Superman – VI

As Origens do Super-Homem – Quinta Parte

Numa tentativa final de atualizar a imagem do Super-Homem, Clark Kent deixa o Planeta Diário. O jornal tinha sido comprado por Morgan Edge, uma mescla de Rupert Murdoch e Don Corleone. Engolido completamente pelo Sistema Galáxia de Telecomunicações de Edge, o venerável Planeta tornou-se apenas uma pequena engrenagem num grande império da mídia, e Kent transformou-se em âncora do SGT. Com o cabelo devidamente tratado, gravatas largas e chamativas, o “novo” Clark parecia distante da criação de Siegel e Shuster. E, para muitos, o conceito de Clark como personalidade televisiva pareceu problemático desde o início. Se, digamos, o Cid Moreira fosse secretamente o Homem de Aço, como ele poderia cobrir um desastre natural ou um sequestro ao vivo e ainda cumprir seu dever heróico? O trabalho de Clark como repórter de jornal dava exatamente a mobilidade de que ele necessitava para, simultaneamente, cobrir histórias chamativas e ainda salvar a pátria como Super-Homem. No entanto, estar diante das câmaras comprometia demais sua tão necessária liberdade.

Durante essa era, por um curtíssimo período, uma lenda dos quadrinhos passou a trabalhar com o Super-Homem. Jack Kirby, assim como Siegel e Shuster, fôra um dos precursores dos quadrinhos de super-heróis e, em quase meio século de carreira, esteve envolvido na criação de uma infinidade de personagens com apelos quase tão duradouros quanto os do Homem de Aço.

Contratado para trabalhar na revitalização do personagem, Kirby preferiu atuar mais perifericamente, indicando o caminho, em vez de comandar sua revista principal. Ele assumiu o título Superman’s Pal: Jimmy Olsen a partir do nº 133, de outubro de 1970, e deixou naquelas páginas a marca de seu impressionante gênio criativo. O resultado foi puro brilhantismo num título anteriormente chinfrim. As histórias em Jimmy Olsen nunca tinham sido mais do que histórias do Super-Homem com outra roupagem, mas, sob a tutela de Kirby, Jimmy conquistou um espaço bem maior.

Kirby ressuscitou a Legião Jovem – equipe criada com Joe Simon na década de quarenta – e, com ela, enviou Jimmy numa frenética jornada pelo mundo da contracultura do início da década de 70. Ali estavam os Cabeludos, um grupo quase tribal de motoqueiros hippies que habitava uma cidade arbórea na Área Selvagem. Ali estava o Projeto, um experimento ultra-secreto que produzia super-criaturas geneticamente alteradas de todas as formas e todos os tamanhos, inclusive o grupo de agentes especiais conhecido como os DNAlienígenas. Ali também estava a Montanha do Julgamento, um colosso motorizado que cruzava velozmente o interior do país numa missão misteriosa e incompreensível. Em páginas de três quadros, Kirby despejava conceitos que um roteirista menos capacitado teria espalhado por três ou quatro revistas.

No título The Forever People, Kirby apresentou ao Super-Homem os Deuses de Nova Gênese. Pela primeira vez, o Homem de Aço encontrava seres que eram iguais ou talvez superiores a ele.

Lamentavelmente, esta torrente de criatividade teve vida curta. O principal interesse de Kirby estava voltado para seu ciclo do Quarto Mundo, os Novos Deuses, o Povo da Eternidade e o Senhor Milagre. Esta tapeçaria de intrincado tecido, retratando um Novo Ragnarok, uma guerra cósmica entre seres de estatura divina, tomava todo o seu tempo. Quando acabou sua participação em Jimmy Olsen, ele havia contribuído para o panorama geral, mas não tinha influenciado os outros títulos o suficiente. O Super-Homem ainda enfrentava sérios problemas.

Foi nessa época que o roteirista Dennis O’Neil apontou o que ele acreditava ser o maior defeito no herói. O Homem de Aço havia se tornado poderoso demais. O’Neil afirmava que era impossível criar histórias empolgantes e dinâmicas com um ser praticamente divino. Ao lado do editor Julius Schwartz e do veterano desenhista Curt Swan, O’Neil iniciou sua reformulação do personagem.

Teria sido difícil selecionar uma equipe melhor. Schwartz já era um dos Grandes Anciões tanto das revistas em quadrinhos quanto da ficção científica. Sua carreira era tão longa quanto a do Super-Homem, e ele já tinha renome por revitalizar personagens conhecidos.

Swan havia começado a desenhar o Super-Homem em meados da década de 50, e seu trabalho estava entre os melhores. Seu estilo limpo e realista era o mais identificado com o Homem de Aço. O’Neil era um roteirista premiado, vindo da surpreendente revitalização do Lanterna Verde e, principalmente, do Batman, com histórias que tinham recuperado muito do conceito original do Cavaleiro das Trevas.

O’Neil tomou uma atitude bem simples: privou o personagem de um terço de seu poder. Isto foi concretizado a partir de janeiro de 1971, na edição Superman 233, com a criação de uma duplicata do Super-Homem. A enigmática criatura recebeu um terço do poder do Homem de Aço e, dessa perda, emergiu um herói mais gerenciável. Para sorte do desenergizado Super-Homem, toda a kryptonita da Terra foi transformada em ferro inofensivo por uma reação em cadeia gerada pelo mesmo acidente que criara a duplicata. Ao fim deste ciclo, a duplicata havia drenado metade dos poderes do Homem de Aço.

Schwartz humanizou um pouco mais Clark Kent, deixando-o de costeletas e usando ternos de outras cores além de azul. Ele também começou a integrar mais o Super-Homem com o universo DC. Em grande parte por causa da “realidade” intrincada e interativa criada pela Marvel Comics, leitores de toda parte exigiam aventuras mais complexas e ambientações mais perenes para os personagens DC. Mort Weisinger havia criado uma continuidade bastante coerente entre os títulos do Super e, agora, Schwartz se dispunha a fazer com que o herói interagisse mais com os outros personagens da editora.

Depois da saída de O’Neil, o Homem de Aço recuperou seus poderes perdidos. Afinal, muitos afirmavam que os dons de qualquer kryptoniano eram infinitos, e dois terços do infinito são… bem… ainda infinito (esta leitura dos poderes do personagem tinha o efeito colateral lamentável de implicar que Krypto e Beppo, o supermacaco eram tão poderosos quanto o Super-Homem, mas, uma vez que nenhum dos dois continuava aparecendo, o problema potencial havia sido habilmente jogado para debaixo do tapete.

No início da década de oitenta, outra reavaliação entrou em andamento. O editor-executivo Dick Giordano e a diretora Jenette Kahn perceberam que toda a linha DC estava irremediavelmente bagunçada. Uma enorme faxina se fazia necessária.

Grandes mudanças foram possibilitadas por uma mega-saga sem precedentes na história: Crise nas Infinitas Terras, um massacre calculado. Os leitores ficaram sem fôlego. E, mais importante ainda, foram preparados para outras mudanças. Era a ocasião perfeita de se fazer outra reformulação no Super-Homem. Na verdade, a mais completa de todas elas. Dick Giordano me procurou e, em íntima colaboração com os editores Mike Carlin e Andrew Helfer, eu estabeleci os parâmetros de um novo Super-Homem.

Ele fez sua estréia nos EUA em 1986 e, para falar a verdade, não era tão “novo” assim. Foi uma aproximação do personagem de Siegel e Shuster. Eliminamos os poderes divinos e sua carreira como Superboy. O planeta Krypton foi reprojetado e redefinido. Jor-El e Lara pareciam diferentes. O casal Kent estava mais jovem quando encontrou o bebê. Os dois disseram ao mundo que o garoto era filho natural, e não tiveram de passar por um elaborado ritual de adoção.

Mais uma vez, como no início, ele chegou à idade adulta sem assumir a identidade de Superboy. Na verdade, uma vez que nesta versão seus superpoderes se desenvolveram lentamente, o jovem Clark não precisou esconder suas capacidades, pois ainda não as tinha. Quando visto pela primeira vez, com a idade de dezoito anos, ele havia se tornado campeão pelo time de futebol americano do Colégio Pequenópolis, para irritação dos outros jogadores. Ao ver a chateação dos colegas de equipe de Clark, Jonathan Kent decidiu contar ao filho a verdadeira história de seu nascimento e deixou bem claro para o rapaz que ele jamais deveria usar suas habilidades extraordinárias para se fazer superior aos outros, mas sempre para ajudar a todos.

Adquirindo humildade por meio das palavras do pai, Clark resolveu assumir a responsabilidade inerente a seus poderes de maneira secreta. Ele não queria que o mundo soubesse que um “anjo da guarda” estava à disposição.

Somente depois de ser forçado a agir abertamente para salvar um ônibus espacial em Metrópolis, Clark Kent voltou a Pequenópolis e, com a ajuda de seus pais, criou a identidade uniformizada de Super-Homem. Só então ele decidiu alterar sua aparência como Clark, assumindo o tradicional penteado para trás e os óculos fundo-de-garrafa.

Numa grande inversão filosófica, Clark tornou-se o verdadeiro personagem, que se fazia passar pelo Homem de Aço, e não o contrário. Mais ainda, ninguém na Terra, exceto Martha e Jonathan Kent, sabia que o Super-Homem tinha dupla identidade. Livre da compulsão exaustiva de fingir que não era Super-Homem, Clark pôde se tornar um personagem mais dinâmico, exibindo orgulhosamente seus troféus de futebol americano, que também serviam para justificar seu físico magnífico.

Lois ficou livre para se tornar a personagem inteligente e segura de si de cinquenta anos antes. Uma vez que ninguém suspeitava que o Super-Homem tinha um alter ego, Lois não precisava mais perder tempo tentando revelar o segredo.

O Planeta Diário voltou a seu local original na história. Perry White foi apresentado como editor-chefe, e não executivo, tornando mais lógico o relacionamento íntimo com seus repórteres.

Talvez a maior de todas as mudanças tenha sido proposta pelo meu colega Marv Wolfman. Ele sugeriu “ajeitar” Lex Luthor. Não mais um cientista maluco, Luthor tornou-se um “super-homem” dos negócios, o mais poderoso de Metrópolis… até a chegada do Homem de Aço. O herói tirou de Luthor sua posição privilegiada. Como o Salieri em Amadeus, reconhecendo o gênio de Mozart, Luthor sabia que, para voltar a ser o Número Um, deveria eliminar seu rival. Porém, diferente de Salieri, Luthor não aceita a idéia de que o Homem de Aço é melhor do que ele e, por isso, está condenado a fracassar sempre.

Desta forma, nosso herói decola rumo ao seu segundo meio-século. Ele passou por situações difíceis nas suas cinco primeiras décadas de vida. Voou mais alto do que qualquer outro personagem, mas também caiu a pontos baixíssimos. Conquistou a glória em histórias empolgantes e mergulhou na tolice e na pretensão. Serviu como um orgulhoso emblema para a nação e foi constrangido pelos excessos dela. Brega, cultuado, clássico.

Ele foi essas coisas e muito mais. Mas, acima de tudo, sempre foi o Super-Homem.

E sempre será.



John Byrne

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Superman – V

As Origens do Super-Homem – Quarta Parte

A veia trágica sempre correu profunda na lenda do Super-Homem. Tendo começado com a morte de bilhões de pessoas, não podia ser de outro jeito. Curiosamente, nesse período de histórias que agora até podemos encarar como mais bobas, a temática trágica foi desenvolvida ainda mais, com repetida ênfase em Krypton e na herança perdida do Super-Homem. O papel do Homem de Aço como um “estranho numa terra estranha” foi introduzido e desenvolvido durante essa época. Não importava o fato de ele ter sido criado como ser humano, com todos os valores judaico-cristãos de nossa sociedade ocidental. Quanto mais o tempo passava, mais nosso herói lamentava a perda de Krypton. Ele fazia juras em seu nome (“Grande Krypton!”) e, em sua Fortaleza da Solidão, construiu um enorme altar em memória de seus pais e de seu planeta.

Então, de repente, surgiu Kandor. Primeira capital do governo mundial de Krypton (substituída por Kryptonópolis, cidade natal do Bebê de Aço), Kandor era uma cidade com cerca de um bilhão de habitantes, reduzida ao tamanho de uma lista telefônica e aprisionada numa garrafa pelo alienígena maligno Brainiac. Anos depois, quando Brainiac chegou à Terra e começou a roubar nossas principais cidades, Super-Homem descobriu esse remanescente de sua herança, completa, com uma população ativa, e dedicou a ela um lugar de honra em sua Fortaleza no Ártico, prometendo aos kandorianos que ele não pouparia esforços a fim de descobrir um meio de restaurá-los a seu tamanho original.

Mais tarde, quando Jimmy Olsen foi agraciado com a realização de três desejos por uma fonte mágica, ele usou um deles para enviar o Homem de Aço ao passado para uma breve visita a Krypton. Para evitar que seu superamigo soubesse o que estava planejando, Jimmy datilografou o seu desejo em vez de falar em voz alta. Sua intenção era que o Super-Homem “encontrasse seus pais”. Mas, ao chegar a Krypton, o herói descobre que Lara está prestes a se casar com outro homem e, numa antecipação a De Volta para o Futuro, ele é obrigado a arquitetar as circunstâncias em que seus pais se conheceram e se casaram. Jimmy, ao que parece, inadvertidamente datilografara “mate” (em inglês, mais ou menos, bancar o cupido) em vez de “meet” (em inglês, encontrar).

No decorrer dos anos, quase todo mundo acabou indo parar em Krypton de uma forma ou de outra. Em World’s Finest Comics, título partilhado por Super-Homem e Batman, a dupla teve algumas aventuras na cidade miniatura de Kandor, muitos anos antes de o Homem de Aço finalmente cumprir sua promessa e devolver a cidade ao tamanho original. Numa dessas aventuras, nosso herói se defendeu contra meia dúzia de capangas de Luthor, mesmo após perder seus poderes no ambiente kryptoniano de Kandor. Um dos criminosos chegou a comentar: “Mesmo sem seus superpoderes, esse cara é um osso duro de roer!”. Os leitores jamais duvidaram disso.

Nessa época, entre os roteiristas do Super-Homem, estavam Edmond Hamilton e Otto Binder. Foi Binder quem acrescentou Supermoça e Brainiac à lenda e elaborou uma das melhores histórias do Superboy nesse período, tão boa que passou a fazer parte do histórico do Homem de Aço adulto.

Criada como uma analogia ao monstro de Frankestein, a primeira criatura a se chamar Bizarro era uma duplicata imperfeita do Menino de Aço, gerada num acidente de laboratório. Um cientista amigo do Superboy estava tentando produzir urânio artificial para uso em medicina nuclear. No entanto, suas tentativas redundaram em fracasso, uma vez que seu “raio duplicador” tinha produzido urânio não-radiativo. Em dado momento, a máquina sofreu um solavanco e o próprio Superboy foi exposto aos raios, resultando no surgimento da versão quase cristalina do jovem herói, dotada de pele branca e traços que pareciam ter sido lapidados, com uma rebelde cabeleira espetada e de cor preta.

Como era típico na época, esta história foi uma adaptação de uma aventura apresentada originalmente nas tiras de jornal do Super-Homem. Muitos roteiros dessas tiras eram aproveitados e apresentados no formato de quadrinhos.

Concomitantemente, a história do Super-Homem continuava a se expandir, tornando seu passado mais complexo. Assim como Lana Lang foi introduzida retroativamente na lenda, o mesmo se deu com outros personagens bastante conhecidos. Em 1960, revelou-se que o maligno Luthor havia sido outrora amigo do Superboy em Pequenópolis. Seu ódio contra o Homem de Aço teve origem naqueles tempos antigos. Seu primeiro nome, Lex, foi revelado nessa história, cerca de vinte anos depois de sua estréia.

Pequenópolis, à medida que se desenvolveu no decorrer dos anos, tornou-se um local muito ativo, graças à fluidez da realidade nos gibis. Em World’s Finest, revelou-se que a dupla Super-Homem & Batman teve sua gênese em Pequenópolis, quando Thomas e Martha Wayne passaram por lá com seu filho, Bruce. Este primeiro encontro ocorreu mais de uma vez, já que as histórias eram contadas e recontadas para tornar ainda mais complexa a lenda. Em uma versão, o jovem Bruce até mesmo trajou uma fantasia que lembrava um morcego, autodenominando-se Raposa Voadora e combatendo, por um breve período, o crime em Pequenópolis.

Os anos 60 foram tempos difíceis para nosso herói. Num período de transformação cultural para a América e o mundo, a filosofia maniqueísta e, alguns diriam, simplista de bem versus mal das histórias do Super-Homem soava ainda mais caduca. Tentativas de abordar a situação do mundo pareciam apenas um esforço para acompanhar os novos tempos e frequentemente erravam feio o alvo. Os gibis sempre seguiram os modismos da sociedade, tentando, na medida do possível, capitalizar os movimentos populares. Mas, para o Super-Homem, os temas abordados se mostraram esforços fracassados de fazer o personagem caber numa forma para a qual ele não fôra feito.

Clark Kent poderia deixar crescer costeletas e Lois Lane poderia se transformar numa mulher negra para explorar o dia-a-dia de Metrópolis. Porém, de alguma forma, era tudo muito difícil de engolir. A Metrópolis do Super-Homem simplesmente não parecia ser um lugar onde pudesse haver guetos ou gente pobre de qualquer cor. Por muito tempo, a cidade havia sido a pedra precisosa mais reluzente no diadema das cidades imaginárias da DC: Nova Iorque sem as pichações, Chicago sem a máquina política corrupta, Los Angeles sem a poluição.

Os elementos do passado trágico do Homem de Aço foram retratados durante os anos sessenta e setenta, mas com um efeito alienante. A paixão por Krypton tornou-se praticamente ofensiva. Cada exclamação de “Grande Krypton!” era um insulto ao mundo que havia sido lar do Super-Homem por quase toda sua vida. Uma espiral decadente teve início e parecia muito improvável que se pudesse fazer alguma coisa para reverter a derrocada final do personagem.

A lenda continuou a crescer com revisionismos retroativos. À medida que o planeta Krypton era deslocado no espaço, avançando para posições cada vez mais distantes da Terra, segundo o critério de uma sucessão de roteiristas e editores, justificativas cada vez mais engenhosas e complexas iam se fazendo necessárias para que o pequeno foguete atravessasse a distância espacial que se interpunha entre Krypton e a Terra. Em 1938, era o suficiente dizer que Jor-L tinha construído um buscapé vitaminado no qual ele havia colocado seu filho e apontado para a Terra. Ninguém se indagava a respeito da distância ou da trajetória. O deslumbramento com o acontecido era tudo o que importava e a cruel ditadura da lógica podia ser posta de lado se uma história tivesse um ritmo suficientemente ligeiro. Podia-se engolir numa boa a visão simplista que Siegel tinha sobre navegação espacial.

Na década de setenta, o foguete foi equipado com um “propulsor estelar”, e a dobra ou fenda espacial que esse estranho motor abriu também foi responsável por um verdadeiro dilúvio de artefatos kryptonianos que acompanhou o pequeno Kal-El até a Terra. Todavia, tantos foram os destroços da explosão que chegaram ao sistema solar que, às vezes, a destruição de Krypton parecia ter sido unidirecional, como que apontada para a Terra. Fazendo o pequeno foguete gerar uma espécie de buraco negro, um redemoinho no espaço, roteiristas mais recentes puderam justificar muito do que havia sido relatado anteriormente.

Em outra revisão, o foguete havia explodido ao chegar à Terra, antes do efeito da radiação solar ter chance de tornar o metal, o plástico e o vidro invulneráveis. Esta explosão foi usada para criar dois pedaços perfeitamente circulares de supervidro para que Clark Kent pudesse usar em seus óculos. Alguém finalmente havia percebido que Clark não teria sido capaz de cortar o vidro com sua unha por mais super que ela fosse. Seria o mesmo que dizer que um homem normal é capaz de cortar vidro comum com sua unha normal.



John Byrne

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Superman – IV

As Origens do Super-Homem – Terceira Parte

A introdução da kryptonita nas histórias do Super-Homem aumentou a importância do principal inimigo do herói: Lex Luthor, o mais louco de todos os cientistas. Luthor rapidamente soube não só da existência deste veneno letal para o Super-Homem, mas também descobriu como sintentizá-lo (em uma história baseada tanto no programa de rádio quanto no segundo seriado cinematográfico, ele consegue enganar o Homem de Aço e fazê-lo reunir todos os elementos necessários para produzir kryptonita artificial).

A atenção sobre Krypton foi transferida para outros elementos ligados ao passado do Super-Homem: kryptonianos vivos! Em uma edição de agosto de 1950, nosso herói confronta-se com três criminosos, lançados em órbita por Jor-El, o que lhes permitiu escapar à destruição do planeta. Jor-El, ao que parece, tinha mais de um foguete guardado em seu laboratório. Ele também estava mais envolvido nos trâmites judiciários kryptonianos do que se poderia esperar de um cientista, ainda que excepcional. À medida que a lenda progredia, podíamos ter a imagem de um Albert Einstein sendo convidado a participar da Suprema Corte.

Por fim, revelou-se que Jor-El era o inventor/descobridor de um aparelho que, com o passar dos anos, seria uma ameaça quase tão grande quanto a kryptonita: o projetor da Zona Fantasma. Esta dimensão espectral era vista pela população de Krypton como um castigo mais benevolente do que o tradicional exílio em órbita. Numa cena significativa, Jor-El era visto prometendo ao criminoso condenado que ele criaria algo mais piedoso do que cem anos em animação suspensa. O leitor pode julgar se a Zona Fantasma era mesmo um bem maior. Projetados nesta dimensão crepuscular, os criminosos tornavam-se espíritos desencarnados, capazes de ver e ouvir tudo que se transpirava em seu mundo natal, mas incapazes de tocar ou fazer contato com qualquer pessoa fora desse limbo.

Tendo descoberto a existência da Zona Fantasma, o Homem de Aço ficou sabendo que muitos dos criminosos internados nela estavam no fim de suas sentenças, e se sentiu naturalmente compelido a libertá-los. No entanto, a maioria não havia aprendido nada com o castigo e, possuindo os poderes do Super-Homem, esses criminosos kryptonianos iniciaram várias investidas maléficas. Inevitavelmente, acabaram voltando para a Zona Fantasma, rosnando de ódio e jurando vingança.

A essa altura, Siegel e Shuster já haviam partido. Eles deixaram de trabalhar com o personagem em 1947, e o controle de criação passou a vários editores, escritores e desenhistas. A primeira destas pessoas a causar impacto considerável na lenda do Super-Homem foi Mort Weisinger, que assumiu o controle das tarefas editoriais depois da Segunda Guerra Mundial. Sob a influência de Weisinger, o nosso herói começou a assumir a forma mais conhecida pelo público de hoje.

Weisinger, segundo consta, tinha o hábito de conversar com as crianças de seu bairro, perguntando o que gostariam de ver acontecer com o personagem cujas aventuras eram, afinal, ainda endereçadas quase que inteiramente a elas. Foi neste período que a proliferação de superpoderes teve início. Seja por sugestão das crianças ou por causa da astuta intuição do que elas gostariam de ver, as histórias desta época se encheram de uma infinidade de personagens com poderes idênticos aos do Homem de Aço. O primeiro a chegar, retroativamente, foi Krypto, o Supercão.

Pelo visto, Jor-El tinha um modelo daquele foguete que lançou seu filho rumo à Terra. E, sendo um pai zeloso e amoroso, ele não desejava arriscar a vida de Kal-El numa nave ainda não testada, e por isso havia lançado antes o cachorro da família rumo ao espaço no protótipo.

Krypto aparece em algumas histórias ao acaso, tanto em Pequenópolis quanto em Metrópolis e até mesmo no espaço sideral, seu território favorito. Sua longevidade sugere que o tempo de vida provável do Super-Homem é extremamente longo, uma vez que nada no texto jamais tinha indicado que os cães kryptonianos tivessem um tempo de vida maior do que seus equivalentes terrestres.

O surgimento de Krypto se fez seguir da aparição de um personagem muito mais significativo nas lendas do Super-Homem, a prima do herói, Kara, conhecida em todo o mundo como Supermoça. Tendo aparecido pela primeira vez em maio de 1959, a Supermoça rapidamente desenvolveu uma origem quase tão complexa quanto a do Super-Homem. Agora, uma cidade inteira tinha sobrevivido à destruição de Krypton, com uma bolha de ar de alguma forma atada ao fragmento lançado ao espaço. Revisões posteriores acrescentaram uma “abóboda climática” que realmente continha o ar.

Entre os residentes de Argo City estavam Zor-El e sua esposa, Alura. Zor-El, como logo ficou claro, era o irmão caçula de Jor-El (ô mundinho pequeno, esse Krypton!). Alguns anos depois da destruição de Krypton, os habitantes de Argo descobriram que o fragmento do planeta no qual estavam viajando através do espaço estava se transformando em anti-kryptonita, através de uma reação estranhamente retardada. Foram feitas tentativas de cobrir o solo com chumbo, para bloquear a radiação mortífera, mas, como Krypton, o povo de Argo percebeu que estava condenado.

Imitando seu ilustre irmão, Zor-El colocou sua filha, uma adolescente, num foguete e a enviou rumo à Terra. Depois de ser encontrada por Super-Homem, ela adotou a identidade de Linda Lee. Supermoça operou em segredo por anos, até seu primo julgar que o treinamento estava completo, e revelou sua existência a um mundo surpreso e empolgado em fevereiro de 1962.



John Byrne

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Superman – III

As Origens do Super-Homem – Segunda Parte

Na Terra, depois de um pouso forçado, o sobrevivente da pequena astronave enviada de Krypton é encontrado por um casal que passava de carro pelo local. Originalmente não identificados, eles mais tarde se tornariam Jonathan e Martha Kent. Seus nomes, também, variaram no início. Em 1942, George Lowther escreveu um romance do Super-Homem, detalhando sua origem com muito do que estava presente nos quadrinhos, e finalmente deu aos pais adotivos os nomes de Sarah e Eben Kent (com estes nomes eles ficariam conhecidos no seriado de cinema Superman de 1948 e no episódio-piloto do seriado televisivo The Adventures of Superman). O romance de Lowther também foi o primeiro a revelar o sobrenome kryptoniano do Super-Homem por inteiro, soletrando “EL” em vez de “L”, além de alterar o nome da mãe do herói de “Lora” para “Lara”.

Na versão em quadrinhos de 1938, os Kent, ainda sem nome, eram um casal idoso, sem filhos, que levava a criança perdida a um orfanato próximo, voltando depois para adotar o bebê. Numa redefinição, foi revelado que esse retorno era a intenção dos Kent desde o começo. Quando o casal voltou, os funcionários do orfanato ficaram mais do que felizes com a partida do bebê. Já possuindo os fabulosos poderes de um nativo de Krypton, a criança tinha quase demolido o orfanato.

Batizado de Clark Kent, o menino cresceu e tornou-se adulto antes de vestir o conhecido uniforme vermelho, azul e amarelo. Há versões conflitantes de como Clark recebeu esse nome. Nas próprias histórias, foi revelado que era o nome de solteira de sua mãe adotiva. No entanto, ninguém sabe o que Siegel e Shuster tinham em mente ao tomar tal decisão. Uma versão conta que a escolha do nome foi inspirada nos atores Clark Gable e Kent Taylor. Outra versão diz que foi uma homenagem às antigas revistas pulp que tinham alimentado a imaginação dos criadores do Super-Homem: Doc Savage, o heróico “Home de Bronze”, chamava-se Clark Savage Jr. e seu criador foi o autor Lester Dent.

O jovem Clark teve o cuidado de manter seus poderes em segredo. Na primeira edição de Superman, papai Kent o alerta: “Agora preste muita atenção no que vou dizer, Clark! Essa sua enorme força… bem, você tem de escondê-la das pessoas ou elas vão ficar com medo de você!”. Mamãe Kent era menos catastrófica e dizia: “Quando chegar a hora, você deve usar esse poder para ajudar a humanidade”.

Estabelecendo-se em Metrópolis, Clark arrumou emprega no Planeta Diário e assim conheceu o membro mais antigo do elenco de coadjuvantes, Lois Lane. Lois é a única personagem além do Super-Homem que esteve presente desde o começo. Ela entrou na vida de Clark Kent em Action Comics # 1, já como uma ousada repórter do Estrela Diária de Metrópolis (mais tarde, rebatizado de Planeta). Os outros membros mais conhecidos do elenco, Jimmy Olsen e Perry White, vieram depois, ambos gerados nas aventuras do Super-Homem no rádio.

Desenvolvimentos posteriores do personagem acrescentaram Superboy à lenda (em 1945), revelando que não fora como adulto que Clark demonstrara ao mundo suas habilidades kryptonianas, mas ainda jovem em Pequenópolis. Nas revistas Superboy e Adventure Comics, revelou-se a maior parte do que conhecemos sobre os bondosos Kent. Começando como fazendeiro, Jonathan Kent mais tarde compraria uma loja de mantimentos gerais em Pequenópolis. Nesse ambiente aconchegante, Clark viveria muitas aventuras (devido às curiosas confusões de continuidade que afligiram a DC Comics no passado, passaram-se muitos anos até que a existência de Superboy fosse reconhecida dentro dos títulos do Super-Homem).

Em Pequenópolis, nós também conhecemos Lana Lang, uma ruiva muito animada e, por um tempo, namorada do Superboy. Lana ocupou um papel em sua infância e adolescência semelhante ao que seria assumido anos depois por Lois. As narrativas do Superboy tornaram-se tão complexas quanto as do Super-Homem nos trinta e poucos anos de sua publicação. Ninguém parecia se incomodar com as contradições do aparecimento do Superboy como um elemento de peso no passado do Super-Homem. Talvez os leitores fossem menos chatos a respeito da continuidade naqueles dias. É bem provável que simplesmente acolhessem de braços abertos qualquer coisa que lhes apresentasse uma possibilidade de novas aventuras de seu herói favorito.

Das histórias do Superboy, vieram mais detalhes sobre a vida passada de Kal-El em Krypton. Usando a supermemória, o jovem Clark era capaz de relembrar muito dos acontecimentos do dia-a-dia em seu mundo de origem. Mais do que se poderia esperar de um recém-nascido. E, à medida que a crônica do herói progredia, a idade em que o Super-Homem havia deixado Krypton também avançava. Mencionava-se que Kal-El já era uma criança que balbuciava as primeiras palavras, com consciência plena de tudo o que acontecia a seu redor, quando partiu de Krypton. Novamente, as contradições eram ignoradas com muito prazer pelos leitores. Enquanto as histórias fossem empolgantes, ninguém dava muita bola para os detalhes.

A textura mudava, os detalhes se alteravam, até mesmo as personalidades se modificavam. Mas o Homem de Aço permanecia mais ou menos o mesmo, uma rocha ao redor da qual todas as outras coisas orbitavam.

Aos poucos, os próprios kryptonianos sofreram alterações, tornando-se cada vez mais parecidos conosco. Revelou-se que Krypton era um planeta gigantesco, talvez do tamanho de Júpiter, e a força do Super-Homem foi explicada com base nisso, uma vez que os músculos evoluídos para dar conta da esmagadora gravidade de Krypton tornavam-se superpoderosos na Terra.

Daí também se explicaria a origem da capacidade de voar própria do Super-Homem. A gravidade da Terra simplesmente não era suficiente para contê-lo. Sua invulnerabilidade era outro vestígio de seu planeta natal. Todos os kryptonianos, ao que parece, tinham estruturas moleculares superdensas.

Essa safra de alterações na lenda chamou mais atenção para o planeta Krypton em si. Esse mundo fora pouco mencionado durante a primeira década da vida do Super, mas acabaria se tornando uma engrenagem vital no maquinário que compõe o personagem. O interesse alcançou seu momento mais significativo em 1949, quando o Super-Homem, pela primeira vez, encontrou um fragmento reluzente de seu planeta. Colorida de vermelho na estréia nos quadrinhos, a kryptonita, na verdade, tinha sido gerada na série de rádio do Super-Homem e passaria a ser a partir de então a mais perigosa ameaça à existência do herói. A letal kryptonita assumiu a tonalidade verde numa segunda aparição. Mais tarde, uma versão vermelha foi mostrada aos leitores, mas seus efeitos sobre o Super-Homem eram profundamente diferentes. Como veremos.



John Byrne

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Superman – II

As Origens do Super-Homem – Primeira Parte

Como convém a um personagem cujas proezas rapidamente assumiram o aspecto de lenda, os primórdios do Super-Homem foram ao mesmo tempo humildes e cataclísmicos.

Cataclísmicos pois ele nasceu da morte de um mundo. Arremessado num frio e ameaçador Universo, um bebê órfão tornou-se a criatura mais solitária de todos os tempos. Viajando no ventre metálico de uma pequena espaçonave, o inocente deixou atrás de si um planeta moribundo que explodiu em bilhões de fragmentos verdes, meteoritos radiantes que se espalharam por todo o universo. Radiativos. Letais. À sua espera.

Humildes porque essa detonação, capaz de destruir um planeta foi gerada na mente de dois adolescentes, criados no coração dos EUA com revistas pulp de ficção científica e sonhos de um mundo além de Ohio. Seus nomes: Jerry Siegel e Joe Shuster, respectivamente roteirista e artista. Da imaginação deles, nasceu um personagem de apelo incomparável, que tocou no ponto certo da psiquê americana. Um herói chamado Super-Homem.

Era a década de 30. O momento exato da concepção do Homem de Aço é objeto de conjecturas, mas, com certeza, não foi posterior a 1934. Jerry Siegel usou o nome de Super-Homem pela primeira vez em 1933, num conto que escreveu para seu fancine (revista amadora produzida por fãs) Science Fiction. A história se chamava O Reino do Super-Homem, e tinha pouco a ver com o personagem que nós conhecemos hoje. Era a aventura de um homem que havia ganhado fantásticos poderes mentais e feito um péssimo uso deles. O ilustrador do conto: Joe Shuster.

Mais cinco anos se passaram até o público conhecer o nome aplicado ao maior de todos os aventureiros uniformizados. Antes disso, porém, Siegel e Shuster tentaram, sem sucesso, fazer muitos editores se interessarem por sua criação. Originalmente projetado para estrelar tiras de jornais, o Homem de Aço foi apresentado, a princípio, aos syndicates (associações que representam quadrinistas e vendem seus trabalhos para diversos jornais do mundo inteiro, quase sempre em forma de tiras). A reação foi estrondosamente negativa e, após muitas rejeições, os dois procuraram editoras no Canadá, onde Joe Shuster tinha parentes. Ele costumava passar férias nos arredores de Toronto (na verdade, o primeiro trabalho do Super-Homem original foi como repórter do Daily Star, inspirado no Toronto Star). O consenso geral? O personagem não teria “apelo duradouro”.

Enquanto não obtinham aprovação, Siegel e Shuster se viravam como podiam. Como o herói kryptoniano continuava engavetado, a dupla produzia outros trabalhos. Suas carreiras, na verdade, começaram quase que simultaneamente com os primórdios do ramo – em grande parte na DC Comics.

Armados de um currículo de sucesso, eles finalmente venderam o Super-Homem, que foi adaptado para o formato de revista em quadrinhos e apresentado a Harry Donenfeld, presidente da DC Comics. Donenfeld autorizou a publicação. Sheldon Mayer foi o editor do lançamento. E, como se costuma dizer, assim nasceu uma lenda.

O herói estreou na edição número um de Action Comics, com data de capa de junho de 1938. Os Estados Unidos, abatidos pela depressão econômica e temerosos com a guerra, vislumbraram, pela primeira vez, o personagem que se tornaria um ícone americano. Capa de edição número um de Action Comics, o Super-Homem passaria a abrilhantar todas as capas da revista a partir da edição 19, na época em que já tinha, inclusive, seu próprio título, Superman. No auge de sua popularidade, ele estrelaria mais um punhado de títulos, como Superboy, Adventure Comics, World’s Finest Comics e Justice League of America, entre outros.

A primeira aventura do Super-Homem era bastante simples, com elementos que o escritor Siegel havia desenvolvido em histórias anteriores. A trama: nos confins do espaço, havia um grande planeta chamado Krypton. Em suas primeiras versões, pertencia ao nosso sistema solar. Siegel e Shuster devem ter se inspirado nas teorias da época, que afirmavam que o cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter era remanescente de um terrível cataclismo. Os astrônomos e astrofísicos da década de 70 provaram o contrário: a força gravitacional de Júpiter, oscilando de forma irregular, jamais deu chance para que um décimo planeta se formasse naquela região. mas, na década de 30, a ficção científica estava cheia de narrativas sobre um mundo há muito desaparecido.

Krypton era o lugar ideal, muito mais avançado do que a Terra de 1938. Os kryptonianos haviam atingido a perfeição física e mental. Uma raça de super-homens. Todavia, uma população condenada. Em nossa primeira visão de Krypton, tremores na crosta planetária abalavam as poderosas torres de suas cidades. Jorros de lava eram liberados através do manto que se fragmentava. O céu escurecia. Os kryptonianos estavam apavorados, pois o mundo que haviam conquistado tinha se voltado contra eles, e não sabiam porquê. Apenas um homem conhecia a verdade. Ele era Jor-L, um brilhante cientista que tinha percebido qual seria o destino do planeta. As pressões crescentes dentro do núcleo em breve destroçariam tudo.

O nome Jor-L já havia aparecido em outra das histórias de Siegel, redigida após a concepção do Super-Homem, mas publicada antes da estréia do personagem.

Saltando através da cidade, com pulos que cobriam várias quadras, Jor-L correu para casa, onde encontrou à sua espera a bela esposa Lora, e seu filho: um bebê recém-nascido que viria a se tornar o Homem de Aço. Somente em 1957, o leitor descobriria seu verdadeiro nome. A essa altura, a nomenclatura de seu pai havia mudado ligeiramente para Jor-El, e o Super-Homem seria Kal-El, que significava Filho das Estrelas em kryptonês.

Temendo a completa destruição de seu mundo, Jor-L concebeu um estratagema para salvar seu filho. Antecipando o destino que aproximava para sua raça, ele já havia construído um pequeno protótipo de uma frota de foguetes que salvaria toda a população. Os kryptonianos, porém, tinha rejeitado o plano, pois não acreditavam nas previsões apocalípticas. O pequeno modelo, inteiramente funcional, era tudo o que fora concluído. Jor-L colocou seu filho na pequena nave com o consentimento de Lora, e o pequeno Kal partiu rumo a um longíquo planeta chamado Terra, enquanto uma onda de terremotos destruía Krypton.



John Byrne

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Superman – I


O Reinado do Super-Homem

Como a idéia de dois adolescentes, mais de meio século atrás, se tornou o modelo de herói moderno e continua sendo um sucesso nos quadrinhos

Após 58 anos, ele ainda consegue voar sobre a cidade de Metrópolis, decidido a resgatar a verdade, a justiça e o modo de vida americano. Salvando o mundo ou simplesmente ajudando uma menina a recuperar o seu gatinho, o mito Super-Homem deixou de ser apenas um personagem de histórias em quadrinhos para ser visto como um ícone cultural do século XX. Invejado por uns, criticado por muitos, imitado por todos, o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster é um marco divisor no mercado de quadrinhos. Ele é o protótipo do homem perfeito, o objetivo a ser alcançado.

É bem conhecida a lenda de como Siegel e Shuster criaram o Super-Homem, e a grande batalha que travaram para sua publicação. Mas muita gente desconhece que nosso “Homem de Aço” nasceu como o mais temido vilão, um tirano que usava a sua força destruidora para subjugar os mais fracos. Depois, passando para o lado dos mocinhos, seus poderes foram ampliados, até ele atingir o status de semideus e perder a perspectiva do homem comum.

Nascimento

Os gregos foram os primeiros a buscar a perfeição, fosse ela física ou intelectual. Seus heróis e lendas eram mistos de ideais perfeitos e atitudes muito longe disso. Héracles (depois chamado de Hércules pelos romanos) inaugurou a categoria dos semideuses, poderosos e fortes, mas também infectados pelas fraquezas humanas. Beberrão e mulherengo, o filho do todo-poderoso Zeus com uma mortal matou duas serpentes com as mãos ainda quando criança. Caçador de primeira, o adolescente Héracles tinha 2 metros e meio de altura e um físico invejável. Os famosos 12 trabalhos provaram seu poder frente aos admiradores mortais, mas também marcaram sua tragédia pessoal: sob um encantamento de Hera, mulher de Zeus, ele matou seus filhos com Mêgara, filha do rei Creonte de Tebas. Como punição, Héracles teve de cumprir as 12 tarefas para, só então, subir ao Olimpo, a morada dos deuses.

Muitos séculos depois, na Idade Média, os heróis se tornaram cavaleiros armados de espadas e lanças. Vestidos de armaduras pesadas, eles combatiam dragões, salvavam princesas e enfrentaram até o demônio para recuperarem cálices sagrados. Mas, tirando nosso hercúleo semideus, todos estes heróis antigos eram homens comuns lutando contra seus limites. O século XX necessitava de algo mais, de alguém diferente, alguém… super!

Siegel e Shuster eram fãs de histórias de ficção científica e, quando se conheceram aos 16 anos, começaram a criar histórias no jornal da escola e num fanzine mimeografado chamado Science Fiction. Foi neste folhetim, em janeiro de 1933, que nasceu o Super-Homem. O nome do personagem foi copiado de um anúncio da revista pulp Doc Savage. Ele era um tirano do futuro, calvo e de olhar aterrador, que tinha poderes mentais sobre-humanos. Siegel e Shuster criaram um mundo do amanhã com o mesmo olhar pessimista que hoje também se vislumbra nos dias que virão. A crise de 1929, que enfiara os Estados Unidos numa grande depressão econômica, gerou uma série de previsões pessimistas. Em 1932, Aldous Huxley idealiza seu Admirável Mundo Novo, onde os seres humanos renegam sua humanidade. No ano seguinte, Adolf Hitler se torna o chanceler alemão, e planta a idéia da raça perfeita de super-homens, a raça ariana. Talvez por este motivo, os dois jovens judeus resolveram transformar seu novo personagem num mocinho.

A febre das revistas em quadrinhos começou em 1933 e os dois aprendizes de quadrinhistas são capturados imediatamente. Decidiram, então, fazer uma história completa só com o personagem, ainda sem o uniforme, mas com cabelo. Levaram sua obra para um editor que não quis publicá-lo. No ano seguinte, numa noite calma, Siegel concebeu a versão final do seu personagem. Em apenas algumas horas escreveu material para sete semanas de tiras de jornal. Pela manhã já estava ao lado de Shuster, que desenhou furiosamente a nova história. Em vinte e quatro horas, o mito estava criado. Em formato de tiras de jornal ou de revista, Siegel e Shuster durante quatro anos bateram em várias portas tentando vender a sua idéia. Editoras e syndicates (empresas que gerenciam a venda de tiras para os jornais) recusavam o projeto. Apenas a National Periodical (hoje DC Comics) resolveu apostar nos dois jovens e seu Super-Homem. Compraram os direitos de publicação por apenas 130 dólares. E o resto é história.

Os anos seguintes

Depois que surge uma boa idéia, várias outras seguem o mesmo caminho. Com o Super-Homem não foi diferente. Homens com capas e superpoderes começaram a surgir numa explosão sem precedentes. De um momento para o outro, a Terra tinha mais salvadores do que problemas. Cada cidade do continente americano possuía um “super-alguma-coisa” disposto a defender a moral e os bons costumes. Nem mesmo décadas de confrontos com supervilões, guerras, morte, ressurreições, marketing, clones, nada conseguiu abalar a credibilidade e a popularidade dos super-heróis. Crianças, jovens e adultos continuam a acompanhar suas histórias, sejam elas engraçadas, sombrias, ou humanitárias, como quando Super-Homem e Batman juntos lutaram contra a fome.

O final dos anos 80 e início dos anos 90 marcaram a humanização dos super-heróis. Autores consagrados procuraram resgatar a humanidade perdida dos seres mais poderosos do planeta, tentando destruir a imagem de que estes personagens poderiam, se quisessem, mudar o curso da história. Mais e mais superseres passaram a ter uma visão mundana e mais preocupada com a realidade. E esta avalanche que tentou mudar a história em quadrinhos também teve como astro inaugural o primeiro dos novos deuses: Super-Homem. Após décadas de poderes ilimitados, John Byrne, em junho de 1986, transforma o Homem de Aço num Homem Terreno: ele não podia mais viajar no tempo, viver no espaço e nem mais ser eterno.

Kurt Busiek renovou o Universo Marvel em 1993 com a minissérie Marvels (publicada no Brasil em 1995 pela Editora Abril Jovem). Num mundo em que imperam os super-heróis, Busiek procurou o ponto de vista do cidadão comum: um repórter. Este símbolo do contador de histórias do mundo moderno serve de identificação com o leitor. O destaque da minissérie não está nos super-heróis, mas sim no ponto de vista do repórter sobre um mundo onde existem super-homens capazes de fazer tudo o que as pessoas comuns apenas sonham.

No ano passado, Busiek criou uma cidade cheia de super-heróis: Astro City. Nela, tudo se passa num clima de anos 50, os anos de ouro do consumismo americano, dos carrões passeando sem se preocupar com crise de combustível, e de homens e mulheres de chapéu. E é nesta cidade que seus super-homens e super-mulheres vivem as angústias do dia-a-dia. Samaritan, o herói mais parecido com o Super-Homem original, vive o seu dia dividido entre seu emprego como revisor de uma grande editora e sua obrigação de salvar o mundo inteiro. Sua prioridade é salvar pessoas e evitar catástrofes. Inclusive, ele se recrimina quando perde muito tempo salvando um gatinho de uma árvore e quase não consegue salvar uma pessoa. Os super-heróis de Busiek na série Astro City aparentemente não têm a perspectiva do homem comum. Mas nos sonhos, Samaritan pode voar. Ora, como todo superser que se preze, ele vive voando e salvando o mundo. Mas o que ele quer é voar, só isso, num sonho que qualquer pessoa comum tem. Apenas voar.

Vigilantes

Talvez o exemplo mais concreto de um super-herói que perdeu a perspectiva de sua humanidade seja o Dr. Manhattan. Criado por Alan Moore e David Gibbons na minissérie Watchmen, o Dr. Manhattan é um ser onipresente e onisciente, resultado de uma experiência nuclear que acabou em tragédia. O físico Jon Osterman sem querer entra em um compartimento usado para testes radioativos e tem seu corpo destruído. Todos acreditam que esteja morto, mas ele apenas se transformou, sendo capaz de rearranjar os átomos à sua vontade e ver além da superfície: o Dr. Manhattan consegue enxergar átomos, moléculas e partículas e ver o passado, o presente e o futuro… ao mesmo tempo!

Por causa desse seu ponto de vista totalmente inédito, Manhattan perdeu completamente sua humanidade, tornado-se cético e distante, deixando de se preocupar com assuntos mundanos. Para ele, a composição molecular de uma pessoa viva é tão parecida que não se consegue distinguir uma da outra. Ao ultrapassar a linha entre o “normal” e o “super”, Manhattan perdeu também a capacidade de compreender sentimentos básicos, como o amor.

Mas nem tudo está perdido para o Dr. Manhattan. Ao descobrir que sua namorada é filha do Comediante, por quem a mãe dela sentia verdadeiro nojo, notou que às vezes a improbabilidade pode se transformar em realidade. Para ele, que podia passear pelo espaço-tempo sem esforço, aquele fato abriu seus olhos para uma característica do ser humano, algo que dá sentido à vida: o improvável, o imprevisível. Tão imprevisível como a morte.

Em 1992, Joe Shuster morreu, cego de um olho, sem poder desenhar mais o seu personagem, que passou a pertencer à DC Comics. Em janeiro deste ano, foi a vez de Jerry Siegel. Em um anúncio publicado em suas revistas, a DC faz o seu mea culpa. O texto do anúncio diz: “Ele olhou para o céu. Ele atreveu-se a sonhar. Ele nos deu um ícone. E nos ensinou a voar”. O Super-Homem que os rapazes Siegel e Shuster criaram continua a voar pelos céus de Metrópolis, perseguindo o ideal de ser perfeito num mundo cheio de injustiças e que, agora, ficou mais triste.


Sérgio Miranda

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Os bandeirantes e os entrantes no Belo Sertão

José Chiachiri Filho
Diretor do Arquivo Historico de Franca

A História da Franca começa, precisamente, nos finais de 1805 quando, por autorização de D. Mateus de Abreu Pereira (Bispo de São Paulo) dada em agosto, o Pe. Joaquim Martins Rodrigues, primeiro Vigário da nova Freguesia, benzeu o local onde seria erguida uma “decente Casa de Orações” e o seu respectivo cemitério. O local situava-se onde hoje se encontra a praça Nossa Senhora da Conceição (área da Fonte Luminosa). O terreno para a formação do patrimônio da Igreja foi doado pelos irmãos Antunes de Almeida, desmembrados de sua fazenda denominada Santa Bárbara.

Na realidade, o ato de D. Mateus de Abreu Pereira não resultava na criação de uma nova Freguesia. Ele, simplesmente, autorizava a transferência da sede da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Bonsucesso do Descoberto do Rio Pardo para o arraial da Franca que estava sendo formado pelos entrantes das Minas Gerais. Antonio José da Franca e Horta, então Governador e Capitão General da Capitania de São Paulo, teve um papel decisivo nessa transferência. Por isso mesmo, reconhecendo os seus esforços, o novo arraial e Freguesia já nascem com o seu nome.

Portanto, Franca surge com o século XIX e com ele desenvolve-se. Antes, eram o sertão, o “Bello Sertan do Caminho dos Goyazes”, os caiapós, os bandeirantes, os pousos. Depois vieram os “intrantes das Geraes”, os arraiais, as freguesias, a Vila Franca do Imperador. Tais serão os assuntos que iremos tratar neste artigo elaborado, exclusivamente, para o Diário da Franca.

1. O Caminho dos Goiases e os Pousos do Sertão.

O sertão era do indígena caiapó. Porém, antes do término do século XVII, Pires de Campos (o Pai Pira) e outros bandeirantes haviam passado pela região no afã de conhecê-la e, mais do que isto, descobrir as suas riquezas e apresar os seus habitantes.

Os esforços de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, não foram em vão. Ainda no primeiro quartel do século XVIII, as minas de ouro da Serra dos Martírios já estavam descobertas por seu filho o Anhanguera II, e entre São Paulo e a recém fundada Vila Boa de Goiás estabeleceu-se um intenso fluxo de homens com seus animais, negociantes com suas mercadorias, mineradores com sua fome de ouro, aventureiros com seus sonhos, facínoras com seus crimes.

Para dar apoio, sustento e descanso a esses “viandantes”, formaram-se, ao correr do Caminho, os pousos, minúsculos núcleos populacionais que abriam tímidas clareiras no grande sertão. Os pousos desenvolveram-se ou estagnavam-se a medida em que aumentava ou diminuía o fluxo de gente e de coisas pela Estrada dos Goiases. Por conseguinte, o escasseamento do ouro de Vila Boa trouxe como conseqüência a decadência definitiva dos pousos. Não obstante, a decadência não resultou em seu completo desaparecimento.

Mais tarde, no século XIX, eles iriam ainda servir de pousada para o boiadeiro, para os carros de bois, para os comerciantes de então, para os abastecedores dos centros urbanos que surgiam na época tais como São Paulo e Rio de Janeiro.

Num dos primeiros e mais completos documentos sobre os pousos do “Sertão do Rio Pardo thé o Rio Grande”, existente no Arquivo Público do Estado de São Paulo, dá-nos uma excelente visão sobre a época e a região estudadas. Trata-se da lista dos moradores estabelecidos ao longo do “Caminho” que ia para Vila Boa, distribuídos em seus respectivos pousos.

Assim‚ que no pouso do Rio Pardo moravam Domingos da Silva, de 69 anos, casado e mais 6 pessoas incluindo-se nestas os seus filhos, escravos e agregados. No Cubatão, Joana Pires, viúva de 30 anos e mais 17 pessoas. Em Lages, José Barbosa de Magalhães, 39 anos, casado com Maria Pires, vivia com seus 24 filhos, escravos e agregados. Em Araraquara morava Salvador Pedroso, casado, de 70 anos com mais 5 pessoas. No pouso dos Batatais só viviam 4 indivíduos: Luís de Sá, 33a. com sua mulher Teresa Maria de 27a. e mais 2 agregados. Na Paciência, Pedro Gil, 67a. com sua mulher e mais 3 agregados. No Pouso Alegre achava-se Raimundo de Morais, 60a., viúvo e mais o seu filho, 1 agregada e 2 escravos. Manuel de Almeida (53a.) ocupava o pouso do Sapucaí com sua mulher Ana Antunes, 41a., os seus filhos José (12a.), Vicente (10a.), Antônio (7a.) e mais 7 agregados. No famoso pouso dos Bagres só aparecem 3 habitantes: Fernando Antônio, 43a., com sua mulher Maria, 37a., e sua filha Ana. Bernardo Machado (50a.) e sua mulher moravam na Posse com mais 14 agregados No pouso da Ressaca encontravam-se 5 moradores. No Monjolinho, além de Salvador Barbosa (40a.), sua mulher Isabel e seu filho José, moravam 6 agregados. Dos mais numerosos era o pouso do Calção de Couro, chefiado por José da Silva, 54 a., e sua mulher Maria de Paiva e que se completava com mais 21 habitantes. Antonio Pires, 40a., e sua mulher Catarina eram moradores do Rio das Pedras com mais 10 pessoas. Miguel e Maria Buena encabeçavam o pouso da Rocinha que contava ainda com mais 15 habitantes. Finalmente, nas barrancas do grande rio, localizava-se o pouso do Rio Grande chefiado por José de Almeida, casado, 43a., possuidor de um escravo e que ali vivia em companhia de João Pereira Carvalho, o “mestre da barca” usada na travessia dos viajantes. Quando a Freguesia de Franca repartiu-se cima de Batatais (1814) nestas se incluíam os pousos que ficavam entre o rio Pardo e o Sapucaí.

Decorridos vinte anos, algumas alterações se verificaram nos pousos e na população do sertão. Uma delas foi a tendência de crescimento demográfico. Se, em 1779 a população do “Caminho dos Goyazes” não ia além de uma centena e meia de habitantes, em 1799 ela chegava a casa dos 660 habitantes. Apesar da unificação das listas populacionais a partir de 1793 (os moradores do sertão do rio Pardo passaram a ser computados em conjunto com os da região de Caconde) era evidente o aumento da população do Belo Sertão ao passo que diminuía a quantidade de moradores situados a margem dos ribeirões do Bom Sucesso, São Mateus e cabeceiras do rio Pardo. Tal crescimento vai acentuar-se com a entrada do século XIX e a chegada dos entrantes das Gerais.

Todavia, passadas duas décadas, ainda estavam no Sertão do Rio Pardo até o Rio Grande, os Pires, os Bueno, os Antunes de Almeida e tantas outras famílias que, apesar de “mulatas”, traziam em seus sobrenomes a sua origem bandeirante. É bem provável que Domingos da Silva relacionado na Lista Populacional de 1799 como cabeça do fogo 62 seja o mesmo do pouso do Rio Pardo de 1779.

Josefa Pires (pouso do Cubatão) reaparece casada com José de Almeida. José Barbosa de Magalhães já havia falecido, mas, no pouso de Lages ainda permanecia sua viúva Maria Pires (fogo 8) com seus 6 filhos. Com a morte de Pedro Gil, assume a chefia do fogo 28 (pouso da Paciência) a sua mulher Francisca Gil. Não resta a menor dúvida que o Bernardo Machado do fogo 18 da Lista de 1799 é o mesmo do pouso da Paciência, tendo, naquele ano, com seus 15 agregados, vendido para os comerciantes de Minas 50 alqueires de milho. Assim como Manuel de Almeida, primeiro Capitão de Ordenanças do Caminho dos Goiases, podiam ser encontrados nas duas listas populacionais: no fogo 32, por exemplo, estavam Antônio Pires e sua mulher Catarina (pouso do Rio das Pedras) vendendo para as tropas de Minas 100 alqueires de milho, 10 de feijão 16 de farinha e 6 arrobas de toucinho. Miguel e Maria Buena, do pouso da Rocinha, são encontrados no fogo 23 plantando para o gasto e vendendo para os negociantes 30 alqueires de milho.

Nas últimas décadas do século XVII, os pousos continuariam com suas antigas funções de local de parada, descanso e abastecimento, funções estas que seriam incrementadas pelas tropas de negociantes das Minas Gerais que percorriam o sertão comprando os produtos da terra para revendê-los aos centros consumidores, especialmente, o Rio de Janeiro, São Paulo e quadrilátero do açúcar.

Com isso, os pousos ganham novo vigor econômico com o fornecimento de milho, feijão, arroz, queijo, sola, toucinho, algodão, principalmente a carne de seus rebanhos de vacuns. Contudo, nenhum desses pousos se transforma em arraial. O arraial é fruto de uma outra realidade, de outro cenário, de outros fatores que se processarão no século XIX.

No primeiro quartel do século XIX, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, homem culto e perspicaz, registra a sobrevivência dos pousos, a permanência de suas finalidades e a diferença entre eles e os arraiais. Ao atravessar o Rio Grande, escreve o naturalista: “…comecei no dia 24 de setembro de 1819 a percorrer essa imensa Provincia. Para alcançar sua capital viajei 86 léguas seguindo a estrada que as caravanas percorrem em demanda de Goiás e Mato Grosso. Gastei 36 dias nessa viagem muito castigada pelas chuvas e pelas más pousadas…”… “No próprio dia de minha chegada ao rio Grande, atravessei-o e dormi num vasto rancho coberto de folhas e aberto de todos os lados. A noite estava muito fria. Pela manhã, antes do despontar do sol, uma neblina espessa impedia-me de ver os objetos circunvizinhos, mas logo desapareceu e pude me deliciar com a beleza da paisagem.” Sobre os moradores estabelecidos nos pousos ao longo da estrada, assim se manifestou Saint-Hilaire: “Enquanto descrevia e examinava as plantas, aproximou-se um homem do rancho permanecendo várias horas a olhar-me sem proferir qualquer palavra. Desde Vila Boa até o Rio das Pedras tinha eu tido, quiçá, cem exemplos dessa estúpida indolência. Esses homens embrutecidos pela ignorância, pela preguiça, pela falta de convivência com seus semelhantes e, talvez, por excessos venéreos prematuros, não pensam, vegetam como árvores, como as ervas dos campos”.

Mais adiante, sua opinião sobre os Batatais foi bem diferente: “A duas léguas de Paciência, detive-me na fazenda de Batatais, abrigando-me num rancho cercado por grossos moirões que o defendiam dos animais. Depois da cidade de Goiás, nenhum rancho vi construído com tamanho cuidado. Batatais é dependência de uma pequena Vila do mesmo nome situada a pouca distância da estrada do lado de leste e que não cheguei a ver.”

Os pousos ficaram como herança do povoamento bandeirante-caiapó do Belo Sertão da Estrada dos Goiases e, até hoje, muitos locais da região são identificados por aquelas antigas denominações.

2. O Capitão Manuel de Almeida.

Nas proximidades do Pouso Alegre e Bagres, localizava-se o pouso do Sapucaí encabeçado pelo português Manuel de Almeida. Desde 1779 ele vivia na referida localidade juntamente com sua mulher, Ana Antunes (de 41 anos), e seus filhos José (12 anos), Vicente (10 anos) e Antônio (7 anos). Além de sua família, viviam sob a proteção de Manuel de Almeida (que, por essa época contava com 53 anos) os seguintes agregados: Pedro, casado, com 40 anos e Inácia, sua mulher, de 39 anos; João, 25 anos; Paulo, de 52 anos; Francisca com 30 anos; Miguel, 30a.; Maria, 20 a.. Por conseguinte, o pouso do Sapucaí contava com 12 habitantes em 1779.

Após 20 anos, isto é, em 1799, Manuel de Almeida e sua família ainda permaneciam no pouso do Sapucaí. A Lista Populacional de referido ano apresenta o seguinte cabeçalho:

“MAPA GERAL DOS HABITANTES EXISTENTES NA PAROCHIA DO ARRAYAL DE NA SNRA DA CONCEYÇÃO DO BOM SUCESSO DAS CABECEIRAS DO RIO PARDO DE QUE HÉ CAPM MANOEL DE ALMEIDA NO ANNO DE 1799 SUAS OCUPAÇOENS, EMPREGOS E GENEROS QUE CULTIVO.”

Portanto, Manuel de Almeida já havia recebido a patente de Capitão de Ordenanças do Belo Sertão da Estrada dos Goiases, fato que indicava a importância da região no novo contexto econômico que se desenhava.

Na Lista, os moradores não vinham discriminados em seus pousos, mas sim em seus fogos, aos quais pertenciam. Manuel de Almeida, agora com 73 anos, encabeçava o fogo número 1 com sua mulher Ana de Sousa Antunes (61 a.) e mais os filhos: Alferes José Pio Antunes de Almeida (34 a.), Vicente Antunes (23) e Antônio Antunes (32), à família acrescentou-se a nora Maria Francisca, casada com Vicente. Completava o fogo 6 escravos e 5 escravas. Contrariamente ao “mapa” anterior, não se registrava nenhum agregado. O Capitão Manuel de Almeida vivia: “de rendas da passagem do rio Sapucahy”. Mas não era só dessas rendas que provinha o seu sustento. Também plantava para o gasto e o excedente, vendia para as “tropas” de Minas sendo que no ano de 1799 havia negociado: 30 alqueires de milho, 15 de feijão, 10 de arroz, 20 arrobas de toucinho e 12 arrobas de fumo. O Capitão Manuel de Almeida e sua mulher ainda aparecem nas Listas de 1801 e 1803. Porém, os seus filhos Vicente e José Pio já não fazem parte do seu fogo, isto é, já não eram mais dependentes do seu fogão. Junto aos pais somente permanece o filho Antônio. Em 1803, o velho Capitão de Ordenanças assim anotava as suas atividades: “Administrador de passage da Real Fazenda – Planta para o gasto – Colheu de milho 300 alqs. e vendeo 50 – Colheu 20 de feijão e vendeo 6 – Colheu 10 de arroz – Marcou 3 gados vacum”.

3. Os Irmãos Antunes.

Dos filhos de Manuel de Almeida, Vicente e Antônio permanecem no Sertão do Rio Pardo. O Alferes José Pio toma outro rumo. Vicente sai do fogo do pai para incorporar-se ao encabeçado por sua Sogra Maria Pires Cordeiro (fogo 8), próspera agricultora e criadora. Na Lista de 1805, Vicente Ferreira Antunes de Almeida encabeça o fogo 99 com sua mulher Maria Francisca e os seus 5 filhos. O fogo 99 situava-se na região de Santa Bárbara. Antônio Antunes de Almeida passou a chefiar o fogo 111. Aos 35 anos ainda se achava solteiro. Com seus 11 escravos, plantava e criava e, em 1804, havia vendido para os comerciantes da estrada 30 alqueires de milho (dos 200 colhidos). Havia colhido, também, 20 alqueires de feijão e marcado 20 vacuns.

Para se atravessar os rios do Sertão, os viajantes deveriam pagar os “direitos de passagens” devidos, inicialmente, a Bartolomeu Bueno da Silva e seus descendentes. Mais tarde, a Coroa incorporou esses direitos a sua receita. Manuel de Almeida, português de Lisboa, seria o encarregado de administrar a passagem do Sapucaí e de recolher as rendas para a Real Fazenda. O fato de ele ter sido o administrador da “passage”‚ muito importante porque nos possibilita a localização exata do seu pouso ou fogo. O velho Capitão e sua família moravam à beira do rio Sapucaí em terras de há muito aposseadas e identificadas com o nome de Santa Bárbara.

Em 1805, ao fazerem doação de terras para a formação do patrimônio da nova Freguesia da Franca, os irmãos Antunes, isto é, Vicente Ferreira Antunes e Antônio Antunes de Almeida, fizeram-na com base no desmembramento de parte de sua fazenda Santa Bárbara.

Durante o Brasil-Colonia, prevaleceu o sistema de concessão de terras conhecido como sesmaria. Contudo a maior parte do Belo Sertão era constituída por terras devolutas.

Mais do que o título, a posse efetiva com o plantio e o cultivo, garantia a propriedade. D. Maria I já se havia pronunciado enfaticamente neste sentido (cf. Os Sem Terra do Século XIX, artigo de nossa autoria publicado no Diário da Franca). Desde 1779 (ou mesmo antes), Manuel de Almeida e sua gente havia-se estabelecidos às margens do Sapucay-mirim. Todavia, somente em 1808 os seus filhos, Antônio e Vicente, receberão o título legal de posse, isto é, a Carta de Sesmaria. Evidentemente, a referida concessão decorria da necessidade de se legalizar a posse dos Antunes de Almeida em virtude de sua doação para a “fabrica” da igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição da Franca.

D. Mateus de Abreu Pereira, bispo de São Paulo, ocupando interinamente o Governo da Capitania, resolve legalizar a posse do primeiro Capitão de Ordenanças do Belo Sertão da Estrada dos Goiases, concedendo aos seus filhos e herdeiros a Carta de Sesmaria da fazenda Santa Bárbara a qual é a seguinte: “Carta de Sesmaria a Vicente Ferreira Antunes a Antonio Antunes de Almeida de 3 Legoas de terra no Disto da V.a de Mogi-Mirim. Dom Matheus de Abreu Pera, do Conso. de S.A.R. Bispo de S. Paulo, o Dezor. Miguel Antonio de Azevedo Veiga Ouvor. Geral e Corregor desta Comca, e Joaqm Manuel do Couto Chefe de Divizão da Armada Real, e Intendente da Marinha de Santos, todos Govres Interos desta Capitania Geral de S. Paulo etc. Fazemos saber aos q’ esta Nossa Carta de Sesmaria virem q’ attendendo a Nos reprezentarem Vicente Ferreira Antunes, e Antonio Antunes de Almeida da Villa de Mogi-Mirim, q’ elles possuem desde o tempo do falescido seo Pai, o Capm Manoel de Almda tres legoas de terra no Certão da Estrado de Goyazes entre o Rio Sapucahy, e o Rio Grande na paragem chamada o Ribeirão dos Bagres termo da dita Villa, onde os Suplicantes já tem bastantes criaçoens de Gados; e pr isso pedião nos lhes concedessemos pr Carta de Sesmaria as mmas tres legoas de terra no do Ribeirão dos Bagres fazendo peão onde mais conveniente for, e sendo visto o Seo requerimto em q’ foi ouvida a Camara da Villa Mogi-Mirim, e o Doutor Procurador da Coroa, e Fazenda aqm se deu vista, e com ql parecer Nos Conformamos: Havemos pr bem dar de Sesmaria em Nome de S.A.R. o Principe Regte N.S./ em observancia da Real Ordem de 15 de Junho de 1711, e das mais sobre esta Materia / aos ditos Vicente Ferra Antunes, e Antonio Antunes de Almda duas legoas de terra em qdra na paragem Mencionada com as confrontaçoens acima indicadas sem prejuizo de terceiro, ou do direito, q’ algumas pessoas tenhão a ellas o ql lhes deixamos salvos pa o alegarem, ou no acto da Medição, ou pa outro qualqr q’ lhes convier: Com declaração, q’ as cultuvarão, e mandarão confirmar esta Carta de Sesmaria pr S.A.R. dentro em dois annos, e não o fazendo se lhes denegar mais tempo, e antes de tomarem posse dellas as farão Medir, e demarcar judicialmentesendo pa este effeito noteficadas as pessoas comqm confrontar, e serão obrigados a fazer os Caminhos de suas Testadas com pontes e estivas onde necessario for, e descobrindo-se nellas Rio caudalozo, q’ necessite de Barca pa atravessar ficar rezervada de huma das Margens delles meia legoa de terra em quadra pa Commodidade Publica, e nesta data não poder succeder em tempo algum pessoa Eccleziastica, ou Religião, e Succedendo ser com o encargo de pagar Dizimos, ou outro qual quer, q’ S.A.R. lhe quizerem impor de novo, e não o fazendo se poder dar aqm o denunciar, como tambem sendo o dito Senhor servido Mandar fundar no Districto della algumaVilla o poder fazer ficando livre, e sem encargo algum pa os Sesmeiros, e não Compreender essa datta veeiros, ou Minas de qualquer genero de Metal q’ nella se descobrir, rezervando tambem os Paos Reaes; e faltando aql qr das ditas Clauzulas pr seren Conformes as Ordens de S.A.R., e o q’ dispoem a Lei, e Foral da Sesmarias ficarão privadas desta: Sendo outro sim o obrigdos os Sesmeiros a levar com Arado cada anno nas terras q’ legitimamte lhes pertencer hum pedaço de terreno proporcionado ao q’ se acha estabelecido de seis braças de frente, e seis de fundo pa cada Legoa quadrada concervando Lavradias as q’ huma ves forão tratadas com Arado na forma determinada pelo avizo da Secretra de Estado dos Negocios da Marinha e Dominios Ultramarinos de 18 de Maio de 1801: com a Cominação de q’ não cumprindo assim pagar Cem reis pa cada braça, q’ deixar de lavrar q’ serão aplicados pa as obras, e mais despezas do Hospital Militar desta Cidade, cujo encargo passar com as mesmas terras a todos os possuidores, q’ forem dellas pa o fucturo, e no Cazo q’ ellas se subdevidão ser obrigado a lavrar a parte q’ lhe tocar proporcional a parte q’ ql qr outro possuir de suas refferidas terras. Pello q’ mandamos ao Ministro, e mais pessoas a quem o Conhecimento desta pertencer dem posse aos ditos Vicente Ferra Antunes, e Antonio Antunes de Almeida das refferidas terras na forma q’ dito hé. E por firmeza de tudo lhe mandamos passar a prezte por Nos assignada, e Sellada com o Sello das Armas Reaes, q’ se cumprir inteiramente, como nella se contem, se registrar nos Livros da Secretra deste Govo, e mais partes a q’ tocar, e se passou pr duas vias Dada nesta Cidade de São Paulo aos 28 de Julho de 1808. Assinam a Carta de Sesmaria o escrivão José Matias Ferreira de Abreu, o Secretario de Governo Manuel da Cunha de Azevedo Coutinho Sousa Chichorro, e os Governadores interinos D. Mateus de Abreu Pereira, Miguel Antonio de Azevedo Veiga e Joaquim Manuel do Couto”.

O ribeirão dos Bagres de que nos fala a Carta, localizava-se próximo ao Sapucaí, onde desaguava. O atual córrego dos Bagres vai desembocar no referido ribeirão. Porém, esse mesmo córrego recebia, em 1818 (por ocasião da visita de Alincourt) a designação de Itambé e, mesmo, Catocos (visita de Taunay).

O processo de demarcação da fazenda Santa Bárbara encontra-se conservado no Arquivo Histórico Municipal e é datado de 1822. Contudo, ela já era de propriedade de Francisco Antonio Dinis Junqueira e não mais dos irmãos Antunes.

4. Os Entrantes das Gerais: As Primeiras Famílias.

Em 28 de novembro de 1824, o “Districto do Rio Pardo thé o Rio Grande” é elevado a categoria de Vila. Cria-se, por conseguinte a Vila Franca do Imperador, que, destarte, emancipa-se da Vila de São José de Moji-mirim. Os vereadores são eleitos e os juizes também, Os empregados da Câmara são nomeados e a Municipalidade passa a gerir, por si própria, os seus destinos.

Na realidade, a fundação de Franca data de 1805 quando o Pe. Joaquim Martins Rodrigues, primeiro vigário encomendado da nova Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Franca, benze o terreno, doado pelos irmãos Antunes, onde seriam construídos o cemitério e a Matriz. O arraial da Franca e todos os outros do antigo Belo Sertão nascem em virtude da afluência e da vontade dos entrantes das Minas Gerais que apossam-se da região nos primeiros anos do século XIX.

Graças às Listas Populacionais pode se precisar o ano em que se inicia esse fluxo demográfico e quais foram as primeiras famílias que se fixaram no antigo sertão.

Um dos primeiros a chegar foi José Gomes Meireles que aparece na Lista de 1803 com sua mulher Rosana (fogo 40) e mais 5 filhos e 5 escravos. De acordo com o registro eles vieram do: “arrayal de Pitanguy, Destricto das Gerais e estão arranxados de poco”. Das Minas Gerais também era Manuel Pereira Pinto que morava no fogo 42 com sua mulher Ana Maria e seus dois filhos. Ele vivia de seu oficio de alfaiate, mas também plantava para o seu gasto.

Todavia, é em 1805 que esse fluxo migratório começa a se evidenciar. Nesse ano, a Lista já foi da responsabilidade de Hipólito Antonio Pinheiro, nomeado Capitão de Ordenanças em substituição a Manuel de Almeida que falecera recentemente, Hipólito Antonio Pinheiro encabeçava o fogo número 1. Natural de Congonhas do Campo, Hipólito vem para o sertão aos 51 anos de idade acompanhado de sua mulher Rita Angélica do Sacramento e dos filhos: João, Quintiliano, Ambrósio, Luciana, Ana, Hipólita, Rita, e mais as netas: Rita, Maria, Hipólita e Porcina. Além de 8 escravos, vieram com ele os agregados: José Gonçalves Campos e Maria de São José que, por sua vez, possuíam 4 escravos. Em conjunto eles plantaram milho, feijão e marcaram vários vacuns e cavalares.

No fogo 2 encontra-se Heitor Ferreira de Barcelos, natural da Vila de São José. Ele era irmão de Hipólito por parte de mãe cujo nome era Ana Faria. O Alferes Heitor (42 anos) vinha acompanhado de sua mulher Ana Angélica (34 a.) e os filhos: Claudio, Anselmo (11 a.), Heitor, José, Joaquim, Ana, Maria, Silvéria, Cândida. Possuía 10 escravos e os seus agregados eram: João do Rego e Ana Maria que, por seu turno, tinham 8 filhos e 1 escravo.

O Reverendo Joaquim Martins Rodrigues, natural de Congonhas do Campo, aparece no fogo número 3 e, curiosamente é chamado de Vigário da Freguesia antes mesmo dela se concretizar. O Reverendo tinha 7 escravos e 5 agregados.

Antônio Alves Guimarães era oriundo do Reino, tendo nascido em Guimarães. Certamente, ele primeiro se estabelece em Minas para depois vir para o Sertão do Rio Pardo.

De São Bento do Tamanduá, veio João Rodrigues de Sousa, Antonio Vieira (era natural da Vila de São José), José Gonçalves de Melo, de São João del Rei. Também de São João del Rei era Francisco Machado do Espírito Santo. De vários arraiais e Freguesias, de inúmeros distritos e Vilas vieram os entrantes das Gerais para arrancharem e formarem suas fazendas no Belo Sertão, E quanto mais avançarmos pelo século XIX, mais acentuado ser este fluxo migratório que ira transformar o sertão urbanizando-o com seus arraiais e humanizando-o com a sua gente.

Fontes:

– Listas Populacionais de 1779, 1799, 1801, 1803, 1805 – existentes no Arquivo Público do Estado de São Paulo

– Viagem à Província de São Paulo de Auguste de Saint-Hilaire

– Livro de Sesmarias

Colaboração: equipe do Arquivo Histórico Municipal de Franca