Natal

Muito bem, gente, pra variar não estou sendo original, mas estou sendo sincero.

É muito gostoso e aconchegante receber todo o carinho (e mesmo as tirações de sarro também) que invariavelmente surge daqueles que passam por aqui. E não, não se preocupem, pois não vou fazer nenhuma espécie de “pregação” – apesar de a data pedir.

É que recentemente eu tive uma conversa sobre o tema “dar um presente”… Isso me fez pensar… Acho que o melhor presente que podemos dar uns aos outros ainda é aquele imaterial, o sorriso sincero, o olho no olho, o abraço apertado, o carinho de coração. Este nosso cantinho em que nos encontramos até pode ser virtual, mas nossas emoções são pra lá de reais! Erram os que às vezes classificam redes sociais como alguma espécie de vício nefasto, pois somente voltamos e teimamos em voltar nelas para poder sorrir com uma amiga, chorar por amigo, se emocionar por um parente, vibrar com uma vitória, sofrer com uma derrota e por aí afora.

É certo que esta nossa família virtual jamais sobrepujará a real, mas nada impede que a ela vá se equivaler!

E assim o faz!

Então minha oração de Natal, para todos, é essa: que cada qual, com sua religião, com sua crença, com seus costumes, faça deste período de comemorações, de ótimas energias, um período de verdadeira festa, de esperança, de felicidade. Que, à noite, possamos olhar para o céu e vislumbrar a mesma estrela e em nosso íntimo fazer um pedido e que esse pedido seja de, no mínimo, alegria. Pois é a alegria que nos move e nos dá esperança e nos faz estar aqui e comentar e curtir e sorrir e sentir. E eu sinto de verdade o carinho de cada um que já leu alguma das minhas tortas linhas no Face, no Twitter, no Legal, seja onde for – ainda que não tenha sequer se manifestado sobre o que quer que eu tenha dito! Essa pessoa, ao ler, sorriu. E, de algum modo, naquele momento eu soube. E me senti bem. E isso me fez bem. Assim como você está sorrindo agora! E lhe agradeço! E que todos continuemos nos sentindo bem e felizes e já aproveito e lhe desejo um ótimo e Feliz Natal!!!

E, no mais, considerando o típico Natal que comemoramos, já que vivemos num país atipico com uma temperatura atípica, nada como uma música também atípica – mas que de alguma forma também toca o coração – para comemorar a passagem do “bom velhinho”…

Zé Ramalho – Chão de Giz

 

P.S. Ei! E nada de esquecer o verdadeiro aniversariante que comemoramos nesta data, ok? Agora voltem lá cada qual para seu mundo real e tratem de ficar com Deus!

Papa-anjo

Segundo o Dicionário Informal, seria a “pessoa que gosta de ficar ou namorar parceiros mais novos”

Então.

Dona Patroa e filhotes, supermercado, carrinhos de compra, muvuca, acaba por encontrar uma amiga. E eu ausente. Papo vai, papo vem, proseiam daqui, assuntam dali, quando, do nada, a “amiga” solta essa:

– Mas esse não é o primeiro casamento dele, é?

– Não, não é. Eu sou a segunda esposa. Mas como você sabe?

– Ah, logo percebi. Mas isso é normal, sabe? É que dá pra notar pela diferença de idade entre vocês…

(Pausa dramática para claquete de risos.)

Conforme fidedignas informações da Dona Patroa ela preferiu não desconcordar da amiga. E olha que ela (a Dona Patroa) é um ano mais velha que eu!

Duas inafastáveis conclusões:

1. Tá na hora de tirar a barba (branquíssima).

2. Sósifôdo…

🙁

A (re)volta do dândi

Nestes últimos tempos (dias, semanas, mais de mês?) dei uma séria desacelerada aqui no blog…

É, parei mesmo. Não só por conta de minhas obrigações profissionais, mas é que andava meio que assim (pra falar um português bem claro) de saco cheio. Por diversos motivos pessoais, técnicos, clínicos, políticos, espirituais, xamânicos, o escambau!

Fora uma absurda falta de vontade de interagir virtualmente com quem quer que seja. Seja por e-mail, twitter, facebook, instagram, telepatia, sinais de fumaça ou qualquer outro tipo de tecnologia…

Mas, nessa minha apatia virtual, eis que ontem, invariavelmente indo de um lugar para outro nos corredores do trabalho, assim, do nada, me surge essa mocinha de um eterno olhar curioso e me chama:

– Ei, Adauto!

Primeira impressão: susto. Nem sabia que ela sabia meu nome! Paro e dou-lhe a merecida atenção. De chofre, por entre um faiscante sorriso, ela solta a pergunta:

– E o blog? Eu sempre passo por lá e não tem nada de novo…

Sorrio, complacente, e descarrego um sem número de desculpas – que a mim mesmo já me soam cada qual mais esfarrapada que a outra – tais como falta de tempo, muita correria, bloqueio criativo, sei lá.

Ela sorriu, me agradeceu com um “tá bom” e seguiu lépida em seu caminho, levando sabe-se lá que papéis, sabe-se lá de onde, sabe-se lá pra quem.

Mais tarde dei uma olhada lá blog. Última postagem: 14 de outubro. É, ainda não tinha um mês. Dei uma checada num aplicativo ali do lado – um tal de ClusterMaps – que mostra uma espécie de estatística de visitação da página: 5.422 visitas entre 21 de outubro e 7 de novembro. Não convicto ainda fui dar uma olhada nas estatísticas internas do próprio WordPress: 518 visitas só na véspera. E isso tudo sem ter escrito absolutamente nada de novo!

Sim, eu sei que são números modestos – nunca estive vendendo nada por aqui, muito menos “monetizando” essa bagaça. Mas cá para esse escrevinhador de final de semana, até que são números que poderiam impressionar.

Sim, “poderiam”.

Pois mesmo essa quantidade de gente que, pelos mais diversos motivos, costuma passar cá neste nosso cantinho virtual, não necessariamente me impressionou. O que verdadeiramente me impressionou foi o fato de uma “ilustre desconhecida” ter me abordado questionando os porquês de minha ausência virtual. Tá, vamos combinar que nem tão desconhecida assim, pois fazemos parte do mesmo quadro funcional. De mais de cinco mil indivíduos…

Mas o “materializar” disso é que me chamou a atenção.

E foi tão somente esse pequenino fato isolado em si que me instigou a retomar da pena… Curioso que, ainda hoje pela manhã, li a seguinte frase de Isaac Asimov: “Escrever, para mim, é simplesmente pensar através de meus dedos”. Sabem, acho que é bem isso. Já cansei de contar por aqui como se dá meu “processo criativo”: simplesmente engato a primeira, começo a escrever e vou embora estrada literária afora, na maioria das vezes sem ter nenhuma noção de onde ou como meu texto vai acabar. Sempre que começo tenho uma vaga idéia do que pretendo expressar, mas meus dedos sempre teimam em seguir seu próprio caminho através do teclado, dissociados de minha vontade até que, ao final, eu volto relendo e revendo tudo aquilo que fluiu tão naturalmente que até me assusto!

E, nesse sentido, acho quem meus dedos estavam bem ociosos nos últimos tempos… Com uma inominável preguiça de pensar…

Mas foi preciso um pequeno choque de realidade para me (re)lembrar de que tenho uma certa responsabilidade. Uma responsabilidade para com meus textos, para com minhas idéias, para com meu próprio modo de pensar, enfim, e mais do que nunca, uma responsabilidade para com todos meus quase quatro ou cinco leitores!

De uma forma ou de outra, por algum estranho motivo, seja ele qual for, em algum momento eu os cativei. Seja por conta de um texto, de um gracejo, de uma foto, de uma imagem, não importa. A responsabilidade foi minha. E, em se tratando disso, não é bem como diz a estória?

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Enfim, cá estou eu de volta, pronto ou não, inteiro ou não, frequente ou não…

Mas que vortei, vortei!

😀

Despertar

Abri os olhos.

Meu corpo reclamou, ligeiramente coberto de suor.

Afastei as cobertas e o primeiro pensamento que me veio: ela se foi.

Finalmente aquela maldita dor de cabeça que me consumia até o último dos neurônios se foi.

Respirei fundo e fui ver como estava o dia lá fora. Como o mundo se comportou ante a minha forçosa ausência. Bem, como era de se esperar, o mundo continuou sendo mundo. Um ligeiro toque de melancolia maculou minha alma. Serei tão desnecessário assim? A casa em silêncio – afinal as crianças estavam na escola – fazia ecoar meus próprios passos.

Com o corpo ainda dolorido resolvi que era hora de dar uma olhada também lá fora, ver um pouco de céu, de ar, de gente.

No caminho resgato um cigarro e visito a garrafa térmica. Um último gole ainda me aguardava. Precisava de ambos. Afinal já se passaram dois dias inteiros sem café e ao menos mais de um sem cigarro! Muito tempo sem nenhum veneno no corpo.

No meu cantinho de sempre, da amurada do navio que a casa se transformou, vejo o mar de asfalto logo abaixo, onde apressadamente navegam carros e motos e gentes em busca sabe-se lá de o quê, sob um céu sem sol, acinzentado como tudo o mais.

Nesse momento a capela logo em frente põe-se a tocar Ave Maria no seu sofisticado sistema de som, com um único megafone dependurado à porta. Era a costumeira versão de Charles Gounod:

– Ave Maria, Gratia plena

Como que atraído por aquele triste lamento, meu vizinho também sai, mas à rua. Joga algo na lixeira, volta, recosta-se no portão.

– Dominus tecum, Benedicta tu

Volto toda minha atenção para ele que, agora, acocorado, perde-se em algum íntimo devaneio, olhando sem ver a densa mata que se ergue frente às nossas casas.

– In mulieribus, Et benedictus

Não posso deixar de pensar que, de algum modo, assim como eu, com esse ambiente, com essa música, também nele se fez vibrar alguma dissonante nota de tristeza dentro d’alma.

– Fructus Ventris tui, Jesus

E, não sei o porquê, talvez me atentando ao silêncio reinante dentro de minha própria casa, lembrei-me de seu filho, pouco mais que um adolescente e que faleceu há pouco tempo. Pouco mais de um ano, ou anos, creio eu.

– Sancta Maria, Sancta Maria, Maria

E me veio um aperto no coração, um aperto do tipo que se sente quando o mundo se distorce, retorce e contorce ao seu redor. Quando algo está extremamente errado e não necessariamente conseguimos entender o que é. Sequer sei se é sobre isso que ele devaneia, mas ao vê-lo, ali, aquele pai que sobreviveu ao filho, de um certo modo sua dor se torna minha dor. Seu lamento se torna meu lamento.

– Ora pro nobis, Nobis peccatoribus

Ainda me lembro do dia em que o garoto faleceu. Alguma espécie de leucemia descoberta tarde demais, se não me engano. Lembro-me claramente dos gritos desesperados de sua irmã naquela madrugada em que se foi, quando recebeu a notícia de sua partida. Gritos somente suplantados pelos da própria mãe. Mas dele, do pai, não me lembro sequer de um som. Talvez não estivesse lá. Mas talvez estivesse sofrendo, como agora, em silêncio.

– Nunc et in hora mortis, Hora mortis nostrae, Amen

E, cá no meu canto, comungo com ele uma silenciosa oração por aquele menino que tão cedo se foi. Apenas uma solitária lágrima rola por minha face, ainda que meus olhos estejam completamente marejados. E, talvez egoisticamente até, sinto uma enorme saudade de minhas crianças e da algazarra que normalmente preenche este lar e este coração vazios.

– Amen.