Realidade paralela

– Roooonc… Hm? Oi?

– Bom dia, mocinho.

– Aff… Bom dia, amor…

– Bonito, hein?

– Você também!

– Não é nada disso! Você tem ideia da condição em que o senhor chegou ontem? Ou, no mínimo, tudo que fez desde que pôs os pés em casa?

– Não…

– E então? Quer saber?

– Cá entre nós, amor: eu vou gostar da resposta?

– Nem um pouco.

– Então, não.

– Tá. Vem tomar café, que já está na mesa (beijo).

– ?????????????????????????????????

(Será que alguém pode me beliscar, me acordar ou então me contar em qual realidade paralela eu vim parar???)

Intolerante a intolerâncias

Nestes “tempos interessantes” que temos vivido nas últimas semanas, com todo esse clima político beirando quase uma guerra civil, já há muito cheguei à conclusão que tenho baixa tolerância a discussões idiotas. Você tem sua preferência política? Não é a mesma que a minha? Tudo bem! Mas vamos combinar que, nessa situação, eu não tento te convencer a mudar sua opinião e você não tenta me convencer a mudar minha opinião. Façamos assim e continuaremos sendo amigos. Oi? Você, mesmo tendo opinião diferente da minha quer entabular uma conversa e mostrar o seu projeto político? Beleza – adoro discussões inteligentes – mas saiba que você também terá que ter a mesma capacidade de me ouvir, combinado?

Se fosse assim, nosso dia a dia seria bem mais palatável…

Mas, infelizmente, ressalvadas raras exceções, não é o que temos visto nas ruas.

Paciência.

Não vou deixar de expressar minhas opiniões e nem quero que outros assim o façam.

Curiosamente, e ciente de que o Universo tem maneiras às vezes nada sutis de nos mandar recados, justamente hoje pela manhãzinha me deparei com esse texto abaixo, do Rubem Alves, num livro que estou lendo. Não tinha como não compartilhar isso aqui no blog. Leiam e vejam se não é bem isso mesmo…

Futebol e política

Alguns amigos se juntaram e resolveram fazer algo pela pequena cidade do interior em que moravam. Pensaram que seria possível colocar um pouco de razão nessa coisa tão movida a paixões que é a política. Nada partidário. Não levantaram bandeiras. Não defenderam candidatos. Não gritaram slogans. Propuseram aos dois candidatos a prefeito que respondessem a uma série de perguntas sobre os seus planos, as mesmas peguntas para os dois. As perguntas foram feitas por escrito e eles tiveram dez dias para escrever suas respostas. As perguntas e as respostas, com a concordância de ambos, foram transformadas num tabloide e distribuídas pela população. Num dia previamente marcado, os dois candidatos deveriam ler suas respostas e assiná-las, como um documento público.

Assim aconteceu.

Os dois candidatos compareceram ao local designado junto com seus partidários, que se assentaram em dois blocos de cadeiras separadas. Mas o que sucedeu nada teve de racional. Era mais como o confronto entre torcidas de dois times de futebol, cada torcida odiando a outra. Vaias, gritos, apupos, xingamentos. Ninguém estava interessado em ouvir e compreender o outro. O clima foi ficando tenso e havia a possibilidade de que, terminado o evento, houvesse um confronto físico entre os dois grupos, tal como frequentemente acontece com torcidas de futebol. Ao final, a palavra foi aberta aos presentes.

Uma amiga, uma mansa mulher, se levantou trêmula e disse algo mais ou menos assim: “Eu e meu marido nos mudamos para cá por opção. Cansados da brutalidade de São Paulo, escolhemos esta cidade porque ela nos pareceu habitada por pessoas cordiais e pacíficas. Mas agora estou triste. Perdemos nossas ilusões…”.

Disseram alguns participantes que foi essa fala mansa que envergonhou as torcidas já preparadas para a briga.

Que pena que aconteça assim! Usando a metáfora do futebol: as eleições não são um confronto entre dois times que se odeiam. Não há dois times. O time é um só. Todos jogamos nele. Nosso time é a cidade. O que acontecer na cidade acontecerá a todos nós. O que acontece nas eleições é a escolha do técnico do time no qual todos nós jogamos. Dizem as Sagradas Escrituras que uma cidade dividida contra si mesma não pode sobreviver. Será esse o nosso destino, viver batalhas de ódio que só produzem divisões? As pessoas, por terem ideias diferentes, têm de se tornar inimigas? Alguns acham que sim. Elas se tornam inimigas daqueles que têm ideias diferentes das suas. Eu mesmo ganhei muitos inimigos… Isso acontece porque há aqueles que se julgam possuidores da verdade. Mas ninguém é dono da verdade. Por isso existe a democracia: porque ninguém tem a verdade. Só temos opiniões precárias. Quem se julga dono da verdade tem de ser intolerante.

Chá de boldo amargo medicinal e sem açúcar

Então tem essa figuraça com quem trabalhei durante muitos anos. Por incrível que pareça, um sujeito tímido. E, justamente para enfrentar essa timidez, sempre foi um cara pra lá de bem humorado, sempre propenso a “pegadinhas” e coisas do gênero, o que somente foi aumentando cada vez mais a aura de cara sacana que sempre orbitava a sua volta. Mas, em verdade, em verdade, não era assim. Bem, quase. Vamos chamá-lo de “Japa”.

E dos inúmeros causos que me contou em inúmeras situações, teve um que jamais me esqueci. Ele trabalhava num banco, concursado, cargo de gerente ou algo que o valha.

Numa era pré-informática, quando mais se trabalhava com papel que com pessoas, tinha lá a sua própria mesa, com a famosa “mesinha de café” logo atrás. E quem já trabalhou em banco sabe: lá dentro somos todos movidos a café. Aliás, fora do banco também. Mas não é esse o caso.

O caso é que nessa mesinha havia uma garrafa térmica. E, na garrafa térmica, uma etiqueta colada com os seguintes dizeres:

“Chá de boldo amargo medicinal e sem açúcar.”

Intimidador, não?

E quem passasse por ali, já pensando em serrar um cafezinho, se deparava com aquela garrafa e já ia perguntando, com nariz torto:

– Pô, Japa! Quiéisso, hein? Algum tipo de remédio, por acaso?

E sempre que alguém fazia essa pergunta, já com uma cara toda lamentosa, o Japa buscava um daqueles copinhos de café descartáveis, suspirava fundo, se servia de um tanto da garrafa térmica e dizia:

– Estômago, cara. Sabe como é, né? Tenho que ficar o dia inteiro tomando esse troço…

E, ato contínuo, virava aquilo numa golada só, fazia careta e buscava um olhar de compreensão – que sempre lhe era retribuído, pois ninguém estava a fim de tomar aquele negócio, ainda mais o dia inteiro. E deixavam-no em paz, com seu “chá de boldo amargo medicinal e sem açúcar”.

Só tem um detalhe.

Era uísque.