Atleta urbano


E quem sabe o que verdadeiramente se passa dentro do coração humano?
A SOMBRA sabe…

E então, aproveitando que estou de férias mesmo, nada como procurar manter mens sana in corpore sano… Não, não é nada disso que vocês estão pensando, ô cambada de pecadores! Isso é latim, tá bom? Quer dizer “mente sã em corpo são”. Simples assim. E já que minha mente é um espetáculo (vejam bem, eu disse “mente”, não “memória” – pois nesse último quesito até mesmo pombos se saem melhor que eu…), então, pela milésima, quadricentésima, sexagésima nona vez, resolvi voltar a correr.

Acordaria cedinho no dia seguinte, no horário de praxe – cinco da matina – e antes mesmo de levar os filhotes pra escola – que entram às sete – eu faria uma boa série de alongamentos e já encararia uns bons quilômetros de alazônico galope!

Só que daí, já que estou de férias mesmo, com todas aqueles episódios não assistidos das séries que costumo acompanhar, bem, aproveitei pra me colocar em dia – sabem como é, né? Ou seja, fui dormir mais de uma da manhã…

Bem, não importa. Tenho confiança no meu infalível relógio biológico!

Que, lógico, falhou.

E assim, no dia seguinte, lá do ninho aconchegante que se tornou minha cama, resolvi dar uma lânguida e preguiçosa olhada no celular para ver quanto tempo ainda faltava para ele começar a despertar…

E já era umas seizivinti!!!

Passado o inicial choque elétrico que percorreu meu corpo e depois de, na sequência, praticamente jogar a Dona Patroa cama afora (eu sei que um dia ainda vou ter que pagar por isso…), corri pra acordar a criançada, fazer café, colocar pão na mesa… Mas… Cadê pão? Táquiôspa!

– Môr! Vai fazendo o café que eu vou buscar pão, tá bom?

Não tenho muita certeza, mas pelo estilo do grunhido ela deve ter dito algo como um “sim”…

É lógico que esqueci que meu sogro tinha saído com o carro na véspera e, tendo sido o último a guardá-lo, atrapalhou toda a “logística” da garagem. E, detalhe: o carro dele, um Golzinho dos quadrados, não pode ficar na rua, porque a porta do motorista não fecha. E nem posso achar ruim, porque fui EU quem destruiu a capacidade de a porta trancar direito. Mas essa é uma outra história.

Enfim, abre todas as fechaduras do portão de castelo da garagem, dá partida no carro do sogro que não pega, insiste, liga, tira o carro do sogro, tira meu carro, dá partida, insiste, xinga, liga e guarda a porra do carro do sogro, tira o carro da Dona Patroa, guarda meu carro, fecha todas as fechaduras do portão de castelo da garagem, pega o carro da Dona Patroa, vai até a padaria, compra pão, volta pra casa, põe o carro em cima da calçada (já falei que tiveram a capacidade de colocar uma placa de “Proibido Estacionar” BEM EM FRENTE de casa?), chega esbaforido na cozinha e… todo mundo já tomou café.

– Cumassim???

– Ué, amor, você estava demorando e resolvi fazer uns bolinhos de chuva, que é bem rapidinho. Só que gostaram tanto que não sobrou nenhum pra você…

– Gnagnagnagnagnagna…

– Oi?

– Nada não.

Bem, estando dentro dos rígidos padrões de horário escolares, e já voltando pra casa agora era só botar em prática o “Projeto Corrida” e zuzo bem!

Mas, aproveitando o ensejo, resolvi dar uma checada nos e-mails. E ver as notícias. E conferir o Instagram. E ler as últimas do Twitter. E dar uma passeada no Facebook. E atualizar o blog. E responder aquele outro e-mail. E…

– Môr, já tô indo, que tô atrasada, tá bom?

– Ué, mas você não entra às nove?

– E que horas você acha que são?

Caceta! Como o tempo voa e a gente nem percebe! E o pior é que agora o sol já está alto e eu, com minha pele de tez moreno-hipoglós, não tenho a mínima condição de enfrentá-lo. Paciência. Fica pra mais tarde, então…

E, nesse meio tempo, entre o começo do dia e o final da tarde, fiz aquelas faceiras coisas corriqueiras que um bom sujeito de férias sempre costuma fazer… Isso mesmo. Se eu não estava consertando alguma coisa, estava furando, quebrando, refazendo ou montando. Isso fora um relatório que tive que encaminhar para o serviço, já trabalhando no “modo certo de operação”. Mais a necessidade financeira absoluta de fazer as declarações de imposto de renda em casa – minha e a da Dona Patroa – e o dia acabou-se num átimo (não é ótimo usar palavras que muitos de vocês jamais ouviram?)…

Seis da tarde! Pouco mais de doze horas depois do planejado, mas já num clima agradável, sem sol pra castigar e ainda com o dia claro o suficiente para um bom exercício! Peguei meu bom e velho par de tênis de corrida comprado especialmente para esse fim há cerca de uns quatro anos – e pelo qual paguei quase um caldeirão de sestércios! Curioso que após tantos anos ele encontra-se praticamente novo. A marca deve ser realmente muito boa!

Fui ter para com meu filhote mais velho:

– Filho.

– Oi, pai?

– Vou dar uma saída, tá bom? Se sua mãe chegar, diga que fui correr e já volto.

– VOCÊ vai correr, pai?

– Vou, lógico! Pelo menos uns dez quilômetros!

– HUAHUAHUAHUAHUAHUA!!!!

– (…)

Diacho. Só não corto a mesada desse moleque porque ele não tem.

Pois bem. Lembrando de um artigo do dr. Drausio Varella que li recentemente, resolvi seguir o conselho do nobre médico: alongamento pra quê? Afinal de contas, meu corpo ainda estava despertando para a ginástica! Acocorei-me, dei umas esticadas, umas estraladas na coluna, quase fui atropelado ao atravessar a avenida, olhei para diante, pelo meu longo caminho a frente e, antes de começar a corrida, cheguei a uma sábia conclusão.

Melhor diminuir minhas expectativas.

Cinquenta por cento tá bom. Caminho uns cinco quilômetros adiante, aqueço-me o suficiente e volto correndo. Plano perfeito! E lá me fui.

E, absorto em meus pensamentos, depois de horas caminhando em forçada marcha, certamente já tendo atravessado inclusive a divisa da cidade (talvez de mais de uma!) fui me dar conta de onde estava. Coisa de pouco mais de um quilômetro de casa. Na mesma avenida, ainda. Cerca de, sei lá, uns quinze minutos desde minha saída. E suando. MUITO.

Então resolvi diminuir minhas expectativas.

“É. Pro primeiro dia, tá bom, né?”, disse pra mim mesmo. E mim mesmo, confiante, respondeu-me sem pestanejar que voltar correndo não ia rolar. Ah, não ia mesmo!

Olha só: já que eu ia voltar a partir dali e tinha caído pra apenas vinte por cento do plano original (um quilômetro pra ir e outro pra voltar em detrimento dos planejados dez quilômetros), restar-me-ia apenas dez por cento para, de fato, correr – ou seja, o quilômetro de volta, pensando naquele meu joelho latejando e com os parafusos meio que espanando tive que convir comigo mesmo.

O negócio é diminuir minhas expectativas.

Caminho metade da volta e corro o resto. Cinco por cento do plano original. Para um paquiderme sedentário como eu, vamos combinar que tá pra lá de bom! E lá fui eu, caminhando em passo célere, suando como se estivesse debaixo de uma ducha – imaginem se estivesse debaixo do sol? – e vendo todo aquele povo que provavelmente faz suas caminhadas e corridas todos os dias (aliás, tenho certeza que já vi essa morena passar por mim por pelo menos duas vezes!). Ao longe, cada vez menos, minha casa se aproxima e meu ânimo para começar a correr é diretamente proporcional à minha vontade de tomar uma cerveja gelada…

Então resolvi diminuir minhas expectativas.

Faltando cerca de uns cem metros para chegar em frente de casa eis que começo uma tímida corridinha leve (cara, esse tênis é bom mesmo!), aos cinquenta metros me empolgo e já começo a correr com desenvoltura (por que é que eu não comecei correndo desde o início?), a uns quinze metros já passo a me sentir o próprio Rocky Balboa e resolvo fazer aquele sprint na ponta final da corrida, e, finalmente, suadamente, cansadamente, aos cinco metros finais eu descubro o tamanho da merda que fiz.

Clique na imagem para ampliar!

MEU. JOELHO. FUDEU. MEU. JOELHO.

De Rocky Balboa a Corcunda de Notre-Dame. Ao menos foi assim que eu me senti ao atravessar a avenida de volta para casa. Mardito Varella! Sem fôlego, com o joelho latejando, e maldizendo toda essa tal de “geração saúde” que vive falando das vantagens de se exercitar. Não tinha como piorar.

Mas, na verdade, tinha.

Cadê a chave? Cadê a porra da chave do portão de casa???

Sobre minha mesa, que é onde ela deveria estar, não é mesmo?

Toca a tocar a campainha. De novo. E de novo. E novamente. Não é possível! Com exceção da Dona Patroa, tá todo mundo em casa, que eu sei. O filhote número um deve estar no computador, com seus fones editando algum vídeo, o do meio, em seu quarto curtindo com seus fones alguma música que baixou no celular, o caçula, com seus fones, afundado nas almofadas do sofá jogando o tal do DS, e, por fim, meu sogro, sem fones, porém – será que já não falei isso antes? – surdo como uma porta. De carvalho. Dupla.

E meu joelho doendo.

Após muita insistência (ou sorte, ainda não sei) o filhote mais velho veio abrir o portão. Rindo.

– E daí, pai? Correu os dez quilômetros?

– Gnagnagnagnagnagna…

– Pelo menos cinquenta por cento disso?

– Humpf.

– Tá, pai. Ao menos fala quantos por cento você de fato correu!

– Um por cento…

– O QUÊ???

– Um por cento, tá! Isso mesmo. Ou quase, ao menos…

– HUAHUAHUAHUAHUAHUA!!!!

– (…)

Diacho. Só não deserdo esse moleque porque não tenho herança nenhuma pra deixar.

O que me leva a uma interessante conclusão… Na casa de um homem, seu sacrossanto lar, seu refúgio, seu castelo, a regra é muito clara: ou se tem respeito ou se tem filhos. Os dois juntos? Impossível!

Bem, enfim, foi isso. Após toda essa desventura ao menos pude tomar uma boa ducha para recolocar cada pedaço de mim de volta ao seu devido lugar. Detalhe: pouco antes de entrar para o banho a Dona Patroa ligou, dizendo que estava no supermercado e perguntando se eu queria alguma coisa. “Uma cervejinha, pode ser?” E, pasmem, ela concordou! Ao menos algo daria certo no final do dia. Nada como relaxar, limpo, exaurido e refrescado, tomando uma breja estupidamente gelada!

E já estava eu na varanda, quando ela veio subindo as escadas.

– A-mô-or… Cheguei!

– Ah, como diria aquele outro, Sua Linda! Você trouxe de verdade o que disse que iria trazer?

– Claro!

– Ah, que belezinha!

– E já tá até geladinha!

– Jura?

– É, sim. Toma aqui a sua cervejinha sem álcool…

– Oi?

Carái! Eu sabia. Eu sabia que ainda ia ter que pagar por ter jogado ela cama afora hoje pela manhã.

Mas – que putz! – precisava ser tão já?… :-/

Férias – agora começou de verdade!

Você só consegue perceber que REALMENTE está de férias quando a vida à sua volta está dentro da normalidade do dia-a-dia, exceto você.

E somente agora, nesta primeira segunda-feira após o Carnaval, é que o ano começou de verdade… Criançada na escola, Dona Patroa enfrentando novos desafios de volta ao velho trabalho, meu povo ralando lá no meu trabalho, e, ainda que não vá viajar para lugar nenhum, posso ficar aqui, totalmente relaxado, descansando, pronto para…

– Mieko ligou Terefônica?

– Oi?

Era meu sogro. Com uma conta de telefone na mão e um olhar inquiridor pra mim, pois faz dias que o telefone dele está mudo…

– Então. Mieko ligou Terefônica. Quando arruma, né?

Péraê. Deixa eu matar esse negócio no ninho. Liguei pra Dona Patroa pra saber o que é que estava pegando.

– Ah, eu já liguei lá e eles já vieram fazer uns testes. Parece que o problema não é pra lá do poste, mas do lado interno da casa mesmo…

Taquiôspa!

Olho para aquele bondoso velhinho nipônico, com um acolhedor sorriso interrogativo – e surdo como uma porta de carvalho.

– Pode deixar que eu vou dar uma olhada…

– Eh?

– EU! VOU! VER! O QUE TÁ! ACONTECENDO!

– Ah, tá.

E lá se foi ele e cá fiquei eu sabendo que estava fudido…

Bem vamverssaporra. Peguei um aparelho telefônico e fui na caixa de entrada da casa. Conectei os fios descascados. Com sinal. Fui até o ponto onde fica o aparelho dele e desmontei a caixinha. Conectei os fios descascados. Sem sinal. Fudeu. O ponto de desconexão estava em algum lugar no meio do caminho. E, por caminho, entenda-se a fiação que vem desde a frente da casa, passando por todo o tétrico emaranhado de fios que fica no forro até o ponto do telefone dele. Merda. E vai o jamanta aqui entrar na porra do forro da casa, andando agachado por cerca de uns 30 metros, com o sol literalmente cozinhando as telhas – e eu junto. Muito próximo de espanar os parafusos do meu joelho, consegui achar o defeito: havia rompido um dos fios numa emenda entre a fiação interna e a da rua. E por um acaso eu estava com as ferramentas pra consertar isso? Nããããããooo… Volta, pega o necessário, sobe de novo, nova maratona, refaz a conexão e pronto! Telefone funcionando perfeitamente!

Feliz da vida, suado, cansado, empoeirado e cheio de teias de aranha cobrindo meu corpo, fui lá contar pra ele que agora o telefone estava funcionando.

– Ah, tá.

Toda vez que ele responde com esse “Ah, tá”, num tom extremamente peculiar, significa que ele não ouviu absolutamente nada do que a gente tenha falado. Paciência.

Aproveitei que estava com a mão na massa – e já fudido mesmo – e resolvi consertar uma das arandelas de frente de casa que estava lá, toda desmilinguida, pendurada somente pelos fios. Muito provavelmente algum vento forte deve ter feito isso. Mas isso é só para me enganar. Muito mais provavelmente ainda deve ter sido alguma bolada de algum dos filhotes…

Após desmontá-la, limpá-la e avaliar o tamanho do estrago (tinha rompido o fundo que a prende à parede), para solucionar o problema nada como um bom e velho trabalho feito de improviso com peças alternativas e com design informal. Isso mesmo. Uma gambiarra!

Mas péra lá! Comigo não é assim não! Gambiarra tem que ter classe e não pode aparecer! Consegui adaptar uma arruela de bicicleta na parte desmilinguida da rosca da arandela e tudo certo. Como é? Não entenderam? Não se preocupem. O que importa é que está lá, firme e provavelmente melhor que antes!

E, como dizia um antigo estagiário, “já que está no inferno, abraça o capeta”. Então resolvi dar uma checada no registro da pia da cozinha que estava vazando. Até porque a Dona Patroa também já estava pegando no meu pé para consertar esse vazamento. Acho incrível isso! Vocês mulheres são todas iguais! Quando nós, homens, dizemos que vamos consertar alguma coisa, nós vamos consertar essa alguma coisa. No nosso tempo e no nosso ritmo. Não tem a mínima necessidade de vocês ficarem nos cobrando a cada seis meses…

Bem, como eu dizia, uma vez que a cozinha faz parte da ala nova da casa, pós reforma, tive que descobrir onde ficava o registro geral dela. Adivinhem onde ficava? Isso mesmo! No forro, junto da caixa d’água. O que significou também uma nova incursão ao abafado mundo das teias de aranhas…

Uma vez desmontado, avaliado, sopesado, registrado, carimbado, rotulado e seja lá mais o que for, pude chegar a duas conclusões. A boa notícia é que o registro estava perfeito. A má notícia é que continuava vazando.

Mas como? O problema é que a parte possível de se desmontar de um registro, onde estão as borrachas, roscas, travas, etc, estava em perfeitas condições. De modo que ao checar mais detalhadamente percebi que o vazamento vinha da parte de baixo do registro. Algo mais ou menos assim:

Perceberam o tamanho do enrosco? Somente quebrando a parede é que vai ser possível encontrar o vazamento…

É… De fato minhas “férias” começaram bem. Isso porque, fora inúmeras outras pequeninas coisas da casa que clamam por minha atenção, ainda vou ter que pintar a garagem!

Isso fora o novo sofá que eu fiquei de criar, desenhar e construir.

Mas essa já é uma outra história… 😉

Nível Master

Sim, agora é oficial: meu sedentarismo atingiu o Nível Master.

Como se já não bastasse o reduzido guarda-roupa a que fui limitado – apesar de ainda ter muita coisa boa atrás daquelas portas, mais o joelho que invariavelmente dói e/ou no mínimo incomoda, agora também venho sido acometido de insônia. INSÔNIA! Eu? Um cara que já só dorme de quatro a seis horas por noite?

É, já passou da hora de colocar em prática a missão Dieta 2 – A Revanche.

Afinal, tenho aproximadamente 104 bons motivos para fazê-lo…

Me aguardem!   😉

Para um bom começo de Ano, Vida, Universo e tudo mais…

Antes de mais nada: este texto não é meu. Mas em determinados momentos ele expressa tão bem, mas tão bem os sentimentos que fervilham neste meu cansado coração pulsante, que não pude resistir em publicá-lo aqui neste nosso cantinho virtual.

Deleitem-se.

O caminho é tortuoso. Poderia ter feito como quase todo mundo. Não ter dado o primeiro passo ou simplesmente ignorado sua existência. Poderia ter continuado a atribuir tudo a sorte, azar, castigos, bênçãos. Poderia ter permanecido resignado, manso e justificar tudo como vontade d’Ele.

Mas não, insistiu em dar o primeiro passo. E então houve mais uma chance de recuar. Teria sido bem mais fácil voltar atrás e dizer a si mesmo que não era nada daquilo. Alguns fazem isso. Colocam o focinho para fora, sentem a brisa da mudança, mas voltam.

Contudo, você não ouviu o clamor que vinha de dentro de você. A voz que insistia em levar você de volta à famigerada “zona de conforto”. O “condomínio dos entorpecidos”, o local em que aqueles que sofrem menos e simplesmente acatam tudo residem.

Você deu mais um passo. Mais um simples passo. E percebeu então que era tarde demais para voltar atrás. Como pode um simples passo percorrer uma distância tão abissal?

Bem vindo ao caminho. Seus dias jamais serão os mesmos. Você não poderá mais atribuir tudo ao acaso. Você terá de olhar para si mesmo a cada segundo, a cada respiração. E vai doer. Mesmo se solicitar à ajuda d’Ele, ouvirá a Grande Voz sussurrando em teu ouvido que é VOCÊ que precisa manifestar aqui seus desígnios. Seja feita Vossa Vontade. Que você faça na Terra o que já existe no céu. Não dá mais para ficar parado, olhando para o alto e esperando.

O sentimento de responsabilidade sobre seu próprio destino só aumenta. E isso traz sofrimento. Bem feito. Ninguém mandou seguir adiante. Deveria ter continuado a dizer “amém” a todos os absurdos que te dizem. Deveria ter aceitado que “a vida é assim mesmo”, que “é difícil mudar”, que isso não pode, que aquilo não deve. Era muito melhor quando você era guiado.

Agora você tem recursos. Azar seu. Você se cobra mais. Se cobra porque sabe que pode intervir em sua realidade. Se cobra porque tem subsídios para mudá-la. E sofre porque não consegue. As pessoas jogam na sua cara, debocham e com olhares e sorrisos jocosos te dizem: “Ué, você não disse que era esse o caminho da iluminação? Cadê todo seu conhecimento? Cadê seu aprendizado? Se vira…”

Viu só? Não disse? Deveria ter continuado ignorante. Ninguém mandou querer trilhar essa jornada. Autoconhecimento? Bobagem…

Faz o seguinte: esquece tudo isso. Volte a ser como era antes. Não dá? Eu sei. Pode acreditar. Boa notícia: você JÁ está no meio do caminho. Má notícia: você AINDA está no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra. E um abismo. E um muro. E dúvidas, incertezas. É uma bênção ou uma desgraça? É o que é. É o caminho.

No meio do caminho existe um viajante. Existe um herói. Que às vezes possui companheiros de jornada, mas na maioria está solitário. Ou ao menos se sente como estivesse. O mestre disse. Você até acreditou. Mas não sabia que era assim. Faz parte. É a lei. O caminho é pessoal. Assim que é.

Mas é estranho. Parece que quando a luz está bem próxima, uma névoa toma conta de tudo. E uma escuridão sepulcral se instala. Luz e trevas. Sempre elas.

Olhar para dentro é mais difícil. Por que ninguém avisou que seria assim? Você foi avisado sim. Só não imaginou que a viagem seria tão longa. Aliás, a jornada nunca termina. É como um ciclo que vai e vem. E mais um passo adiante. E mais um. Mas, parece que os obstáculos ficam maiores. Será?

Viu só, quem mandou? Poderia ter ficado restrito às trevas. E o melhor: é bem provável que te dissessem que estava na luz, que este, aquele ou aqueloutro era o verdadeiro caminho. Eles podem estar lá, mas você é o SEU caminho. Estranho. Ou não?

Tarde demais. Como um paradoxo desconcertante os desafios aumentam. As vitórias também. Mas parece que demoram mais a chegar. Se as dúvidas incomodam, isso é uma certeza. Que você está no caminho. Certo. Assim é que é.

No mais é isso aí.

“O caminho se faz caminhando…”

Chegamos em 2015. Sejam bem-vindos.

E quanto a 2014?

Bem, até mais, e obrigado pelos peixes!

😉

Por uma voltinha de bicicleta…

O matemático Edward Norton Lorenz, nos idos da década de sessenta, desenvolveu a tese básica de que “situações iniciais ligeiramente diferentes podem se desenvolver em situações consideravelmente diferentes”. Sei que parece um pouco confuso, mas – vejam só! – este é exatamente o enunciado primordial da “Teoria do Caos”.

Particularmente prefiro um dos corolários da Lei de Murphy (aquele velho sacana e que tem a cara do House) em que diz que “se uma série de fatos pode dar errado, dará errado na pior sequência possível”.

Dito isso, vamos aos fatos. Isolados em sua essência, mas conectados em sua conclusão. E cheio de links para vocês se divertirem…

Desde a adolescência minha coluna vertebral já possuía uma ligeira “deformação morfológica em curva dupla” – o nome é pomposo, mas nada mais é que a chamada “escoliose em S”. Durante muitos anos isso me causou dores e desconforto, mas, como com tudo a gente se acostuma, ela sempre estava ali, presente, às vezes com algumas crises e outras, por longos períodos, sem sequer me incomodar. E isso somente “sarou” após o acidente. Desde então ganhei um joelho que dói o tempo todo e vive clamando por atenção, de modo que a escoliose foi alçada para um segundo plano, praticamente imperceptível. Até hoje.

Independentemente disso, desde a mais tenra idade sempre adorei andar de bicicleta. Sozinho, em bando, para me divertir, para me distrair, para me desestressar ou, simplesmente, para namorar. E, sim, isso é da profícua década de oitenta, época em que nós, meninos, levávamos as moçoilas para dar uma voltinha sentadas no quadro da bicicleta, entre o selim e o guidão, totalmente aninhadas em nossos braços. Como desde aquela época eu já não dava ponto sem nó, a minha bicicleta era a única que tinha uma almofada para elas sentarem, então nem preciso dizer por quem elas preferiam ser levadas, né? E, assim, bateu uma vontade de dar umas pedaladas, pois já fazia muito tempo que eu não tirava a bicicleta do lugar. Até hoje.

Isso porque nos últimos tempos tenho estado mais sedentário do que jamais fui na minha vida. Totalmente acomodado. Desde a cirurgia no joelho, em 2012, que comecei a me acomodar. Até que, durante a recuperação, ainda estava fazendo meus alongamentos, algumas caminhadas e por aí afora. Daí veio um inverno terrível e uma preguiça maior ainda. O inverno passou. A preguiça, não. E, hoje pela manhã, numa conversa sincera com a dona balança, cientes dos três dígitos que teimam em não baixar, juntos chegamos à conclusão que estava na hora de uma nova dieta! Afinal de contas minha boa e velha bicicleta – que, diga-se de passagem, eu mesmo montei – está encostada lá na garagem, num canto, soterrada pelas bicicletas da Dona Patroa e dos meus filhotes, acumulando camadas seculares de poeira. Somente assim, com um pontapé inicial, eu sairia desse sedentarismo que diretamente estava me incomodando. Até hoje.

E, último dos fatos que interessam para nossa narrativa, temos meu sogro. Sim, aquele bom e simpático velhinho, um japonês de 82 anos, que mora conosco, mal fala uma palavra de português e surdo como uma porta de carvalho. Dupla. E que, como todo japonês velhinho tradicional, tem uma compulsão mania de guardar coisas. Acumular, mesmo. Alguns dizem que é uma tradição herdada desde a época dos tempos difíceis da guerra, quando nada se tinha e era preciso guardar tudo o que fosse possível e usar de muita criatividade para aproveitar tudo isso para as coisas práticas do dia a dia. Aquele negócio de que “vai que um dia precisa, né?”. Bem, dessa genética pela guarda de quinquilharias e criatividade para usá-las, meu sogro tem de sobra. E, numa dessas, num canto bem ao lado das bicicletas, tem um monte de caibros, madeiras e ripas, variando de dois a três metros de comprimento, desordenadamente acumulados para que, como sempre, algum dia jamais viessem a ser utilizados. Ou sequer tirados do lugar. Até hoje.

Já começaram a perceber o tamanho da encrenca, né?

Então.

Hoje, logo pela manhã, munido mais de ânimo que de bom senso, resolvi que já era hora de sair do marasmo. Como meu pé ainda está meio avariado do tombo da moto (não este – ainda – não tem link) correr não é possível, caminhar é quase uma opção, mas andar de bicicleta seria tudo de bom! Logo após o café fui até a garagem com o firme intuito de encher os pneus da bicicleta – vazios já há muito. Faria isso, subiria para ler o jornal com uma boa xícara de café, desceria novamente já com um balde d’água, constataria que os pneus estão bons, faria uma bela duma lavagem e limpeza na menina e, ato findo, sairia para dar uma boa e saudável voltinha de bicicleta. Me cansaria um tanto, suaria outro tanto, mas, feliz, voltaria para casa endorfinicamente com uma sensação de dever cumprido. E seria só o começo! Plano perfeito.

Ou quase.

Isso porque o fiadaputa do Murphy resolveu que era o momento ideal para combinar de modo magistral todos os fatos isolados anteriores que já acabei de descrever…

E, lógico, ao começar a desvencilhar as bicicletas da Dona Patroa e dos filhotes que estavam impedindo de tirar a minha, não percebi que parte daquelas madeiras estavam sutilmente apoiados nelas. A não ser quando já era tarde demais. Já foram pegos de surpresa por uma chuva quando estão no meio da rua? Ou pela água gelada do chuveiro quando esperavam que estar quente? NADA DISSO se compara a receber no lombo uma chuva de caibros e ripas e madeiras e sei lá mais o quê quando menos se espera. Do susto, da cacetada, da exagerada torsão no corpo para me desviar do que ainda não tinha me atingido, restou somente a mais antiga e familar dor que me acompanha até hoje.

E meu bom humor matinal se esvaiu junto com a poeira que baixava no chão da garagem.

Com toda a sutileza e cuidado de um mastodonte em fúria coloquei as madeiras de volta no lugar.

Carinhosamente, como um babuíno selvagem, empilhei todas aquelas bicicletas de volta no lugar.

E agora, calmo como no decorrer de toda essa desventura, ciente e cioso da necessidade de cuidar deste templo que é meu corpo, deixo-lhes a refletir sobre todas essas conexões que nos envolvem, e, enquanto isso, vou pegar minha moto e me dirigir até o boteco mais próximo para uma cervejinha gelada.

Pois três quarteirões é uma distância muito longa para ir a pé…

Ai, que saudade d’ocê!

Hoje sonhei com você.

Como há muito tempo não sonhava!

Sei que andamos distantes, distraídos e praticamente sem contato. Coisas de nossas vidas, entendo bem isso. Afinal de contas, é basicamente minha a decisão de não estar por perto. Você sabe bem o quão complexo e complicado eu sou e, ainda que eu venha a sofrer com toda essa lonjura, vamos combinar que, para mim, é meio que um instinto de autopreservação…

Mas sonhos não se dão a esse luxo.

Sonhos, talvez, devem ser manifestações psíquicas das necessidades físicas de um ser humano. E ter você por perto – não se engane! – é, sim, uma necessidade física!

E foi um daqueles sonhos tão vívidos, tão reais que, ao acordar, ficamos na dúvida se ainda não estamos sonhando.

E, nesse sonho, encontramo-nos casualmente. Não me pergunte onde, não sei! Mas sei que, como sempre, à distância mais senti sua presença que realmente te vi. E quando menos esperava já havia me aproximado, já estava do seu lado, sorrindo, te desejando, num flerte aberto e escancarado. E você, impassível. Um gelo. Normal.

E, ato contínuo, já estávamos a sós. Delicadamente, segurando todo meu afã, sem pressa, te despi, expondo toda sua pujante nudez.

Antevi aquilo que estava por vir, já me lembrando de sua textura, de teu sabor, de teu cheiro – ah, teu cheiro! Odores estão diretamente ligados à memória e a memória a estes. Não tem como não meramente lembrar de você sem lembrar desse teu saborosíssimo cheiro… É inebriante! Alguma vez você já se deu conta disso?

E, tal qual numa dança, lenta dança, prazerosa dança, segurei-me ao máximo para sequer te tocar. Nosso ato de consumação não poderia ser leviano – nossas preliminares deveriam ser respeitadas. Um simples toque poderia colocar tudo a perder.

De tão próximos, mesmo não te tocando, senti tua temperatura. E teu cheiro. Novamente teu cheiro! E foi nesse instante que tive a plena certeza de que não mais conseguiria me segurar. Era impossível me segurar. Queria – precisava – ter você, novamente, só pra mim.

E então, quando estava praticamente no momento final de dar início ao nosso íntimo ato, de te penetrar, já começando a sentir o teu aconchegante contato, já antevendo a alegria de, mais uma vez poder te saborear total e completamente num devaneio de arroubo de prazer…

Acordei.

Tonto, perdido e deslocado.

E então me dei conta: era um sonho.

Ainda não foi dessa vez que voltamos à nossa antiga relação…

Fica pra próxima.

Quem sabe.

E ficamos assim: sorvete de creme, vai vivendo tua vida e eu, a minha.

A vida é feita de sonhos e de realizações…

Sim, é um fato.

Nossos sonhos – quer sejam pequenos ou grandes – é que nos guiam. Muito triste seria se não tivéssemos com o que sonhar, se não tivéssemos pretensões, desejos, enfim, esperança…

Mas melhor ainda é quando conseguimos realizar um desses sonhos! Repito: não importa se pequeno ou grande, a materialização de um sonho é uma experiência indescritível. Já tive a bênção e a graça de realizar muitos deles na minha vida – trabalhamos para isso, vivemos para isso. Não importa se o seu sonho for diferente do meu. Alguns almejam bens materiais, outros o carinho da pessoa amada, aqueloutros harmonia, e ainda existem aqueles que tudo que querem ouvir é a risada benfazeja de uma criança que preenche a casa… A lista pode ser gigantesca! Mas, ao menos estes poucos, já os almejei e já os consegui.

Mas ainda havia um que se me parecia quase impossível: a publicação dos causos que volta e meia divido com vocês aqui neste nosso espaço virtual. Seria uma realização e tanto poder vislumbrar isso na forma impressa.

Até agora.

Pois com o advento daquela minha grande brincadeira genealógica – o Livro da Família Andrade – percebi que as portas estavam abertas para mais – muito mais!

E é assim que lhes apresento mais uma realização de mais um sonho: senhoras e senhores, com vocês, já nascido com cravadas 400 páginas, eis meu verdadeiro primeiro livro:

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na foto da capa do livro, bem aí em cima…
🙂

“Filosofices de um Velho Causídico” é um livro que há muito tempo venho acalentando a ideia de publicar. Trata-se de uma coletânea dos textos de minha autoria, publicados no decorrer de mais de dez anos lá no blog www.legal.adv.br.

Distribuídos pelos tópicos Coisas de Casal, Criança dá Trabalho, Juridicausos, Vida Besta, Martelando o Teclado e Filosofices, são, no geral, textos curtos ou curtíssimos – só que às vezes não – e que agora disponibilizo para vocês. Apesar de, em cada capítulo, se apresentarem em ordem cronológica (coisa de um cara que adora ser sistemático), podem ser lidos ao léu, na ordem em que quiserem.

Muitas vezes com seriedade, na maior parte, com humor – mas nunca resistindo ao dramático – eu falo um pouquinho da vida conjugal, da difícil arte de ser pai, de causos jurídicos, das bestagens que fazemos nas nossas vidas, de contos, pontos de vista, cultura inútil e coisas de antigamente, bem como também compartilho um tanto de elucubrações mentais que volta e meia passam por esta minha cabeça já atordoada por tanta vivência…

O Autor.