado de Braga, Minho. Possuíam um sítio com casas térreas, senzalas, paiol, tudo de capim, capoeira e matas virgens, encostado na Serra das Carrancas, mais terras no barranco do Rio Grande.

Filho(s): Tomás de Brito, Tereza Maria da Conceição, José de Andrade Peixoto, Jacinta Maria da Conceição, as gêmeas Ângela Maria de Jesus e Maria Vitória do Nascimento, Jerônimo de Andrade Brito, Dorotéia Maria de Jesus, Ana Antonia de Brito, Luiza Tereza de Brito e Manoel Joaquim de Andrade.


E aqui nossa história dará um basta, um até logo, faremos uma pequena despedida. Pois depois de traçarmos essa linha de mais de 20 gerações ainda estamos apenas no ano de 1750 – e agora a próxima linha que irei traçar diz respeito à minha linha paterna: os Andrade.

Uma última observação: para aqueles que quiserem entender visualmente toda essa bagunça aí de cima, basta clicar neste link aqui e baixar o arquivo PDF com o genograma dessa árvore genealógica que daí já vai dar para compreender um pouquinho melhor… 😉


FONTES:
. ALVES, Francisco Manuel. Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança. 1938. Tomo VI, pág. 35-42.
. AMATO, Marta. Artigo. A ascendência paulista de Francisca de Macedo. Revista ASBRAP nº 6, pág. 229.
. DORIA, Francisco Antonio. Estudo: Os primeiros troncos portugueses: os senhores de Bragança (Antas Moraes)
. FELGUEIRAS GAYO, Manuel José da Costa. Nobiliário de Famílias de Portugal. 1938 Tomo I. Título Aloens e Título Antas.
. GUIMARÃES, Cid. Artigo. Ribeiro do Valle, Primeira Parte. Revista ASBRAP nº 4, pág. 127.
. ORTIZ, José Bernardo. Velhos Troncos. 1996. Volume I. Título Moraes de Antas.
. PAES LEME, Pedro Taques de Almeida. Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica. 1870. Título dos Antas Moraes, da Capitânia de S. Paulo.
. PIZZARRO, José Augusto de Sotto Mayor. Dissertação: Linhagens Medievais Portuguesas. 1997. Universidade do Porto.
. SILVA LEME, Luiz Gonzaga da. Genealogia Paulistana. 1903. Volume 6, Título Bicudos. Volume 7, Título Moraes.
. Livro de batismos de Valongo 1651/1686 fls. 70v. Igreja Matriz de São Mamede.
. Inventário de André do Valle Ribeiro, arquivado no Museu Regional de São João del Rei – Caixa 324.
. Inventário de Antônio de Brito Peixoto, arquivado no Museu Regional de São João del Rei – Caixa 605.
. Inventário de Antonio Ribeiro de Moraes, SAESP – Sistema de Arquivos do Estado de São Paulo, vol. 22.
. Inventário de Francisco Ribeiro, SAESP – Sistema de Arquivos do Estado de São Paulo, vol. 4.
. Inventário de Maria de Moraes Ribeira, arquivado no Museu Regional de São João del Rei – Caixa 214.
. Inventário de Tereza de Morais, arquivado no Museu Regional de São João del Rei – Caixa 464.
. Testamento de Jerônimo de Andrade Brito, arquivado no Museu Regional de São João del Rei – Caixa ?.
. Testamento de Maria de Moraes Ribeira, arquivado no Museu Regional de São JOão del Rei – Livro de Testamento 11.
. https://pt.wikipedia.org/wiki/Mendo_Alão
. https://ancestors.familysearch.org/en/KNHV-S8Q/mendo-alao-de-bragacon-0980-1050
. https://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_VI_de_Leão_e_Castela
. https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernão_Mendes_de_Bragança_I
. https://pt.wikipedia.org/wiki/Mem_Fernandes_de_Bragança
. https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernão_Mendes_II_de_Bragança
. https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Fernandes_de_Bragança
. https://pt.wikipedia.org/wiki/Vasco_Pires_de_Bragança
. https://geneall.net/pt/forum/14617/dos-bragancoes-aos-moraes-de-s-paulo-brasil/
. http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=189&cat=Ensaios
. https://www.genealogiahistoria.com.br/index_historia.asp?categoria=4&categoria2=4&subcategoria=255

Nossa Grande Família ( VII ) – Miura

Miura é o nome da família pelo lado paterno de minha esposa Eliana Mieko Miura. O interessante é que o Japão é o país com o maior número de sobrenomes do mundo, com mais de 100 mil registrados por todo o arquipélago. Na maior parte das vezes a partir do significado do sobrenome é possível  ter uma ideia acerca da história da família bem como das origens de seus ancestrais: onde viviam, no que trabalhavam, qual sua escala social, dentre outras coisas.

Neste caso, o kanji do nome de família “Miura” é formado pela palavra “mi”, que significa três, e pela palavra “ura”, que pode ser traduzido por baía ou enseada, o que nos leva ao significado final de “Três Baías”. Isso nos leva a conclusão de que trata-se de um sobrenome de origem toponímica, isto é, que descreve a origem geográfica de um indivíduo, como o nome de uma aldeia, vila, cidade, região, acidente geográfico, rio, etc. Talvez as origens dos antepassados dessa família estejam voltadas a um lugar ou região cuja característica seria possuir três baías junto ao mar; ou, ainda, pode estar relacionada à cidade Miura, um lugarejo à beira mar com pouco mais de 40 mil habitantes localizado na Península de Miura, e faz parte da província de Kanagawa, no Japão, relativamente próximo de Tokyo. Mas, na prática, é um tanto quanto impossível trazer algum tipo de afirmação com absoluta certeza. Bem, tirem suas próprias conclusões…

Mas antes de nos aprofundarmos nos detalhes dessa família, cabe explicar que no Japão existe uma espécie de registro familiar japonês em forma de árvore genealógica, mais conhecido como Koseki Tohon. Esse sistema de registro teve seu início formal por volta de 1870 (começo da Era Meiji) e eram registrados e gerenciados pelas prefeituras onde ficava a residência da pessoa. O problema é que, ao menos na época, se registrava TUDO, desde histórico médico, criminal passando pelas separações e divórcios e até mesmo classe social do indivíduo. Nos dias de hoje talvez pudesse até ser considerado uma espécie de “insulto” aos direitos humanos de privacidade!


Primeira página do Koseki Tohon da Família Miura.

Assim, através desse documento, o representante mais antigo que consegui localizar da família foi KINJIRO MIURA, o qual, de sua união com FUSHINO MIURA, teve pelo menos o seguinte filho:

1. KINEMON MIURA, nascido em 14/01/1875, casou-se duas vezes. A primeira vez com TSURU MIURA, nascida em 04/01/1873, com quem teve três filhos:

1.1. INOSUKE MIURA, nascido em 08/05/1878, foi casado com TEU, nascida em 11/08/1887. Tiveram ao menos o seguinte casal de filhos:

1.1. KATSUME.

1.2. KIIOMI, nascida em 06/08/1913.

1.2. HAJIME MIURA, que nasceu em 23/03/1894 na cidade de Fukushima, Japão. Casou-se com HIRO KUMAKI, nascida em 10/07/1897, filha de HIOKITI KUMAKI e MASSU KUMAKI.

     

O casal veio para o Brasil no navio Kawachi Maru acompanhado de seus quatro filhos (à época) juntamente com seu meio irmão Kisaku e sua esposa Min, numa viagem que deve ter durado meses. Desembarcaram no Porto de Santos no dia 31/08/1925 para trabalhar como agricultores em São José do Rio Pardo, SP, na região da Média Mogiana – mas acabaram mesmo por estabelecer mais ao oeste do estado, na cidade de Marília.


O navio Kawachi Maru.

Hajime faleceu cedo, em 11/03/1936, com apenas 42 anos. Já Hiro faleceu em 02/12/1992, com 95 anos de idade. Ambos estão sepultados no Cemitério da Saudade, em Marília, SP.


Foto do passaporte de Hajime.

Tiveram, ao todo, 9 filhos.

2.1. KAU, nascido em 27/01/1911. Foi casado. Há notícias de que esse filho mais velho foi adotado, o que, no Japão, significa ser considerado como filho legítimo para todos os efeitos, passando a carregar o sobrenome da família, como se dela tivesse nascido.

2.2. KATSUMI MIURA, nascido em 10/02/1916, em Fukushima, no Japão, tinha 9 anos de idade quando desembarcou com seus pais no Porto de Santos. Casou-se no Brasil, em 10/02/1943, com TOSHI HIKAGUE, nascida em 20/07/1924. Estabeleceram-se como lavradores na cidade de Marília, SP, onde vieram a falecer: ele em 19/10/2011 e ela já no ano seguinte, em 05/03/2012. Tiveram ao todo 8 filhos, sendo 6 meninas e 2 meninos. À exceção da caçula, todos casados e com geração.

2.3. KAMEJI MIURA, natural de Fukushima, Japão, nascido em 07/11/1917 e falecido em 19/04/1988. Tinha 7 anos de idade quando chegou no Brasil, onde veio a se casar com SHIZUKO MANSHO, nascida em 15/05/1925 e falecida em 08/02/2010. Foi lavrador estabelecido na década de setenta no Sítio Miura, localizado no Bairro do Pombo, em Marília, SP. Tiveram 6 filhos: 4 meninas e 2 meninos, todos casados.

2.4. NOBU MIURA, nascida no Japão em 14/11/1919, casou-se no Brasil com Nikio Hikage, quando adotou  o nome de Nobu Hikage. Tinha 6 anos quando desembarcou no Porto de Santos. Tiveram 5 filhos: 3 meninas e 2 meninos. Já é falecida.
.
.

2.5.  ZENKITI MIURA, natural do Japão, nasceu em 20/02/1922 e faleceu em 19/06/2004, no Paraná. Ele tinha apenas 3 anos de idade ao chegar no Brasil, onde casou-se com Ito Miura, viúva na época, também natural do Japão, nascida em 1926 e falecida em 26/06/1986. Tiveram 4 filhos, sendo 3 meninos e 2 meninas.

2.6. HIDE MIURA foi a primeira da família a nascer em terras brasileiras – “nissei” – tendo nascido em 25/03/1926 e falecido em 14/02/1973. Casou-se com TAKAO YOSHIMOTO, nascido no Japão em 18/07/1917, filho de MATSUZO YOSHIMOTO e TOKUIO YOSHIMOTO. Ele era mais conhecido na família pelo carinhoso apelido de “Papai”. Tiveram 6 filhos, sendo 4 meninas e 2 meninos, todos casados e com geração.

2.7. TIYOKO MIURA nasceu na cidade de Promissão, SP, em 02/01/1928 e faleceu em Marília, SP, em 25/11/1990, onde está sepultada. Casou-se com YUKISHIGUE YOSHIMOTO, irmão de seu cunhado Takao, natural de Osaka, Japão, onde nasceu em 05/02/1929. Tiveram 5 filhas, sendo que Yukishigue, após enviuvar, de um outro relacionamento veio a ter mais um filho.

2.8. SUSSUMU MIURA, meu sogro, nasceu em Promissão, SP, em 01/01/1932, mas somente foi registrado em 21/10/1932 – e ainda com a grafia errada: “Miura Sussume”. Como é costume entre japoneses que não possuem nome brasileiro, resolveu adotar o apelido de “Carlos”.  Em 25/11/1961 casou-se, em Marília, SP, com SATIKO MIZOGUTI, nascida em Getulina, SP, em 13/09/1935, filha de NARAKITI MIZOGUTI e TEI MIZOGUTI, neta paterna de MASSAKITI e RIE. Ela adotou o nome de casada de Satiko Miura. Também adotou vários nomes brasileiros no decorrer de sua vida, sendo o último “Izaura”. Ela faleceu em São José dos Campos, SP, em 03/03/2010. E ele também faleceu nessa mesma cidade de São José dos Campos, SP, às 21h27min do dia 13/09/2019 – no dia que seria o aniversário dela!

        

Foram lavradores em Marília, feirantes em Caraguatatuba e comerciantes em São José dos Campos. Tiveram três filhos, todos nascidos em Marília, SP.

8.1. BEATRIZ, casou-se com CLÁUDIO MAEDA (falecido) e tiveram três filhas.
.
.
.
.
.
.

1.1. ALINE.
.
.
.
.
.
.
.

1.2. NATÁLIA.
.
.
.
.
.
.
.

1.3. LARISSA.
.
.
.
.
.
.
.

8.2. MILTON HARUO MIURA, natural de Marília, SP, onde nasceu em 25/04/1965, casou-se em 22/09/1989, em São José dos Campos, SP, com HELOÍSA FERREIRA BARBOSA, natural de Caraguatatuba, SP, nascida em 25/02/1969. Já trabalhou como comerciante e caminhoneiro. Também tiveram três filhos.

2.1. JACQUELINE TAMYE MIURA, natural de São José dos Campos, SP, onde nasceu em 18/02/1989. Ela e MANOEL RAMIRO DE OLIVEIRA NETTO, nascido em 15/09/1988 no Recife, PE, têm duas filhas, minhas sobrinhas-netas.
.

1.1. ANA LUIZA MIURA DE OLIVEIRA, nascida em 16/01/2010 em São José dos Campos, SP, às 21h15min, com 50cm e 3.480g.

1.2. ISABELA MIURA DE OLIVEIRA, nascida em 28/09/2012.

2.2. EDUARDO HEIDY MIURA, nascido em Jacareí, SP, em 15/09/1990.
.
.
.
.
.
.

2.3. FERNANDA HIYE MIURA, nascida em São José dos Campos, SP, em 26/08/1993.
.
.
.
.
.
.

8.3. ELIANA MIEKO MIURA, natural de Marília, SP, nascida em 13/03/1968. Foi nas dependências da Chácara-Restaurante “Coelho e Cabrito”, em São José dos Campos, SP, que casou-se em 12/12/1998 com ADAUTO DE ANDRADE (eu!), nascido em São José dos Campos em 02/05/1969. Ambos se formaram em direito e tiveram três filhos.

3.1. KEVIN HIDEAKI MIURA ANDRADE nasceu em 13/05/1999, em São José dos Campos, SP, às 13h02min no Hospital Materno-Infantil Antoninho da Rocha Marmo, com 50cm e pesando 3.370g.
.
.

3.2. ERIK MASAYUKHI MIURA ANDRADE nasceu em 20/12/2001, em São José dos Campos, SP, às 20h46min no Hospital Materno-Infantil Antoninho da Rocha Marmo, com 48cm e pesando 3.010g.
.
.

3.3. JEAN YUJI MIURA ANDRADE nasceu em 24/03/2004, em São José dos Campos, SP, às 04h40min no Hospital Materno-Infantil Antoninho da Rocha Marmo, com 47cm e pesando 3.020g.
.
.

2.9. AKIRA MIURA, o filho caçula de Hajime, nasceu em 05/05/1934 e casou-se em 11/09/1967 com SETSUKO OTA, nascida em 11/02/1942, e que adotou o nome de Setsuko Miura. Tiveram 3 filhos.
.
.
.

1.3. TOMIO, nascida em 10/04/1907 é irmã de Hajime. Sem mais notícias.

Consta que KINEMON, pai de Hajime, casou-se pela segunda vez com MATSUIO, nascida em 01/03/1887, com quem teve pelo menos um filho:

1.4. KISAKU MIURA, que nasceu no Japão em abril de 1903 e faleceu no Brasil em 24/01/1966. Ainda em solo japonês casou-se com MIN KATO, também nascida no Japão em fevereiro de 1904 e que veio a falecer somente em 13/02/1989, aos 85 anos de idade. Kisaku, juntamente com seu meio irmão Hajime, e também com os demais membros da família, saíram de Fukushima, no Japão, e vieram para o Brasil no ano de 1925 para trabalhar como agricultores, ambos com pouco mais de vinte anos de idade, tendo desembarcado no Porto de Santos. Ele chegou a voltar para o Japão, mas logo em seguida retornou ao Brasil, desembarcando no mesmo porto em 11/09/1936.


Foto do passaporte de Kisaku.

No decorrer de suas vidas Kisaku e Min vieram a ter 11 filhos no total.

4.1. KIITI MIURA, nascida em 14/03/1926.

4.2. KIOKO MIURA, nascida em 15/12/1928. Foi registrada erroneamente com o nome de “KIONE”. Casou-se com SABURO YAMADA, nascido em 15/08/1926, com quem teve 4 filhas.

4.3. KIMIKO MIURA, a qual casou-se com KITIJI UEMURA e teve 4 filhos: 3 meninos e uma menina.

4.4. AIKO MIURA foi casada com SHITARO KATSUIAMA e tiveram 2 filhas.

4.5. ISSOKI MURA foi casado com TAEKO. O casal também teve 4 filhos: 3 meninas e 1 menino.

4.6. MISSAKO MIURA, nascida em 25/05/1933, casou-se com IASSUO YAMAMOTO, nascido em 05/10/1930 e falecido em 1984. Tiveram 3 filhos, sendo 2 meninos e 1 menina. Também criaram mais 5 crianças, todos filhos de sua irmã Shiniti, que faleceu.

4.7. SHINITI MIURA foi casada com TOSHIE YAMADA, tendo adotado o nome de Shiniti Yamada após o casamento. Segundo consta, Shiniti faleceu de câncer em 1984, existindo porém uma história de que o casal faleceu num acidente de carro. Tiveram 5 filhos, sendo 2 meninas e 3 meninos, que foram criados por sua irmã Missako.

4.8. MARIA YONEKO MIURA nasceu em 20/08/1941 e casou-se em 20/07/1962 com ITIRU YAMAMOTO, nascido em 27/09/1937 conforme consta em seu registro – mas na realidade nasceu antes disso… Tiveram 5 filhos: 3 meninas e 2 meninos.

4.9. ANTONIO TERUMI MIURA.

4.10. MÁRIO MITIAKI MIURA, foi casado e teve 4 filhos, sendo 3 meninos e 1 menina.

4.11. AKIRA MIURA, foi casado e teve 3 filhas.

OBSERVAÇÃO: o genograma do ramo Miura de Nossa Grande Família encontra-se disponível para download neste link.