Só pra constar

O país não está dividido. Polemizado, sim, mas a leitura das urnas tem que ser completa.

Se somarmos os 38,2% dos votos de Dilma com os 35,7% dos votos do outro, teremos apenas 73,9% do eleitorado. Para fechar a conta temos que considerar os 26,1% de brancos, nulos e abstenções. Acho pouco provável que Dilma consiga “recuperar” os eleitores que votaram contra, de modo que o esforço pelos próximos quatro anos, além de manter o que já tem, é dar conta de atender os anseios desses 26,1% – mais de um quarto do eleitorado brasileiro.

Ou seja, o trabalho apenas começou…

Intolerante a intolerâncias

Nestes “tempos interessantes” que temos vivido nas últimas semanas, com todo esse clima político beirando quase uma guerra civil, já há muito cheguei à conclusão que tenho baixa tolerância a discussões idiotas. Você tem sua preferência política? Não é a mesma que a minha? Tudo bem! Mas vamos combinar que, nessa situação, eu não tento te convencer a mudar sua opinião e você não tenta me convencer a mudar minha opinião. Façamos assim e continuaremos sendo amigos. Oi? Você, mesmo tendo opinião diferente da minha quer entabular uma conversa e mostrar o seu projeto político? Beleza – adoro discussões inteligentes – mas saiba que você também terá que ter a mesma capacidade de me ouvir, combinado?

Se fosse assim, nosso dia a dia seria bem mais palatável…

Mas, infelizmente, ressalvadas raras exceções, não é o que temos visto nas ruas.

Paciência.

Não vou deixar de expressar minhas opiniões e nem quero que outros assim o façam.

Curiosamente, e ciente de que o Universo tem maneiras às vezes nada sutis de nos mandar recados, justamente hoje pela manhãzinha me deparei com esse texto abaixo, do Rubem Alves, num livro que estou lendo. Não tinha como não compartilhar isso aqui no blog. Leiam e vejam se não é bem isso mesmo…

Futebol e política

Alguns amigos se juntaram e resolveram fazer algo pela pequena cidade do interior em que moravam. Pensaram que seria possível colocar um pouco de razão nessa coisa tão movida a paixões que é a política. Nada partidário. Não levantaram bandeiras. Não defenderam candidatos. Não gritaram slogans. Propuseram aos dois candidatos a prefeito que respondessem a uma série de perguntas sobre os seus planos, as mesmas peguntas para os dois. As perguntas foram feitas por escrito e eles tiveram dez dias para escrever suas respostas. As perguntas e as respostas, com a concordância de ambos, foram transformadas num tabloide e distribuídas pela população. Num dia previamente marcado, os dois candidatos deveriam ler suas respostas e assiná-las, como um documento público.

Assim aconteceu.

Os dois candidatos compareceram ao local designado junto com seus partidários, que se assentaram em dois blocos de cadeiras separadas. Mas o que sucedeu nada teve de racional. Era mais como o confronto entre torcidas de dois times de futebol, cada torcida odiando a outra. Vaias, gritos, apupos, xingamentos. Ninguém estava interessado em ouvir e compreender o outro. O clima foi ficando tenso e havia a possibilidade de que, terminado o evento, houvesse um confronto físico entre os dois grupos, tal como frequentemente acontece com torcidas de futebol. Ao final, a palavra foi aberta aos presentes.

Uma amiga, uma mansa mulher, se levantou trêmula e disse algo mais ou menos assim: “Eu e meu marido nos mudamos para cá por opção. Cansados da brutalidade de São Paulo, escolhemos esta cidade porque ela nos pareceu habitada por pessoas cordiais e pacíficas. Mas agora estou triste. Perdemos nossas ilusões…”.

Disseram alguns participantes que foi essa fala mansa que envergonhou as torcidas já preparadas para a briga.

Que pena que aconteça assim! Usando a metáfora do futebol: as eleições não são um confronto entre dois times que se odeiam. Não há dois times. O time é um só. Todos jogamos nele. Nosso time é a cidade. O que acontecer na cidade acontecerá a todos nós. O que acontece nas eleições é a escolha do técnico do time no qual todos nós jogamos. Dizem as Sagradas Escrituras que uma cidade dividida contra si mesma não pode sobreviver. Será esse o nosso destino, viver batalhas de ódio que só produzem divisões? As pessoas, por terem ideias diferentes, têm de se tornar inimigas? Alguns acham que sim. Elas se tornam inimigas daqueles que têm ideias diferentes das suas. Eu mesmo ganhei muitos inimigos… Isso acontece porque há aqueles que se julgam possuidores da verdade. Mas ninguém é dono da verdade. Por isso existe a democracia: porque ninguém tem a verdade. Só temos opiniões precárias. Quem se julga dono da verdade tem de ser intolerante.

Entrevista: Wagner Baccaro

Muito boa esta entrevista, mui digna da criatividade do Wagner, nosso copoanheiro eventual, e que faz coro com dezenas de centenas (de milhares?) de muitas outras gentes – inclusive eu.

A original tá lá no blog dele, o Rebostejos.

O segundo turno eleitoral se aproxima. Para elucidar as questões que você nunca quis saber, publicamos esta entrevista exclusiva com Wagner Baccaro, na qual são tratadas suas preferências políticas e as razões de seu voto.

Rebostejos: Wagner, em quem você vai votar no dia 26, no segundo turno da eleição presidencial?

Wagner: Votarei na Dilma, como fiz no primeiro turno.

Rebostejos: Mas por que você votará nela?

Wagner: Porque acho que, embora seu mandato não tenha cumprido as expectativas que eu tinha, certamente foi muito melhor do que a imprensa insiste em divulgar.

Rebostejos: Se não cumpriu, não seria hora de mudar?

Wagner: Não acho que a mudança para o Aécio seja melhor. Em termos de macroeconomia, não existem grandes diferenças nos projetos, o que muda é o enfoque social. Não acredito no comunismo, mas também não creio que o livre mercado é capaz de fazer a sociedade mais justa e melhorar a vida de todos.

Rebostejos: Quando falamos em ”social”, pensamos primeiramente no Bolsa-Família. Esse programa não é uma forma de compra de votos?

Wagner: Acho engraçado quem pensa assim. Ora, toda ação de governo que beneficie determinada faixa social pode ser tachada de compra de votos. Redução do IPI? Compra de votos da classe média. Aumento dos juros dos Bônus do Tesouro Nacional? Compra de votos dos investidores. Bolsa-Família? Compra de votos dos mais pobres… O problema é que existe um preconceito arraigado de nossa elite que faz pensar que seu voto é mais qualificado porque lê a Veja e ouve a Jovem Pan (risos).

Rebostejos: Mas o Bolsa-Família tem viés eleitoreiro, virou peça de propaganda.

Wagner: Se pensarmos assim, então nenhum governo não pode fazer nada. Toda ação de governo se transforma em peça de propaganda, cabe ao povo decidir se tal ação foi boa ou não. O Serra faz propaganda dos genéricos até hoje, então por que o Governo Federal não pode falar do Minha Casa, Minha Vida?

Rebostejos: Quem pergunta aqui? Eu ou você?

Wagner: Faz diferença?

Rebostejos: Bem… E o que você achou da reeleição do Alckmin?

Wagner: Ninguém se sente seguro em São Paulo, todo mundo que pode foge da escola pública, a participação do Estado na Saúde é pífia e agora temos a falta d’água. Mesmo com tudo isso, São Paulo reelegeu o PSDB para completar 24 anos de mandato, o que é coerente.

Rebostejos: Coerente?

Wagner: Sim, coerente com o voto de quem elege o Russomano, o Tiririca, o Marco Feliciano e o Maluf. Depois o paulista tem coragem de bater no peito pra dizer que o nordestino é que não sabe votar.

Rebostejos: Voltando à eleição presidencial, você não se preocupa com a corrupção?

Wagner: Muito! Me preocupo com a corrupção no Governo Federal e no Governo Estadual. A diferença é que no primeiro a apuração tem sido feita, e no segundo, não. O PT é acusado de ser antidemocrático, chavista, etc., mas em que outro governo alguns líderes do partido no poder foram julgados e condenados por erros que cometeram? O mensalão foi pelo menos tão grave quanto a compra de votos para a reeleição do FHC, mas neste último ninguém foi sequer processado. Os culpados pelo mensalão tucano, pela propinas do metrô paulista, pelo aeroporto na fazenda do tio do Aécio e outros escândalos do PSDB também não foram apurados, por isso não faz sentido dizer que vai votar no Aécio por questões éticas.

Rebostejos: Você não diz isso tudo por que é comissionado em um cargo numa administração petista? Você não é petralha?

Wagner: Petralha é a senhora sua mãe. Eu fui comissionado por dez anos, agora não sou mais. Tenho muito orgulho do trabalho que realizei nesse tempo. Pode ser que em alguns lugares não seja assim, mas as pessoas com quem tive contato trabalhavam muito sério e muito duro para melhorar a cidade. E em dez anos nunca ouvi falar num plano para transformar o Brasil numa nova Cuba.

Rebostejos: Não corremos o risco de uma cubanização, ou uma venezualização, do Brasil?

Wagner: Olha, me desculpe a franqueza…

Rebostejos: Claro que desculpo, o blog é seu…

Wagner: …acho muita idiotice acreditar que o Brasil está sob a influência de Cuba ou da Venezuela, ou que corremos o risco de nos transformarmos num país totalitarista. Quem pensa assim não sabe nada sobre Cuba ou Venezuela e, pior, sabe menos ainda sobre o Brasil. Essas teses só servem para que articulistas de uma revista de m*** tenham assunto.

Rebostejos: Por favor, modere o linguajar, este é um blog de família.

Wagner: Desculpe. Quem faz isso de qualificar pejorativamente quem pensa diferente é essa revista aí. Cometi o mesmo erro.

Rebostejos: Tudo bem, é uma revista de m*** mesmo.

Wagner: Veja, ops, perceba que já em 1989 eu escutei da dona da banca de jornal que ela tinha medo do Lula, que ele faria que repartíssemos nossas casas com outras famílias. Essa mesma ladainha é usada até hoje. O duro é muitos que criticam a eleição do Tiririca acreditam nessas bobagens a ponto de ter paranoia com o vermelho das ciclovias, sendo que a ignorância de votar no Tiririca ou de acreditar no comunismo do PT é a mesma.

Rebostejos: É verdade que você vai se afastar do Facebook nesses próximos dias?

Wagner: Sim. As redes sociais já estavam difíceis, mas se tornarão insuportáveis até o fim do segundo turno. Tenho muitos amigos que pensam igual a mim, e tantos outros que pensam diferente, então não quero me indispor com pessoas de quem eu gosto mas que por vacilo ou por emoção do momento podem se achar mais inteligentes do que os outros só que porque votam assim ou assado.

Rebostejos: Você tem consciência de que não vai fazer falta nenhuma?

Wagner: Absoluta.

Rebostejos: Agora, para finalizar, nos responda uma coisa: o que você sabe sobre transtorno dissociativo de personalidade? E sobre transtorno de personalidade narcisista?

Wagner: Talvez não o suficiente para publicar esta entrevista.