As Três Ilhoas

Marta Amato
Foi quem pesquisou a ascendência açoriana das irmãs.
Já a descendência foi pesquisada pelo falecido genealogista
Dr. José Guimarães por 50 anos e ampliada
por vários outros pesquisadores.)

Desde o início de 1720, a imigração açoriana se fez notar no Brasil meridional, principalmente nas Províncias de Minas Gerais e São Paulo. A densidade populacional e os constantes tremores de terra, erupções vulcânicas e as crises alimentares com a super-população das ilhas que formam o Arquipélago dos Açores, impulsionou os habitantes a solicitar à Coroa portuguesa autorização para a vinda para o Brasil.

Diante da possibilidade de povoar a nova colônia (onde a maioria dos habitantes era de aventureiros e homens solteiros que vieram em busca das minas de ouro e diamantes), com casais que iam fixar-se na terra, o Governo português autorizou a emigração.

As famílias foram chegando e estabeleceram-se principalmente na Província de São Paulo, que compreendia a Ilha de Santa Catarina (depois Capitania de Santa Catarina, hoje Estado de Santa Catarina), o Rio Grande de São Pedro (hoje, Estado do Rio Grande do Sul), e no sul da Província de Minas Gerais.

Vieram das ilhas do Pico, Santa Maria, Terceira, Faial, Flores, Graciosa, São Miguel, e muitos da Ilha da Madeira.

Dificilmente algum habitante dessa parte do Brasil deixa de ter antepassados com os nomes Goularte, Duarte, Garcia, Faria, Fagundes, Leal, Silveira, Rezende e assim por diante.

Aqui foram desbravadores, povoadores e fundadores de cidades.

A grande maioria dedicou-se à cultura de subsistência (milho, feijão, algodão, cana de açúcar) e criação de gado e tropa cavalar, numa época em que a fome era uma constante nas minas de ouro.

Deixaram suas marcas e seus costumes por onde passaram. Ainda hoje, acontecem festas populares e religiosas com o sabor dos Açores. As mulheres ainda tecem as rendas e bordam, como suas antepassadas. A hospitalidade açoriana é notada, principalmente em Minas Gerais, com a farta mesa de pães, biscoitos, queijos e doces para os que chegam.

Ainda em Minas Gerais, encontramos três irmãs que se tornaram figuras lendárias: Antonia da Graça, Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus, que aqui ficaram conhecidas como “AS TRÊS ILHOAS”. Eram filhas de Manuel Gonçalves Correa e de Maria Nunes, vieram da Freguesia de Nossa Senhora das Angústias, na Ilha do Faial – Açores, e chegaram no ano de 1723. Antonia veio casada com Manuel Gonçalves da Fonseca e já com duas filhas: Maria Teresa e Catarina; Júlia e Helena casaram-se aqui, com açorianos. A primeira, com seu conterrâneo Diogo Garcia, e a segunda, com João de Rezende Costa natural da Ilha de Santa Maria. Tiveram muitos filhos e seus descendentes espalharam-se pelos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Paraná, enfim por quase todo o centro-oeste brasileiro.

Falar sobre “AS TRÊS ILHOAS”, equivale a descrever uma grande genealogia.

Ascendência Açoriana das Lendárias “Três Ilhoas”

No dia 27 de junho de 1666, na Freguesia de Nossa Senhora das Angústias, na Ilha do Faial (Açores), casam-se JOÃO LOURENÇO ou NUNES, filho de MANOEL LOURENÇO e de AGUEDA NUNES, com MADALENA GEORGE, filha de GASPAR GEORGE e de CATARINA GEORGE, sendo os pais dos noivos já falecidos. (Livro 1º de casamentos – 15/1/1666 a 25/3/1694, pag. 1, 2º assento). Não achei o óbito de João Nunes (provavelmente falecido em outra freguesia), mas foi entre 1675 e 1677, pois no dia 1º de novembro de 1677, Madalena George, viúva, contraiu matrimônio com MANOEL RODRIGUES FURTADO, falecido aos 17 de novembro de 1719 com mais ou menos 68 anos, filho de Manoel Rodrigues e de Catarina Duarte. Madalena George faleceu no dia 1º de junho de 1722, com 80 anos, com testamento, onde declara que foi testamenteira de seu 1º marido.

JOÃO NUNES e MADALENA GEORGE tiveram 4 filhos:

1.1

MARIA NUNES, batizada aos 24 de abril de 1667 na Freguesia de Nossa Senhora das Angústias e faleceu no Brasil, aos 5 de janeiro de 1742 na vila de Prados, Minas Gerais. Casou-se na mesma localidade onde nasceu, aos 22 de julho de 1685, com MANOEL GONÇALVES CORRÊA apelidado “o Burgão”, natural da Freguesia do Espírito Santo da Feiteira (Faial), filho de JOÃO GONÇALVES e de IGNES CORRÊA. Tiveram 5 filhos, dos quais 4 deixaram descendência. Foram 1 homem e 3 mulheres, estas vieram para o Brasil, onde ficaram conhecidas como “AS TRÊS ILHOAS”. Acredito que tenham vindo com destino certo, pois aqui encontraram Diogo Garcia, conterrâneo e aparentado com a família pelo casamento de sua sobrinha Anna Maria, filha de Maria da Ressurreição com Antonio Nunes, irmão das Três Ilhoas. Filhos:

2.1

ANTONIA DA GRAÇA ou DE AGUIAR (como aparece no assento de seu casamento e batismo de sua 1ª filha), foi batizada aos 21 de fevereiro de 1687 (padrinhos o Capitão Antonio Machado e Maria Rodrigues) e crismada em dezembro de 1696 (tendo como madrinha Luzia Rodrigues, mulher de Matheus Gonçalves). Casou-se aos 7 de fevereiro de 1706 com MANOEL GONÇALVES DA FONSECA, natural da Freguesia de Nossa Senhora das Angústias, filho de FRANCISCO RODRIGUES DA FONSECA e de BARBARA GARCIA (não achei o batismo dele, mas encontrei o casamento de seus pais aos 5 de fevereiro de 1673, sendo o noivo viúvo de Francisca Alvernas, e a noiva filha de Mathias Gonçalves e de Barbara Garcia). Tiveram 3 filhos nascidos no Faial e 1 no Brasil:

3.1

MARIA TERESA DE JESUS, nascida aos 8 de julho de 1714 e batizada aos 14 do mesmo mês e ano. Casou-se 1a vez em fevereiro de 1728, em São João del Rei – MG – Brasil, com o português INÁCIO FRANCO, e 2a vez, na mesma localidade, aos 4 de fevereiro de 1746 com BENTO RABELO DE CARVALHO, nascido aos 29 de janeiro de 1717 e batizado aos 7 de fevereiro do mesmo ano, na Freguesia de São Nicolau, Cabeceiras de Basto, filho de João de Oliveira e de Maria Gonçalves, ela, do lugar de Gondarem (casado s aos 3 de setembro de 1714 na mesma freguesia); n.p. Antonio de Oliveira e Catarina Dias, n.m. João de Carvalho e Maria Gonçalves. Maria Teresa deixou grande geração dos dois casamentos.

3.2

MANOEL GONÇALVES DA FONSECA, nascido aos 10 de fevereiro de 1719, batizado aos 16 e falecido aos 17 do mesmo mês e ano.

3.3

CATARINA DE SÃO JOSÉ, nascida aos 25 de agosto de 1721, batizada aos 29 do mesmo mês e ano e falecida aos 30 de julho de 1787 em São João del Rei-MG. Casou-se aos 15 de janeiro de 1737, em Prados-MG, com CAETANO DE CARVALHO DUARTE, filho de João de Carvalho e de Domingas Duarte. Catarina veio para o Brasil com 2 anos de idade, sendo assim confirmada a data aproximada de 1723 como a da vinda das Três Ilhoas.

3.4

JOSÉ GONÇALVES DA FONSECA, nascido em São João del Rei, Minas Gerais-Brasil, casou-se com Teresa Gomes da Rocha, natural de Barbacena-MG, filha de Manoel Gomes Batista e de Maria Gonçalves da Rocha.

2.2

JOSÉ NUNES, filho de Manoel Gonçalves e Maria Nunes, batizado aos 14 de setembro de 1689 e falecido aos 8 de agosto de 1711.

2.3

ANTONIO NUNES – “PILOTO”, batizado aos 12 de julho de 1692 e falecido aos 22 de julho de 1747, na Freguesia de Nossa Senhora das Angústias, onde casou-se aos 10 de outubro de 1717 com ANNA MARIA DA SILVEIRA, falecida aos 5 de dezembro de 1753, filha de PASCOAL SILVEIRA e de MARIA DA RESSURREIÇÃO, esta batizada aos 5 de abril de 1676, filha de MATHEUS LUÍS e de ANNA GARCIA, e irmã de DIOGO GARCIA, que casou-se com JÚLIA MARIA DA CARIDADE. Pascoal Silveira mandou sepultar seu sogro, MATHEUS LUÍS. Antonio e Anna Maria tiveram:

3.1

CATARINA MARIA EUSÉBIA, batizada aos 7 de maio de 1717, falecida aos 30 de janeiro de 1750, casou-se aos 9 de outubro de 1741 com o Piloto MANOEL CORRÊA DE FRAGA, filho de João de Fraga e de Felícia da Luz.

3.2

ANNA, batizada aos 20 de novembro de 1720 e falecida aos 25 de julho de 1724.

3.3

ANTONIO, batizado aos 11 de setembro de 1723.

3.4

ANTONIO, batizado aos 25 de agosto de 1725.

3.5

ANNA, nascida cerca de 1729 e falecida solteira, aos 10 de agosto de 1750.

3.6

ROSA ELISA, batizada aos 24 de março de 1730, casou-se aos 5 de janeiro de 1753 com Antonio Francisco de Castro, filho de Manoel Francisco de Castro e de Maria de Faria.

2.4

JÚLIA MARIA DA CARIDADE, nascida aos 8 de fevereiro de 1707 e batizada aos 12 do mesmo mês e ano. Casou-se aos 29 de junho de 1724 em São João del Rei – MG, com DIOGO GARCIA, batizado aos 13 de março de 1690, na Freguesia de Nossa das Angústias, filho de MATHEUS LUÍS e de ANNA GARCIA.

2.5

HELENA MARIA DE JESUS, nascida aos 15 de janeiro de 1710 e batizada aos 19 do mesmo mês e ano. Casou-se aos 3 de outubro de 1726 em Prados – MG, com JOÃO DE REZENDE COSTA, natural da Freguesia de Nossa Senhora da Assunção de Vila do Porto, Ilha de Santa Maria (Açores), filho de de Rezende e de Ana da Costa.

1.2

CATARINA, filha de João Nunes e Madalena George, batizada aos 15 de janeiro de 1670, sem mais notícias.

1.3

MANOEL LOURENÇO- PILOTO, batizado no dia 1 de e 1672, casou-se aos 29 de agosto de 1697 com BARBARA DUARTE, falecida aos 2 de junho de 1704 com 30 anos e já viúva, filha de João Garcia – mareante e de Catarina Duarte. Teve que descobri:

2.1

LOURENÇO, nascido aos 6 e batizado aos 12 de agosto de 1699, tendo por padrinhos Manoel Rodrigues Duarte, filho de Diogo Rodrigues e de Barbara Duarte e Luzia de São Pedro, filha de Manoel Rodrigues e de Madalena George ( a avó paterna e seu 2º marido).

1.4

ANTONIO, último filho de João Nunes, foi batizado aos 4 de fevereiro de 1675, sem mais notícias.

Do 2º casamento com Manoel Rodrigues Furtado, teve Madalena George as 3 filhas seguintes:

1 – FRANCISCA, batizada aos 9 de março de 1679.

2 – LUZIA DE SÃO PEDRO, batizada aos 30 de junho de 1681, falecida aos 20 de outubro de 1703. Casou-se aos 23 de janeiro de 1701 com MANOEL FERNANDES LUÍS, filho de Luís Fernandes e de Aldonça Martins. Filha que descobri:

Antonia, nascida aos 18 e batizada aos 23 de outubro de 1701.

3 – FRANCISCA, batizada aos 26 de dezembro de 1683.

Os fantásticos mundos de Robert E. Howard – XI

A História por trás da História

Vou confessar: esta é uma história que há mais de uma década eu vinha tendo vontade de fazer.

Durante meu primeiro período como escritor das histórias do Conan na Marvel, de 1970 a 1981, concebi a idéia de combinar Conan e seu criador, Robert E. Howard, numa única história. Desde então, de tempos em tempos, eu costumava imaginar um roteiro.

Num certo sentido, eu e Barry Smith escrevemos uma história para a Marvel que pode ser considerada a predecessora de “Bárbaros da Fronteira”. A história, de sete páginas – publicada na revista CHAMBER OF DARKNESS nº 4 no início de 70 -, foi chamada, apropriadamente, de “The Sword and the Sorcerer”, (A Espada e o Feiticeiro) e falava de um guerreiro semelhante a Conan, chamado Starr – the Slayer, que se aventurava no século XX para executar seu criador, um escritor de fantasia que planejava “matar” o seu personagem em sua próxima história.

Mesmo assim, com o passar dos anos, minha vontade de fazer uma aventura com Howard e Conan continuou aumentando, e prometi a mim mesmo que, tão logo tivéssemos terminado de adaptar todas as histórias de Howard/De Camp/Carter na SAVAGE SWORD (Espada Selvagem), eu faria isso.

Porém, uma vez chegada a ocasião, acabei não fazendo isso. E, em retrospecto, estou contente por não ter feito.

Isso porque, na década de 80, a criação de Conan por Howard foi colocada numa perspectiva mais ampla por livros como Dark Valley Destiny (biografia de Robert E. Howard escrita por De Camp/Griffin e publicada em 1983), One Who Walked Alone (de 1985; as memórias de Howard escritas por Novalyne Price Ellis, que o conheceu nos últimos anos de sua breve vida) e Post Oaks and Sand Roughs (de 1990; uma autobiografia ligeiramente romanceada que Howard escreveu em 1928 e que antecede a concepção de Conan em vários anos).

A principal fonte de inspiração para “Bárbaros da Fronteira”, porém, foi um punhado de cartas que o próprio Robert Ervin Howard escreveu a diversos correspondentes (inclusive os escritores de histórias de horror H. P. Lovecraft e Clark Ashton Smith) a respeito da gênese do Cimério. Essas e outras cartas do escritor foram reunidas, compiladas e publicadas geralmente sob os auspícios de Glenn Lord, cuja bibliografia, The Last Celt, também teve influência nesta história.

A idéia era combinar uma história de Conan com a sua criação, em 1932, por Robert E. Howard – e, como um terceiro elemento, uma “aventura” acontecendo com o próprio Howard, que iria se descobrir, no final, ser uma fantasia, tanto quanto o próprio Conan. Na verdade, se, no final da história, você não souber ao certo qual dos dois – Howard ou Conan – é o mais literalmente “real”, isso também está ótimo.

Mas, como muitos leitores podem estar interessados, achamos que devíamos esclarecer precisamente que partes do episódio com Howard em “Bárbaros da Fronteira” são baseadas no que ele afirmou ter realmente acontecido e que partes são pura invenção. Portanto, aqui vai…

No início de 1932, Howard, que completara 26 anos em 22 de janeiro, estava já há vários anos vendendo histórias para as revistas pulp da época (revistas de capa mole e papel barato que reuniam contos diversos, às vezes acompanhados de algumas ilustrações). O Rei Kull, Salomão Kane, El Borak, Bran Mak Morn e outros heróis, modernos e históricos (e, no caso de Kull, pseudo-histórico), já haviam fluído de sua máquina de escrever na pequena cidade de Cross Plains, Texas, ao lado da rodovia para Abilene. Entre suas principais influências – alguns nomes ainda lembrados até hoje, outros quase esquecidos – estavam Edgar Rice Burroughs, H. P. Lovecraft, Talbot Mundy, Harold Lamb, Robert W. Chambers e H. Rider Haggard.

Porém, no inicio de 1932, como o próprio Howard escreveria depois, “eu estava absolutamente vazio de idéias, completamente incapaz de criar alguma coisa vendável”. Após ter decidido, em fevereiro, que precisava de umas férias longe da sua cidade, o escritor fez uma viagem de ônibus ao sul, para San Antonio e o Vale do Rio Grande, chegando inclusive à cidade fronteiriça de Rio Grande, a meio caminho entre Laredo e a cidade costeira de Brownsville.

Howard considerou San Antonio “sem dúvida, a cidade mais interessante e pitoresca do Texas, possivelmente de todo o sudoeste”. Ali, como escreveu depois, “conheci por alto um indiano que havia passado a maior parte de sua vida na China”.

Ele não revelou o nome do homem em suas cartas, nem (ao contrário da nossa história) mencionou que ele estivesse no ônibus que partiu de San Antonio em direção ao sul. Nós inventamos isso!

Howard era dado a inventar histórias, tanto pessoalmente quanto em suas cartas. Mas, neste caso, provavelmente estava contando a verdade quando disse que o homem relatou a ele muitas “torturas do Oriente” e como havia visto “centenas de comunistas chineses decapitados nas ruas”. Howard escreveu a Lovecraft: que “só de imaginar tal evento fiquei nauseado”.

Em sua viagem, Howard desceu o Vale do Rio Grande até a cidade de Rio Grande, na fronteira mexicana (o rio em si faz fronteira entre os EUA e o México).

No livro Dark Valley Destiny, os autores contam que, em algum lugar no caminho, provavelmente na cidade de Rio Grande, Howard “substituiu seu boné de pano habitual por um enorme sombrero preto mexicano”, que era pelo menos um número grande demais. Um conhecido de Cross Plains, entrevistado anos depois, relatou: “Deus, aquela coisa engolia ele!”.

Foi enquanto Howard estava apreciando tortillas e vinho espanhol que… bem, vamos deixá-lo contar em suas próprias palavras: “Conan simplesmente surgiu em minha mente alguns anos atrás, quando eu estava fazendo uma parada numa pequena cidade fronteiriça na parte baixa do Rio Grande. Eu não o criei por nenhum processo consciente. Ele simplesmente surgiu do nada, totalmente desenvolvido, e me pôs para trabalhar registrando suas aventuras”.

Ao retornar à casa de seus pais em Cross Plains, Howard logo criou uma biografia geral, e até o rascunho de um mapa do mundo imaginário de seu novo herói, antes de começar a escrever a primeira história a seu respeito. Assim nasceu “A Era Hiboriana”, o ensaio que formou o substrato pseudo-histórico de toda a saga de Conan.

Desde o início, Howard de alguma forma sentiu que Conan era mais “real” para ele do que seus heróis anteriores. Como escreveu depois: “Pode soar fantástico ligar o termo ‘realismo’ a Conan, mas na verdade – deixando de lado suas aventuras sobrenaturais – ele é o personagem mais verossímil que já elaborei. É simplesmente uma combinação de diversos homens que conheci, e acho que é por isso que ele parece ter surgido totalmente desenvolvido na minha consciência quando escrevi o primeiro conto da série. Algum mecanismo do meu subconsciente apreendeu características dominantes de diversos lutadores, jogadores, pistoleiros, contrabandistas, valentões de campos de petróleo e trabahadores honestos com quem eu havia entrado em contato e, combinando todas essas características, surgiu o amálgama que chamo de Conan, o Cimério”.

Howard também relatou: durante semanas não fiz nada exceto escrever as aventuras de Conan. O personagem tomou minha mente e expulsou tudo o que pudesse me impedir de contar suas histórias. Quando, deliberadamente, tentei escrever outra coisa, não consegui.

O mapa que Howard desenhou ajudou-o a manter sua geografia da Era Hiboriana em ordem – pelo menos “dos países a oeste de Vilayet e ao norte de Kush”.

Embora a primeira história de Conan a ser vendida para Weird Tales (“The Phoenix on the Sword”) apresente seu herói já como rei, Howard começou logo a saltar aleatoriamente pela vida que havia mapeado mentalmente para seu novo personagem. Afinal, como Howard afirmou: “Um aventureiro normal contando ao acaso histórias de uma vida movimentada raramente segue um plano ordenado, mas, sim, narra episódios largamente separados no tempo e no espaço à medida que vai se lembrando”.

Na verdade, “The Phoenix on the Sword” foi uma versão meticulosamente reescrita de “By This Axe I Rule”, uma história rejeitada do Rei Kull. Mas Howard deu continuidade à saga quase imediatamente, com outras histórias de Conan totalmente novas, inclusive “The Frost Giant’s Daughter”, “The God in the Bowl” e “The Vale of Lost Women” – e todas as três foram rejeitadas na época pelo editor da Weird Tales e só foram publicadas anos depois da morte do escritor!

Contudo, dezessete histórias de Conan foram vendidas e publicadas entre 1932 e 1936, enquanto oito outras – não vendidas ou até inacabadas – foram deixadas para De Camp, Lord e outros descobrirem quase uma geração depois.

Quanto à questão de Robert E. Howard ter ou não fantasiado uma aventura consigo mesmo… bem, temos a palavra de pessoas que o conheceram e afirmam que ele frequentemente parecia imaginar inimigos de tocaia atrás de cada esquina. Uma vez, conduzindo um visitante, Howard parou subitamente o carro, pegou sua arma e saltou fora para inspecionar um rochedo à sua frente – explicando depois que queria ter certeza de que nenhum inimigo seu estava se escondendo atrás da pedra esperando para emboscá-los. Ele provavelmente estava apenas brincando com o amigo. Ainda assim, como August Derleth, escritor e correspondente de Howard declarou, “ele vivia num mundo que era pelo menos quase de faz-de-conta”.

Sem dúvida, a viagem de Howard para o sul do Texas, mesmo considerando o encontro pitoresco com aquele indiano, foi relativamente desprovida de acontecimentos, se não levarmos em conta a aventura interior que foi a criação de Conan. Mas Howard poderia não tê-la visto dessa maneira.

Além dos fatos objetivos da criação de Conan numa cidade fronteiriça em fevereiro de 1932, foi um trecho de uma carta escrita por Howard em 1931 que plantou em mim a idéia da história desta edição. Escrevendo a um amigo, Howard opinou que “nove vezes em dez uma arma não vai servir para nada no caso de uma encrenca. No caso de um assalto, normalmente o outro sujeito terá a vantagem da surpresa. Mas sempre existe uma chance da arma poder ser útil”.

Ele continuou: “Certa vez, à meia-noite, numa cidadezinha na divisa de Oklahoma, eu teria dado um dente por um trabuco de algum tipo”.

Essa frase ficou na minha cabeça por todos esses anos, desde que a vi pela primeira vez, impressa nas páginas de The Howard Collector, uma publicação especializada editada por Lord.

Se ele suspeitava de perigo na divisa entre o Texas e Oklahoma, raciocinei, por que não sentiria o mesmo na atmosfera muito mais hostil de uma cidade na fronteira mexicana?

Assim nasceu “Bárbaros da Fronteira”, e deixo aqui meus agradecimentos a Mike Rockwitz, à Marvel e aos artistas John Buscema e Ernie Chan por me darem a chance de finalmente ver esse trabalho realizado após todos esses anos.


Roy Thomas

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Os fantásticos mundos de Robert E. Howard – X

O criador de bárbaros

Por Glenn Lord, agente literário do espóliio de Robert E. Howard.

Aquele que viria a ser o criador de Conan, Robert Ervin Howard, nasceu no dia 22 de janeiro de 1906 em Peaster, Texas, um pequeno vilarejo cerca de setenta quilômetros a sudoeste de Fort Worth. O pai, um médico do interior, fez a família se mudar por todo o Texas durante anos até finalmente se estabelecer em Cross Plains, uma cidadezinha no Texas Central, em 1919.

Quando ainda estava no colégio, o jovem Robert começou a redigir contos para tentar vender às revistas da época. Uma lista cronológica de seus trabalhos numa carta a um amigo, escrita por volta de 1929, indica que a primeira história oferecida foi “Bill Smalley and The Power of the Human Eye”, rejeitada por duas editoras em 1921. Howard conseguiu sua primeira venda em 1924, quando a revista Weird Tales aceitou “Spear and Fang”, um conto sobre cro-magnons e neandertais comprado por 18 dólares, pagos quando a história foi publicada.

Robert arrumou vários tipos de emprego depois de se formar no colegial, pois seus escritos rendiam muito pouco. Trabalhou num escritório de advocacia como secretário particular, carregou mira topográfica para um geólogo, escreveu notícias dos campos de petróleo para diversos jornais, trabalhou como estenógrafo público e finalmente numa drogaria. No outono de 1926, desanimado com sua falta de sucesso como escritor, matriculou-se num curso de contabilidade na Howard Payne College, em Brownwood.

Logo, porém, Howard estava escrevendo peças humorísticas para The Yellow Jacket, o jornal da faculdade, e novamente apresentando histórias a diversos compradores em potencial, conseguindo vender algumas para a Weird Tales. Na lista de histórias rejeitadas durante esse período, podemos apenas conjecturar quais os temas por trás dos títulos, já que os manuscritos aparentemente não sobreviveram: “The Valley of the Golden Web” (O Vale da Teia Dourada), “Sanctuary of the Sun” (Santuário do Sol), “The Crimson Line” (A Linha Escarlate), “Vulture’s Roost” (O Ninho do Abutre), “Windigo! Windigo!”.

Salomão Kane, o severo espadachim justiceiro e puritano, foi o primeiro de uma série de personagens a serem publicados (1928). O ano seguinte viu o advento de Kull, o selvagem atlante que toma o trono da fabulosa Valúsia na Era Pré-Cataclísmica – isto é, antes da Atlântida afundar. Muitas das histórias de Kull, porém, não encontraram mercado até serem coletadas em forma de livro em 1967.

Em 1930, Howard tinha se tornado uma presença regular em Weird Tales e já havia chegado à revista Fight Stories com suas histórias humorísticas sobre o marinheiro Steve Costigan. Mais para o fim daquele ano, ele escreveria uma série de contos históricos de aventura para a Oriental Stories, uma revista que teve pouca duração, editada pela mesma companhia que fazia a Weird Tales.

A Grande Depressão, como não podia deixar de ser, teve seu efeito deletério na indústria editorial. Durante algum tempo, Weird Tales reduziu sua frequência de mensal para bimestral e, mesmo depois de voltar à sua programação mensal, a revista não conseguia mais pagar seus colaboradores. Oriental Stories foi suspensa em abril de 1932 e só voltaria às bancas em 1936.

Forçado a procurar novos mercados, Howard experimentou histórias de detetives, com poucos resultados, e mais tarde admitiria que não se dava bem com esse gênero. Por outro lado, depois de alguns fracassos iniciais, encontrou sucesso no faroeste e teve histórias desse gênero publicadas na revista Action Stories, de 1934 até depois de sua morte, em 1936.

A edição de novembro de 1932 da Weird Tales apresentou outro personagem conhecido, Bran Mak Morn, o chefe picto cujas batalhas com as legiões romanas na Britânia se tornaram muito populares.

A edição do mês seguinte, contudo, revelou um herói que logo iria sobrepujar todos os outros e seria de longe o seu personagem mais famoso: Conan, o Cimério. A primeira história de Conan, “The Phoenix on the Sword”, era na verdade uma nova versão de uma história rejeitada de Kull, chamada “By This Axe I Rule!”.

O mundo e a carreira de Conan são bem conhecidos pelos leitores: ele progrediu de aventureiro, ladrão, pirata e mercenário até chegar ao trono da Aquilônia na Era Hiboriana, um período mítico cerca de 12.000 anos atrás, entre o desaparecimento da Atlântida e o início da história registrada.

De 1932 a 1936, a Weird Tales apresentou dezessete contos de Conan. Em 1936, Howard atravessava uma excelente fase, vendendo histórias de diferentes gêneros para a Weird Tales e Action Stories, para alguns títulos da editora Street & Smith e para a revista Spicy Adventures Stories (aqui, contos mais picantes, escritos sob pseudônimo).

Todavia, as cartas de Howard a seus correspondentes indicavam sua crescente preocupação com o estado de saúde de sua mãe. Em 1935, a sra. Howard havia sofrido uma cirurgia no King’s Daughters Hospital, em Temple, Texas, e nunca mais recuperou a saúde. Dali em diante, iria exigir visitas periódicas e cuidados intensivos de enfermagem.

Na manhã do dia 11 de junho de 1936, a enfermeira responsável respondeu negativamente quando Robert perguntou se sua mãe algum dia sairia do coma em que se encontrava. Ao ouvir a resposta, ele caminhou até seu carro, estacionado no fundo de sua casa nos subúrbios de Cross Plains, entrou e disparou uma bala na cabeça.

Howard morreu oito horas depois. A sra. Howard expirou cerca de trinta horas mais tarde. Os dois foram sepultados num funeral duplo no Greenleaf Memorial Cemetery, em Brownwood.


Glenn Lord

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Os fantásticos mundos de Robert E. Howard – IX

O Tigre da Atlântida

A história publicada em ESC (Espada Selvagem de Conan) nº 73 é a “origem” do Rei Kull, a qual foi publicada originariamente no primeiro número da revista do personagem nos EUA, em 1971. Nela, Roy Thomas condensa, através de flash-backs, o conto Exiles of Atlantis, de Robert E. Howard, e introduz Brule, o bárbaro das ilhas Pictas que se torna o melhor amigo do rei.

A lenda de Kull ganhou vida em agosto de 1929, quando a revista Weird Tales publicou o primeiro conto do personagem, The Shadow Kingdom. A ação se desenvolvia na era pré-Cataclísmica, aproximadamente há 20 mil anos, narrando a história de Kull, um bárbaro criado por tigres nas florestas de Atlântida, e sua luta para defender o trono que usurpou em Valúsia, maior reino do continente thuriano.

Howard pode ter sido inspirado a escrever sua fantasia heróica baseado em reinos exóticos de eras esquecidas por seu amigo Clark Ashton Smith, que publicou em junho de 1930, em Weird Tales, a primeira de uma série de histórias sobre Atlântida. Smith, Howard e H. P. Lovecraft, os principais escritores de Weird Tales, tinham o costume de trocar manuscritos originais para considerações entre si.

Ao todo, Howard escreveu ou começou a escrever treze narrativas sobre o mundo de Kull. Mas apenas duas acabaram sendo publicadas em Weird Tales. Somente 30 anos após a morte do autor, as demais histórias foram descobertas e publicadas, revelando que o primeiro conto de Conan não passava de uma adaptação de uma história de Kull, com os nomes dos personagens alterados.

De todo modo, The Shadow Kingdom tornou-se um marco para os estudiosos, consagrando-se como a configuração do gênero Sword and Sorcery (espada e feitiçaria). Howard reuniu três estilos numa única embalagem: os resplandescentes reinos de magia esquecidos de Clark Ashton Smith, o horror e o mal pré-humano de H. P. Lovecraft, e o heroísmo de capa-e-espada, de Harold Lamb, Rafael Sabatini e Talbot Mundy.

Quatro anos depois de escrever as histórias de Kull, Howard chegou ao ápice de sua conjuração literária de guerreiros bárbaros, princesas exóticas, bandidos sanguinários em reinos imaginários, repletos de cidades em ruínas, campos de batalhas épicas, feitiçaria e maldade ancestral, numa história chamada The Phoenix on the Sword. O herói da história se chamava Conan.


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Os fantásticos mundos de Robert E. Howard – VIII

A Era Hiboriana

Este quadro cronológico da Era Hiboriana é o resultado de uma minuciosa pesquisa do americano Mike McCoy que abrange, com detalhes, povos, sociedades e religiões da era bárbara. Sem dúvida, é uma contribuição de grande valor para nos situarmos na fascinante criação de Robert E.Howard.

18.000 a.C. – Era Pré-cataclísmica.

17.800 a.C. – Primeiro cataclismo. As ilhas da Atlântida e Lemúria afundam, as ilhas pictas se tornam montanhas, o povo lemuriano é escravizado pela “Antiga Raça”.

17.500 a.C. – Os atlantes regridem à selvageria: A evolução picta é estagnada. Zhemri, uma nação não-valusiana, progride ao sul, ilesa.

16.800 a.C. – Atlantes regridem ao nomadismo dos homens-macacos, desprovidos da linguagem humana. Pictos mantêm linguagem humana e vivem em clãs dispersos no sudoeste.

16.600 a.C. – Os lemurianos se rebelam e derrotam seu escravizadores, a “Antiga Raça”.

16.500 a.C. – Os sobreviventes da “Antiga Raça” se deslocam para o oeste e encontram uma civilização pré-humana. Os hiborianos do norte crescem em população.

16.200 a.C. – Os sobreviventes da “Antiga Raça” dominam a civilização pré-humana, substituem e modificam sua cultura. É o início dos Reinos Negros.

16.000 a.C. – A Stygia é formada pelos sobreviventes da “Antiga Raça”.

15.800 a.C. – Os hiborianos começam a se deslocar para o sul.

15.500 a.C. – Acheron é formada por estígios rebeldes. Zhemri inicia a restauração de sua antiga cultura. Os pictos se deslocam para o oeste para fazer a expansão hiboriana e a de Acheron. Atlantes-símios começam a se deslocar para o norte. Selvagens nômades, os filhos de Shem seguem para a fronteira leste da Stygia. Primeiras construções hiborianas com pedra.

15.400 a.C. – Hiperbórea passa a existir. Guerras isolam os Reinos Negros.

15.000 a.C. – Zamora é fundada por descendentes dos zhemris. Khitai é fundada por descendentes dos lemurianos. Pictos são empurrados para a Costa Oeste. A Stygia domina as planícies de Shem. A maioria dos reinos hiborianos começa a tomar forma.

14.400 a.C. – Atlantes começam um estágio de desenvolvimento a partir do qual passam a ser denominados cimérios. Koth é formada por hiborianos dispersos.

14.300 a.C. – Acheron permite o avanço de hiborianos dispersos para atacar a Stygia e conquistar as planícies de Shem. A Hiperbórea é dominada, mas seu nome é mantido. Kush passa a existir como resultado de uma guerra de meio século entre tribos negras.

14.200 a.C. – Uma tribo picta invade o Vale de Zingg. Selvagens loiros do norte iniciam deslocamento ainda mais para o norte.

14.100 a.C. – Zíngara é formada por uma tribo de hiborianos nômades que invade o Vale de Zingg. Shem declara independência da Stygia. Stygia não reconhece Shem. Forma-se Kulalo na Costa Meridional.

14.000 a.C. – O aço é descoberto e sua utilização logo se divulga entre os reinos principais. Koth e Ophir são formados pelos hiborianos que atacaram a Stygia. Ophir sofre forte influência de Acheron. Koth é pressionada tanto pela influência de Acheron como de Zamora. Corinthia é formada pelos hiborianos originais.

13.800 a.C. – A Britúnia é formada por britunianos dispersos do norte. Shem avança na Stygia para além do rio Styx.

13.600 a.C. – Darfar e Keshan se formam ao longo da fronteira de Kush. Os cimérios progridem mais rápido que os pictos.

13.100 a.C. – Acheron é destruída pelos hiborianos e a Grande Aliança de Khossus V. Kushan e Vhendia são formadas por descendentes dos lemurianos. Reinos recém-formados de Atália e Kordafa inciam sangrentas guerras.

12.900 a.C. – Aquilônia recupera muito da arruinada Acheron. Pântanos Bossonianos, Gunderlândia, Britúnia, Corinthia e Ophir crescem em tamanho. Sangrentos conflitos negros com nenhum vencedor evidente.

12.500 a.C. – Surge Meru. Os selvagens loiros do norte expulsam todas as tribos, exceto aquelas abrangidas pelo reino da Hiperbórea.

12.200 a.C. – Nordheim é formada pelos selvagens loiros. A Ciméria é formada pelos descendentes dos atlantes.

11.700 a.C. – Nordheim é dividida entre os vanires ruivos de Vanaheim e aesires loiros de Aesgaard.

11.500 a.C. – Descendentes dos lemurianos se unem e fundam a Hirkânia.

11.300 a.C. – Turan é fundada pela tribo hirkaniana. Zimbabo torna-se reino governado por irmãos gêmeos.

10.000 a.C. – Nasce Conan, da Ciméria.

9.800 a.C. – Aquilônia anexa Argos, Ophir, Shem Ocidental e Zíngara. Corinthia, Koth e Shem Oriental passam a pagar impostos à Aquilônia.

9.700 a.C. – Hiperbórea declara guerra à Aquilônia e é derrotada nas planícies do Reino da Fronteira.

9.600 a.C. – Britúnia, Koth, Nemédia e Zamora formam uma aliança com o intuito de destruir a Aquilônia.

9.500 a.C. – Primeira invasão hirkaniana. Cavaleiros de Turan varrem Corinthia e Zamora, mas são detidos na Britúnia pela Aquilônia.

9.300 a.C. – Zamora é reconquistada dos hirkanianos. Segunda e terceira invasões hirkanianas.

9.200 a.C. – Aesir faz recuar a fronteira hiperbórea. A Stygia paga impostos à Aquilônia. Os pictos crescem em população e poder. Cimérios saqueiam a Aquilônia, Pântanos Bossonianos e Pictos.

9.120 a.C. – Arus, o nemédio, encontra Gorm, o picto. Os pictos aprendem a mineração, metalurgia e a forjar o ferro.

9.110 a.C. – Pântanos Bossonianos são devastados por shemitas. Invasão picta toma os Pântanos Bossonianos e avança Aquilônia adentro. Corinthia, Shem e Zíngara quebram a hegemonia aquiloniana. A Aquilônia convoca legiões de todas as partes do império para combater os pictos.

9.105 a.C. – Cimérios se aproveitam do caos para saquear as cidades, destruir áreas de plantio e retornar às planícies. O Império Aquiloniano desmorona em meio a sangue e chamas. Invasão hirkaniana de Turan toma Zamora. Invasores hirkanianos do norte do Mar Vilayet se unem às forças de Turan.

9.100 a.C. – Invasão hirkaniana rende Britúnia, devasta a Hiperbórea Meridional e a Corinthia. Cimérios são empurrados colinas adentro. Shem conquista Koth. Stygia repele invasão shemita.

9.095 a.C. – Pictos se tornam hegemônicos da Aquilônia. Refugiados zíngaros são fixados em Zamora por hirkanianos.

9.080 a.C. – Argos desmorona ante invasão picta. Pictos encontram hirkanianos das planíces de Ophir. Hirkanianos devastam Stygia e Reinos Negros até a Bacia Amazona.

9.075 a.C. – Uma tribo Aesir penetra na Nemédia e detém tanto hirkanianos quanto pictos.

9.000 a.C. – O Império Picto se estende da Costa de Vanaheim até as praias meridionais de Zíngara, toda a Aquilônia, Argos, Ophir, Koth Ocidental e Shem Ocidental. O Império Hirkaniano se estende da Hiperbórea central até o norte da Stygia, toda Zamora, Britúnia, Reino da Fronteira, Corinthia, Koth Oriental e todas as terras de Shem Oriental até o Mar Vilayet. As fronteiras da Ciméria permanecem intactas. Nemédia, dominada por mercenários aesires, resiste a todas as invasões.

8.900 a.C. – Início das glaciações nórdicas.

8.700 a.C. – Aesir invade Hiperbórea. Nemédia é governada por mercenários aesires.

8.500 a.C. – Invasão ciméria. Nenhum exército ou cidade resiste a ela. Cimérios destroem Gunderlândia e Nemédia, atravessam a Aquilônia e derrotam o exército hirkaniano na Britúnia.

8.450 a.C. – Hordas de aesires e vanires seguem os cimérios e tomam a Nemédia. O Império Picto estremece a essa invasão.

8.400 a.C. – Nemédios fogem para Koth, expulsam tanto pictos como hirkanianos e ajudam Shem a fazer o mesmo. Stygia fica sitiada por Reinos Negros.

8.350 a.C. – Uma tribo aesir expulsa hirkanianos da Britúnia.

8.300 a.C. – A invasão nórdica faz o Império Hirkaniano recuar ao Mar Vilayet. Cimérios destroem antigo reino de Turan e se fixam no litoral sudoeste do mar.

8.275 a.C. – Uma tribo vanir rende a Stygia e ergue um império ao sul.

8.200 a.C. – Pictos ainda mantêm a Aquilônia e a maior parte de Zíngara. Tribos nômades de aesires, hiperbóreos e vanires vivem ao sul do círculo ártico até Zimbabo e de Shem Oriental até o Mar Vilayet. Não resta nenhuma cidade exceto Stygia e Shem.

7.000 a.C. Segundo cataclismo. A Costa Ocidental afunda junto com Aesgaard, Pântanos Bossonianos, Sertões Pictos e Vananheim. No lugar da Ciméria surgem os Mares Bálticos e do Norte. A Stygia torna-se parte da massa de terra da África.

6.000 a.C. – Aurora da História Moderna.


Mike McCoy

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Os fantásticos mundos de Robert E. Howard – VII

Os reinos negros da Era Hiboriana

I. Ao Sul da Stygia

O pouco que se sabe das vastas terras ao sul dos desertos estígios foi contado pelos escravagistas de Shem e pelos navegantes mercadores de Argos. O resto do mundo denominava aquela região por Kush, ainda que este fosse o nome do mais setentrional dos reinos negros que, como tantas outras nações, lutava pela hegemonia.

Aventureiros da misteriosa Stygia rumaram para o interior de Kush, séculos antes do tempo de Conan, estabelecendo capital em Meroé, localizada numa planície verdejante, próxima a um rio. Meroé consistia de uma cidadela encerrada por espesso paredão, reduto de sanguinários governantes, e de uma outra, mais externa, onde habitava a população subjugada. Os governantes eram mais escuros que os ancestrais estígios, e aqueles que trabalhavam como soldados, servos e artesãos eram verdadeiros gigantes de ébano.

II. Reinos e Povos

Os principais povos a leste de Meróe eram os cidadãos de pele amarela de Xuthal, a cidade maldita, os Ghanatas e membros da tribo de Tibu, que eram de descendência estígio-kushita, e a nação dividida de Tombalku, composta de uma maioria negra.

A área a leste de Tombalku era dominada pela nação bárbara de Darfar. Embora o país tivesse se tornado notório por seu culto canibal, há evidências de que o costume não era totalmente difundido por seu povo. É mesmo possível que houvesse divergências internas em Darfar, entre os adeptos de tal culto e os que o abominavam. Uma suposta vitória dos não-canibais teria sido seguida por volumosa venda dos antropófagos aos escravagistas shemitas, servindo de explicação para a presença de grande número de darfarianos em Zamboula.

O território a leste de Darfar era abundante em vegetação, e recortado por gigantescas cadeias de montanhas. O reino mais importante desta área era Keshan, e sua população consistia de negros governados por senhores de pele mais clara, embora aqui as relações entre as duas raças fosse relativamente mais harmoniosa, sendo que havia possibilidade de ascenção hierárquica para os negros na carreira sacerdotal.

Uma cadeia de montanhas e o rio Styx separavam Keshan de sua antiga rival, Punt. Ainda que os puntianos cultuassem uma deusa de marfim, eles não eram governados por brancos.

Estes eram os territórios conhecidos pelos escribas da Era Hiboriana. Ao sul deste cinturão de reinos organizados jazia uma extensão alternada de florestas e savanas, desde a então chamada Costa Negra até os territórios do lendário império de Zimbabo.

III. A Costa Negra

Os povos da Costa Negra pertenciam ao mesmo grupo racial dos kushitas: negros, vigorosos, feições rudes e cabelos crespos. Politicamente, estavam organizados em reinos tribais de tamanho e complexidade variados. Essa região desfrutava de intenso comércio com Argos. Dois dos reinos mais proeminentes da Costa Negra foram Suba e Abombi. Além do entroncamento leste do Rio Zarkheba, havia uma densa floresta tropical. Os habitantes desta região, ao sul de Darfar, dividiam-se em tribos que se confrontavam incessantemente por água, terras e escravos. As mais destacadas destas tribos guerreiras eram Bamula, Bakalan e Jinji.

IV. Nascem as Lendas

Nas planícies e campinas que dominavam a paisagem do território a leste dos reinos guerreiros, localizava-se a misteriosa cidade de Suchotl. Vários quilômetros a sudeste dela encontravam-se savanas esparsamente povoadas por nômades negros que viviam de seus rebanhos. Estes pastores devem ter tido um sistema de vida similar aos dos Masais, da África Oriental moderna.

Uma larga faixa de selvas separava as planícies de Suchotl do império de Zimbabo, cuja fronteira ao norte era recoberta por uma extensão de pântanos que se tornavam intransponíveis em épocas de chuva. Descendentes de vigorosa tribo chamada Kchaka, os primeiros homens zimbabos ergueram uma cidade sobre as ruínas de uma provável civilização pré-humana. Mais tarde, eles domesticaram um ancestral do pterodáctilo. Suas construções eram de pedra e sua arquitetura se caracterizava pelas paredes espessas e torres descobertas. Zimbabo tornou-se a mais formidável nação do sul de Kush. Sua expansão militar e econômica foi muito temida pelas nações vizinhas, Punt e Keshan. É provável, inclusive, que Zimbabo tenha efetuado transações comerciais com Vendhia e o Arquipélago das Pérolas pelo grande Oceano Meridional.

Havia dois grandes centros urbanos em Zimbabo: uma capital setentrional e a Cidade Proibida, de onde os estrangeiros eram banidos. Ao contrário da maioria dos sistemas políticos das nações daquela época, Zimbabo era governada por dois reis.

V. Juma e as Amazonas

Na faixa litorânea do Mar do Oeste crescia um novo poder – Kulalo, centro do reino do velho companheiro mercenário de Conan, Juma. Diferente das nações comerciantes da Costa Negra, as tribos de Juma tinham pouco contato com o mundo externo, exceto pelas caçadas de escravos e ataques dos corsários negros. Por este motivo, as culturas desta região eram mais conservadoras e fechadas às inovações do que as nações do norte.

O maior rival do reino de Juma eram as amazonas que viviam ao sul de Kulalo. No interior da mata densa, as ancestrais dessas guerreiras negras dedicaram-se à construção de uma fortaleza que chamaram de Gamburu, desenvolvendo uma cultura em que o sexo feminino se empenhava exclusivamente no aperfeiçoamento das artes bélicas e os homens não passavam de servos e escravos. Aliás, grande parte da economia amazona estava baseada no trabalho escravo, pois Gamburu era um lucrativo mercado para os escravagistas de Ghanata.

VI. Piratas e Magos

Em termos raciais, os habitantes das ilhas diferiam do tipo predominante do continente, pois tinham cabelos lisos, traços mais delicados e compleição mais esguia. A atividade pirata deve ter servido de suplemento a uma economia baseada na pesca e agricultura de subsistência. Ao sul de Gamburu encontrava-se Atlaia, um reino envolto por tamanho mistério que chegava a ser considerado mítico.

Séculos antes da era de Conan, os atlaianos comerciavam com os shemitas e adotaram um dialeto comercial que passou a servir como língua franca nos Reinos Negros. Algum tempo mais tarde, porém, o povo de Atlaia acabou se isolando do resto do mundo, e deve ter tido força militar suficiente para isso, pois não há qualquer registro sobre ele ter sido escravizado por negros ou brancos.

Uma vegetação espessa recobria o flanco meridional de Zimbabo, até ser interrompida por planícies quilométricas ao longo da costa leste até a Grande Queda d’Água. Nessas planícies existiam apenas manadas de animais.

VII. E além…

As terras ao sul de Atlaia e das planícies costeiras ocidentais marcavam os limites dos Reinos Negros. Eram áreas selvagens constituídas por largas extensões de deserto, bem como estepes.

No ponto mais ao sul do grnade continente Thuriano encontrava-se Yanoga, a última fortaleza do Povo Serpente, os filhos de Set. Os aborígenes desta área constituíam uma raça baixa e de pele amarela.

Após o tempo do cimério, enquanto as terras hiborianas eram esmagadas por saques pictos a oeste e hirkanianos a leste, os Reinos Negros prosperaram e, até, empreenderam alguns ataques contra os antigos inimigos estígios, mas acabaram sendo rechaçados por uma nova dinastia estígia, de sangue Vanir.

Os abalos geológicos que formaram os perfis do mundo atual devem ter separado as terras ao sul do Rio Styx do resto do continente. Do oceano emergiu toda a costa oeste do que atualmente conhecemos por África.

Embora a maior parte da saga de Conan tenha se desenrolado nas terras ao norte da Stygia, o cimério de bronze aventurou-se por vários anos nos Reinos Negros, onde ficou conhecido pelo nome de Amra, o Leão. Naqueles dias, ele encontrou uma das poucas mulheres que conseguiram tocar seu rijo coração de aço: Bêlit, a Rainha da Costa Negra. Muitos foram os dias em que Conan e Bêlit empunharam as mesmas armas. Muitas, também, foram as noites em que partilharam das mesmas carícias… Mas esta é uma outra história…


Adaptação de texto de Charles R. Saunders
por Leandro Luigi Del Manto

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Os fantásticos mundos de Robert E. Howard – VI

Os descaminhos da liberdade

Um estudo sobre a escravidão na Era Hiboriana.

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros.” Esta é uma das frases que tornou notório o grande escritor Eric Arthur Blair (George Orwell), autor, entre outras obras fantásticas do magistral e polêmico romance 1984. Não deixa de ser uma frase irônica, apesar do contexto em que se situa no romance A Revolução dos Bichos, cuja trama trata justamente do processo de dominação de alguns animais sobre outros após a conquista de uma fazenda por todos.

Aliás, conquista, dominação e o “ser mais igual do que os outros” sempre foram uma constante na história do animal homem, e na Era Hiboriana de Conan, não foi diferente.

Ninguém sabe ao certo como o escravismo teve início nesse período muito anterior ao império romano mas, se ele acompanhou a história da escravidão do mundo que conhecemos, suas raízes se encontram entre os povos primitivos que mais tarde se tornariam atlantes e valusianos, milênios antes do tempo do bárbaro de bronze.

A princípio, falando de épocas mais remotas ainda, os prisioneiros do sexo masculino das frequentes guerras e saques eram provavelmente torturados e oferecidos em sacrifício aos deuses dos vencedores, enquanto as mulheres e crianças seriam agregadas às tribos triunfantes, já que as culturas nômades dispensavam o uso de escravos.

Com o aprimoramento da organização sócio-econômica dos povos, associado ao constante fator beligerante da época, a necessidade da força de trabalho passou a fazer parte da vida das pessoas. Surge então o escravo, na figura do prisioneiro – a princípio um capricho reservado para reis e capitães, e depois, indistintamente.

Com o advento da era escravista pré-hiboriana houve a importante descoberta do comércio escravo, uma fonte de renda rápida e altamente lucrativa. Assim, quando o Rei Kull governava a Valúsia, a escravidão já era uma realidade instituída e, mesmo após o cataclismo que tragou a Atlântida e parte do continente turaniano e concorreu para que muitos dos sobreviventes regredissem à selvageria, a atividade abominável persistiu, tanto que, oito mil anos mais tarde, já na Era Hiboriana, apenas alguns reinos mais civilizados como os da Aquilônia, Argos e Nemédia possuíam leis de proteção aos escravos, ainda que suscetíveis às conveniências de certos reis inescrupulosos que não as cumpriam.

Traçamos, a partir de agora, um perfil da escravidão na era de Conan.

O Leste

Turan – Operou extenso comércio escravo que abrangia pontos que iam de leste a sul das nações hiborianas, atravessando Zamora, sua vizinha mais próxima ao oeste. O próprio Conan teve sua segunda experiência com a escravidão como prisioneiro, marchando com uma caravana turaniana para Shadizar, capital de Zamora, quando foi salvo por um conhecido. Os escravos da caravana eram chamados “bens de comércio humano”.

Alguns donos de escravos não eram maus para seus “bens”, mesmo em Turan. Atalis, o astuto sábio de Yabalet, é um exemplo deles, muito embora tivesse enviado sua escrava, Hildico, a brituniana, a um campo de batalha em busca de Conan, onde a jovem foi duramente castigada. Quando Conan deixou Yabalet, após uma transação com o mágico de Munthassem Kahn, levou Hildico consigo como recompensa.

Severos ou não, o fato é que os turanianos escravizavam até mesmo membros de famílias nobres do oeste, como foi o caso de Octávia, filha de um lorde nemédio. Capturada por saqueadores de Jehungir Agha, ela tinha esperança de que Conan, então com os kozakis nas estepes hirkanianas, a visse e a comprasse. De fato, o bárbaro adquiriu a posse da garota em Xapur, uma ilha do Mar Vilayet, mas isto se deu graças à vontade e entusiástica interferência de Olivia.

Os turanianos também usavam seus escravos como espiões, como um estígio sem nome, sobrevivente da horda de Natok, o oculto, derrotado por Conan.

Vendhia – Em sua capital, Ayodhya, a morte de Ghunda Chand foi presenciada não só por sábios, sacerdotes, oficiais da corte e sua irmã Yasmina, como por várias escravas. Mais tarde, Yasmina, a divina de Vendhia, foi capturada pelo mestre de Yimsha, sacerdote-mor do Círculo Negro, que pretendia mantê-la como escrava.

Zamora – Shadizar e talvez Arenjun serviam como entreposto comercial para caravanas turanianas de escravos vindas do leste e do sul, provavelmente mesmo depois que o império turaniano passou sobre a fronteira leste de Zamora.

Khorajá – O filósofo Astreas, em uma carta a seu colega e amigo Alcemides, da Nemédia, relatou que a Rainha Taramis (em verdade, sua irmã gêmea, a bruxa Salomé), havia permitido que a capital fosse tomada por mercenários shemitas e que os khauranianos estavam sendo sistematicamente massacrados, sacrificados ou vendidos como escravos para os turanianos.

Iranistão – Os Filhos de Yezm, na cidade Yanaidar, oculta entre os Montes Ilbar, constituíam uma sociedade totalmente machista, em que todos os homens eram livres enquanto as mulheres, escravas, eram encarregadas de fazer com que yezmitas drogados recém-chegados acreditassem estar no paraíso prometido aos que servissem a Magus.

Zamboula – Ao visitar a cidade sob controle de Turan, no Deserto Kharamun, uma sangrenta e arriscada aventura possibilitou a Conan descobrir que seus escravos eram canibais e à noite rondavam a cidade para conseguir seu execrável alimento. E ao perguntar à jovem que acabara de salvar dos negros antropófagos por que os cidadãos de Zamboula não se livravam daquela ameaça, Zabibi, como ela se dizia chamar, ou Nafertari, amante de Jehungir Kahn, respondeu que além dos selvagens serem escravos valiosos, eram também numerosos e seriam capazes de se revoltar caso a carne humana lhes fosse negada. Aliás, em vista de tal situação, a melhor solução encontrada por alguns cidadãos da cidade foi abastecer os canibais com a carne dos numerosos estrangeiros que visitavam Darfar.

Kush e os Reinos Negros

Há indicações de que muitas tribos do litoral de Kush e das nações costeiras do sul atacavam tribos negras do interior para conseguir “bens de comércio humano” e vendê-los para os navios que ancoravam em sua costa vindos de Argos, Zíngara e Shem.

Algumas tribos interioranas também praticavam essa atividade atacando o sul da Stygia em busca de escravos brancos. Lívia, a ophiriana que Conan salvou dos bakalans no sul de Kush, fôra capturada por escravistas negros em Khesatta, cidade estígia de magos, para servir aos caprichos particulares do rei tribal Bajujh.

A escravidão branca foi igualmente utilizada em Meroc, capital de Kush. A jovem nemédia Diana, que fôra aprisionada por caçadores de escravos shemitas em um navio argoseano e depois vendida aos kushitas, acabou sendo presenteada à rainha Tananda e por fim salva por Conan.

Um negro que atacava os Reinos Negros em busca de escravos, antes de se tornar um dos governantes de Tombalku, era Sakumbe, cujos maiores interesses, segundo Conan, eram marfim, ouro em pó e escravos.

O próprio bárbaro do norte e Chabela, futura Rainha de Zíngara, foram escravizados após serem capturados pelos ghamatas – nômades dos desertos da fronteira meridional da Stygia, para os quais a caça de escravos era muito difundida – e vendidos para Nzinga, a rainha.

Porém, se Chabela se viu sobrecarregada com as mais extenuantes e vis tarefas, o cimério teve que atender às exigências pessoais da rainha, o que, conhecendo o aventureiro como já conhecemos, certamente não foi missão desagradável – aliás, surgiram até boatos de que ele foi o pai de uma futura rainha amazona. A escravidão desempenhou importante papel na ascenção e queda de Xuchotl, a estranha cidade de um só edifício, ao sul de Darfar e Keshan.

Os tlazitlanos que deixaram Kosala, no leste, passaram a vagar pelas estepes do sudoeste onde escravizaram tribos negras para a construção de uma cidade de jade, marfim, mármore e metais preciosos. Quando a obra estava terminada, os escravos foram mortos e, segundo disseram a Conan, de seus ossos foram criados os dragões que guardavam a cidade.

Mais de meio século antes do cimério e Valéria visitarem Xuchotl, um outro escravo, Tolkemec, de uma tribo de genealogia estígia, traiu seus senhores a uma tribo próxima à de seus ancestrais e vingou-se dos tlazitlanos nas próprias câmaras de tortura da cidade.

Os novos donos de Xuchotl também utilizaram o trabalho escravo. Um de seus governantes valeu-se dele para construir uma passagem secreta da sala do trono até o portão oeste e assassinou os trabalhadores ao final da obra para que ela permanecesse em segredo.

Em Yanyoga, a cidade-caverna situada a sudeste de Zimbabo, a Rainha Lilit contou a Conan que sua raça descendia de aventureiros vendhianos que haviam escravizado uma raça de aborígenes de pele amarela. Contudo, o relato era falso. Lilit e sua raça eram, na verdade, descendentes do povo serpente, já enfrentados pelo Rei Kull da Valúsia.

O Sul

Stygia – Existia umintenso comércio de escravos entre Kush e a Stygia, embora nenhuma das nações pagasse pelo “artigo” mas, na verdade, se saqueassem por ele. Um típico destacamento estígio de saque-escravo era constituído de quarenta cavaleiros, todos matadores experientes. Seu procedimento usual consistia em cercar uma aldeia negra durante a noite e atacar ao amanhecer. Os cativos saudáveis eram acorrentados e levados para os leilões do norte, enquanto os muito jovens, velhos ou fracos demais para sobreviver à viagem, eram imediatamente executados.

Em termos de crueldade, os estígios aparentemente eram os piores do mundo hiboriano. Exemplo disso foi o frio pirata baracho de Kush Meridional, membro da tripulação de Conan na viagem à Antillia, no Mar do Oeste. Quando jovem, ele fôra capturado por caçadores de escravos estígios, que, por uma razão inexplicada, cortaram sua língua.

Shem – Os senhores de escravos shemitas empreendiam expedições marítimas para saquear as matas de Kush. Juma foi uma das vítimas de tais empresas, levado quando criança de sua tribo e vendido no leilão de Shem, onde trabalharia no campo. Porém, quando seus donos notaram sua predisposição para um porte físico gigantesco, venderam-no para Argos, para se tornar gladiador.

Para a maioria das mulheres hiborianas, a escravidão em Shem era terrível. Natala, uma jovem brituniana, foi escrava em uma cidade shemita desconhecida, assolada pelos sobreviventes de um exército mercenário que lutara pelo príncipe Almuric de Koth. Conan a levou consigo quando o bando fugia da cidade após saqueá-la e juntos atravessaram a Stygia e enfrentaram as adversidades do deserto meridional de Kush que, apesar de terríveis, eram preferíveis à escravidão num harém shemita.

Vale acrescentar que entre os próprios shemitas houve vários escravos. Cerca de nove séculos antes de Conan, eles faziam parte do corpo de escravos dos gazali do sul de Koth, um povo expulso de sua terra devido à perseguição religiosa. Quando os escravos fugiram, se juntaram às tribos selvagens dos desertos. Lissa, uma gazali, contou a Amalric, um jovem soldado mercenário aquiloniano, que os escravos não haviam sido maltratados, mas que provavelmente sofreram alguma ameaça e por isso fugiram.

Outra hiboriana vendida nos leilões de Shem foi Muriela, uma dançarina corinthia. Quem a comprou foi um ladrão shemita de nome Zargheba, que a levou para Akbitana, onde Conan a viu pela primeira vez, e depois para Keshan, onde, em Alkmeenon, forçou-a a passar-se pela princesa Yeleya.

O forte sotaque corinthio de Muriela e uma marca congênita que carregava, revelaram sua identidade a Conan, que se apossou dela e a levou consigo, não como escrava, mas como amante e companheira, o que ela aceitou sem hesitar. Juntos encontraram inesperado destino em Punt.

As Nações Bárbaras

Os Sertões Pictos – Não há evidências de que a escravidão tenha existido nesta região como traço típico. Os pictos praticavam a pesca e a caça para sobreviver e não possuíam qualquer tarefa que considerassem desprezível e que não pudesse ser desempenhada por suas mulheres. Eventuais prisioneiros não eram escravizados, mas torturados até a morte.

Na costa oeste, contudo, existiu uma prática especial de escravidão, o servilismo. Os servos eram camponeses que possuíam seu próprio meio de subsistência, mas não a liberdade pessoal, devendo sempre um excedente de sua força de trabalho ao senhor da terra. A grande diferença entre servos e escravos é que os primeiros não podiam ser vendidos nem afastados de sua porção de terra, embora, ao fugir da vingança de Thoth Amon, o conde Valenso de Korzetta tenha levado vários servos para o exílio.

Tina, a jovem acompanhante ophiriana da sobrinha de Valenso, Lady Belesa, fôra escrava de um perverso oficial da marinha. Por meios desconhecidos Belesa afastou a garota do seu senhor.

Ciméria, Vanaheim e Aesgaard – Nunca houve escravos nessas regiões simplesmente porque seus povos eram independentes demais. Conan, o cimério, porém, foi escravo no mínimo quatro vezes em sua turbulenta existência, possuindo assim um motivo a mais para abominar a escravidão. Certa vez, ele indagou a um nobre aquiloniano seu amigo:, “Não é melhor morrer honradamente a viver como um verme? Será que a morte é pior do que a opressão, a escravidão e humilhação total?”

Contraditoriamente, porém, o cimério aconselhou Lady Belesa nos Sertões Pictos a comprar escravos. Quando ela, Tina e os sobreviventes do grupo de Valenso se preparavam para deixar a costa picta a bordo do navio de um nobre aquiloniano que procurava Conan, o bárbaro deu à zíngara um saco de rubis e disse a ela que voltasse a sua terra, vendesse as gemas para comprar uma casa grande, escravos e boas roupas… e procurasse um marido.

Antillia – Pouco se sabe sobre a escravidão nesta ilha a oeste do mundo hiboriano, embora ela tenha existido lá. Sabe-se que os escravos enviavam mensagens para seus donos e os carregavam em palanquins pelas ruas de Ptahuacan.

Por meio de Metemphoc, que assumiu o poder da cidade depois que Conan derrubou seus governantes sacerdotes, o cimério ficou sabendo que alguns daqueles escravos tinham vindo de um misterioso continente de nome Mayapan, a oeste, cujas costas foram saqueadas por piratas antillianos que buscavam ouro, esmeraldas, cobre, escravos de pele vermelha, estranhos pássaros coloridos e peles de jaguar, um felino dourado manchado de negro.


Jim Neal

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