
Acabei de ler o livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Muito bom. Não “excepcional”, mas muito bom. A maior parte do livro serve para que nos situemos no futuro distópico criado pelo autor, para, enfim, já quase no final do livro, chegarmos ao embate (talvez esta não seja a palavra certa, estaria mais para uma discussão, uma conversa emocionalmente tensa) de dois personagens, cada qual defendendo seu ponto de vista sobre a “sociedade feliz” tal qual como é encontrada naquele mundo estéril.
É curioso perceber que depois de tanto tempo – livro foi publicado em 1932 -, tanto do ponto de vista tanto ideológico quanto político, as coisas permanecem praticamente as mesmas. Aliás, a expressão “panem et circenses”, cunhada no final do século I e início do século II desta era (e atribuída ao poeta Juvenal), já definia bem a forma de se “tratar” o povo para uma “sociedade feliz”. Mais recentemente podemos melhor exprimir essa ideia, essa sensação, através da música Admirável Gado Novo, lançada em 1996 por Zé Ramalho.
Zé Ramalho – Admirável Gado Novo
Uma curiosidade sobre esse livro é que, como foi lançado em 1932, é de uma época que nem sequer era cogitado a existência de computadores, os quais viriam a dar seus primeiros passos somente cerca de uma década depois e, ainda assim, como eficientes máquinas de cálculo e não necessariamente para armazenamento de dados. Mas achei interessante o seguinte trecho do livro, que trata da “criação” de seres humanos (já que a fecundação e o parto haviam sido abolidos da sociedade) e cuja estória se passa em torno do século XXVI:
“Depois dos Forradores vinham os Matriculadores. A procissão avançava; um a um, os ovos eram transferidos dos seus tubos de ensaio para os recipientes maiores; com destreza, a guarnição de peritônio sofria uma incisão, a mórula era posta no seu lugar, a solução salina era transvasada… e já o bocal seguia adiante, passando então a vez aos Rotuladores. A hereditariedade, a data da fecundação, o Grupo Bokanovsky, todos os detalhes eram transferidos do tubo de ensaio para o bocal. Não mais anônima, mas com nome, identificada, a procissão recomeçava lentamente sua marcha; lentamente, através de uma abertura na parede, por onde passava à Sala de Predestinação Social.
— Oitenta e oito metros cúbicos de fichas de papelão — disse o sr. Foster com manifesto prazer, quando entravam.
— Contendo todas as informações necessárias — acrescentou o Diretor.
— Postas em dia todas as manhãs.
— E coordenadas todas as tardes.
— Com base nas quais se fazem os cálculos.
— Tantos indivíduos, de tal e tal qualidade — disse o sr. Foster.
— Distribuídos em tais e tais quantidades.”
Bem, é isso. Para variar um pouco a seguir vou para um livro de crônicas, que há tempos vinha somente juntando poeira aqui na minha biblioteca: Manual da Falta de Estilo, de Josué Machado. Depois eu conto o que achei.
