“Suave é viver só”

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

Pérolas da Cultura Inútil

Afinal, quem era o vigário?

Conto do vigário é sinônimo de golpe. Mas que conto é esse? Que vigário é esse? Segundo a historiadora Denise Lotufo, tudo começou em Ouro Preto, no século 18. Dois padres disputavam uma imagem de Nossa Senhora. Um deles, da igreja do Pilar, sugeriu que amarrassem a santa a um burro. A direção que ele tomasse selaria o destino da imagem. O bicho foi para Pilar. O padre só não contou que o burro era dele. Vem daí a palavra “vigarista”.

“Fiat Lux”

Já contei este causo antes aqui.

Mas não custa relembrar…

Quando eu era adolescente (tá, mais criança que adolescente) me deparei com um texto que já tinha um “cheiro” de antigo, de autor desconhecido, mas que me cativou na primeira leitura. Eu o copiei num caderno e reiteradamente através dos anos o reescrevi e guardei, pois prometi para mim mesmo que quando tivesse um filho faria um quadro com esse texto e o colocaria na parede. Levou mais de quinze anos desde essa “descoberta” até a vinda de meu primeiro rebento – mas cumpri minha promessa! Fiz o quadro nas primeiras semanas de vida de meu filhote mais velho – e ele perdura na parede até hoje. O texto é o seguinte:

O que é um menino?

Os meninos se apresentam em tamanho, peso e cores sortidas. Encontram-se por toda a parte, em cima, embaixo, dentro, fora, trepados, pendurados, caindo, correndo, saltando. As mães os adoram, as meninas os detestam, as irmãs e os irmãos mais velhos os toleram, os adultos os ignoram e o Céu os protege. Um menino é a verdade de cara suja, a sabedoria de cabelo esgadelhado, a esperança de calças caindo. Tem o apetite do cavalo, a digestão do avestruz, a energia da bomba atômica, a curiosidade do mico, os pulmões de um ditador, a imaginação de Júlio Verne, a timidez da violeta, a audácia da mola, o entusiasmo do buscapé e tem cinco polidáctilos em cada mão, quando pratica suas reinações. Adora os doces, os canivetes, as serras, o Natal e a Páscoa; admira os reis e os livros de figuras coloridas; gosta do guri do vizinho, do ar livre, da água, dos animais grandes, do papai, dos automóveis e dos trens, dos domingos, das bombas e traques. Abomina as visitas, o catecismo, a escola, os livros sem figuras, as lições de música, as gravatas, os casacos, os barbeiros, as meninas, os adultos e a hora de dormir.

Levanta cedo e está sempre atrasado à hora das refeições. Nos seus bolsos há sempre um canivete enferrujado, uma fruta verde mordida, um pedaço de barbante, dois botões e algumas bolinhas de gude, um estilingue, um pedaço de substância desconhecida e um objeto raro, que lhe é precioso por 24 horas. É uma criatura mágica. Você pode fechar-lhe a porta do seu quarto de ferramentas mas não a do seu coração… Pode expulsá-lo do seu escritório mas não do seu pensamento. Toda a sua importância e a sua autoridade se desmoronam diante dele, que é o seu carcereiro, seu chefe, seu amo… Ele, um despótico e ruidoso mandãozinho!… Mas quando você volta para casa, à noite, de esperanças e ambições despedaçadas, ele pode compô-las num instante com as suas palavrinhas mágicas: “OH! – PAPAI!”.