1789 – A história de Tiradentes

Nesta edição de 1789 – A história de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil, publicado pela Harper Collins em 2023, o jornalista Pedro Doria nos conta que, alinhados pelos mais diversos motivos, alguns sujeitos de ideias liberais formaram um grupo que, aos poucos, começou a fermentar a ideia de uma revolução nas Minas Gerais baseada nos conceitos da então nascente república norte-americana. Poetas, médicos, contrabandistas e assassinos, eles construíram um círculo de segredos e de movimentos delicados naqueles tempos de dura repressão da coroa portuguesa. O entusiasmo era tanto que um certo Tiradentes também era conhecido pelos seus como “República” e “Liberdade”. Do outro lado, Portugal estava preocupado. As leis na colônia eram pesadas e se tornaram impopulares, o que despertava o medo de que evento similar à Revolução Francesa ocorresse em seus domínios, minando os pilares do Antigo Regime. Antes que a guilhotina descesse, era necessário correr para apertar as cordas da forca e conter qualquer movimento nesse sentido. Numa espiral emocionante de fugas, traições, segredos e paixão, compõe-se a trama de 1789. Conforme mostra o autor, o movimento pretendia eliminar a dominação portuguesa e estabelecer um país independente. O projeto que começou pensando Minas Gerais num país livre, logo passou a se espraiar e fazer ecos dentro da elite carioca, chegando até a São Paulo.

Assim como em seu outro livro, 1565, o que prende a gente na leitura é o fato de que não se trata de uma mera descrição cronológica dos eventos históricos, mas sim uma contextualização desses eventos, num “contar de história” que vai e vem no curto tempo em que ocorreram (como se dá em qualquer bom proseio que se preze!), onde o autor traz não só as ocorrências da época, mas também coloca suas impressões, faz correlações com outros personagens dignos de nota, mas desde o início já ressalta:

O que tentei fazer, mais do que apenas narrar os acontecimentos daquela turbulenta década de 1780, foi mergulhar no mundo das Minas setecentistas. Entrar nas casas, deixar que o  leitor entreouvisse conversas, passear pelas ruas de pés-de-moleque ou cavalgar pelas estradas da Zona da Mata ao Grande Sertão. Tudo seguindo rigorosamente o que foi registrado em documentos. Não há uma vírgula de ficção, mas sim o esforço de construir uma narrativa agradável, envolvente. É que sentindo os perigos, ouvindo os diálogos ou mesmo observando os amores, os dramas, o ter filhos, a gente sente mais um lugar e seu tempo. E consegue entender o sonho que passou pela cabeça daquele grupo de homens.”

1565 – Enquanto o Brasil nascia

Nesta edição de 1565 – Enquanto o Brasil nascia, publicado pela Harper Collins em 2020, o jornalista Pedro Doria apresenta aos leitores os personagens e as histórias que estão na base da fundação do país, passando por guerras entre tupis, explorações francesas, missões jesuíticas e a chegada de escravos africanos. Foi nesse período agitado e turbulento dos dois primeiros séculos de colonização, cheio de encontros e misturas inusitadas, que o Brasil começou a tomar forma e viu nascer São Paulo e Rio de Janeiro, cidades que definiriam a identidade do país.

O que prende a gente na leitura é o fato de que não se trata de uma mera descrição cronológica dos eventos históricos, mas sim uma contextualização desses eventos, num “contar de história” que vai e vem no curto tempo em que ocorreram (como se dá em qualquer bom proseio que se preze!), onde o autor traz não só as ocorrências da época, mas também coloca suas impressões, faz correlações com outros personagens dignos de nota e até mesmo se aventura num tiquinho de imaginação, o que serve para dar um pano de fundo para a dura realidade de então.

Mas também achei interessante como surgiu a “ideia” desse livro. Nas palavras do autor:

Foi um dia, em 1999, que percebi: não conhecia a história do Rio. Ou conhecia muito pouco. Era uma tarde modorrenta de pouco trabalho no recesso parlamentar, um calor infernal lá fora, e eu de terno e gravata (…). Desci as escadarias de mármore para ganhar a Cinelândia e comprar cigarros com o projeto de passar numa livraria em busca duma história da cidade. / Atravessei o Centro naquela tarde entrando node vendessem livro, incluindo os sebos. mas o livro que buscava não havia. Encontrei livros antigos com muitos detalhes de momentos particulares. Livros novos, de arte, ricos em fotos, celebrando a beleza natural. Histórias de bairros, histórias de ruas, biografias, descrições picadinhas da cidade em cada momento, e uma única história resumida dos quatro séculos em poucas páginas. Mas um livro só que me contasse os porquês e o como, desse uma ideia de contexto, trouxesse vida aos personagens, isso não encontrei.

E com essa pilha de volumes debaixo do braço, na esperança que o conjunto revelasse o que buscava, constatou que não. Não revelava.

Daí nasceu este livro.

A vida não é justa

Esta segunda (e ampliada) edição de A vida não é justa, publicado pela Editora Intrínseca em 2022, revela como, em quase duas décadas atuando como juíza em diversas Varas de Família, Andréa Pachá testemunhou o fim de inúmeras histórias de amor. Como uma espectadora privilegiada, presidiu inúmeras audiências que envolviam divórcio, pensão alimentícia, guarda e partilha de bens. Depois de tantos anos de reflexões e histórias, ela resolveu recriar em palavras esse mundo através de um conjunto de crônicas que trazem toda a diversidade das experiências humanas quando o assunto é família. Em suas próprias palavras:

Eu poderia ter escrito artigos acadêmicos, teses jurídicas, para falar dos processos que envolviam os casais e as famílias. Escolhi contar histórias. Há lugares onde apenas a potência da ficção é capaz de chegar.

Uma delícia de livro.

Tendo presenciado a chegada (e intrusão) das redes sociais nos relacionamentos, bem como atravessado o isolamento da pandemia, neste livro a autora, ora com resignação, ora com bom humor, mas sempre com sensibilidade, descreve histórias e estórias tanto corriqueiras quanto inusitadas acerca dos impasses de relacionamentos que necessitaram chegar até os tribunais para que se resolvessem – alguns, inclusive, com finais felizes!

Eis algumas de suas reflexões e conclusões no decorrer dos diversos casos que relatou:

“Curiosa a rapidez das aproximações e os estragos que as redes produzem. Uma linguagem inexistente há pouco mais de uma década, era agora o espaço da vida, da verdade, da memória e das histórias.”

“Todas as preocupações eram direcionadas para reflexos periféricos do vínculo afetivo, como se a organização patrimonial devesse se sobrepor aos direitos de existência.”

“Ainda precisavam acertar a divisão das pequenas lembranças e dos objetos grávidos de significado.”

“Impossível vencer uma dor inventada.”

“O pai queria que o filho se chamasse Caíque, com C. A mãe queria Kaíke, com K. Eu, perplexa, com P, e assustada, com A, só queria acabar imediatamente com aquele ritual macabro que tomou conta da minha sala.” [Sobre o registro póstumo do nome de um bebê que falecera.]

“(…) é dos silêncios profundos que se alimenta a angústia.”

“A gente não escolhe onde coloca o desejo.”

“As múltiplas formas de paternidade e as mais diversas manifestações de amor, se conjugadas, fortalecem uma sociedade democrática. / É, no fim, uma equação simples. Quanto mais afeto, maior a possibilidade de justiça.”

Enfim, recomendo.

Depois que acabou

Li pela primeira vez o livro Depois que acabou, de autoria da Daniela Abade, em 2011. Publicado em 2003 pela Editora Gênese (da querida amiga Alê Félix), estava encarapitado aqui na minha biblioteca e, enquanto aguardo a chegada de alguns novos livros, resolvi reler essa obra. Eis uma sinopse que puxei lá do Skoob:

Imagine que você não seja mais capaz de ser ouvido ou visto por ninguém. E que você tenha pela frente a perspectiva de uma eternidade sem a capacidade de agir. Tudo isso foi imaginado por Daniela Abade no romance Depois que Acabou, a narrativa de oito anos da não-vida de Carla de Souza Almeida. O livro é escrito em primeira pessoa – é Carla quem conversa com o leitor e compartilha suas angústias, tristezas, paixões e diversos erros. Tudo isso, depois de sua morte. O romance, que poderia cair na armadilha de uma obra espiritualista, mantém sabiamente distância desse estilo, aliás trilha um caminho absolutamente oposto. É uma metáfora sobre a solidão. É uma história de um ser humano numa situação limite. É uma teoria angustiante. E um livro de uma originalidade ímpar.

Já deu para perceberem que a estória é meio tensa, né? Ainda assim, muito boa. Muito bem escrita. Faz a gente pensar num monte de coisas (mas de uma maneira até que boa), em especial nisso que ninguém gosta de pensar.

Na morte.

A Loja de Cartas de Seul

O livro A Loja de Cartas de Seul, da autora coreana Baek Seung-yeon, foi publicado em 2025 aqui no Brasil pela Editora Intrínseca, com tradução de Núbia Tropéia. Segue a orelha:

Viver à sombra da irmã mais velha e bem-sucedida nunca foi fácil para a aspirante a cineasta Hyoyeong. Hyomin sempre foi considerada a aluna exemplar, a filha perfeita, o orgulho de todos. Por isso Hyoyeong não esperava que a irmã fosse cair em um golpe e perder todas as economias da família. O baque financeiro é tão grande que Hyoyeong se vê obrigada a abandonar seu sonho profissional para ajudar a família e cuidar da mãe, que acaba de sofrer um acidente.

Sentindo que decepcionou a todos, Hyomin decide largar tudo e fugir. No entanto, ela não desiste de ter o perdão da irmã e passa a lhe escrever cartas. Sem conseguir perdoá-la, Hyoyeong se muda para Seul, na esperança de nunca mais ser procurada por Hyomin.

Quando ela chega à cidade, um amigo lhe oferece um emprego na Geulwoll, sua loja de cartas, um lugar famoso pelo serviço de penpal, em que os clientes podem trocar cartas anônimas com outras pessoas. A ideia é bem simples: para receber uma carta escrita por um desconhecido, basta lhe escrever uma carta.

Conforme os dias vão passando, Hyoyeong começa a observar as pessoas que vão até lá para colocar no papel seus medos e desejos mais profundos, se conectando com eles e suas histórias. Tudo o que ela queria era ficar longe de cartas, mas a atmosfera reconfortante do local e seus simpáticos clientes aos poucos ganham o coração de Hyoyeong e a ajudam a repensar a própria vida e o  relacionamento com a irmã.

Inspirado em uma loja que realmente existe na capital sul-coreana, e em suas correspondências esse livro é uma healing fiction sobre perdão e os laços que criamos ao longo de uma vida. De quebra celebra, ainda, a arte perdida de escrever cartas e da importância da conexão com o próximo em um mundo cada vez mais virtual.

Taí.

Gostei.

Manual da Falta de Estilo

Terminei de ler o livro Manual da Falta de Estilo, de Josué Machado. Publicado em 1994 pela Editora Best Seller, uma divisão do Círculo do Livro – alguém ainda lembra disso? Basicamente são crônicas em que o autor pega algumas notícias que circularam em jornais, jornalões e jornalecos com erros às vezes não tão crassos de português e aponta o que seria correto, inclusive com as regras gramaticas que fundamentam essas correções.

Até aí, tudo bem.

O problema é que o caboclo meio que tenta imitar o tom do inimitável Stanislaw Ponte Preta, este sim com um dom para, de modo ferino e sarcástico, brincar com notícias, sérias ou não, extraindo humor de pedras. No que, obviamente, o autor desse livro não chega nem perto. Quase chego a sentir pena de suas tentativas.

Quase.

Admirável Mundo Novo

Acabei de ler o livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Muito bom. Não “excepcional”, mas muito bom. A maior parte do livro serve para que nos situemos no futuro distópico criado pelo autor, para, enfim, já quase no final do livro, chegarmos ao embate (talvez esta não seja a palavra certa, estaria mais para uma discussão, uma conversa emocionalmente tensa) de dois personagens, cada qual defendendo seu ponto de vista sobre a “sociedade feliz” tal qual como é encontrada naquele mundo estéril.

É curioso perceber que depois de tanto tempo – livro foi publicado em 1932 -, tanto do ponto de vista tanto ideológico quanto político, as coisas permanecem praticamente as mesmas. Aliás, a expressão “panem et circenses”, cunhada no final do século I e início do século II desta era (e atribuída ao poeta Juvenal), já definia bem a forma de se “tratar” o povo para uma “sociedade feliz”. Mais recentemente podemos melhor exprimir essa ideia, essa sensação, através da música Admirável Gado Novo, lançada em 1996 por Zé Ramalho.

Zé Ramalho – Admirável Gado Novo

Uma curiosidade sobre esse livro é que, como foi lançado em 1932, é de uma época que nem sequer era cogitado a existência de computadores, os quais viriam a dar seus primeiros passos somente cerca de uma década depois e, ainda assim, como eficientes máquinas de cálculo e não necessariamente para armazenamento de dados. Mas achei interessante o seguinte trecho do livro, que trata da “criação” de seres humanos (já que a fecundação e o parto haviam sido abolidos da sociedade) e cuja estória se passa em torno do século XXVI:

“Depois dos Forradores vinham os Matriculadores. A procissão avançava; um a um, os ovos eram transferidos dos seus tubos de ensaio para os recipientes maiores; com destreza, a guarnição de peritônio sofria uma incisão, a mórula era posta no seu lugar, a solução salina era transvasada… e já o bocal seguia adiante, passando então a vez aos Rotuladores. A hereditariedade, a data da fecundação, o Grupo Bokanovsky, todos os detalhes eram transferidos do tubo de ensaio para o bocal. Não mais anônima, mas com nome, identificada, a procissão recomeçava lentamente sua marcha; lentamente, através de uma abertura na parede, por onde passava à Sala de Predestinação Social.

Oitenta e oito metros cúbicos de fichas de papelão — disse o sr. Foster com manifesto prazer, quando entravam.

— Contendo todas as informações necessárias — acrescentou o Diretor.

— Postas em dia todas as manhãs.

— E coordenadas todas as tardes.

— Com base nas quais se fazem os cálculos.

— Tantos indivíduos, de tal e tal qualidade — disse o sr. Foster.

— Distribuídos em tais e tais quantidades.”

Bem, é isso. Para variar um pouco a seguir vou para um livro de crônicas, que há tempos vinha somente juntando poeira aqui na minha biblioteca: Manual da Falta de Estilo, de Josué Machado. Depois eu conto o que achei.