Um mundo sem bar

Não tem nada a ver com porres, ressacas ou qualquer comportamento autodestrutivo; bar é a celebração da vida, do amor, da inteligência e do companheirismo

Gilberto Amendola

Eu não quero viver em um mundo sem bar. Não sei qual vai ser o novo normal depois do fim da quarentena, mas, definitivamente, não quero viver em um mundo sem bar.

Não é pelo álcool, acreditem. Se fosse só por beber, ficaria em casa com meu estoque de garrafinhas. Não tem nada a ver com porres, ressacas ou qualquer comportamento autodestrutivo.

Ao contrário, amigos. Bar é a celebração da vida, do amor, da inteligência e do companheirismo. No final da linha evolutiva traçada por Darwin, podem apostar, o que se vê é um homem sentado no balcão de um bar, tomando sua cervejinha em paz.

Sem bar, o que nos resta é o meteoro (ou a pandemia).

Bar é igreja, startup, salão de beleza, consultório psiquiátrico, UTI, SUS, ONU, OMS… Bar é meio ambiente, Ministério da Cultura, Economia, Educação, Justiça e Direitos Humanos.

O bar é a arena das nossas maiores emoções. Bar é o consolo de quem perdeu. O pódio dos campeões. E o olimpo de quem não quer competir.

Sou um sujeito adaptável. Posso viver sem muitas coisas. Abro mão de quase tudo que possa resultar na aglomeração de seres humanos e, consequentemente, facilitar a disseminação da nojenta da covid-19. Ou seja, estádios de futebol, festivais de música e clubes de swing não mais contarão com a minha presença pelo tempo determinado pelas autoridades.

Mas um mundo sem bar é um mundo pior.

É um mundo sem happy hour, sem aquela olhadinha para o relógio perto do fim do expediente, sem a gravata frouxa e torta no pescoço, sem aquele suspiro de alívio ao se aboletar em um banco e encostar os cotovelos no balcão.

Um mundo sem balcão de bar é um mundo muito pior. É um mundo sem a nossa tábua de salvação, sem a lousa em que rabiscamos projetos, fugas e desastrados sonetos de (des)amor.

Eu não quero viver em um mundo sem bolovo, shot de Cynar, caipirinha, dry martini ou negroni. Não quero viver em um mundo sem amendoim, porção de azeitona ou pururuca. Eu não quero viver em um mundo sem saideira. Eu não quero viver em um mundo em que eu não possa desenhar no ar aquele gesto universal que, em qualquer idioma, significa “fecha a conta, por favor”.

Um mundo sem bar é um mundo sem as melhores pessoas. Como deve ser ruim um mundo em que nenhum garçom nos chame pelo nome, em que nenhum bartender saiba qual o nosso coquetel preferido, em que nenhuma musa nos lance um olhar de desprezo ao deixar o recinto com o cara errado.

Um mundo sem bar é um mundo sem empatia. É um mundo sem amor ao próximo. É um mundo de indiferença. Um mundo cheio de “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”.

Vai por mim! Mesmo que esse próximo esteja na mesa ao lado falando bobagens, contando mentiras ou piadas ruins, ele também será digno desse sublime amor de bar. Mesmo que seja um mala, um inconveniente, alguém exaustivamente alegre ou infeliz como um cactos, ele sempre será digno do infinito amor de bar.

No bar, todo desconhecido ganha um voto de confiança imediato. Todo estranho confirma Rousseau – e é bom por natureza.

O bar é a nossa maior invenção. É a nossa alma coletiva. Nosso colo de mãe. Bares funcionam como postos de abastecimento da humanidade.

– Enche aí meu coração com sua melhor gasolina aditivada de alma.

Um brinde, saúde!

Eu não quero viver em um mundo sem bar.

Quando tudo isso passar, vou sair de casa e ir direto para um balcão. Quem puder que me siga.

(Emenda à Inicial: esse texto foi uma indicação etilírica do copoanheiro Bicarato…)

Outro dia de ócio

E eis que tive que ir para a cidade vizinha para cuidar das situações jurídicas que me são peculiares pela própria natureza da profissão: afinal sou advogado e tenho que padecer em vida ainda, né?

Era até uma coisa simples – nem mesmo por mim mesmo, mais para fazer um favor para um colega (por que é que a maioria dos advogados sempre se tratam por “colegas”?…) do que por qualquer outro motivo. Bastava ir até o Distribuidor do Fórum – onde se faz o protocolo dos pedidos nos arcaicos processos que ainda não tramitam pelo meio digital – e protocolar uma petição. Nem mais, nem menos. Mas eu sou eu, não é mesmo?

– O sistema está fora do ar, doutor.

Eu já lhes disse o quanto tenho ojeriza de pessoas que conversam comigo e terminam cada frase com “doutor”? E se o protocolo é físico (carimbão mesmo), do que me interessa o sistema? Paciência…

– Em mais ou menos uma horinha já deverá estar de volta…

Mardito sistema. Isso era hora de sair pra passear? E o fato de tratar a hora que ainda levará por “uma horinha” não faz com que essa mesma hora passe mais rápida que os sessenta minutos regulamentares.

Saio do prédio do Fórum pela lateral e vejo o costumeiro e mórbido espetáculo das famílias que vão acompanhar o depoimento de alguém que foi preso. Sem acesso direto ao distinto, quando ele é encaminhado pela “saída de presos”, ficam todos à distância mínima possível, mandando beijos, abraços, fazendo recomendações, levantando bebês, até que a figura em questão entre no famigerado camburão e volte ao seu recolhimento. Triste. Verdadeiro. Mas triste.

E o que fazer nessa hora que devo aguardar? Que tal tentar resgatar aquele meu “Dia de Ócio”, um brinde levantado há mais de dez anos? Seria possível? Veremos…

Bastou uma caminhada de uns dois quarteirões e já o encontrei. Um boteco. Mas não um boteco qualquer: um boteco pé-sujo, porque é o que tinha que ser.

Característico como todo boteco de igual porte, teor e qualidade, mas com alguns detalhes que refletem o sinal dos tempos. Não existem mais cinzeiros de plástico sobre as mesas, mas estas continuam com as tradicionais toalhas de plástico de sempre. As paredes possuem uma cor indefinida, algo que um dia com certeza já foi branco, mas hoje lembram mais a parede do fundo de uma churrasqueira.

Sento-me no balcão e aguardo ser atendido.

Enquanto isso um senhorzinho educado e aparentemente gentil, com aproximadamente uns 130 anos, com um característico bigode mais branco que minha barba, entra e pede um guaraná sem gelo – isso mesmo! Nada de bebida alcoólica. E ainda mais sem gelo. E, sim, o dia estava quente. Pelo seu modo de se vestir, provavelmente um advogado ou contador que ainda deve bravamente resistir em alguma sala comercial na parte velha da cidade. Após uns vinte minutos se levanta, com uma mesura se despede e segue seu rumo com seu terno surrado. Provavelmente já deve ter visto dias melhores. Ambos, o terno e ele.

Como eu já disse antes, num lugar como este você simplesmente fica invisível para o restante da sociedade. E a prova cabal de minha afirmação é que minha amiga pessoal e previdente sócia de nossa empresa passou a menos de dois metros de distância e sequer me percebeu…

– Tem cerveja gelada?

– É a única que tem.

– Mas tá gelada mesmo?

– Péraê.

E eis que ele me serve como copo uma latinha de cerveja vazia, sem a tampa superior, com as bordas cuidadosamente trabalhadas para evitar algum mínimo corte ou machucado, dentro de um desses pequenos isopores suficientes para apenas uma latinha. Serviu a breja da garrafa. Experimentei. E não é que saporra funciona? Geladíssima!

Diferente da última vez em que estive nessa situação, o trânsito de veículos da rua é muito mais movimentado, ao contrário da estreita calçada, onde minguados gatos pingados que de quando em quando passavam – até porque estamos longe do centro nervoso da cidade.

E então comecei a perceber melhor o ambiente que me cercava. A costumeira chapa deu lugar a um surrado micro-ondas, o qual está EM CIMA da chapa desativada a sabe-se lá quanto tempo. Garrafas de bebida empoeiradas compartilham seu espaço com uma moderna TV digital na qual – é lógico – está passando um jogo de futebol de algum obscuro time de talvez alguma ainda mais obscura divisão.

Paira no balcão uma jarra de forma duvidosa com uma beberagem escura, ainda mais duvidosa, meio que cor de mel – provavelmente algum tipo de cachaça com alguma “especialidade” dentro.

– Chefia, me vê um pedaço desse torresmo, fassavor?

– Quer que corte?

– Não, não precisa não.

Besta quadrada que sou. Ainda bem que tenho dentes fortes. Ainda.

No mais quase tudo era como um “boteco pé-sujo normal”: balcão de madeira e tampo de vidro, banquetas altas, gastas e desconfortáveis, vitrine da década de sessenta com alguns salgados também duvidosos em seu interior. Troféus de formatos estranhos ostentados numa prateleira ao alto (aquilo seria um boi?) dividindo o espaço com diversas garrafas comemorativas de sabe-se lá o quê. Uma espécie de biombo de treliça fazia uma divisória entre a porta e o balcão de modo a garantir a intimidade inexistente de seus clientes. Ou seja, equipamento completo. Perfeito!

E, pra completar, quase todo mundo acima dos quarenta que passava pela calçada fazia questão de cumprimentar a figura bonachona do proprietário, o qual, enquanto me observava com o rabo dos olhos, resolveu limpar o embaçado do balcão com o tradicional paninho sujo sempre presente no seu ombro (conforme já descrevi antes, ao falar da tradicional comida de boteco).

Num mero vislumbre, do lado de fora percebo o povo passando. Todo mundo no celular. Lendo, falando, digitando ou tropeçando.

E lá dentro dois ventiladores de teto. Um ligado, outro queimado. Um moderno freezer (ou seria uma estilosa geladeira?) cheia de sorvetes tem o condão de destoar do ambiente. Assim como um moderno sistema de segurança. Sinal dos tempos, com suas luzes piscantes e câmaras (teoricamente) funcionando para registrar o nada do dia a dia de um boteco desses.

Na calçada transitam novos e velhos hispters – será que eu mesmo, com minha vetusta barba, óculos estilosos e brinco também não seria um? – assim como meninas e moçoilas, teoricamente prontas para frequentar alguma academia, ainda que não. Mais pela modernosa vestimenta que pela falta de dedicação que se denota pelo seu formato físico.

Na rua, em plena disputa com os veículos, passa um casal, jovem até, com ele levando ela sentada no quadro da bicicleta. E eu pensando que essa prática havia sido extinta lá pela década de oitenta!

O final de minha hora de ócio se aproxima, desta vez sem cigarros para me acompanhar. Mais uma vez sinal dos tempos e do inferno do politicamente correto que se instalou nesta nossa sociedade que invariavelmente almeja ser o que não é. Mas a culpa sempre será dos desajustados, dos outsiders, daqueles que não seguem a cartilha do que seria socialmente aceitável para conviver com pessoas de índole duvidosa em seu íntimo, mas que externamente pregam ser pilares de tudo aquilo que consideram como certo e do que seria correto.

Mas divago.

Acerto minha conta, pego minhas coisas e saio pela porta ainda a tempo de presenciar aquele senhorzinho voltando e pedindo outro guaraná sem gelo. Vai entender?

Agora que estou de volta às ruas, longe de minha já preterida invisibilidade, alguns transeuntes – velhos amigos e colegas e gente que preferia nunca mais ver – passam e me cumprimentam através de uma buzinhadinha, um sorriso falso, um tapinha nas costas… Só por isso já fico com vontade de voltar à segurança do boteco.

De volta ao Fórum, agora com o sistema também de volta (garanto que ele também deve ter saído pra uma brejinha gelada…), cumpro com o dever que me foi confiado, protocolo o que tinha que protocolar e já é hora de tomar meu rumo.

Pena que, diferente da última vez, não tenho uma mensagem de digna de nota para lhes passar. Estamos onde estamos pelas escolhas que fizemos. Eu vou muito bem, obrigado. Vou levando minha vida, fazendo meus trabalhos, pagando minhas contas. Me falta um quê de companheirismo daquela velha, louca e embriagada turma do dia a dia, mas fazer o quê? As pessoas precisam evoluir. Tomar novos rumos, decidir por novas vidas. Assim também o fiz. Certos ou errados, é o que temos pra hoje. Vivemos tempos sisudos e não consigo de imediato vislumbrar um brilhante futuro próximo a nos aguardar…

Mas devemos seguir em frente. Sempre. Com a íntima certeza de que tomamos o caminho que consideramos justo e certo. Ao menos, apesar de todos meus atos e de todas minhas falhas e faltas, de um modo perfeitamente imperfeito, sinto que consigo continuar colocando a cabeça no travesseiro e dormindo tranquilamente. Dia após dia. Vocês podem se gabar disso também? Bem, eu posso.

E no mais íntimo recôndito da mais íntima parte de meu ser, continuo tendo uma fé inabalável de que após a tempestade deverá vir a esperada bonança. Meus olhos ainda brilham, aquela fera interior ainda ruge e rosna me dizendo em palavras impronunciáveis que dias melhores virão. Que ainda nos sentaremos num legítimo boteco pé-sujo para saborear a nostalgia daquilo que já foi, a qual virá ao encontro daquilo que ainda está por vir. E vamo que vamo!

Pois é…

Parece que nem mesmo os dias de ócio são mais como antigamente…

E você? Cospe ou engole?

E então aquela mocinha, toda correta e ordeira, doutora adêvogada de direito jurídico, bailarina de passos e palavras, gente boa a toda prova – e até vegetariana, vê se pode? – eis que no seu usual horário de almoço, como de praxe foi até a casa de sua mãe, ali pertinho do trabalho mesmo.

Ninguém em casa, não tem problema. Vai, mexe, fuça, arruma suas coisinhas, seus temperos e por aí afora. Prato pronto, almoço feito, fome saciada.

E essa sede, meu Deus?

Fuça mais um pouco e, na geladeira, uma garrafa com um providencial suco de uva. Sim, ela estava atrás de suco de uva mesmo, e não, não tô sendo sarcástico fazendo de conta que estaria falando de vinho. Era suco de uva que ela queria. Que coisa!

Bem, onde estávamos? Ah, sim: a garrafa.

Baixou um copo do armário – meio copinho já estaria de bom tamanho – serviu-se e guardou novamente a garrafa na geladeira. Meio copinho, geladinho, daqueles que numa golada você se sacia.

E assim o fez.

E depois que o fez, já não soube o que fez!

– Oi?

Aquilo tinha gosto de qualquer coisa, MENOS de suco de uva. Afinal de contas o que era aquilo? Até que era gostoso, mas definitivamente não era o que ela esperava. Sim, até estava geladinho, mas também meio ardidinho. E por que ela não conseguia entender que gosto era aquele? E por que seu raciocínio estava meio lento? E por que o chão estava meio inclinado? E por que as paredes teimavam em não ficar paradas?

– Oi, filha!

– Mãe?

– Sim?

– Me diz uma coisa, mãe: sabe aquela garrafa ali na geladeira?

– Ah, sim, ficou bom, né?

– Mãe, o que era aquilo? O que é que ficou bom?

– Ah, filha, então, eu mesma que fiz. Talvez tenha ficado um pouquinho forte, mas ainda melhoro na próxima.

– MÃE. O. QUE. ERA. AQUILO?

– Ué, não é óbvio? Licor de Jabuticaba.

– OI?

– Uma delícia, né, filha?

E ela, toda mocinha, não se sentindo lá nem muito correta nem muito ordeira, doutora embriagada de direito jurídico, tropicando entre passos e palavras, por mais gente boa que fosse, estava totalmente tontinha – vê se pode? Só com meio copinho?

Bem, como toda mulher que se preza, do alto de seu salto, o negócio era enfrentar a situação e, zureta ou não, voltar para o trabalho. Quieta no seu canto, cuidando de seus processos e prazos, já, já que aquilo passava e tudo certo.

Aliás, pensando bem, no máximo, a pior coisa que poderia lhe acontecer naquele momento seria somente encontrar com seu chefe…

Uai? Que foi? Tá procurando o quê ainda? Já acabou.

Vai dizer que foi por causa do título deste texto?

Êitcha que não é nada disso não!

Esse aqui continua sendo um blog de família, tá bão?

Cambada de hereges…

Mas nem é preciso falar o que ela fez, né?

Aliás, só pra constar: adivinhem quem é que sou o chefe dela? E, óbvio, quem foi que ela encontrou ainda na rua, antes mesmo de voltar para o trabalho?… 😀

Elogio do Boteco

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( Publicado originalmente no blog etílico Copoanheiros… )

Adauto de Andrade

Leonardo Boff
Teólogo/Filósofo

Em razão do meu “ciganismo intelectual” falando em muitos lugares e ambientes sobre um sem número de temas que vão da espiritualidade, à responsabilidade socioambiental e até sobre a possibilidade do fim de nossa espécie, os organizadores, por deferência, costumam me convidar para um bom restaurante da cidade. Lógico, guardo a boa tradição franciscana e celebro os pratos com comentários laudatórios. Mas me sobra sempre pequeno amargor na boca, impedindo que o comer seja uma celebração. Lembro que a maioria das pessoas amigas não podem desfrutar destas comidas e especialmente os milhões e milhões de famintos do mundo. Parece-me que lhes estou roubando a comida da boca. Como celebrar a generosidade dos amigos e da Mãe Terra, se, nas palavras de Gandhi,”a fome é um insulto e a forma de violência mais assassina que existe?”

É neste contexto que me vem à mente como consolo os botecos. Gosto de frequentá-los, pois aí posso comer sem má consciência. Eles se encontram em todo mundo, também nas comunidades pobres nas quais, por anos, trabalhei. Ai se vive uma real democracia: o boteco ou o pé sujo (o boteco de pessoas com menos poder aquisitivo) acolhe todo mundo. Pode-se encontrar lá tomando seu chope um professor universitário ao lado de um peão da construção civil, um ator de teatro na mesa com um malandro, até com um bêbado tomando seu traguinho. É só chegar, ir sentando e logo gritar: “me traga um chope estupidamente gelado”.

O boteco é mais que seu visual, com azulejos de cores fortes, com o santo protetor na parede, geralmente um Santo Antônio com o Menino Jesus, o símbolo do time de estimação e as propagandas coloridas de bebidas. O boteco é um estado de espírito, o lugar do encontro com os amigos e os vizinhos, da conversa fiada, da discussão sobre o último jogo de futebol, dos comentários da novela preferida, da crítica aos políticos e dos palavrões bem merecidos contra os corruptos. Todos logo se enturmam num espírito comunitário em estado nascente. Aqui ninguém é rico ou pobre. É simplesmente gente que se expressa como gente, usando a gíria popular. Há muito humor, piadas e bravatas. Às vezes, como em Minas, se improvisa até uma cantoria que alguém acompanha ao violão.

Ninguém repara nas condições gerais do balcão ou das mesinhas. O importante é que o copo esteja bem lavado e sem gordura senão estraga o colarinho cremoso do chope que deve ter uns três dedos. Ninguém se incomoda com o chão e o estado do banheiro.

Os nomes dos botecos são os mais diversos, dependendo da região do pais. Pode ser a Adega da Velha, o Bar do Sacha, o boteco do Seo Gomes, o Bar do Giba, o Botequim do Jóia, o Pavão Azul, a Confraria do Bode Cheiroso, a Casa Cheia e outros. Belo Horizonte é a cidade que mais botecos possui, realizando até, cada ano, um concurso da melhor comida de boteco.

Os pratos também são variados, geralmente, elaborados a partir de receitas caseiras e regionais: a carne de sol do Nordeste, a carne de porco e o tutu de Minas. Os nomes são ingeniosos: “mexidoido chapado”, “porconóbis de sabugosa”, “costela de Adão” (costelinha de porco com mandioca), “torresminho de barriga”. Há um prato que aprecio sobremaneira, oferecido no Mercado Central de Belo Horizonte e que foi premiado num dos concursos: “bife de fígado acebolado com jiló”. Se depender de mim, este prato deverá constar no menu do banquete do Reino dos céus que o Pai celeste vai oferecer aos benaventurados.

Se bem repararmos, o boteco desempenha uma função cidadã: dá aos frequentadores especialmente aos mais assíduos, o sentimento de pertença à cidade ou ao bairro. Não havendo outros lugares de entretenimento e de lazer, permite que as pessoas se encontrem, esqueçam seu status social e vivam uma igualdade, geralmente, negada no cotidiano.

Para mim o boteco é uma metáfora da comensalidade sonhada por Jesus, lugar onde todos podem sentar à mesa e celebrar o convívio fraterno e fazer do comer, uma comunhão. E para mim, é o lugar onde posso comer sem má consciência.

Dedico este texto ao cartunista e amigo Jaguar que aprecia botecos.

Melhor notícia do ano!

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( Publicado originalmente no blog etílico Copoanheiros… )

Ligia

A melhor notícia do ano é que eu, Ligia Ribeiro, mais conhecida aqui na internet por *margaridanegra* vou começar a destilar meu veneno (e em se tratando de copoanheiros, tudo o que é destilado é bom, não?!) nas páginas deste tão querido blog! Uma honra!!!  ;-D

 

E venho trazendo boas novas, pra você que só precisava de uma desculpa pra ir ao bar depois da academia…

Estudo mostra que cerveja hidrata igual à água após prática esportiva

“BRUXELAS – Um estudo apresentado nesta terça-feira, 20, em Bruxelas comprova que o consumo moderado de cerveja após exercícios físicos é tão eficaz quanto a água para a hidratação, segundo especialistas médicos.”

 

Tá feliz agora?  Vai encher a cara se hidratar, meu filho!

🙂

Prometo só trazer notícia boa!

 

Tirado daqui ó.

Dia Internacional da Cerveja

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( Publicado originalmente no blog etílico Copoanheiros… )

Sandino

Hoje, 5 de agosto, do nada, descubro que nada mais é se não o Dia Internacional da Cerveja.

Ando completamente fora da blogosfera, inclusive o St-4rt está mais empoeirado do que… alguma coisa bem empoeirada, mas uma data assim tão especial não poderia ficar pra trás, então com muito trabalho, dei o bom e velho CtrlC CtrlV no Brejas, mas especificamente daqui.

História da Cerveja

Há cerca de 10 mil anos, o homem antigo descobriu, por acaso, o processo de fermentação, no que surgiram, em pequena escala, as primeiras bebidas alcoólicas. Mais tarde, a cerveja era produzida inicialmente pelos padeiros, devido a natureza dos ingredientes que utilizavam: leveduras e grãos de cereais. A cevada era deixada de molho até germinar e, então, moída grosseiramente, moldada em bolos aos quais se adicionava a levedura. Os bolos, após parcialmente assados e desfeitos, eram colocados em jarras com água e deixados fermentar.

Há evidências de que a prática da cervejaria originou-se na região da Mesopotâmia onde a cevada cresce em estado selvagem. Os primeiros registros de fabricação de cerveja têm aproximadamente 6 mil anos e remetem aos Sumérios, povo mesopotâmico. A primeira cerveja produzida foi, provavelmente, um acidente. Documentos históricos mostram que em 2100 a.C. os sumérios alegravam-se com uma bebida fermentada, obtida de cereais. Na Suméria, cerca de 40% da produção dos cereais destinavam-se às cervejarias chamadas “casas de cerveja”, mantida por mulheres. Os egípcios logo aprenderam a arte de fabricar cerveja e carregaram a tradição no milênio seguinte, agregando o líquido à sua dieta diária.

A cerveja produzida naquela época era bem diferente da de hoje em dia. Era escura, forte e muitas vezes substituía a água, sujeita a todos os tipos de contaminação, causando diversas doenças à população. Mas a base do produto, a cevada fermentada, era a mesma.

A expansão definitiva da cerveja se deu com o Império Romano, que se encarregou de levá-la para todos os cantos onde ainda não era conhecida. Júlio César era um grande admirador da cerveja e, em 49 a.C., depois de cruzar o Rubicão, ele deu uma grande festa a seus comandantes, na qual a principal bebida era a cerveja. A César também é atribuída a introdução de cerveja entre os britânicos, pois quando ele chegou à Britânia, esse povo apenas bebia leite e licor de mel. Através dos romanos a cerveja também chegou à Gália, hoje a França.

E foi aí que a bebida definitivamente ganhou seu nome latino pelo qual conhecemos hoje. Os gauleses denominavam essa bebida de cevada fermentada de “cerevisia” ou “cervisia” em homenagem a Ceres, deusa da agricultura e da fertilidade.

Na Idade Média, os conventos assumiram a fabricação da cerveja que, até então, era uma atividade familiar, como cozer o pão ou fiar o linho. Pouco a pouco, à medida que cresciam os aglomerados populacionais e que se libertavam os servos, entre os séculos VII e IX, começaram a surgir artesãos cervejeiros, trabalhando principalmente para grandes senhores e para abadias e mosteiros. O monopólio da fabricação da cerveja até por volta do século XI continuou com os conventos que desempenhavam relevante papel social e cultural, acolhendo os peregrinos de outras regiões. Por isso, todo monastério dispunha de um albergue e de uma cervejaria. Os monges por serem os únicos que reproduziam os manuscritos da época, puderam conservar e aperfeiçoar a técnica de fabricação da cerveja.

Com o aumento do consumo da bebida, os artesãos das cidades começaram também a produzir cerveja, o que levou os poderes de públicos a se preocupar com o hábito de se beber cerveja. As tabernas ou cervejarias eram locais onde se discutiam assuntos importantes e muitos negócios concluíam-se entre um gole e outro de cerveja. A partir do séc. XII pequenas fábricas foram surgindo nas cidades européias e com uma técnica mais aperfeiçoada, os cervejeiros já sabiam que a água tinha um papel determinante na qualidade da cerveja. Assim a escolha da localização da fábrica era feita em função da proximidade de fontes de água muito boa.

Com a posterior invenção de instrumentos científicos (termômetros e outros), bem como o aperfeiçoamento de novas técnicas de produção, o que bebemos hoje é uma agregação de todas as descobertas que possibilitaram o aprimoramento deste nobre líquido.

Referência bibliográfica:

http://www.kikipedia.com
http://www.apcv.pt
http://br.geocities.com/cervisiafilia