Superman – V

As Origens do Super-Homem – Quarta Parte

A veia trágica sempre correu profunda na lenda do Super-Homem. Tendo começado com a morte de bilhões de pessoas, não podia ser de outro jeito. Curiosamente, nesse período de histórias que agora até podemos encarar como mais bobas, a temática trágica foi desenvolvida ainda mais, com repetida ênfase em Krypton e na herança perdida do Super-Homem. O papel do Homem de Aço como um “estranho numa terra estranha” foi introduzido e desenvolvido durante essa época. Não importava o fato de ele ter sido criado como ser humano, com todos os valores judaico-cristãos de nossa sociedade ocidental. Quanto mais o tempo passava, mais nosso herói lamentava a perda de Krypton. Ele fazia juras em seu nome (“Grande Krypton!”) e, em sua Fortaleza da Solidão, construiu um enorme altar em memória de seus pais e de seu planeta.

Então, de repente, surgiu Kandor. Primeira capital do governo mundial de Krypton (substituída por Kryptonópolis, cidade natal do Bebê de Aço), Kandor era uma cidade com cerca de um bilhão de habitantes, reduzida ao tamanho de uma lista telefônica e aprisionada numa garrafa pelo alienígena maligno Brainiac. Anos depois, quando Brainiac chegou à Terra e começou a roubar nossas principais cidades, Super-Homem descobriu esse remanescente de sua herança, completa, com uma população ativa, e dedicou a ela um lugar de honra em sua Fortaleza no Ártico, prometendo aos kandorianos que ele não pouparia esforços a fim de descobrir um meio de restaurá-los a seu tamanho original.

Mais tarde, quando Jimmy Olsen foi agraciado com a realização de três desejos por uma fonte mágica, ele usou um deles para enviar o Homem de Aço ao passado para uma breve visita a Krypton. Para evitar que seu superamigo soubesse o que estava planejando, Jimmy datilografou o seu desejo em vez de falar em voz alta. Sua intenção era que o Super-Homem “encontrasse seus pais”. Mas, ao chegar a Krypton, o herói descobre que Lara está prestes a se casar com outro homem e, numa antecipação a De Volta para o Futuro, ele é obrigado a arquitetar as circunstâncias em que seus pais se conheceram e se casaram. Jimmy, ao que parece, inadvertidamente datilografara “mate” (em inglês, mais ou menos, bancar o cupido) em vez de “meet” (em inglês, encontrar).

No decorrer dos anos, quase todo mundo acabou indo parar em Krypton de uma forma ou de outra. Em World’s Finest Comics, título partilhado por Super-Homem e Batman, a dupla teve algumas aventuras na cidade miniatura de Kandor, muitos anos antes de o Homem de Aço finalmente cumprir sua promessa e devolver a cidade ao tamanho original. Numa dessas aventuras, nosso herói se defendeu contra meia dúzia de capangas de Luthor, mesmo após perder seus poderes no ambiente kryptoniano de Kandor. Um dos criminosos chegou a comentar: “Mesmo sem seus superpoderes, esse cara é um osso duro de roer!”. Os leitores jamais duvidaram disso.

Nessa época, entre os roteiristas do Super-Homem, estavam Edmond Hamilton e Otto Binder. Foi Binder quem acrescentou Supermoça e Brainiac à lenda e elaborou uma das melhores histórias do Superboy nesse período, tão boa que passou a fazer parte do histórico do Homem de Aço adulto.

Criada como uma analogia ao monstro de Frankestein, a primeira criatura a se chamar Bizarro era uma duplicata imperfeita do Menino de Aço, gerada num acidente de laboratório. Um cientista amigo do Superboy estava tentando produzir urânio artificial para uso em medicina nuclear. No entanto, suas tentativas redundaram em fracasso, uma vez que seu “raio duplicador” tinha produzido urânio não-radiativo. Em dado momento, a máquina sofreu um solavanco e o próprio Superboy foi exposto aos raios, resultando no surgimento da versão quase cristalina do jovem herói, dotada de pele branca e traços que pareciam ter sido lapidados, com uma rebelde cabeleira espetada e de cor preta.

Como era típico na época, esta história foi uma adaptação de uma aventura apresentada originalmente nas tiras de jornal do Super-Homem. Muitos roteiros dessas tiras eram aproveitados e apresentados no formato de quadrinhos.

Concomitantemente, a história do Super-Homem continuava a se expandir, tornando seu passado mais complexo. Assim como Lana Lang foi introduzida retroativamente na lenda, o mesmo se deu com outros personagens bastante conhecidos. Em 1960, revelou-se que o maligno Luthor havia sido outrora amigo do Superboy em Pequenópolis. Seu ódio contra o Homem de Aço teve origem naqueles tempos antigos. Seu primeiro nome, Lex, foi revelado nessa história, cerca de vinte anos depois de sua estréia.

Pequenópolis, à medida que se desenvolveu no decorrer dos anos, tornou-se um local muito ativo, graças à fluidez da realidade nos gibis. Em World’s Finest, revelou-se que a dupla Super-Homem & Batman teve sua gênese em Pequenópolis, quando Thomas e Martha Wayne passaram por lá com seu filho, Bruce. Este primeiro encontro ocorreu mais de uma vez, já que as histórias eram contadas e recontadas para tornar ainda mais complexa a lenda. Em uma versão, o jovem Bruce até mesmo trajou uma fantasia que lembrava um morcego, autodenominando-se Raposa Voadora e combatendo, por um breve período, o crime em Pequenópolis.

Os anos 60 foram tempos difíceis para nosso herói. Num período de transformação cultural para a América e o mundo, a filosofia maniqueísta e, alguns diriam, simplista de bem versus mal das histórias do Super-Homem soava ainda mais caduca. Tentativas de abordar a situação do mundo pareciam apenas um esforço para acompanhar os novos tempos e frequentemente erravam feio o alvo. Os gibis sempre seguiram os modismos da sociedade, tentando, na medida do possível, capitalizar os movimentos populares. Mas, para o Super-Homem, os temas abordados se mostraram esforços fracassados de fazer o personagem caber numa forma para a qual ele não fôra feito.

Clark Kent poderia deixar crescer costeletas e Lois Lane poderia se transformar numa mulher negra para explorar o dia-a-dia de Metrópolis. Porém, de alguma forma, era tudo muito difícil de engolir. A Metrópolis do Super-Homem simplesmente não parecia ser um lugar onde pudesse haver guetos ou gente pobre de qualquer cor. Por muito tempo, a cidade havia sido a pedra precisosa mais reluzente no diadema das cidades imaginárias da DC: Nova Iorque sem as pichações, Chicago sem a máquina política corrupta, Los Angeles sem a poluição.

Os elementos do passado trágico do Homem de Aço foram retratados durante os anos sessenta e setenta, mas com um efeito alienante. A paixão por Krypton tornou-se praticamente ofensiva. Cada exclamação de “Grande Krypton!” era um insulto ao mundo que havia sido lar do Super-Homem por quase toda sua vida. Uma espiral decadente teve início e parecia muito improvável que se pudesse fazer alguma coisa para reverter a derrocada final do personagem.

A lenda continuou a crescer com revisionismos retroativos. À medida que o planeta Krypton era deslocado no espaço, avançando para posições cada vez mais distantes da Terra, segundo o critério de uma sucessão de roteiristas e editores, justificativas cada vez mais engenhosas e complexas iam se fazendo necessárias para que o pequeno foguete atravessasse a distância espacial que se interpunha entre Krypton e a Terra. Em 1938, era o suficiente dizer que Jor-L tinha construído um buscapé vitaminado no qual ele havia colocado seu filho e apontado para a Terra. Ninguém se indagava a respeito da distância ou da trajetória. O deslumbramento com o acontecido era tudo o que importava e a cruel ditadura da lógica podia ser posta de lado se uma história tivesse um ritmo suficientemente ligeiro. Podia-se engolir numa boa a visão simplista que Siegel tinha sobre navegação espacial.

Na década de setenta, o foguete foi equipado com um “propulsor estelar”, e a dobra ou fenda espacial que esse estranho motor abriu também foi responsável por um verdadeiro dilúvio de artefatos kryptonianos que acompanhou o pequeno Kal-El até a Terra. Todavia, tantos foram os destroços da explosão que chegaram ao sistema solar que, às vezes, a destruição de Krypton parecia ter sido unidirecional, como que apontada para a Terra. Fazendo o pequeno foguete gerar uma espécie de buraco negro, um redemoinho no espaço, roteiristas mais recentes puderam justificar muito do que havia sido relatado anteriormente.

Em outra revisão, o foguete havia explodido ao chegar à Terra, antes do efeito da radiação solar ter chance de tornar o metal, o plástico e o vidro invulneráveis. Esta explosão foi usada para criar dois pedaços perfeitamente circulares de supervidro para que Clark Kent pudesse usar em seus óculos. Alguém finalmente havia percebido que Clark não teria sido capaz de cortar o vidro com sua unha por mais super que ela fosse. Seria o mesmo que dizer que um homem normal é capaz de cortar vidro comum com sua unha normal.



John Byrne

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Superman – IV

As Origens do Super-Homem – Terceira Parte

A introdução da kryptonita nas histórias do Super-Homem aumentou a importância do principal inimigo do herói: Lex Luthor, o mais louco de todos os cientistas. Luthor rapidamente soube não só da existência deste veneno letal para o Super-Homem, mas também descobriu como sintentizá-lo (em uma história baseada tanto no programa de rádio quanto no segundo seriado cinematográfico, ele consegue enganar o Homem de Aço e fazê-lo reunir todos os elementos necessários para produzir kryptonita artificial).

A atenção sobre Krypton foi transferida para outros elementos ligados ao passado do Super-Homem: kryptonianos vivos! Em uma edição de agosto de 1950, nosso herói confronta-se com três criminosos, lançados em órbita por Jor-El, o que lhes permitiu escapar à destruição do planeta. Jor-El, ao que parece, tinha mais de um foguete guardado em seu laboratório. Ele também estava mais envolvido nos trâmites judiciários kryptonianos do que se poderia esperar de um cientista, ainda que excepcional. À medida que a lenda progredia, podíamos ter a imagem de um Albert Einstein sendo convidado a participar da Suprema Corte.

Por fim, revelou-se que Jor-El era o inventor/descobridor de um aparelho que, com o passar dos anos, seria uma ameaça quase tão grande quanto a kryptonita: o projetor da Zona Fantasma. Esta dimensão espectral era vista pela população de Krypton como um castigo mais benevolente do que o tradicional exílio em órbita. Numa cena significativa, Jor-El era visto prometendo ao criminoso condenado que ele criaria algo mais piedoso do que cem anos em animação suspensa. O leitor pode julgar se a Zona Fantasma era mesmo um bem maior. Projetados nesta dimensão crepuscular, os criminosos tornavam-se espíritos desencarnados, capazes de ver e ouvir tudo que se transpirava em seu mundo natal, mas incapazes de tocar ou fazer contato com qualquer pessoa fora desse limbo.

Tendo descoberto a existência da Zona Fantasma, o Homem de Aço ficou sabendo que muitos dos criminosos internados nela estavam no fim de suas sentenças, e se sentiu naturalmente compelido a libertá-los. No entanto, a maioria não havia aprendido nada com o castigo e, possuindo os poderes do Super-Homem, esses criminosos kryptonianos iniciaram várias investidas maléficas. Inevitavelmente, acabaram voltando para a Zona Fantasma, rosnando de ódio e jurando vingança.

A essa altura, Siegel e Shuster já haviam partido. Eles deixaram de trabalhar com o personagem em 1947, e o controle de criação passou a vários editores, escritores e desenhistas. A primeira destas pessoas a causar impacto considerável na lenda do Super-Homem foi Mort Weisinger, que assumiu o controle das tarefas editoriais depois da Segunda Guerra Mundial. Sob a influência de Weisinger, o nosso herói começou a assumir a forma mais conhecida pelo público de hoje.

Weisinger, segundo consta, tinha o hábito de conversar com as crianças de seu bairro, perguntando o que gostariam de ver acontecer com o personagem cujas aventuras eram, afinal, ainda endereçadas quase que inteiramente a elas. Foi neste período que a proliferação de superpoderes teve início. Seja por sugestão das crianças ou por causa da astuta intuição do que elas gostariam de ver, as histórias desta época se encheram de uma infinidade de personagens com poderes idênticos aos do Homem de Aço. O primeiro a chegar, retroativamente, foi Krypto, o Supercão.

Pelo visto, Jor-El tinha um modelo daquele foguete que lançou seu filho rumo à Terra. E, sendo um pai zeloso e amoroso, ele não desejava arriscar a vida de Kal-El numa nave ainda não testada, e por isso havia lançado antes o cachorro da família rumo ao espaço no protótipo.

Krypto aparece em algumas histórias ao acaso, tanto em Pequenópolis quanto em Metrópolis e até mesmo no espaço sideral, seu território favorito. Sua longevidade sugere que o tempo de vida provável do Super-Homem é extremamente longo, uma vez que nada no texto jamais tinha indicado que os cães kryptonianos tivessem um tempo de vida maior do que seus equivalentes terrestres.

O surgimento de Krypto se fez seguir da aparição de um personagem muito mais significativo nas lendas do Super-Homem, a prima do herói, Kara, conhecida em todo o mundo como Supermoça. Tendo aparecido pela primeira vez em maio de 1959, a Supermoça rapidamente desenvolveu uma origem quase tão complexa quanto a do Super-Homem. Agora, uma cidade inteira tinha sobrevivido à destruição de Krypton, com uma bolha de ar de alguma forma atada ao fragmento lançado ao espaço. Revisões posteriores acrescentaram uma “abóboda climática” que realmente continha o ar.

Entre os residentes de Argo City estavam Zor-El e sua esposa, Alura. Zor-El, como logo ficou claro, era o irmão caçula de Jor-El (ô mundinho pequeno, esse Krypton!). Alguns anos depois da destruição de Krypton, os habitantes de Argo descobriram que o fragmento do planeta no qual estavam viajando através do espaço estava se transformando em anti-kryptonita, através de uma reação estranhamente retardada. Foram feitas tentativas de cobrir o solo com chumbo, para bloquear a radiação mortífera, mas, como Krypton, o povo de Argo percebeu que estava condenado.

Imitando seu ilustre irmão, Zor-El colocou sua filha, uma adolescente, num foguete e a enviou rumo à Terra. Depois de ser encontrada por Super-Homem, ela adotou a identidade de Linda Lee. Supermoça operou em segredo por anos, até seu primo julgar que o treinamento estava completo, e revelou sua existência a um mundo surpreso e empolgado em fevereiro de 1962.



John Byrne

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Superman – III

As Origens do Super-Homem – Segunda Parte

Na Terra, depois de um pouso forçado, o sobrevivente da pequena astronave enviada de Krypton é encontrado por um casal que passava de carro pelo local. Originalmente não identificados, eles mais tarde se tornariam Jonathan e Martha Kent. Seus nomes, também, variaram no início. Em 1942, George Lowther escreveu um romance do Super-Homem, detalhando sua origem com muito do que estava presente nos quadrinhos, e finalmente deu aos pais adotivos os nomes de Sarah e Eben Kent (com estes nomes eles ficariam conhecidos no seriado de cinema Superman de 1948 e no episódio-piloto do seriado televisivo The Adventures of Superman). O romance de Lowther também foi o primeiro a revelar o sobrenome kryptoniano do Super-Homem por inteiro, soletrando “EL” em vez de “L”, além de alterar o nome da mãe do herói de “Lora” para “Lara”.

Na versão em quadrinhos de 1938, os Kent, ainda sem nome, eram um casal idoso, sem filhos, que levava a criança perdida a um orfanato próximo, voltando depois para adotar o bebê. Numa redefinição, foi revelado que esse retorno era a intenção dos Kent desde o começo. Quando o casal voltou, os funcionários do orfanato ficaram mais do que felizes com a partida do bebê. Já possuindo os fabulosos poderes de um nativo de Krypton, a criança tinha quase demolido o orfanato.

Batizado de Clark Kent, o menino cresceu e tornou-se adulto antes de vestir o conhecido uniforme vermelho, azul e amarelo. Há versões conflitantes de como Clark recebeu esse nome. Nas próprias histórias, foi revelado que era o nome de solteira de sua mãe adotiva. No entanto, ninguém sabe o que Siegel e Shuster tinham em mente ao tomar tal decisão. Uma versão conta que a escolha do nome foi inspirada nos atores Clark Gable e Kent Taylor. Outra versão diz que foi uma homenagem às antigas revistas pulp que tinham alimentado a imaginação dos criadores do Super-Homem: Doc Savage, o heróico “Home de Bronze”, chamava-se Clark Savage Jr. e seu criador foi o autor Lester Dent.

O jovem Clark teve o cuidado de manter seus poderes em segredo. Na primeira edição de Superman, papai Kent o alerta: “Agora preste muita atenção no que vou dizer, Clark! Essa sua enorme força… bem, você tem de escondê-la das pessoas ou elas vão ficar com medo de você!”. Mamãe Kent era menos catastrófica e dizia: “Quando chegar a hora, você deve usar esse poder para ajudar a humanidade”.

Estabelecendo-se em Metrópolis, Clark arrumou emprega no Planeta Diário e assim conheceu o membro mais antigo do elenco de coadjuvantes, Lois Lane. Lois é a única personagem além do Super-Homem que esteve presente desde o começo. Ela entrou na vida de Clark Kent em Action Comics # 1, já como uma ousada repórter do Estrela Diária de Metrópolis (mais tarde, rebatizado de Planeta). Os outros membros mais conhecidos do elenco, Jimmy Olsen e Perry White, vieram depois, ambos gerados nas aventuras do Super-Homem no rádio.

Desenvolvimentos posteriores do personagem acrescentaram Superboy à lenda (em 1945), revelando que não fora como adulto que Clark demonstrara ao mundo suas habilidades kryptonianas, mas ainda jovem em Pequenópolis. Nas revistas Superboy e Adventure Comics, revelou-se a maior parte do que conhecemos sobre os bondosos Kent. Começando como fazendeiro, Jonathan Kent mais tarde compraria uma loja de mantimentos gerais em Pequenópolis. Nesse ambiente aconchegante, Clark viveria muitas aventuras (devido às curiosas confusões de continuidade que afligiram a DC Comics no passado, passaram-se muitos anos até que a existência de Superboy fosse reconhecida dentro dos títulos do Super-Homem).

Em Pequenópolis, nós também conhecemos Lana Lang, uma ruiva muito animada e, por um tempo, namorada do Superboy. Lana ocupou um papel em sua infância e adolescência semelhante ao que seria assumido anos depois por Lois. As narrativas do Superboy tornaram-se tão complexas quanto as do Super-Homem nos trinta e poucos anos de sua publicação. Ninguém parecia se incomodar com as contradições do aparecimento do Superboy como um elemento de peso no passado do Super-Homem. Talvez os leitores fossem menos chatos a respeito da continuidade naqueles dias. É bem provável que simplesmente acolhessem de braços abertos qualquer coisa que lhes apresentasse uma possibilidade de novas aventuras de seu herói favorito.

Das histórias do Superboy, vieram mais detalhes sobre a vida passada de Kal-El em Krypton. Usando a supermemória, o jovem Clark era capaz de relembrar muito dos acontecimentos do dia-a-dia em seu mundo de origem. Mais do que se poderia esperar de um recém-nascido. E, à medida que a crônica do herói progredia, a idade em que o Super-Homem havia deixado Krypton também avançava. Mencionava-se que Kal-El já era uma criança que balbuciava as primeiras palavras, com consciência plena de tudo o que acontecia a seu redor, quando partiu de Krypton. Novamente, as contradições eram ignoradas com muito prazer pelos leitores. Enquanto as histórias fossem empolgantes, ninguém dava muita bola para os detalhes.

A textura mudava, os detalhes se alteravam, até mesmo as personalidades se modificavam. Mas o Homem de Aço permanecia mais ou menos o mesmo, uma rocha ao redor da qual todas as outras coisas orbitavam.

Aos poucos, os próprios kryptonianos sofreram alterações, tornando-se cada vez mais parecidos conosco. Revelou-se que Krypton era um planeta gigantesco, talvez do tamanho de Júpiter, e a força do Super-Homem foi explicada com base nisso, uma vez que os músculos evoluídos para dar conta da esmagadora gravidade de Krypton tornavam-se superpoderosos na Terra.

Daí também se explicaria a origem da capacidade de voar própria do Super-Homem. A gravidade da Terra simplesmente não era suficiente para contê-lo. Sua invulnerabilidade era outro vestígio de seu planeta natal. Todos os kryptonianos, ao que parece, tinham estruturas moleculares superdensas.

Essa safra de alterações na lenda chamou mais atenção para o planeta Krypton em si. Esse mundo fora pouco mencionado durante a primeira década da vida do Super, mas acabaria se tornando uma engrenagem vital no maquinário que compõe o personagem. O interesse alcançou seu momento mais significativo em 1949, quando o Super-Homem, pela primeira vez, encontrou um fragmento reluzente de seu planeta. Colorida de vermelho na estréia nos quadrinhos, a kryptonita, na verdade, tinha sido gerada na série de rádio do Super-Homem e passaria a ser a partir de então a mais perigosa ameaça à existência do herói. A letal kryptonita assumiu a tonalidade verde numa segunda aparição. Mais tarde, uma versão vermelha foi mostrada aos leitores, mas seus efeitos sobre o Super-Homem eram profundamente diferentes. Como veremos.



John Byrne

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Superman – II

As Origens do Super-Homem – Primeira Parte

Como convém a um personagem cujas proezas rapidamente assumiram o aspecto de lenda, os primórdios do Super-Homem foram ao mesmo tempo humildes e cataclísmicos.

Cataclísmicos pois ele nasceu da morte de um mundo. Arremessado num frio e ameaçador Universo, um bebê órfão tornou-se a criatura mais solitária de todos os tempos. Viajando no ventre metálico de uma pequena espaçonave, o inocente deixou atrás de si um planeta moribundo que explodiu em bilhões de fragmentos verdes, meteoritos radiantes que se espalharam por todo o universo. Radiativos. Letais. À sua espera.

Humildes porque essa detonação, capaz de destruir um planeta foi gerada na mente de dois adolescentes, criados no coração dos EUA com revistas pulp de ficção científica e sonhos de um mundo além de Ohio. Seus nomes: Jerry Siegel e Joe Shuster, respectivamente roteirista e artista. Da imaginação deles, nasceu um personagem de apelo incomparável, que tocou no ponto certo da psiquê americana. Um herói chamado Super-Homem.

Era a década de 30. O momento exato da concepção do Homem de Aço é objeto de conjecturas, mas, com certeza, não foi posterior a 1934. Jerry Siegel usou o nome de Super-Homem pela primeira vez em 1933, num conto que escreveu para seu fancine (revista amadora produzida por fãs) Science Fiction. A história se chamava O Reino do Super-Homem, e tinha pouco a ver com o personagem que nós conhecemos hoje. Era a aventura de um homem que havia ganhado fantásticos poderes mentais e feito um péssimo uso deles. O ilustrador do conto: Joe Shuster.

Mais cinco anos se passaram até o público conhecer o nome aplicado ao maior de todos os aventureiros uniformizados. Antes disso, porém, Siegel e Shuster tentaram, sem sucesso, fazer muitos editores se interessarem por sua criação. Originalmente projetado para estrelar tiras de jornais, o Homem de Aço foi apresentado, a princípio, aos syndicates (associações que representam quadrinistas e vendem seus trabalhos para diversos jornais do mundo inteiro, quase sempre em forma de tiras). A reação foi estrondosamente negativa e, após muitas rejeições, os dois procuraram editoras no Canadá, onde Joe Shuster tinha parentes. Ele costumava passar férias nos arredores de Toronto (na verdade, o primeiro trabalho do Super-Homem original foi como repórter do Daily Star, inspirado no Toronto Star). O consenso geral? O personagem não teria “apelo duradouro”.

Enquanto não obtinham aprovação, Siegel e Shuster se viravam como podiam. Como o herói kryptoniano continuava engavetado, a dupla produzia outros trabalhos. Suas carreiras, na verdade, começaram quase que simultaneamente com os primórdios do ramo – em grande parte na DC Comics.

Armados de um currículo de sucesso, eles finalmente venderam o Super-Homem, que foi adaptado para o formato de revista em quadrinhos e apresentado a Harry Donenfeld, presidente da DC Comics. Donenfeld autorizou a publicação. Sheldon Mayer foi o editor do lançamento. E, como se costuma dizer, assim nasceu uma lenda.

O herói estreou na edição número um de Action Comics, com data de capa de junho de 1938. Os Estados Unidos, abatidos pela depressão econômica e temerosos com a guerra, vislumbraram, pela primeira vez, o personagem que se tornaria um ícone americano. Capa de edição número um de Action Comics, o Super-Homem passaria a abrilhantar todas as capas da revista a partir da edição 19, na época em que já tinha, inclusive, seu próprio título, Superman. No auge de sua popularidade, ele estrelaria mais um punhado de títulos, como Superboy, Adventure Comics, World’s Finest Comics e Justice League of America, entre outros.

A primeira aventura do Super-Homem era bastante simples, com elementos que o escritor Siegel havia desenvolvido em histórias anteriores. A trama: nos confins do espaço, havia um grande planeta chamado Krypton. Em suas primeiras versões, pertencia ao nosso sistema solar. Siegel e Shuster devem ter se inspirado nas teorias da época, que afirmavam que o cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter era remanescente de um terrível cataclismo. Os astrônomos e astrofísicos da década de 70 provaram o contrário: a força gravitacional de Júpiter, oscilando de forma irregular, jamais deu chance para que um décimo planeta se formasse naquela região. mas, na década de 30, a ficção científica estava cheia de narrativas sobre um mundo há muito desaparecido.

Krypton era o lugar ideal, muito mais avançado do que a Terra de 1938. Os kryptonianos haviam atingido a perfeição física e mental. Uma raça de super-homens. Todavia, uma população condenada. Em nossa primeira visão de Krypton, tremores na crosta planetária abalavam as poderosas torres de suas cidades. Jorros de lava eram liberados através do manto que se fragmentava. O céu escurecia. Os kryptonianos estavam apavorados, pois o mundo que haviam conquistado tinha se voltado contra eles, e não sabiam porquê. Apenas um homem conhecia a verdade. Ele era Jor-L, um brilhante cientista que tinha percebido qual seria o destino do planeta. As pressões crescentes dentro do núcleo em breve destroçariam tudo.

O nome Jor-L já havia aparecido em outra das histórias de Siegel, redigida após a concepção do Super-Homem, mas publicada antes da estréia do personagem.

Saltando através da cidade, com pulos que cobriam várias quadras, Jor-L correu para casa, onde encontrou à sua espera a bela esposa Lora, e seu filho: um bebê recém-nascido que viria a se tornar o Homem de Aço. Somente em 1957, o leitor descobriria seu verdadeiro nome. A essa altura, a nomenclatura de seu pai havia mudado ligeiramente para Jor-El, e o Super-Homem seria Kal-El, que significava Filho das Estrelas em kryptonês.

Temendo a completa destruição de seu mundo, Jor-L concebeu um estratagema para salvar seu filho. Antecipando o destino que aproximava para sua raça, ele já havia construído um pequeno protótipo de uma frota de foguetes que salvaria toda a população. Os kryptonianos, porém, tinha rejeitado o plano, pois não acreditavam nas previsões apocalípticas. O pequeno modelo, inteiramente funcional, era tudo o que fora concluído. Jor-L colocou seu filho na pequena nave com o consentimento de Lora, e o pequeno Kal partiu rumo a um longíquo planeta chamado Terra, enquanto uma onda de terremotos destruía Krypton.



John Byrne

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Superman – I


O Reinado do Super-Homem

Como a idéia de dois adolescentes, mais de meio século atrás, se tornou o modelo de herói moderno e continua sendo um sucesso nos quadrinhos

Após 58 anos, ele ainda consegue voar sobre a cidade de Metrópolis, decidido a resgatar a verdade, a justiça e o modo de vida americano. Salvando o mundo ou simplesmente ajudando uma menina a recuperar o seu gatinho, o mito Super-Homem deixou de ser apenas um personagem de histórias em quadrinhos para ser visto como um ícone cultural do século XX. Invejado por uns, criticado por muitos, imitado por todos, o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster é um marco divisor no mercado de quadrinhos. Ele é o protótipo do homem perfeito, o objetivo a ser alcançado.

É bem conhecida a lenda de como Siegel e Shuster criaram o Super-Homem, e a grande batalha que travaram para sua publicação. Mas muita gente desconhece que nosso “Homem de Aço” nasceu como o mais temido vilão, um tirano que usava a sua força destruidora para subjugar os mais fracos. Depois, passando para o lado dos mocinhos, seus poderes foram ampliados, até ele atingir o status de semideus e perder a perspectiva do homem comum.

Nascimento

Os gregos foram os primeiros a buscar a perfeição, fosse ela física ou intelectual. Seus heróis e lendas eram mistos de ideais perfeitos e atitudes muito longe disso. Héracles (depois chamado de Hércules pelos romanos) inaugurou a categoria dos semideuses, poderosos e fortes, mas também infectados pelas fraquezas humanas. Beberrão e mulherengo, o filho do todo-poderoso Zeus com uma mortal matou duas serpentes com as mãos ainda quando criança. Caçador de primeira, o adolescente Héracles tinha 2 metros e meio de altura e um físico invejável. Os famosos 12 trabalhos provaram seu poder frente aos admiradores mortais, mas também marcaram sua tragédia pessoal: sob um encantamento de Hera, mulher de Zeus, ele matou seus filhos com Mêgara, filha do rei Creonte de Tebas. Como punição, Héracles teve de cumprir as 12 tarefas para, só então, subir ao Olimpo, a morada dos deuses.

Muitos séculos depois, na Idade Média, os heróis se tornaram cavaleiros armados de espadas e lanças. Vestidos de armaduras pesadas, eles combatiam dragões, salvavam princesas e enfrentaram até o demônio para recuperarem cálices sagrados. Mas, tirando nosso hercúleo semideus, todos estes heróis antigos eram homens comuns lutando contra seus limites. O século XX necessitava de algo mais, de alguém diferente, alguém… super!

Siegel e Shuster eram fãs de histórias de ficção científica e, quando se conheceram aos 16 anos, começaram a criar histórias no jornal da escola e num fanzine mimeografado chamado Science Fiction. Foi neste folhetim, em janeiro de 1933, que nasceu o Super-Homem. O nome do personagem foi copiado de um anúncio da revista pulp Doc Savage. Ele era um tirano do futuro, calvo e de olhar aterrador, que tinha poderes mentais sobre-humanos. Siegel e Shuster criaram um mundo do amanhã com o mesmo olhar pessimista que hoje também se vislumbra nos dias que virão. A crise de 1929, que enfiara os Estados Unidos numa grande depressão econômica, gerou uma série de previsões pessimistas. Em 1932, Aldous Huxley idealiza seu Admirável Mundo Novo, onde os seres humanos renegam sua humanidade. No ano seguinte, Adolf Hitler se torna o chanceler alemão, e planta a idéia da raça perfeita de super-homens, a raça ariana. Talvez por este motivo, os dois jovens judeus resolveram transformar seu novo personagem num mocinho.

A febre das revistas em quadrinhos começou em 1933 e os dois aprendizes de quadrinhistas são capturados imediatamente. Decidiram, então, fazer uma história completa só com o personagem, ainda sem o uniforme, mas com cabelo. Levaram sua obra para um editor que não quis publicá-lo. No ano seguinte, numa noite calma, Siegel concebeu a versão final do seu personagem. Em apenas algumas horas escreveu material para sete semanas de tiras de jornal. Pela manhã já estava ao lado de Shuster, que desenhou furiosamente a nova história. Em vinte e quatro horas, o mito estava criado. Em formato de tiras de jornal ou de revista, Siegel e Shuster durante quatro anos bateram em várias portas tentando vender a sua idéia. Editoras e syndicates (empresas que gerenciam a venda de tiras para os jornais) recusavam o projeto. Apenas a National Periodical (hoje DC Comics) resolveu apostar nos dois jovens e seu Super-Homem. Compraram os direitos de publicação por apenas 130 dólares. E o resto é história.

Os anos seguintes

Depois que surge uma boa idéia, várias outras seguem o mesmo caminho. Com o Super-Homem não foi diferente. Homens com capas e superpoderes começaram a surgir numa explosão sem precedentes. De um momento para o outro, a Terra tinha mais salvadores do que problemas. Cada cidade do continente americano possuía um “super-alguma-coisa” disposto a defender a moral e os bons costumes. Nem mesmo décadas de confrontos com supervilões, guerras, morte, ressurreições, marketing, clones, nada conseguiu abalar a credibilidade e a popularidade dos super-heróis. Crianças, jovens e adultos continuam a acompanhar suas histórias, sejam elas engraçadas, sombrias, ou humanitárias, como quando Super-Homem e Batman juntos lutaram contra a fome.

O final dos anos 80 e início dos anos 90 marcaram a humanização dos super-heróis. Autores consagrados procuraram resgatar a humanidade perdida dos seres mais poderosos do planeta, tentando destruir a imagem de que estes personagens poderiam, se quisessem, mudar o curso da história. Mais e mais superseres passaram a ter uma visão mundana e mais preocupada com a realidade. E esta avalanche que tentou mudar a história em quadrinhos também teve como astro inaugural o primeiro dos novos deuses: Super-Homem. Após décadas de poderes ilimitados, John Byrne, em junho de 1986, transforma o Homem de Aço num Homem Terreno: ele não podia mais viajar no tempo, viver no espaço e nem mais ser eterno.

Kurt Busiek renovou o Universo Marvel em 1993 com a minissérie Marvels (publicada no Brasil em 1995 pela Editora Abril Jovem). Num mundo em que imperam os super-heróis, Busiek procurou o ponto de vista do cidadão comum: um repórter. Este símbolo do contador de histórias do mundo moderno serve de identificação com o leitor. O destaque da minissérie não está nos super-heróis, mas sim no ponto de vista do repórter sobre um mundo onde existem super-homens capazes de fazer tudo o que as pessoas comuns apenas sonham.

No ano passado, Busiek criou uma cidade cheia de super-heróis: Astro City. Nela, tudo se passa num clima de anos 50, os anos de ouro do consumismo americano, dos carrões passeando sem se preocupar com crise de combustível, e de homens e mulheres de chapéu. E é nesta cidade que seus super-homens e super-mulheres vivem as angústias do dia-a-dia. Samaritan, o herói mais parecido com o Super-Homem original, vive o seu dia dividido entre seu emprego como revisor de uma grande editora e sua obrigação de salvar o mundo inteiro. Sua prioridade é salvar pessoas e evitar catástrofes. Inclusive, ele se recrimina quando perde muito tempo salvando um gatinho de uma árvore e quase não consegue salvar uma pessoa. Os super-heróis de Busiek na série Astro City aparentemente não têm a perspectiva do homem comum. Mas nos sonhos, Samaritan pode voar. Ora, como todo superser que se preze, ele vive voando e salvando o mundo. Mas o que ele quer é voar, só isso, num sonho que qualquer pessoa comum tem. Apenas voar.

Vigilantes

Talvez o exemplo mais concreto de um super-herói que perdeu a perspectiva de sua humanidade seja o Dr. Manhattan. Criado por Alan Moore e David Gibbons na minissérie Watchmen, o Dr. Manhattan é um ser onipresente e onisciente, resultado de uma experiência nuclear que acabou em tragédia. O físico Jon Osterman sem querer entra em um compartimento usado para testes radioativos e tem seu corpo destruído. Todos acreditam que esteja morto, mas ele apenas se transformou, sendo capaz de rearranjar os átomos à sua vontade e ver além da superfície: o Dr. Manhattan consegue enxergar átomos, moléculas e partículas e ver o passado, o presente e o futuro… ao mesmo tempo!

Por causa desse seu ponto de vista totalmente inédito, Manhattan perdeu completamente sua humanidade, tornado-se cético e distante, deixando de se preocupar com assuntos mundanos. Para ele, a composição molecular de uma pessoa viva é tão parecida que não se consegue distinguir uma da outra. Ao ultrapassar a linha entre o “normal” e o “super”, Manhattan perdeu também a capacidade de compreender sentimentos básicos, como o amor.

Mas nem tudo está perdido para o Dr. Manhattan. Ao descobrir que sua namorada é filha do Comediante, por quem a mãe dela sentia verdadeiro nojo, notou que às vezes a improbabilidade pode se transformar em realidade. Para ele, que podia passear pelo espaço-tempo sem esforço, aquele fato abriu seus olhos para uma característica do ser humano, algo que dá sentido à vida: o improvável, o imprevisível. Tão imprevisível como a morte.

Em 1992, Joe Shuster morreu, cego de um olho, sem poder desenhar mais o seu personagem, que passou a pertencer à DC Comics. Em janeiro deste ano, foi a vez de Jerry Siegel. Em um anúncio publicado em suas revistas, a DC faz o seu mea culpa. O texto do anúncio diz: “Ele olhou para o céu. Ele atreveu-se a sonhar. Ele nos deu um ícone. E nos ensinou a voar”. O Super-Homem que os rapazes Siegel e Shuster criaram continua a voar pelos céus de Metrópolis, perseguindo o ideal de ser perfeito num mundo cheio de injustiças e que, agora, ficou mais triste.


Sérgio Miranda

(próximo)
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Os fantásticos mundos de Robert E. Howard – XI

A História por trás da História

Vou confessar: esta é uma história que há mais de uma década eu vinha tendo vontade de fazer.

Durante meu primeiro período como escritor das histórias do Conan na Marvel, de 1970 a 1981, concebi a idéia de combinar Conan e seu criador, Robert E. Howard, numa única história. Desde então, de tempos em tempos, eu costumava imaginar um roteiro.

Num certo sentido, eu e Barry Smith escrevemos uma história para a Marvel que pode ser considerada a predecessora de “Bárbaros da Fronteira”. A história, de sete páginas – publicada na revista CHAMBER OF DARKNESS nº 4 no início de 70 -, foi chamada, apropriadamente, de “The Sword and the Sorcerer”, (A Espada e o Feiticeiro) e falava de um guerreiro semelhante a Conan, chamado Starr – the Slayer, que se aventurava no século XX para executar seu criador, um escritor de fantasia que planejava “matar” o seu personagem em sua próxima história.

Mesmo assim, com o passar dos anos, minha vontade de fazer uma aventura com Howard e Conan continuou aumentando, e prometi a mim mesmo que, tão logo tivéssemos terminado de adaptar todas as histórias de Howard/De Camp/Carter na SAVAGE SWORD (Espada Selvagem), eu faria isso.

Porém, uma vez chegada a ocasião, acabei não fazendo isso. E, em retrospecto, estou contente por não ter feito.

Isso porque, na década de 80, a criação de Conan por Howard foi colocada numa perspectiva mais ampla por livros como Dark Valley Destiny (biografia de Robert E. Howard escrita por De Camp/Griffin e publicada em 1983), One Who Walked Alone (de 1985; as memórias de Howard escritas por Novalyne Price Ellis, que o conheceu nos últimos anos de sua breve vida) e Post Oaks and Sand Roughs (de 1990; uma autobiografia ligeiramente romanceada que Howard escreveu em 1928 e que antecede a concepção de Conan em vários anos).

A principal fonte de inspiração para “Bárbaros da Fronteira”, porém, foi um punhado de cartas que o próprio Robert Ervin Howard escreveu a diversos correspondentes (inclusive os escritores de histórias de horror H. P. Lovecraft e Clark Ashton Smith) a respeito da gênese do Cimério. Essas e outras cartas do escritor foram reunidas, compiladas e publicadas geralmente sob os auspícios de Glenn Lord, cuja bibliografia, The Last Celt, também teve influência nesta história.

A idéia era combinar uma história de Conan com a sua criação, em 1932, por Robert E. Howard – e, como um terceiro elemento, uma “aventura” acontecendo com o próprio Howard, que iria se descobrir, no final, ser uma fantasia, tanto quanto o próprio Conan. Na verdade, se, no final da história, você não souber ao certo qual dos dois – Howard ou Conan – é o mais literalmente “real”, isso também está ótimo.

Mas, como muitos leitores podem estar interessados, achamos que devíamos esclarecer precisamente que partes do episódio com Howard em “Bárbaros da Fronteira” são baseadas no que ele afirmou ter realmente acontecido e que partes são pura invenção. Portanto, aqui vai…

No início de 1932, Howard, que completara 26 anos em 22 de janeiro, estava já há vários anos vendendo histórias para as revistas pulp da época (revistas de capa mole e papel barato que reuniam contos diversos, às vezes acompanhados de algumas ilustrações). O Rei Kull, Salomão Kane, El Borak, Bran Mak Morn e outros heróis, modernos e históricos (e, no caso de Kull, pseudo-histórico), já haviam fluído de sua máquina de escrever na pequena cidade de Cross Plains, Texas, ao lado da rodovia para Abilene. Entre suas principais influências – alguns nomes ainda lembrados até hoje, outros quase esquecidos – estavam Edgar Rice Burroughs, H. P. Lovecraft, Talbot Mundy, Harold Lamb, Robert W. Chambers e H. Rider Haggard.

Porém, no inicio de 1932, como o próprio Howard escreveria depois, “eu estava absolutamente vazio de idéias, completamente incapaz de criar alguma coisa vendável”. Após ter decidido, em fevereiro, que precisava de umas férias longe da sua cidade, o escritor fez uma viagem de ônibus ao sul, para San Antonio e o Vale do Rio Grande, chegando inclusive à cidade fronteiriça de Rio Grande, a meio caminho entre Laredo e a cidade costeira de Brownsville.

Howard considerou San Antonio “sem dúvida, a cidade mais interessante e pitoresca do Texas, possivelmente de todo o sudoeste”. Ali, como escreveu depois, “conheci por alto um indiano que havia passado a maior parte de sua vida na China”.

Ele não revelou o nome do homem em suas cartas, nem (ao contrário da nossa história) mencionou que ele estivesse no ônibus que partiu de San Antonio em direção ao sul. Nós inventamos isso!

Howard era dado a inventar histórias, tanto pessoalmente quanto em suas cartas. Mas, neste caso, provavelmente estava contando a verdade quando disse que o homem relatou a ele muitas “torturas do Oriente” e como havia visto “centenas de comunistas chineses decapitados nas ruas”. Howard escreveu a Lovecraft: que “só de imaginar tal evento fiquei nauseado”.

Em sua viagem, Howard desceu o Vale do Rio Grande até a cidade de Rio Grande, na fronteira mexicana (o rio em si faz fronteira entre os EUA e o México).

No livro Dark Valley Destiny, os autores contam que, em algum lugar no caminho, provavelmente na cidade de Rio Grande, Howard “substituiu seu boné de pano habitual por um enorme sombrero preto mexicano”, que era pelo menos um número grande demais. Um conhecido de Cross Plains, entrevistado anos depois, relatou: “Deus, aquela coisa engolia ele!”.

Foi enquanto Howard estava apreciando tortillas e vinho espanhol que… bem, vamos deixá-lo contar em suas próprias palavras: “Conan simplesmente surgiu em minha mente alguns anos atrás, quando eu estava fazendo uma parada numa pequena cidade fronteiriça na parte baixa do Rio Grande. Eu não o criei por nenhum processo consciente. Ele simplesmente surgiu do nada, totalmente desenvolvido, e me pôs para trabalhar registrando suas aventuras”.

Ao retornar à casa de seus pais em Cross Plains, Howard logo criou uma biografia geral, e até o rascunho de um mapa do mundo imaginário de seu novo herói, antes de começar a escrever a primeira história a seu respeito. Assim nasceu “A Era Hiboriana”, o ensaio que formou o substrato pseudo-histórico de toda a saga de Conan.

Desde o início, Howard de alguma forma sentiu que Conan era mais “real” para ele do que seus heróis anteriores. Como escreveu depois: “Pode soar fantástico ligar o termo ‘realismo’ a Conan, mas na verdade – deixando de lado suas aventuras sobrenaturais – ele é o personagem mais verossímil que já elaborei. É simplesmente uma combinação de diversos homens que conheci, e acho que é por isso que ele parece ter surgido totalmente desenvolvido na minha consciência quando escrevi o primeiro conto da série. Algum mecanismo do meu subconsciente apreendeu características dominantes de diversos lutadores, jogadores, pistoleiros, contrabandistas, valentões de campos de petróleo e trabahadores honestos com quem eu havia entrado em contato e, combinando todas essas características, surgiu o amálgama que chamo de Conan, o Cimério”.

Howard também relatou: durante semanas não fiz nada exceto escrever as aventuras de Conan. O personagem tomou minha mente e expulsou tudo o que pudesse me impedir de contar suas histórias. Quando, deliberadamente, tentei escrever outra coisa, não consegui.

O mapa que Howard desenhou ajudou-o a manter sua geografia da Era Hiboriana em ordem – pelo menos “dos países a oeste de Vilayet e ao norte de Kush”.

Embora a primeira história de Conan a ser vendida para Weird Tales (“The Phoenix on the Sword”) apresente seu herói já como rei, Howard começou logo a saltar aleatoriamente pela vida que havia mapeado mentalmente para seu novo personagem. Afinal, como Howard afirmou: “Um aventureiro normal contando ao acaso histórias de uma vida movimentada raramente segue um plano ordenado, mas, sim, narra episódios largamente separados no tempo e no espaço à medida que vai se lembrando”.

Na verdade, “The Phoenix on the Sword” foi uma versão meticulosamente reescrita de “By This Axe I Rule”, uma história rejeitada do Rei Kull. Mas Howard deu continuidade à saga quase imediatamente, com outras histórias de Conan totalmente novas, inclusive “The Frost Giant’s Daughter”, “The God in the Bowl” e “The Vale of Lost Women” – e todas as três foram rejeitadas na época pelo editor da Weird Tales e só foram publicadas anos depois da morte do escritor!

Contudo, dezessete histórias de Conan foram vendidas e publicadas entre 1932 e 1936, enquanto oito outras – não vendidas ou até inacabadas – foram deixadas para De Camp, Lord e outros descobrirem quase uma geração depois.

Quanto à questão de Robert E. Howard ter ou não fantasiado uma aventura consigo mesmo… bem, temos a palavra de pessoas que o conheceram e afirmam que ele frequentemente parecia imaginar inimigos de tocaia atrás de cada esquina. Uma vez, conduzindo um visitante, Howard parou subitamente o carro, pegou sua arma e saltou fora para inspecionar um rochedo à sua frente – explicando depois que queria ter certeza de que nenhum inimigo seu estava se escondendo atrás da pedra esperando para emboscá-los. Ele provavelmente estava apenas brincando com o amigo. Ainda assim, como August Derleth, escritor e correspondente de Howard declarou, “ele vivia num mundo que era pelo menos quase de faz-de-conta”.

Sem dúvida, a viagem de Howard para o sul do Texas, mesmo considerando o encontro pitoresco com aquele indiano, foi relativamente desprovida de acontecimentos, se não levarmos em conta a aventura interior que foi a criação de Conan. Mas Howard poderia não tê-la visto dessa maneira.

Além dos fatos objetivos da criação de Conan numa cidade fronteiriça em fevereiro de 1932, foi um trecho de uma carta escrita por Howard em 1931 que plantou em mim a idéia da história desta edição. Escrevendo a um amigo, Howard opinou que “nove vezes em dez uma arma não vai servir para nada no caso de uma encrenca. No caso de um assalto, normalmente o outro sujeito terá a vantagem da surpresa. Mas sempre existe uma chance da arma poder ser útil”.

Ele continuou: “Certa vez, à meia-noite, numa cidadezinha na divisa de Oklahoma, eu teria dado um dente por um trabuco de algum tipo”.

Essa frase ficou na minha cabeça por todos esses anos, desde que a vi pela primeira vez, impressa nas páginas de The Howard Collector, uma publicação especializada editada por Lord.

Se ele suspeitava de perigo na divisa entre o Texas e Oklahoma, raciocinei, por que não sentiria o mesmo na atmosfera muito mais hostil de uma cidade na fronteira mexicana?

Assim nasceu “Bárbaros da Fronteira”, e deixo aqui meus agradecimentos a Mike Rockwitz, à Marvel e aos artistas John Buscema e Ernie Chan por me darem a chance de finalmente ver esse trabalho realizado após todos esses anos.


Roy Thomas

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Os fantásticos mundos de Robert E. Howard – X

O criador de bárbaros

Por Glenn Lord, agente literário do espóliio de Robert E. Howard.

Aquele que viria a ser o criador de Conan, Robert Ervin Howard, nasceu no dia 22 de janeiro de 1906 em Peaster, Texas, um pequeno vilarejo cerca de setenta quilômetros a sudoeste de Fort Worth. O pai, um médico do interior, fez a família se mudar por todo o Texas durante anos até finalmente se estabelecer em Cross Plains, uma cidadezinha no Texas Central, em 1919.

Quando ainda estava no colégio, o jovem Robert começou a redigir contos para tentar vender às revistas da época. Uma lista cronológica de seus trabalhos numa carta a um amigo, escrita por volta de 1929, indica que a primeira história oferecida foi “Bill Smalley and The Power of the Human Eye”, rejeitada por duas editoras em 1921. Howard conseguiu sua primeira venda em 1924, quando a revista Weird Tales aceitou “Spear and Fang”, um conto sobre cro-magnons e neandertais comprado por 18 dólares, pagos quando a história foi publicada.

Robert arrumou vários tipos de emprego depois de se formar no colegial, pois seus escritos rendiam muito pouco. Trabalhou num escritório de advocacia como secretário particular, carregou mira topográfica para um geólogo, escreveu notícias dos campos de petróleo para diversos jornais, trabalhou como estenógrafo público e finalmente numa drogaria. No outono de 1926, desanimado com sua falta de sucesso como escritor, matriculou-se num curso de contabilidade na Howard Payne College, em Brownwood.

Logo, porém, Howard estava escrevendo peças humorísticas para The Yellow Jacket, o jornal da faculdade, e novamente apresentando histórias a diversos compradores em potencial, conseguindo vender algumas para a Weird Tales. Na lista de histórias rejeitadas durante esse período, podemos apenas conjecturar quais os temas por trás dos títulos, já que os manuscritos aparentemente não sobreviveram: “The Valley of the Golden Web” (O Vale da Teia Dourada), “Sanctuary of the Sun” (Santuário do Sol), “The Crimson Line” (A Linha Escarlate), “Vulture’s Roost” (O Ninho do Abutre), “Windigo! Windigo!”.

Salomão Kane, o severo espadachim justiceiro e puritano, foi o primeiro de uma série de personagens a serem publicados (1928). O ano seguinte viu o advento de Kull, o selvagem atlante que toma o trono da fabulosa Valúsia na Era Pré-Cataclísmica – isto é, antes da Atlântida afundar. Muitas das histórias de Kull, porém, não encontraram mercado até serem coletadas em forma de livro em 1967.

Em 1930, Howard tinha se tornado uma presença regular em Weird Tales e já havia chegado à revista Fight Stories com suas histórias humorísticas sobre o marinheiro Steve Costigan. Mais para o fim daquele ano, ele escreveria uma série de contos históricos de aventura para a Oriental Stories, uma revista que teve pouca duração, editada pela mesma companhia que fazia a Weird Tales.

A Grande Depressão, como não podia deixar de ser, teve seu efeito deletério na indústria editorial. Durante algum tempo, Weird Tales reduziu sua frequência de mensal para bimestral e, mesmo depois de voltar à sua programação mensal, a revista não conseguia mais pagar seus colaboradores. Oriental Stories foi suspensa em abril de 1932 e só voltaria às bancas em 1936.

Forçado a procurar novos mercados, Howard experimentou histórias de detetives, com poucos resultados, e mais tarde admitiria que não se dava bem com esse gênero. Por outro lado, depois de alguns fracassos iniciais, encontrou sucesso no faroeste e teve histórias desse gênero publicadas na revista Action Stories, de 1934 até depois de sua morte, em 1936.

A edição de novembro de 1932 da Weird Tales apresentou outro personagem conhecido, Bran Mak Morn, o chefe picto cujas batalhas com as legiões romanas na Britânia se tornaram muito populares.

A edição do mês seguinte, contudo, revelou um herói que logo iria sobrepujar todos os outros e seria de longe o seu personagem mais famoso: Conan, o Cimério. A primeira história de Conan, “The Phoenix on the Sword”, era na verdade uma nova versão de uma história rejeitada de Kull, chamada “By This Axe I Rule!”.

O mundo e a carreira de Conan são bem conhecidos pelos leitores: ele progrediu de aventureiro, ladrão, pirata e mercenário até chegar ao trono da Aquilônia na Era Hiboriana, um período mítico cerca de 12.000 anos atrás, entre o desaparecimento da Atlântida e o início da história registrada.

De 1932 a 1936, a Weird Tales apresentou dezessete contos de Conan. Em 1936, Howard atravessava uma excelente fase, vendendo histórias de diferentes gêneros para a Weird Tales e Action Stories, para alguns títulos da editora Street & Smith e para a revista Spicy Adventures Stories (aqui, contos mais picantes, escritos sob pseudônimo).

Todavia, as cartas de Howard a seus correspondentes indicavam sua crescente preocupação com o estado de saúde de sua mãe. Em 1935, a sra. Howard havia sofrido uma cirurgia no King’s Daughters Hospital, em Temple, Texas, e nunca mais recuperou a saúde. Dali em diante, iria exigir visitas periódicas e cuidados intensivos de enfermagem.

Na manhã do dia 11 de junho de 1936, a enfermeira responsável respondeu negativamente quando Robert perguntou se sua mãe algum dia sairia do coma em que se encontrava. Ao ouvir a resposta, ele caminhou até seu carro, estacionado no fundo de sua casa nos subúrbios de Cross Plains, entrou e disparou uma bala na cabeça.

Howard morreu oito horas depois. A sra. Howard expirou cerca de trinta horas mais tarde. Os dois foram sepultados num funeral duplo no Greenleaf Memorial Cemetery, em Brownwood.


Glenn Lord

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