Li pela primeira vez o livro Depois que acabou, de autoria da Daniela Abade, em 2011. Publicado em 2003 pela Editora Gênese (da querida amiga Alê Félix), estava encarapitado aqui na minha biblioteca e, enquanto aguardo a chegada de alguns novos livros, resolvi reler essa obra. Eis uma sinopse que puxei lá do Skoob:
“Imagine que você não seja mais capaz de ser ouvido ou visto por ninguém. E que você tenha pela frente a perspectiva de uma eternidade sem a capacidade de agir. Tudo isso foi imaginado por Daniela Abade no romance Depois que Acabou, a narrativa de oito anos da não-vida de Carla de Souza Almeida. O livro é escrito em primeira pessoa – é Carla quem conversa com o leitor e compartilha suas angústias, tristezas, paixões e diversos erros. Tudo isso, depois de sua morte. O romance, que poderia cair na armadilha de uma obra espiritualista, mantém sabiamente distância desse estilo, aliás trilha um caminho absolutamente oposto. É uma metáfora sobre a solidão. É uma história de um ser humano numa situação limite. É uma teoria angustiante. E um livro de uma originalidade ímpar.”
Já deu para perceberem que a estória é meio tensa, né? Ainda assim, muito boa. Muito bem escrita. Faz a gente pensar num monte de coisas (mas de uma maneira até que boa), em especial nisso que ninguém gosta de pensar.
O livro A Loja de Cartas de Seul, da autora coreana Baek Seung-yeon, foi publicado em 2025 aqui no Brasil pela Editora Intrínseca, com tradução de Núbia Tropéia. Segue a orelha:
“Viver à sombra da irmã mais velha e bem-sucedida nunca foi fácil para a aspirante a cineasta Hyoyeong. Hyomin sempre foi considerada a aluna exemplar, a filha perfeita, o orgulho de todos. Por isso Hyoyeong não esperava que a irmã fosse cair em um golpe e perder todas as economias da família. O baque financeiro é tão grande que Hyoyeong se vê obrigada a abandonar seu sonho profissional para ajudar a família e cuidar da mãe, que acaba de sofrer um acidente.
Sentindo que decepcionou a todos, Hyomin decide largar tudo e fugir. No entanto, ela não desiste de ter o perdão da irmã e passa a lhe escrever cartas. Sem conseguir perdoá-la, Hyoyeong se muda para Seul, na esperança de nunca mais ser procurada por Hyomin.
Quando ela chega à cidade, um amigo lhe oferece um emprego na Geulwoll, sua loja de cartas, um lugar famoso pelo serviço de penpal, em que os clientes podem trocar cartas anônimas com outras pessoas. A ideia é bem simples: para receber uma carta escrita por um desconhecido, basta lhe escrever uma carta.
Conforme os dias vão passando, Hyoyeong começa a observar as pessoas que vão até lá para colocar no papel seus medos e desejos mais profundos, se conectando com eles e suas histórias. Tudo o que ela queria era ficar longe de cartas, mas a atmosfera reconfortante do local e seus simpáticos clientes aos poucos ganham o coração de Hyoyeong e a ajudam a repensar a própria vida e o relacionamento com a irmã.”
Inspirado em uma loja que realmente existe na capital sul-coreana, e em suas correspondências esse livro é uma healing fiction sobre perdão e os laços que criamos ao longo de uma vida. De quebra celebra, ainda, a arte perdida de escrever cartas e da importância da conexão com o próximo em um mundo cada vez mais virtual.
Terminei de ler o livro Manual da Falta de Estilo, de Josué Machado. Publicado em 1994 pela Editora Best Seller, uma divisão do Círculo do Livro – alguém ainda lembra disso? Basicamente são crônicas em que o autor pega algumas notícias que circularam em jornais, jornalões e jornalecos com erros às vezes não tão crassos de português e aponta o que seria correto, inclusive com as regras gramaticas que fundamentam essas correções.
Até aí, tudo bem.
O problema é que o caboclo meio que tenta imitar o tom do inimitável Stanislaw Ponte Preta, este sim com um dom para, de modo ferino e sarcástico, brincar com notícias, sérias ou não, extraindo humor de pedras. No que, obviamente, o autor desse livro não chega nem perto. Quase chego a sentir pena de suas tentativas.
Acabei de ler o livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Muito bom. Não “excepcional”, mas muito bom. A maior parte do livro serve para que nos situemos no futuro distópico criado pelo autor, para, enfim, já quase no final do livro, chegarmos ao embate (talvez esta não seja a palavra certa, estaria mais para uma discussão, uma conversa emocionalmente tensa) de dois personagens, cada qual defendendo seu ponto de vista sobre a “sociedade feliz” tal qual como é encontrada naquele mundo estéril.
É curioso perceber que depois de tanto tempo – livro foi publicado em 1932 -, tanto do ponto de vista tanto ideológico quanto político, as coisas permanecem praticamente as mesmas. Aliás, a expressão “panem et circenses”, cunhada no final do século I e início do século II desta era (e atribuída ao poeta Juvenal), já definia bem a forma de se “tratar” o povo para uma “sociedade feliz”. Mais recentemente podemos melhor exprimir essa ideia, essa sensação, através da música Admirável Gado Novo, lançada em 1996 por Zé Ramalho.
Zé Ramalho – Admirável Gado Novo
Uma curiosidade sobre esse livro é que, como foi lançado em 1932, é de uma época que nem sequer era cogitado a existência de computadores, os quais viriam a dar seus primeiros passos somente cerca de uma década depois e, ainda assim, como eficientes máquinas de cálculo e não necessariamente para armazenamento de dados. Mas achei interessante o seguinte trecho do livro, que trata da “criação” de seres humanos (já que a fecundação e o parto haviam sido abolidos da sociedade) e cuja estória se passa em torno do século XXVI:
“Depois dos Forradores vinham os Matriculadores. A procissão avançava; um a um, os ovos eram transferidos dos seus tubos de ensaio para os recipientes maiores; com destreza, a guarnição de peritônio sofria uma incisão, a mórula era posta no seu lugar, a solução salina era transvasada… e já o bocal seguia adiante, passando então a vez aos Rotuladores. A hereditariedade, a data da fecundação, o Grupo Bokanovsky, todos os detalhes eram transferidos do tubo de ensaio para o bocal. Não mais anônima, mas com nome, identificada, a procissão recomeçava lentamente sua marcha; lentamente, através de uma abertura na parede, por onde passava à Sala de Predestinação Social.
— Oitenta e oito metros cúbicos de fichas de papelão — disse o sr. Foster com manifesto prazer, quando entravam.
— Contendo todas as informações necessárias — acrescentou o Diretor.
— Postas em dia todas as manhãs.
— E coordenadas todas as tardes.
— Com base nas quais se fazem os cálculos.
— Tantos indivíduos, de tal e tal qualidade — disse o sr. Foster.
— Distribuídos em tais e tais quantidades.”
Bem, é isso. Para variar um pouco a seguir vou para um livro de crônicas, que há tempos vinha somente juntando poeira aqui na minha biblioteca: Manual da Falta de Estilo, de Josué Machado. Depois eu conto o que achei.