
Categoria: Personalíssimo
Atleta urbano – mesmo sem querer

E então, logo cedinho, café preparado, tomado e processado, eis que saio para levar os filhotes para a escola. De cara já encontro o saco de lixo reciclável meio rasgado, meio espalhado. Taquiôspa! Querem fuçar, fucem – mas precisa rasgar e espalhar? Como invariavelmente o lixeiro passa às sete – e só faltavam alguns minutos – pedi para a Dona Patroa juntar tudo aquilo. Dali em diante, operação padrão: levei os filhotes, soltei-os pelo “drive-thru” da escola (é esquisito, mas é isso mesmo…) e voltei pra casa. Minha excelentíssima senhora raio de sol ainda estava a varrer os últimos pedacinhos de papelinhos.
– E aí, deu tempo?
– Quase. Ficou um pouquinho pra trás…
– Paciência. Falta do que fazer, né?
– É. Vamos correr?
Essa última frase é só pra comprovar que a Dona Patroa dirige pra lá de perigosamente quando está numa conversa. Ela muda de assunto numa guinada de 180 graus, sem dar seta, nem sinalizar. Normalmente isso me faz perder alguns segundos até que eu possa me situar e me adaptar à nova situação. Ou ao novo assunto, como queiram.
– Nah… Não tô legal…
– Isso é ressaca! Não foi a cachaça de ontem, não?
– A-mor-da-mi-nha-vi-da (assim mesmo, desse jeitinho lento e sincopado, que é para garantir total atenção), entenda uma coisa: eu sei muito bem o que é ressaca. E isso não é. Pelo jeito estou ficando é meio gripado. Prefiro ficar em casa, mesmo.
Só para lembrar nossas desventuras tuitísticas compartilhadas nas redes sociais: eu, de férias, passei praticamente os primeiros quinze dias conjuntivitiaditivado. E, agora, na segunda quinzena, provavelmente deverei passar engripado. Garganta coçando e a cabeça doendo.
E, de volta à nossa desventura, lá se foi ela rua afora, lépida e faceira, com seus bem pesados cinquenta quilos distribuídos por um metro e cinquenta e três de pessoinha. Hah! Tô fora. Prefiro mais é tomar um (outro) café.
Passado um tempinho, pontualmente vinte para as oito, eis que toca a campainha. Estranho. A empregada somente chega às oito…
Fui dar uma olhada e, lá embaixo, estava a Dona Patroa aguardando para que eu jogasse as chaves. Ah, só pra contextualizar: nossa casa foi construída acompanhando um morro, de modo que o primeiro patamar, no nível da rua, abriga a garagem, o segundo patamar, um andar acima, a casa propriamente dita e ainda há um terceiro patamar, no quintal, onde fica lavanderia, varais, as plantas que a Dona Patroa planta para meu sogro cortar quando ela menos esperar, etecétera e coisa e tal. Isso faz com que tenhamos um muro de uns quatro metros a proteger a frente desse verdadeiro bunker – muito prático, diga-se de passagem. Lá de cima dá pra ver quem tocou a campainha e até fazer de conta que não tem ninguém, conforme seja um cobrador, um oficial de justiça ou uma testemunha de jeová. Bom, enfim, tirei um sarro por ela não ter levado a chave e joguei-lhe o molho. Aliás, sabiam que, nesse contexto, pronuncia-se “mólho”? Sim, sim, continuamos hoje e sempre com nosso programa de cúltura inútil…
Foi quando ela me respondeu:
– Engraçadinho! Caiu na escada, não foi?
Na hora já compreendi que ela não havia esquecido as chaves, mas, sim, perdido. Engoli em seco.
Por mais que o bunker seja um bunker, com a chave certa qualquer um facilmente entra. Simples assim. Perguntei-lhe se era sério. Era. Merda. Calcei o tênis e, a contragosto, parti para a caminhada que não queria fazer em busca das chaves de casa. “Está num chaveirinho assim, azul…”, ela me disse. Ah, que ótimo! Facilitou muito. Com isso devo ter descoberto no mínimo umas dez espécies novas de miosótis que nasceram por toda extensão da mata lateral à calçada em que costumamos caminhar…
E eu ali, engripado, preocupado, com dor de cabeça e a garganta arranhando, tal qual Lancelote, parti na empreitada em busca da santa chave perdida.
Isso é só pra provar que, por mais que você esteja fodido, as coisas ainda podem piorar. Sempre. É como aquele caboclo que perdeu a namorada, está arrasado, sem vontade de trabalhar, de comer, sequer de viver, e, para coroar tudo isso, teima em buscar a música mais dor de cotovelo que existe na face da Terra e colocá-la para tocar em alto e bom tom, que é pra poder afundar de vez na fossa, chorar copiosamente sua perda e arrebentar com tudo de vez.
Mas tergiverso.
E lá fui eu, passo a passo, literalmente escaneando a calçada, o meio-fio, a mata adjacente. Meu sexto sentido me dizia que essa chave somente poderia ter sido perdida em um de três lugares distintos, que é onde eu faria uma busca com maior acuidade. Mal caminhei cinquenta metros e um caboclo do outro lado da rua, de uma empresa que trabalha com gesso, começou a me chamar, balançando um jogo de chaves ao alto. Não acreditei! Ele me viu procurando alguma coisa e supôs que seriam aquelas chaves. Que sorte!
Atravessei a rua e ele me perguntou se eu estaria procurando algumas chaves, eu lhe disse que sim, ele disse que tinha aquelas ali que tinha encontrado na mesma calçada de caminhada, eu lhe agradeci, dizendo que a Dona Patroa tinha perdido as chaves ainda há pouco, enquanto pegava de sua mão aquele chaveiro vermelho (Péraê, péraê! Vermelho?…), ao que ele disse que não, não era de hoje, mas tinha encontrado aquelas chaves há alguns dias, quando conclui que não, aquela não era nossa chave, então tá, fica assim, paciência, boa sorte aí pra você e tomara que encontre sua chave! A conversa foi mais ou menos essa e só sei que saí de lá sem chave nenhuma. Que azar!
Continuei minha inglória busca enquanto, para ajudar, o sol começava a despontar. Já cansei de lhes falar que eu e o sol nunca tivemos um relacionamento lá muito bom. Sou, por excelência, notívago e quando me exponho ao dito cujo, em que nível for, tenho vampirescos problemas de pele. Não. Nada a ver com aquela viadagem do Crepúsculo, onde vampiros viram purpurina. Minhas reações estão mais para Christopher Lee, aquele dos antigos filmes de vampiro, dos estúdios Hammer, da década de cinquenta, pois qualquer pouquinho a mais de queimadura com qualquer mínima exposição que eu tiver ao sol e ainda acabo virando pó.
Oi?
Não sabem de quem estou falando?

Tudo bem, vocês fazem parte da geração que somente vai lembrar desse ator no recente papel de Conde Dookan, da saga Star Wars, ou, ainda, como Saruman, em Senhor dos Anéis…
E passo a passo prossegui até o ponto que costuma ser o limite da caminhada da Dona Patroa. E nada. Fucei e fucei na grama, nos equipamentos de ginástica, no mato, em tudo quanto é canto e nada. Resolvi voltar e, agora, prestar mais atenção no meio-fio. Mas sem descuidar do resto. E cada um que passava por mim, eu ainda tinha um mínimo de esperança que olhasse para aquela patética figura da minha pessoa e dissesse: “Parece que você está procurando algo. Seria uma chave? Acabei de encontrar esta ali atrás…” Nisso eu ficaria agradecido, sorriria, diria algum gracejo, agradeceria novamente e tomaria o rumo de casa, pronto para, vitorioso, me apresentar à Dona Patroa. Mas a vida é uma caixinha de surpresas… Ou não. Nada de ninguém me abordar e, muito menos, de eu encontrar a malfadada chave.
O que me faz lembrar de um antigo causo da época da faculdade. Tínhamos um professor, o P.C., que, se não me engano, dava aula de Direito Penal. Jé era um princípio para eu não gostar do caboclo… Mas acontece que ele adorava contar his(es?)tórias de sua própria época de faculdade – para desencanto geral de nós, pobres alunos ouvintes… Uma delas diz respeito a uma farra que eles fizeram numa noite, na praia, e no dia seguinte, ainda de ressaca, ele saiu a procurar o relógio que havia perdido. Palavras dele (juro!):
“- Então eu estava ali, com o sol começando a raiar, procurando meu relógio naquele mundo de areia. Mas, de repente, eu vi um brilho e percebi que só podia ser meu relógio. Isso porque era um brilho diferente, pois, não sei se vocês sabem, o ouro de um Rolex legítimo realmente tem um brilho diferenciado…”
Sim. Pasmem. Essas eram minhas aulas de Direito Penal.
E que pena que nem o chaveiro nem a chave perdida sejam de ouro de (en)Rolex. Eu poderia chamar esse antigo professor pra ver se encontrava a porra da chave.
Enfim, cheguei em casa. Fui confirmar mais uma vez se ela não havia esquecido as chaves no próprio bolso, ou perdido em frente de casa, sei lá. Nada. Com ela já pronta para sair para o trabalho, desci até a garagem para que trocássemos os carros de lugar (logística, lembram?). Mal saiu e eu, ainda manobrando o bom e velho Cruzador Imperial (também conhecido como Opalão), eis que ela volta.
– Uai? Que foi?
– Óculos.
– Êitcha! Parece que o dia hoje promete. Quando você não está perdendo alguma coisa está esquecendo outra…
E lá se foi ela escadas acima atrás dos óculos. E nadica de nada das chaves. Paciência. E tudo isso somente para uma coisa serviu: para que eu, mesmo não querendo, acabasse fazendo uma caminhada. Ainda que gripado.
Ah, antes que eu me esqueça, quanto àqueles três lugares distintos que minha infalível intuição garantiu que as chaves estariam: não estavam.
Ou seja, já tá na hora de recalibrar essa piromba de sexto sentido…
Atleta urbano

E quem sabe o que verdadeiramente se passa dentro do coração humano?
A SOMBRA sabe…
E então, aproveitando que estou de férias mesmo, nada como procurar manter mens sana in corpore sano… Não, não é nada disso que vocês estão pensando, ô cambada de pecadores! Isso é latim, tá bom? Quer dizer “mente sã em corpo são”. Simples assim. E já que minha mente é um espetáculo (vejam bem, eu disse “mente”, não “memória” – pois nesse último quesito até mesmo pombos se saem melhor que eu…), então, pela milésima, quadricentésima, sexagésima nona vez, resolvi voltar a correr.
Acordaria cedinho no dia seguinte, no horário de praxe – cinco da matina – e antes mesmo de levar os filhotes pra escola – que entram às sete – eu faria uma boa série de alongamentos e já encararia uns bons quilômetros de alazônico galope!
Só que daí, já que estou de férias mesmo, com todas aqueles episódios não assistidos das séries que costumo acompanhar, bem, aproveitei pra me colocar em dia – sabem como é, né? Ou seja, fui dormir mais de uma da manhã…
Bem, não importa. Tenho confiança no meu infalível relógio biológico!
Que, lógico, falhou.
E assim, no dia seguinte, lá do ninho aconchegante que se tornou minha cama, resolvi dar uma lânguida e preguiçosa olhada no celular para ver quanto tempo ainda faltava para ele começar a despertar…
E já era umas seizivinti!!!
Passado o inicial choque elétrico que percorreu meu corpo e depois de, na sequência, praticamente jogar a Dona Patroa cama afora (eu sei que um dia ainda vou ter que pagar por isso…), corri pra acordar a criançada, fazer café, colocar pão na mesa… Mas… Cadê pão? Táquiôspa!
– Môr! Vai fazendo o café que eu vou buscar pão, tá bom?
Não tenho muita certeza, mas pelo estilo do grunhido ela deve ter dito algo como um “sim”…
É lógico que esqueci que meu sogro tinha saído com o carro na véspera e, tendo sido o último a guardá-lo, atrapalhou toda a “logística” da garagem. E, detalhe: o carro dele, um Golzinho dos quadrados, não pode ficar na rua, porque a porta do motorista não fecha. E nem posso achar ruim, porque fui EU quem destruiu a capacidade de a porta trancar direito. Mas essa é uma outra história.
Enfim, abre todas as fechaduras do portão de castelo da garagem, dá partida no carro do sogro que não pega, insiste, liga, tira o carro do sogro, tira meu carro, dá partida, insiste, xinga, liga e guarda a porra do carro do sogro, tira o carro da Dona Patroa, guarda meu carro, fecha todas as fechaduras do portão de castelo da garagem, pega o carro da Dona Patroa, vai até a padaria, compra pão, volta pra casa, põe o carro em cima da calçada (já falei que tiveram a capacidade de colocar uma placa de “Proibido Estacionar” BEM EM FRENTE de casa?), chega esbaforido na cozinha e… todo mundo já tomou café.
– Cumassim???
– Ué, amor, você estava demorando e resolvi fazer uns bolinhos de chuva, que é bem rapidinho. Só que gostaram tanto que não sobrou nenhum pra você…
– Gnagnagnagnagnagna…
– Oi?
– Nada não.
Bem, estando dentro dos rígidos padrões de horário escolares, e já voltando pra casa agora era só botar em prática o “Projeto Corrida” e zuzo bem!
Mas, aproveitando o ensejo, resolvi dar uma checada nos e-mails. E ver as notícias. E conferir o Instagram. E ler as últimas do Twitter. E dar uma passeada no Facebook. E atualizar o blog. E responder aquele outro e-mail. E…
– Môr, já tô indo, que tô atrasada, tá bom?
– Ué, mas você não entra às nove?
– E que horas você acha que são?
Caceta! Como o tempo voa e a gente nem percebe! E o pior é que agora o sol já está alto e eu, com minha pele de tez moreno-hipoglós, não tenho a mínima condição de enfrentá-lo. Paciência. Fica pra mais tarde, então…
E, nesse meio tempo, entre o começo do dia e o final da tarde, fiz aquelas faceiras coisas corriqueiras que um bom sujeito de férias sempre costuma fazer… Isso mesmo. Se eu não estava consertando alguma coisa, estava furando, quebrando, refazendo ou montando. Isso fora um relatório que tive que encaminhar para o serviço, já trabalhando no “modo certo de operação”. Mais a necessidade financeira absoluta de fazer as declarações de imposto de renda em casa – minha e a da Dona Patroa – e o dia acabou-se num átimo (não é ótimo usar palavras que muitos de vocês jamais ouviram?)…
Seis da tarde! Pouco mais de doze horas depois do planejado, mas já num clima agradável, sem sol pra castigar e ainda com o dia claro o suficiente para um bom exercício! Peguei meu bom e velho par de tênis de corrida comprado especialmente para esse fim há cerca de uns quatro anos – e pelo qual paguei quase um caldeirão de sestércios! Curioso que após tantos anos ele encontra-se praticamente novo. A marca deve ser realmente muito boa!
Fui ter para com meu filhote mais velho:
– Filho.
– Oi, pai?
– Vou dar uma saída, tá bom? Se sua mãe chegar, diga que fui correr e já volto.
– VOCÊ vai correr, pai?
– Vou, lógico! Pelo menos uns dez quilômetros!
– HUAHUAHUAHUAHUAHUA!!!!
– (…)
Diacho. Só não corto a mesada desse moleque porque ele não tem.
Pois bem. Lembrando de um artigo do dr. Drausio Varella que li recentemente, resolvi seguir o conselho do nobre médico: alongamento pra quê? Afinal de contas, meu corpo ainda estava despertando para a ginástica! Acocorei-me, dei umas esticadas, umas estraladas na coluna, quase fui atropelado ao atravessar a avenida, olhei para diante, pelo meu longo caminho a frente e, antes de começar a corrida, cheguei a uma sábia conclusão.
Melhor diminuir minhas expectativas.
Cinquenta por cento tá bom. Caminho uns cinco quilômetros adiante, aqueço-me o suficiente e volto correndo. Plano perfeito! E lá me fui.
E, absorto em meus pensamentos, depois de horas caminhando em forçada marcha, certamente já tendo atravessado inclusive a divisa da cidade (talvez de mais de uma!) fui me dar conta de onde estava. Coisa de pouco mais de um quilômetro de casa. Na mesma avenida, ainda. Cerca de, sei lá, uns quinze minutos desde minha saída. E suando. MUITO.
Então resolvi diminuir minhas expectativas.
“É. Pro primeiro dia, tá bom, né?”, disse pra mim mesmo. E mim mesmo, confiante, respondeu-me sem pestanejar que voltar correndo não ia rolar. Ah, não ia mesmo!
Olha só: já que eu ia voltar a partir dali e tinha caído pra apenas vinte por cento do plano original (um quilômetro pra ir e outro pra voltar em detrimento dos planejados dez quilômetros), restar-me-ia apenas dez por cento para, de fato, correr – ou seja, o quilômetro de volta, pensando naquele meu joelho latejando e com os parafusos meio que espanando tive que convir comigo mesmo.
O negócio é diminuir minhas expectativas.
Caminho metade da volta e corro o resto. Cinco por cento do plano original. Para um paquiderme sedentário como eu, vamos combinar que tá pra lá de bom! E lá fui eu, caminhando em passo célere, suando como se estivesse debaixo de uma ducha – imaginem se estivesse debaixo do sol? – e vendo todo aquele povo que provavelmente faz suas caminhadas e corridas todos os dias (aliás, tenho certeza que já vi essa morena passar por mim por pelo menos duas vezes!). Ao longe, cada vez menos, minha casa se aproxima e meu ânimo para começar a correr é diretamente proporcional à minha vontade de tomar uma cerveja gelada…
Então resolvi diminuir minhas expectativas.
Faltando cerca de uns cem metros para chegar em frente de casa eis que começo uma tímida corridinha leve (cara, esse tênis é bom mesmo!), aos cinquenta metros me empolgo e já começo a correr com desenvoltura (por que é que eu não comecei correndo desde o início?), a uns quinze metros já passo a me sentir o próprio Rocky Balboa e resolvo fazer aquele sprint na ponta final da corrida, e, finalmente, suadamente, cansadamente, aos cinco metros finais eu descubro o tamanho da merda que fiz.
MEU. JOELHO. FUDEU. MEU. JOELHO.
De Rocky Balboa a Corcunda de Notre-Dame. Ao menos foi assim que eu me senti ao atravessar a avenida de volta para casa. Mardito Varella! Sem fôlego, com o joelho latejando, e maldizendo toda essa tal de “geração saúde” que vive falando das vantagens de se exercitar. Não tinha como piorar.
Mas, na verdade, tinha.
Cadê a chave? Cadê a porra da chave do portão de casa???
Sobre minha mesa, que é onde ela deveria estar, não é mesmo?
Toca a tocar a campainha. De novo. E de novo. E novamente. Não é possível! Com exceção da Dona Patroa, tá todo mundo em casa, que eu sei. O filhote número um deve estar no computador, com seus fones editando algum vídeo, o do meio, em seu quarto curtindo com seus fones alguma música que baixou no celular, o caçula, com seus fones, afundado nas almofadas do sofá jogando o tal do DS, e, por fim, meu sogro, sem fones, porém – será que já não falei isso antes? – surdo como uma porta. De carvalho. Dupla.
E meu joelho doendo.
Após muita insistência (ou sorte, ainda não sei) o filhote mais velho veio abrir o portão. Rindo.
– E daí, pai? Correu os dez quilômetros?
– Gnagnagnagnagnagna…
– Pelo menos cinquenta por cento disso?
– Humpf.
– Tá, pai. Ao menos fala quantos por cento você de fato correu!
– Um por cento…
– O QUÊ???
– Um por cento, tá! Isso mesmo. Ou quase, ao menos…
– HUAHUAHUAHUAHUAHUA!!!!
– (…)
Diacho. Só não deserdo esse moleque porque não tenho herança nenhuma pra deixar.
O que me leva a uma interessante conclusão… Na casa de um homem, seu sacrossanto lar, seu refúgio, seu castelo, a regra é muito clara: ou se tem respeito ou se tem filhos. Os dois juntos? Impossível!
Bem, enfim, foi isso. Após toda essa desventura ao menos pude tomar uma boa ducha para recolocar cada pedaço de mim de volta ao seu devido lugar. Detalhe: pouco antes de entrar para o banho a Dona Patroa ligou, dizendo que estava no supermercado e perguntando se eu queria alguma coisa. “Uma cervejinha, pode ser?” E, pasmem, ela concordou! Ao menos algo daria certo no final do dia. Nada como relaxar, limpo, exaurido e refrescado, tomando uma breja estupidamente gelada!
E já estava eu na varanda, quando ela veio subindo as escadas.
– A-mô-or… Cheguei!
– Ah, como diria aquele outro, Sua Linda! Você trouxe de verdade o que disse que iria trazer?
– Claro!
– Ah, que belezinha!
– E já tá até geladinha!
– Jura?
– É, sim. Toma aqui a sua cervejinha sem álcool…
– Oi?
Carái! Eu sabia. Eu sabia que ainda ia ter que pagar por ter jogado ela cama afora hoje pela manhã.
Mas – que putz! – precisava ser tão já?… :-/

Férias – agora começou de verdade!
Você só consegue perceber que REALMENTE está de férias quando a vida à sua volta está dentro da normalidade do dia-a-dia, exceto você.
E somente agora, nesta primeira segunda-feira após o Carnaval, é que o ano começou de verdade… Criançada na escola, Dona Patroa enfrentando novos desafios de volta ao velho trabalho, meu povo ralando lá no meu trabalho, e, ainda que não vá viajar para lugar nenhum, posso ficar aqui, totalmente relaxado, descansando, pronto para…
– Mieko ligou Terefônica?
– Oi?
Era meu sogro. Com uma conta de telefone na mão e um olhar inquiridor pra mim, pois faz dias que o telefone dele está mudo…
– Então. Mieko ligou Terefônica. Quando arruma, né?
Péraê. Deixa eu matar esse negócio no ninho. Liguei pra Dona Patroa pra saber o que é que estava pegando.
– Ah, eu já liguei lá e eles já vieram fazer uns testes. Parece que o problema não é pra lá do poste, mas do lado interno da casa mesmo…
Taquiôspa!
Olho para aquele bondoso velhinho nipônico, com um acolhedor sorriso interrogativo – e surdo como uma porta de carvalho.
– Pode deixar que eu vou dar uma olhada…
– Eh?
– EU! VOU! VER! O QUE TÁ! ACONTECENDO!
– Ah, tá.
E lá se foi ele e cá fiquei eu sabendo que estava fudido…
Bem vamverssaporra. Peguei um aparelho telefônico e fui na caixa de entrada da casa. Conectei os fios descascados. Com sinal. Fui até o ponto onde fica o aparelho dele e desmontei a caixinha. Conectei os fios descascados. Sem sinal. Fudeu. O ponto de desconexão estava em algum lugar no meio do caminho. E, por caminho, entenda-se a fiação que vem desde a frente da casa, passando por todo o tétrico emaranhado de fios que fica no forro até o ponto do telefone dele. Merda. E vai o jamanta aqui entrar na porra do forro da casa, andando agachado por cerca de uns 30 metros, com o sol literalmente cozinhando as telhas – e eu junto. Muito próximo de espanar os parafusos do meu joelho, consegui achar o defeito: havia rompido um dos fios numa emenda entre a fiação interna e a da rua. E por um acaso eu estava com as ferramentas pra consertar isso? Nããããããooo… Volta, pega o necessário, sobe de novo, nova maratona, refaz a conexão e pronto! Telefone funcionando perfeitamente!
Feliz da vida, suado, cansado, empoeirado e cheio de teias de aranha cobrindo meu corpo, fui lá contar pra ele que agora o telefone estava funcionando.
– Ah, tá.
Toda vez que ele responde com esse “Ah, tá”, num tom extremamente peculiar, significa que ele não ouviu absolutamente nada do que a gente tenha falado. Paciência.
Aproveitei que estava com a mão na massa – e já fudido mesmo – e resolvi consertar uma das arandelas de frente de casa que estava lá, toda desmilinguida, pendurada somente pelos fios. Muito provavelmente algum vento forte deve ter feito isso. Mas isso é só para me enganar. Muito mais provavelmente ainda deve ter sido alguma bolada de algum dos filhotes…
Após desmontá-la, limpá-la e avaliar o tamanho do estrago (tinha rompido o fundo que a prende à parede), para solucionar o problema nada como um bom e velho trabalho feito de improviso com peças alternativas e com design informal. Isso mesmo. Uma gambiarra!
Mas péra lá! Comigo não é assim não! Gambiarra tem que ter classe e não pode aparecer! Consegui adaptar uma arruela de bicicleta na parte desmilinguida da rosca da arandela e tudo certo. Como é? Não entenderam? Não se preocupem. O que importa é que está lá, firme e provavelmente melhor que antes!
E, como dizia um antigo estagiário, “já que está no inferno, abraça o capeta”. Então resolvi dar uma checada no registro da pia da cozinha que estava vazando. Até porque a Dona Patroa também já estava pegando no meu pé para consertar esse vazamento. Acho incrível isso! Vocês mulheres são todas iguais! Quando nós, homens, dizemos que vamos consertar alguma coisa, nós vamos consertar essa alguma coisa. No nosso tempo e no nosso ritmo. Não tem a mínima necessidade de vocês ficarem nos cobrando a cada seis meses…
Bem, como eu dizia, uma vez que a cozinha faz parte da ala nova da casa, pós reforma, tive que descobrir onde ficava o registro geral dela. Adivinhem onde ficava? Isso mesmo! No forro, junto da caixa d’água. O que significou também uma nova incursão ao abafado mundo das teias de aranhas…
Uma vez desmontado, avaliado, sopesado, registrado, carimbado, rotulado e seja lá mais o que for, pude chegar a duas conclusões. A boa notícia é que o registro estava perfeito. A má notícia é que continuava vazando.
Mas como? O problema é que a parte possível de se desmontar de um registro, onde estão as borrachas, roscas, travas, etc, estava em perfeitas condições. De modo que ao checar mais detalhadamente percebi que o vazamento vinha da parte de baixo do registro. Algo mais ou menos assim:

Perceberam o tamanho do enrosco? Somente quebrando a parede é que vai ser possível encontrar o vazamento…
É… De fato minhas “férias” começaram bem. Isso porque, fora inúmeras outras pequeninas coisas da casa que clamam por minha atenção, ainda vou ter que pintar a garagem!
Isso fora o novo sofá que eu fiquei de criar, desenhar e construir.
Mas essa já é uma outra história… 😉
Nível Master
Sim, agora é oficial: meu sedentarismo atingiu o Nível Master.
Como se já não bastasse o reduzido guarda-roupa a que fui limitado – apesar de ainda ter muita coisa boa atrás daquelas portas, mais o joelho que invariavelmente dói e/ou no mínimo incomoda, agora também venho sido acometido de insônia. INSÔNIA! Eu? Um cara que já só dorme de quatro a seis horas por noite?
É, já passou da hora de colocar em prática a missão Dieta 2 – A Revanche.
Afinal, tenho aproximadamente 104 bons motivos para fazê-lo…
Me aguardem! 😉

Para um bom começo de Ano, Vida, Universo e tudo mais…

Antes de mais nada: este texto não é meu. Mas em determinados momentos ele expressa tão bem, mas tão bem os sentimentos que fervilham neste meu cansado coração pulsante, que não pude resistir em publicá-lo aqui neste nosso cantinho virtual.
Deleitem-se.
O caminho é tortuoso. Poderia ter feito como quase todo mundo. Não ter dado o primeiro passo ou simplesmente ignorado sua existência. Poderia ter continuado a atribuir tudo a sorte, azar, castigos, bênçãos. Poderia ter permanecido resignado, manso e justificar tudo como vontade d’Ele.
Mas não, insistiu em dar o primeiro passo. E então houve mais uma chance de recuar. Teria sido bem mais fácil voltar atrás e dizer a si mesmo que não era nada daquilo. Alguns fazem isso. Colocam o focinho para fora, sentem a brisa da mudança, mas voltam.
Contudo, você não ouviu o clamor que vinha de dentro de você. A voz que insistia em levar você de volta à famigerada “zona de conforto”. O “condomínio dos entorpecidos”, o local em que aqueles que sofrem menos e simplesmente acatam tudo residem.
Você deu mais um passo. Mais um simples passo. E percebeu então que era tarde demais para voltar atrás. Como pode um simples passo percorrer uma distância tão abissal?
Bem vindo ao caminho. Seus dias jamais serão os mesmos. Você não poderá mais atribuir tudo ao acaso. Você terá de olhar para si mesmo a cada segundo, a cada respiração. E vai doer. Mesmo se solicitar à ajuda d’Ele, ouvirá a Grande Voz sussurrando em teu ouvido que é VOCÊ que precisa manifestar aqui seus desígnios. Seja feita Vossa Vontade. Que você faça na Terra o que já existe no céu. Não dá mais para ficar parado, olhando para o alto e esperando.
O sentimento de responsabilidade sobre seu próprio destino só aumenta. E isso traz sofrimento. Bem feito. Ninguém mandou seguir adiante. Deveria ter continuado a dizer “amém” a todos os absurdos que te dizem. Deveria ter aceitado que “a vida é assim mesmo”, que “é difícil mudar”, que isso não pode, que aquilo não deve. Era muito melhor quando você era guiado.
Agora você tem recursos. Azar seu. Você se cobra mais. Se cobra porque sabe que pode intervir em sua realidade. Se cobra porque tem subsídios para mudá-la. E sofre porque não consegue. As pessoas jogam na sua cara, debocham e com olhares e sorrisos jocosos te dizem: “Ué, você não disse que era esse o caminho da iluminação? Cadê todo seu conhecimento? Cadê seu aprendizado? Se vira…”
Viu só? Não disse? Deveria ter continuado ignorante. Ninguém mandou querer trilhar essa jornada. Autoconhecimento? Bobagem…
Faz o seguinte: esquece tudo isso. Volte a ser como era antes. Não dá? Eu sei. Pode acreditar. Boa notícia: você JÁ está no meio do caminho. Má notícia: você AINDA está no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra. E um abismo. E um muro. E dúvidas, incertezas. É uma bênção ou uma desgraça? É o que é. É o caminho.
No meio do caminho existe um viajante. Existe um herói. Que às vezes possui companheiros de jornada, mas na maioria está solitário. Ou ao menos se sente como estivesse. O mestre disse. Você até acreditou. Mas não sabia que era assim. Faz parte. É a lei. O caminho é pessoal. Assim que é.
Mas é estranho. Parece que quando a luz está bem próxima, uma névoa toma conta de tudo. E uma escuridão sepulcral se instala. Luz e trevas. Sempre elas.
Olhar para dentro é mais difícil. Por que ninguém avisou que seria assim? Você foi avisado sim. Só não imaginou que a viagem seria tão longa. Aliás, a jornada nunca termina. É como um ciclo que vai e vem. E mais um passo adiante. E mais um. Mas, parece que os obstáculos ficam maiores. Será?
Viu só, quem mandou? Poderia ter ficado restrito às trevas. E o melhor: é bem provável que te dissessem que estava na luz, que este, aquele ou aqueloutro era o verdadeiro caminho. Eles podem estar lá, mas você é o SEU caminho. Estranho. Ou não?
Tarde demais. Como um paradoxo desconcertante os desafios aumentam. As vitórias também. Mas parece que demoram mais a chegar. Se as dúvidas incomodam, isso é uma certeza. Que você está no caminho. Certo. Assim é que é.![]()
No mais é isso aí.
“O caminho se faz caminhando…”
Chegamos em 2015. Sejam bem-vindos.
E quanto a 2014?
Bem, até mais, e obrigado pelos peixes!
Por uma voltinha de bicicleta…

O matemático Edward Norton Lorenz, nos idos da década de sessenta, desenvolveu a tese básica de que “situações iniciais ligeiramente diferentes podem se desenvolver em situações consideravelmente diferentes”. Sei que parece um pouco confuso, mas – vejam só! – este é exatamente o enunciado primordial da “Teoria do Caos”.
Particularmente prefiro um dos corolários da Lei de Murphy (aquele velho sacana e que tem a cara do House) em que diz que “se uma série de fatos pode dar errado, dará errado na pior sequência possível”.
Dito isso, vamos aos fatos. Isolados em sua essência, mas conectados em sua conclusão. E cheio de links para vocês se divertirem…
Desde a adolescência minha coluna vertebral já possuía uma ligeira “deformação morfológica em curva dupla” – o nome é pomposo, mas nada mais é que a chamada “escoliose em S”. Durante muitos anos isso me causou dores e desconforto, mas, como com tudo a gente se acostuma, ela sempre estava ali, presente, às vezes com algumas crises e outras, por longos períodos, sem sequer me incomodar. E isso somente “sarou” após o acidente. Desde então ganhei um joelho que dói o tempo todo e vive clamando por atenção, de modo que a escoliose foi alçada para um segundo plano, praticamente imperceptível. Até hoje.
Independentemente disso, desde a mais tenra idade sempre adorei andar de bicicleta. Sozinho, em bando, para me divertir, para me distrair, para me desestressar ou, simplesmente, para namorar. E, sim, isso é da profícua década de oitenta, época em que nós, meninos, levávamos as moçoilas para dar uma voltinha sentadas no quadro da bicicleta, entre o selim e o guidão, totalmente aninhadas em nossos braços. Como desde aquela época eu já não dava ponto sem nó, a minha bicicleta era a única que tinha uma almofada para elas sentarem, então nem preciso dizer por quem elas preferiam ser levadas, né? E, assim, bateu uma vontade de dar umas pedaladas, pois já fazia muito tempo que eu não tirava a bicicleta do lugar. Até hoje.
Isso porque nos últimos tempos tenho estado mais sedentário do que jamais fui na minha vida. Totalmente acomodado. Desde a cirurgia no joelho, em 2012, que comecei a me acomodar. Até que, durante a recuperação, ainda estava fazendo meus alongamentos, algumas caminhadas e por aí afora. Daí veio um inverno terrível e uma preguiça maior ainda. O inverno passou. A preguiça, não. E, hoje pela manhã, numa conversa sincera com a dona balança, cientes dos três dígitos que teimam em não baixar, juntos chegamos à conclusão que estava na hora de uma nova dieta! Afinal de contas minha boa e velha bicicleta – que, diga-se de passagem, eu mesmo montei – está encostada lá na garagem, num canto, soterrada pelas bicicletas da Dona Patroa e dos meus filhotes, acumulando camadas seculares de poeira. Somente assim, com um pontapé inicial, eu sairia desse sedentarismo que diretamente estava me incomodando. Até hoje.
E, último dos fatos que interessam para nossa narrativa, temos meu sogro. Sim, aquele bom e simpático velhinho, um japonês de 82 anos, que mora conosco, mal fala uma palavra de português e surdo como uma porta de carvalho. Dupla. E que, como todo japonês velhinho tradicional, tem uma compulsão mania de guardar coisas. Acumular, mesmo. Alguns dizem que é uma tradição herdada desde a época dos tempos difíceis da guerra, quando nada se tinha e era preciso guardar tudo o que fosse possível e usar de muita criatividade para aproveitar tudo isso para as coisas práticas do dia a dia. Aquele negócio de que “vai que um dia precisa, né?”. Bem, dessa genética pela guarda de quinquilharias e criatividade para usá-las, meu sogro tem de sobra. E, numa dessas, num canto bem ao lado das bicicletas, tem um monte de caibros, madeiras e ripas, variando de dois a três metros de comprimento, desordenadamente acumulados para que, como sempre, algum dia jamais viessem a ser utilizados. Ou sequer tirados do lugar. Até hoje.
Já começaram a perceber o tamanho da encrenca, né?
Então.
Hoje, logo pela manhã, munido mais de ânimo que de bom senso, resolvi que já era hora de sair do marasmo. Como meu pé ainda está meio avariado do tombo da moto (não este – ainda – não tem link) correr não é possível, caminhar é quase uma opção, mas andar de bicicleta seria tudo de bom! Logo após o café fui até a garagem com o firme intuito de encher os pneus da bicicleta – vazios já há muito. Faria isso, subiria para ler o jornal com uma boa xícara de café, desceria novamente já com um balde d’água, constataria que os pneus estão bons, faria uma bela duma lavagem e limpeza na menina e, ato findo, sairia para dar uma boa e saudável voltinha de bicicleta. Me cansaria um tanto, suaria outro tanto, mas, feliz, voltaria para casa endorfinicamente com uma sensação de dever cumprido. E seria só o começo! Plano perfeito.
Ou quase.
Isso porque o fiadaputa do Murphy resolveu que era o momento ideal para combinar de modo magistral todos os fatos isolados anteriores que já acabei de descrever…
E, lógico, ao começar a desvencilhar as bicicletas da Dona Patroa e dos filhotes que estavam impedindo de tirar a minha, não percebi que parte daquelas madeiras estavam sutilmente apoiados nelas. A não ser quando já era tarde demais. Já foram pegos de surpresa por uma chuva quando estão no meio da rua? Ou pela água gelada do chuveiro quando esperavam que estar quente? NADA DISSO se compara a receber no lombo uma chuva de caibros e ripas e madeiras e sei lá mais o quê quando menos se espera. Do susto, da cacetada, da exagerada torsão no corpo para me desviar do que ainda não tinha me atingido, restou somente a mais antiga e familar dor que me acompanha até hoje.
E meu bom humor matinal se esvaiu junto com a poeira que baixava no chão da garagem.
Com toda a sutileza e cuidado de um mastodonte em fúria coloquei as madeiras de volta no lugar.
Carinhosamente, como um babuíno selvagem, empilhei todas aquelas bicicletas de volta no lugar.
E agora, calmo como no decorrer de toda essa desventura, ciente e cioso da necessidade de cuidar deste templo que é meu corpo, deixo-lhes a refletir sobre todas essas conexões que nos envolvem, e, enquanto isso, vou pegar minha moto e me dirigir até o boteco mais próximo para uma cervejinha gelada.
Pois três quarteirões é uma distância muito longa para ir a pé…

