Nota de falecimento

É sem nenhum pesar que comunico o início do falecimento, de morte matada, de uma notória personalidade que vinha ocupando um espaço pouco desejado em minha vida: o egoísmo.

Nascido da fertilidade da imaginação e acalentado pela solidão, sempre esteve presente no limiar dos corredores mais sombrios de meu viver. Até há pouco tempo era simplesmente uma sombra fugidia, daquelas perceptíveis somente na área limítrofe da visão, mas que desaparecia por completo ao se focar onde estava.

Entretanto, ultimamente, com desgosto percebi que se fazia cada vez mais presente. Foi chegando, se instalando, se acomodando e não lhe dei a devida atenção, preocupado que estava em meus afazeres. Quando finalmente percebi sua presença ele já estava sutilmente a ditar rumos que eu jamais deveria tomar em sã consciência.

Nada mais me restou senão começar a matá-lo…

Sim, pois ele é forte e não morre assim tão fácil. Tanto, que afeta totalmente o bom senso e a real percepção, fazendo com que se veja o mundo sob uma ótica distorcida. Assim, decidi sufocá-lo até sua extinção – senão completa, ao menos num nível que volte apenas a ser aquela sombra fugidia de outrora (mesmo agora, sinto-o arranhar a tampa de seu esquife, nas catacumbas de meu ser, implorando por liberdade…).

Deixa por viúva a inveja, bem como as filhas cobiça e mesquinhez – outras personalidades que jamais tive o desprazer de conhecer.

Em tempo: descobri que havia ainda um pequeno órfão, parente distante dessa família, o amor-próprio, que vinha sendo mantido oculto pela insegurança. Informo a quem interessar possa que o mesmo foi resgatado e passa bem, em fase de franca recuperação, posto que, por abandono, encontrava-se totalmente desnutrido…

Danos morais & pizza!

Fonte: Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região – Processo RO 00503.2002.317.02.00-0

Mesmo que o empregado tenha cometido um erro, a empresa não pode divulgar o fato aos demais funcionários. Com este entendimento, a 6ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-SP) condenou, por danos morais, a Tese Administração, Serviços e Comércio Ltda. e a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeropurtuária – Infraero.

Um ex-empregado da Tese, contratado para trabalhar como funcionário terceirizado da Infraero no Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos (SP), ajuizou ação na 7ª Vara do Trabalho do Município.

No processo, o auxiliar de serviços gerais reclamou que a empregadora divulgou comunicado advertindo-o por estar “fuçando e revirando o lixo para comer pizza” e, com isso, foi apelidado de “lixeiro”. Ele não negou o fato, mas pediu que as empresas fossem condenadas a indenizá-lo pelos danos morais sofridos com a divulgação.

(…)

O Juiz da vara condenou as empresas a pagarem, solidariamente, reparação no valor de R$ 2.500,00. Insatisfeito com a sentença, o reclamante apelou ao TRT-SP para que a indenização fosse aumentada.

Para o Juiz Paulo Eduardo Vieira de Oliveira, relator do Recurso Ordinário no Tribunal, ainda que o trabalhador tenha agido de forma errada, a empregadora não podia “nomeá-lo de ‘comedor de lixo, fuçador de lixo ou lixeiro’, ou ainda divulgar os fatos ocorridos para os demais empregados, pois, agindo assim, abusou de seu poder de direção”.

(…)

A indenização por danos morais, explicou o relator, “deve ter dupla finalidade: ressarcitiva (para que possa minorar os efeitos do ato na consciência do lesado) e punitiva (para que o agente agressor não mais volte a agir daquela maneira), em ambas as hipóteses considerando a capacidade de pagamento do ofensor”.

Por unanimidade, a 6ª Turma elevou valor da indenização para R$40.014,00. Os Juízes da turma esclareceram que R$ 40.000,00 referem-se à indenização propriamente dita, e R$14,00 “correspondem ao preço médio de uma pizza, para que as reclamadas pensem melhor ao tomar atitude idêntica à que ocorreu no presente processo”.

Recebido pelo clipping da Síntese Publicações

Um dia de Philippe Pinel

“Dia desses” a empregada lá de casa faltou.

Como a Dona Patroa está em uma nova fase em seu trabalho, prontifiquei-me: “Deixa que eu fico em casa com as crianças, amor”…

O saldo espiritual no final do dia até que foi positivo e relaxante, mas foi uma luta pro dia acabar. Logo após o café da manhã (mais ou menos uma hora e meia entre o primeiro a sentar e o último a sair da mesa), peguei a prole – todos os três – e dei uma passada no meu trabalho pra dar uma ajeitadinha no imprescindível.

Fora o fato de a mesa do estagiário ter ficado toda carimbada, a do assessor toda riscada, o livro de controle de processos todo colorido, e muitos clips e elásticos espalhados pelo chão, não houve nenhum problema (muito) grave.

O resto do dia foi no trivial, entre almoço, arrumação de casa e o leva e traz das crianças para escola.

Mas cheguei a uma conclusão irrefutável: é MUITO mais fácil acudir treze secretarias em uma Prefeitura do que três crianças dentro de uma casa! Ainda que com pouca diferença de idade (2, 4 e 6), as necessidades de cada um são totalmente distintas das dos outros, tendo em comum somente a sua simultaneidade… Todo mundo quer tudo ao mesmo tempo!

Enquanto este está com fome, aquele quer desenhar e aqueloutro pede pra colocar uma fita para assistir, mas o primeiro se cagou todo, logo depois do segundo ter saqueado alguns doces na geladeira (antes do almoço), ao mesmo tempo em que o terceiro derrubou todos os lápis, canetas e papéis pela sala, momentos antes de o caçulinha ter puxado a mangueira do chuveiro e jorrar água pra todo lado, enquanto que o do meio apareceu chorando na porta do banheiro porque o mais velho bateu nele, mas este não podia ter feito isso porque estava andando de bicicleta no quintal e o primeiro não deixava pôr a fralda porque queria brincar com o segundo de correr com a máscara do Batman, pois o terceiro estava montando uma estratégia de defesa do Yu-Gi-Oh baseada nos ataques do Pokémon…

Enfim, um dia digno de internação num manicômio…

Ontem, ao voltar pra tranquilidade de meu trabalho, tive que enfrentar apenas umas três reuniões, duas representações no Tribunal de Contas, uma impugnação a um edital, algumas formalizações de contrato e um outro tanto de pareceres, fora as consultas, cobranças, correrias e atendimentos.

Ah… A paz…

Um dos corolários da Lei de Murphy diz que “se você é o único a estar calmo quando todos os demais já estão desesperados, isso quer dizer que você não entendeu a gravidade da situação”.

Será?…

O astronauta, o português e a guarda-mirim…

Então é isso.

Finalmente cheguei a óbvia conclusão de que a mídia (leia-se: Imprensa) definitivamente é quem manda nesta terra.

Como se não bastasse o “nosso” astronauta brasileiro, que além de feijões conseguiu mandar a língua portuguesa para o espaço (na última entrevista, além do gerundismo, me deparei com um “a gente vamos”…), tivemos também o sintomático caso da dança no Congresso.

Ora, francamente, se não fosse a mídia achincalhando cada brecha desse caso, qual teria sido o grande crime?

Esse episódio me faz lembrar um outro, de não muito tempo atrás, quando os cartolas do mundo futebolístico queriam que os gols fossem comemorados com um simples aceno à torcida. “Seria uma maneira de não ridicularizar os adversários”, foi uma das desculpas para tal estultice.

Pra mim é praticamente a mesma situação.

De início pensei em escrever uma bela de uma defesa para esse comportamento, mas, sinceramente, sob uma ótica jurídica achei limitada minha argumentação. Foi quando resolvi deixar de lado minha miopia advocatícia e percebi que o “problema” não é de ordem jurídica, mas de ordem cultural.

E volto à comparação com os cartolas: se alguém quer comemorar o que entende ser uma vitória, o que, cargas d’água, qualquer um teria a ver com isso? Não sei qual foi o mote específico para tanta alegria (e, diga-se de passagem, tampouco me importa saber), mas há que se lembrar que nós, brasileiros, somos sim um povo brincalhão, feliz, que faz troça de tudo, que ganha pouco e ainda se diverte.

Se a nação ficou “escandalizada” com o dito comportamento, tenho uma proposta simples para cada um destes: vá assistir uma sessão de Câmara em seu próprio Município. Qualquer uma. Qualquer Município. Há não muito tempo eu escrevi sobre o circo do absurdo que prolifera numa sessão dessas – vejam os arquivos aqui. Ou seja, se alguém estiver disposto a criticar outros jardins, que primeiro olhe para o próprio quintal!

Mas tais coisas, ainda que corriqueiras, são pequenas. Não atraem a grande mídia. Agora quando a coisa é no Congresso… bem, a história é outra. E contam, recontam e contam novamente o mesmo caso, abalroando a cabeça do público com a SUA história e este, em sua vida de gado, a aceita e a repete.

Heh… Me tocam sininhos acerca de uma antiga música: “Nowhere man”. O trecho que corresponderia bem a essa atitude do grande público perante os humores da mídia – e que fica martelando na minha cabeça – é o seguinte: “He’s as blind as he can be, Just sees what he wants to see”… e por aí vai.

Enfim: decidi que não vou – nem quero – perder meu tempo defendendo o óbvio para quem não quer enxergar. Particularmente continuo confiando plenamente nela. Quem teve a possibilidade de conhecer de perto o conjunto de sua obra (passada e presente), sabe que é uma bobagem inominável dar ouvidos à mídia nesse caso.

Meu voto continua sendo dela. Quem quiser que encontre – ou não – uma justificativa que lhe pareça plausível.

E ponto final.

Inferno!

Alguém, EM NOME DE DEUS, sabe dizer quando necessariamente começa o Inferno Astral pré-aniversário?

Estou desconfiado que o meu está começando com MUITA antecedência…

Talvez seja castigo por não ter cumprimentado direito os amigos que têm feito aniversário por esses dias (discurpa Paulo!).

Creio que abril vai ser um looooongo mês – que, inclusive, já começou em março…

O melhor da gramática portuguesa

Até onde sei, esta é uma redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco – Recife, que obteve vitória em um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa. (Publicada na coluna LIVRE PENSAR, de Ivaldo Gomes):

Mesóclise a Trois

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo.

Aí, ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa.

Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisso a porta abriu-se repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

E ainda há quem diga que já esgotamos todas as possibilidades de uso da língua falada e escrita. Pelo jeito, quem fez tal afirmação não leu este texto.”