Ismália

Segue uma pitada de boa, velha e bem antiga poesia pra quebrar um pouco o ritmo desses dias meio turbulentos pelos quais passamos…

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar.

ALPHONSUS DE GUIMARAENS

Sobre as idéias de propriedade

Estudando alguns textos acerca de Creative Commons, deparei-me com o seguinte trecho, muito elucidativo e surpreendentemente atual:

Se a natureza fez alguma coisa menos suscetível que outras de tornar-se propriedade exclusiva, é a ação do poder pensante chamado ‘uma idéia’ que um indivíduo pode possuir com exclusividade, enquanto a mantiver para si próprio; desde que essa idéia é divulgada, ela se torna posse de todos, e o receptor não pode despossuir-se dela. É característica peculiar dessa idéia, também, que ninguém a possui em parte porque qualquer outro a possui no todo. Aquele que recebe de mim uma idéia tem aumentada a sua instrução sem que eu tenha diminuída a minha. Como aquele que acende sua vela na minha recebe luz sem apagar a minha. Que as idéias passem livremente de uns aos outros no planeta, para a instrução moral e mútua dos homens e a melhoria de sua condição, parece ter sido algo peculiar e benevolentemente desenhado pela natureza ao criá-las, como o fogo, expansível no espaço, sem diminuir sua densidade em nenhum ponto. Como o ar que respiramos, movem-se incapazes de serem confinadas ou apropriadas com exclusividade. Invenções, portanto, não podem, na natureza, ser sujeitas à propriedade.

Thomas Jefferson

Ainda voltaremos a falar mais sobre isso por aqui…

Crimes hediondos contra o idioma (II)

E então, como seu site tem um quê de jurídico, usualmente você recebe e-mails de outros colegas de profissão. Curioso (como sempre), você resolve dar uma checada num dos últimos que recebeu.

Num primeiro momento tudo parece bem (visualmente falando): uma típica homepage de escritórios de advocacia, com balanças de um lado, Deusa da Justiça de outro, num tom talvez exageradamente sóbrio.

Aí você resolve ler o disparate número um (lembrem-se que advogados têm uma tabela com valores fixos que são obrigados a respeitar): “O (…) Escritório de Advocacia presta assessoria e consultoria jurídica a pessoas físicas e jurídicas com uma política flexível de Honorários”.

Meio que duvidando que o indivíduo realmente tivesse escrito tal desvario, mas continuando a leitura, você se depara com o disparate número dois, uma frase que vinha logo abaixo e que acabou de enterrar os propósitos jurídicos de seriedade:

“Atuamos em todos seguimentos jurídicos.”

Na minha opinião, forca. No mínimo.

A vida dá munição…

Agora que finalmente consegui descongelar todos os dedos de ambas as mãos depois desses dias gelados pelos quais temos passado, eis que dou sinal de vida…

Pra quem ainda não sabe o Rabecão caiu na vida (ou seja, vendi minha Marajó 82) e agora estou só de moto. E nessas últimas manhãs criogênicas não tem luva, blusa ou capacete que dê conta.

Ainda ontem estava conversando com uma amiga sobre algumas dessas palestras de “auto-ajuda” (se realmente fosse assim, pra que ouvir um terceiro?), em especial acerca de um vídeo que recebi – e repassei pra um zilhão de pessoas – sobre o Joseph Cliver (é assim que se escreve?)… Chegamos à conclusão que esses apresentadores nada mais fazem do que pegar alguns elementos que já existem na vida real, seja na forma de piadas ou contos, e recontam de seu jeito para um monte de pessoas. E cobram por isso. E ganham dinheiro com isso. E o trouxa aqui fazendo isso de graça. Mas, zuzo bem, eu me divirto com isso!

O que me faz lembrar que há algum tempo o noivo dessa mesma amiga questionou sobre a veracidade ou não dos causos que correm pelos blogs da vida. Segundo ele, não seria possível uma pessoa passar por tanta coisa assim. O pior que é. É possível. Afinal de contas a arte imita a vida, não é assim? Segue uma lista de temas e títulos de possíveis contos, histórias e estórias que poderiam ser desenvolvidas a partir deles – alguns dignos de Agatha Christie! TODOS reais, quer tenham de fato ocorrido, quer tenham sido apenas cogitados em conversas.

– O homem que, sem sequer possuir uma casa, era o guardião de dezessete chaves, das quais jamais se separava (sendo que a mais importante era uma que estava quebrada).

– O mistério do desaparecimento simultâneo de três blogs (e um perfil) de uma publicitária com centenas de leitores.

– A discussão entre cento e cinquenta e seis ateus e um pastor (sim, ele perdeu).

– O assassinato do advogado que sabia demais.

– Uma garrafa de vinho, uma música, um amante e mil mulheres.

– As idiossincrasias, interpretações, confusões, sutilezas e sacanagens que surgiram só porque o prato do dia no restaurante foi “rabada”.

– O porquê da possível morte da mulher que não foi convidada.

– O conto do clube de advogados que não sabiam escrever.

– Um amor, duas vidas, três filhos, quatro casas, e uma grande confusão.

– A sogra que espezinhava o genro (ah, isso todo mundo tem!).

– Oito anos de namoro; três meses de casamento.

– Três meses de namoro; oito anos de casamento.

– O caso do atropelamento de uma árvore abilolada que absurdamente estava na rua às onze e meia da noite.

– A história do juiz que não julgava.

– Procuradores à beira de um ataque de nervos.

E segue por essa linha…

Quintana

QuintanaDefinitivamente sou um apaixonado pela leitura. Posso ser considerado um leitor contumaz e onívoro – pois tenho compulsão de ter que estar sempre lendo alguma coisa. Nem que seja bula de remédio.

No meu dia-a-dia tenho minhas leituras prediletas (algumas obrigatórias): clippings de direito, história e informática, listas de discussão de genealogia, gibis da linha DC Comics e Vertigo (sim, sou fã e colecionador), alguns tipos de mangás (do estilo Lobo Solitário), revistas de história do Brasil e revistas sobre a língua portuguesa.

Nesse último caso tenho comprado a excelente revista chamada Língua Portuguesa, que já está na sua décima edição (não, não estou ganhando absolutamente nada pelo marketing). Como eu somente arquivo as revistas na minha modesta biblioteca somente após tê-las lido completamente, ainda estou terminando a de número oito – uma que tem o Chico Buarque na capa.

Mal cheguei na metade da revista e já posso concluir que é uma das melhores da série até agora. Além da entrevista com o Chico, de uma curiosa reportagem sobre erros tipográficos históricos, de contar sobre a vida de alguns de nossos gênios literários que também trabalharam concomitantemente no mercado de traduções e de reclames (adoro essa palavra) publicitários, tem também um pequeno tributo à Mário Quintana, falecido em 1994 (alguém saberia dizer o porquê de a grande imprensa sempre utilizar a pesada palavra “morto” em vez dessa mais suave “falecido”?).

Mas você não sabe quem foi Mário Quintana? Tudo bem. Eu também não sabia. Segundo o texto, foi um mestre da ironia terna, um observador do cotidiano que sabia chamar a atenção para o frescor lírico contido no que é evidente, poetizando o óbvio. “Poesia e ironia não rimam a ouvidos consonantais e, por muito tempo, o tipo de lírica humorada de Quintana pareceu desprestigiá-lo e excluí-lo das listas nobres em que despontavam Drummond e Bandeira. Mas, como ele mesmo escreveu, a esperança ‘é um urubu pintado de verde’.”

Pra se ter uma idéia da verve humorística de Quintana, me permito transcrever uma parte do texto “O vírus da gripe literária”, de Rubem Alves, sobre ele:

Epitáfio é uma frase que se grava numa lápide, contando algo sobre o enterrado. Já escolhi a minha. Não é original. É a mesma de Robert Frost: ‘Ele teve um caso de amor com a vida…’

Quintana, sabendo que a morte o esperava em alguma esquina, escolheu a sua: ‘Eu não estou aqui…’ Já imaginaram? Caminhando pelo cemitério, as lápides se sucedendo graves e fúnebres. ‘Aqui jaz…’, ‘Aqui jaz…’. De repente os olhos batem na frase ‘Eu não estou aqui’, que é o mesmo que ‘Aqui não jaz…’. É possível evitar o riso? É possível evitar amar quem assim brincou com a própria morte?

(…)

Veio-me então uma idéia original: aos professores se oferecem cursos de atualização e reciclagem. A idéia é que serão melhores professores se tiverem mais informações! Duvido… A minha idéia é que houvesse para os professores cursos… Não! Poesia e literatura não se aprendem em cursos – ‘samba não se aprende no colégio’, disse Noel Rosa. Não sei que nome dar: experiências coletivas com a literatura, que só ocorrem quando há prazer, espanto, deslumbramento, susto, beleza, riso.

Primeiro, para que os professores ficassem mais ricos por dentro. Segundo, para que as aulas de todas as matérias se iniciassem com dez minutos de poesia. Aí os alunos aprenderiam que literatura não é algo que acontece em certas horas de certos dias. Ela é como o ar; está misturada com a vida toda. Quem lê Quintana aprende isso.

Lúcido, lúcido. Muito lúcido.

Além de seus livros e sonetos, Quintana também era autor de frases memoráveis, tais como:

– A imaginação é a memória que enlouqueceu.

– Mera ilusão auditiva graças à qual a gente ouve sempre “tic-tac” e nunca “tac-tic”… Depois disso, como acreditar nos relógios? Ou na gente?

– Democracia? É dar, a todos, o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, isso depende de cada um.

– Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

– É preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez.

– O estilo é uma dificuldade de expressão.

– Contudo, não me sai da lembrança um professor dos meus tempos de ginásio que, ao dar-nos o tema para a Redação de Português, dizia: “Não adianta escreverem muito, meninos, porque só leio a primeira página; o resto, eu rasgo”. E assim nos dava, ao mesmo tempo, a primeira e a melhor lição de estilo, obrigando-nos a reter as rédeas de Pégaso e a dizer tudo (que, aliás, não podia ser muito) nas trinta linhas de papel almaço, contando título e assinatura.

– O que eu queria dizer é que todas, todas as coisas têm de ser dosadas com suspense, para poderem impressionar e encantar. / Mestra de estilo, feiticeira da arte narrativa, era aquela negra velha que nos contava histórias em pequeninos. Ficávamos literalmente no ar, nem respirávamos quando ela, encomprindando a corda, dizia arrastadamente esta longa frase, cheia de nada e de tudo: “E vai daí o príncipe pegou e disse…”

– Crise de estilo não existe. O que existe é crise de pensamento.

Mas, para mim, a melhor tirada de todo o texto, numa verdadeira demonstração de sua consciência linguística ao pontuar que uma negação não equivale ao inverso de uma afirmação, é a seguinte: “Amizade é quando o silêncio a dois não se torna incômodo. Amor é quando o silêncio a dois se torna cômodo.”

Preciso ler Quintana.

Definitivamente.

Politicamente incorreto

O texto a seguir é um pequeno exemplo da criatividade elevada a sua enésima potência… Seu autor, Marco Aurélio Gois dos Santos, do site Jesus me chicoteia, vem fazendo uma sátira da Bíblia desde o Gênesis. Ah, e sim, tenho certeza ABSOLUTA que os mais carolas vão se sentir ofendidos não só com esse texto, mas com tudo o mais que estiver lá.

Ainda assim o bom humor do politicamente incorreto é inegável…

NOÉ

Se logo na sua segunda geração a humanidade já promovia tamanha zona, imaginem a esculhambação depois de dez gerações. E olhe que neguinho vivia muito naquela época. Adão, o primeiro homem, viveu 930 anos! Enoque, que deve estar lá pela sétima geração, viveu 365 anos e foi levado pro céu sem morrer, e seu filho, Matusalém, viveu 969 anos. E pensar que hoje em dia chamamos qualquer um que chegue aos oitenta de Matusalém, pobres velhinhos…

Mas é de Noé que quero falar. Noé é o décimo dos patriarcas, como podemos ver naquelas intermináveis genealogias bíblicas que parecem o Para Todos do Chico Buarque, com Noé cantando: O meu pai era Lameque/Meu avô, Matusalém/ O meu bisavô, Enoque/ Meu tataravô, Jarede, bom vocês já sabem onde isso vai parar, dez caras que viveram pra cacete em ordem cronológica inversa até Adão.

Quando Noé estava com 500 anos (recém saído da adolescência, portanto), deus o chamou para tomar umas e conversar. Perguntou da patroa, das crianças, Noé disse que Sem, Cam e Jafet eram os filhos que ele tinha pedido a deus, aliás queria muito aproveitar a ocasião para agradecer, e sua família, seu deus, como é que vai? E deus disse que não tinha família, aliás, tinha um filho, mas era uma carta que ele queria jogar só em último caso, o que levava ao assunto que o trouxera até ali: Estava arrependido de ter criado o mundo e a humanidade, os homens portavam-se de forma escandalosa, matavam-se uns aos outros, enganavam-se, traíam-se, blasfemavam contra deus, e aposto cem ovelhas com você como botaram água nesse ketchup. Resumindo, deus resolvera destruir tudo com uma grande inundação, matar todo mundo afogado. Mas Noé era um cara legal, boa praça, e deus determinara que ele seria o pai da nova humanidade.

Pegou um guardanapo e começou a desenhar: “Tá aqui, ó. Você vai construir essa caixa grande, botar uma porta, uma janelinha, uma rampa e encher a caixa com um casal de cada espécie de todos os animais”. Noé olhou o desenho, olhou pra deus pra ver se ele não estava brincando, olhou pro desenho de novo, coçou a barba e disse “Tudo bem”. Deus ficou muito feliz, pediu outra rodada e deu um prazo de cem anos para que Noé concluísse a empreitada.

No dia seguinte, com mil britadeiras dentro da cabeça e uma sede que dava vontade de beber todo o dilúvio, Noé se deu conta da sinuca de bico em que havia se enfiado. Era tarde demais para lamentar, no entanto, então chamou os filhos e perguntou o que eles achavam de um cruzeiro marítimo só de casais. Os três, claro, acharam supimpa. “Então peguem as ferramentas, que vamos construir o raio do barco”.

E passaram-se cem anos. Na hora de botar os animais dentro da arca, Noé percebeu que ali é que começava o trabalho de verdade. Tomou um porre homérico, embora Homero nem sonhasse em nascer naquele tempo, e foi pegando uns bichos a esmo. Pegou uns cachorros, umas cabras, umas vacas, galinhas, enfim, esses bichos de criação. Deus olhou lá de cima, viu que era trabalho demais pro cara e resolveu dar uma força. Sabia que seria impossível, por mais que quisesse, enfiar tudo quanto era animal na tal arca de Noé. Então fez uma seleção dos bichos que mais gostava, botou todo mundo em fila e foram entrando na arca.

Bom, é claro que na arca já viviam os animais de sempre, cupins, formigas, traças, lesmas, baratas de todos os tipos, ratos. E os animais carregavam suas pulgas, carrapatos, vermes. Com essa nem deus contava.

Mas o negócio é que começou a chover, inundou tudo e Noé, sua esposa, seus filhos e suas noras passaram 40 dias navegando sem rumo. Depois desse tempo, as águas começaram a baixar e a arca encalhou no monte Ararat, na Armênia. A família ainda levou um tempo para sair, pois tinham uma partida de pôquer para terminar (“Ninguém sai! Ninguém Sai!”). Mas acabaram por sair, pois precisavam repovoar a terra. Além do mais, o cheiro da bicharada tornava-se insuportável.

Saíram e deram de cara com o arco-íris no céu. Deus explicou a Noé que aquele arco representava o pacto que ele fazia com a humanidade a partir de então, de nunca mais destruir a terra pelas águas (inventando aí, de quebra, o contrato com letras miudinhas: “O que não me impede de, quando me der na telha, destruí-la pelo fogo, pelos terremotos, pela fome, pela peste ou outro meio que me aprouver”).

Todos viveriam felizes, se Noé meses depois não plantasse uma vinha, enchesse a cara mais do que nunca e amaldiçoasse um de seus filhos. Viu deus que tudo recomeçava, fez “tsk, tsk, tsk” e começou a se arrepender de novo. Ah, e Noé viveu até os 950 anos.