Criacionismo

E então estava lá deus bestando, debruçado sobre a prancheta.

Onipresentemente pensava consigo mesmo: “Pra que fazer isso? Pra que é que eu fui criar esse joguinho pro Adão ficar dando nomes a todas as coisas? Agora fico eu aqui inventando invencionices pra ele nomear… E o pior é que, no fundo, no fundo, nem é ele!”

Nota: Na prática é tudo uma questão de “sintonia divina”, uma forma de acessar a mente do hômi e saber o que se passa por lá… Como na época só tinha uma operadora – ele próprio – e um único usuário – Adão – o negócio era trabalhar com filtros até simples pra não dar conexão direta. O problema é que de lá pra cá a coisa descambou, existem bilhões de usuários e a operadora continua centralizada. Ou seja, é um tal de oração em linha cruzada e chamada não atendida que não tem fim. Ainda bem que esse negócio de telemarketing é infernal, senão seria, no mínimo, complicado. Já pensaram? “Por favor, não desligue. Sua oração é muito importante para nós. Aguarde apenas mais um momento pois todas nossas escutas celestiais estão ocupadas. Dentro em breve vamos estar atendendo e poder estar providenciando uma análise de sua oração.” Bom, vocês já perceberam que não ia prestar… Mas vamos lá. Então deus já estava de saco cheio com esse negócio de dar nomes, que era mais uma questão de adivinhação que qualquer outra coisa.

“Idéia de jerico”, pensou ele.

E, do nada, criou um jerico.

E vendo aquilo que criou, ficou pensando… Era mais ou menos um cavalo na essência… Um pouco diferente, só. As orelhas mais compridas…

“Compridas?…”

Hmmm…

Então, já que era mais uma celestial tarde modorrenta e lá no Jardin do Éden ainda não tinha nenhuma Eva pra uma sacanagenzinha básica, resolveu ele dificultar esse jogo de adivinha. E começou a mudar a forma padrão que já tinha estabelecido para os animais da Terra. Encompridando aqui, encolhendo ali, mudando um bocadinho acolá. Ou seja, fazendo igual, mas diferente. Algo assim como o novo Fusca.

E veio o elefante, bicho esquisito de nariz mais ainda.

Adão acertou.

Na sequência, aproveitando o desenho, veio o tamanduá, pra ficar ainda mais diferente.

Adão acertou.

A girafa, com um pescoço tão comprido que quase não dá pra saber de que bicho ela é parente.

Adão acertou.

A zebra – que até hoje não se sabe se é branca com listas pretas ou preta com listas brancas.

Adão acertou.

O pinguim – “esse o Torvalds vai gostar”, pensou ele – um pássaro que não voa (só pra confundir).

Adão acertou.

Ema, avestruz, camelo, dromedário.

Acertou, acertou, acertou, acertou.

“Ah, é, seu fiudumaégua?” – mas essa não foi criada, porque já existia e já havia sido nomeada.

E debruçou-se deus sobre a prancheta e começou a criar um bicho tão, mas tão esquisito, que até ele mesmo duvidava.

“Terá – deixe-me ver… – um bico de pato, mas será carnívoro… Vou fazê-lo mamífero, mas que ponha ovos… Apesar de membranas nas patas, como algumas aves, não terá penas, mas sim pelos… Poderá viver tanto na terra quanto na água… Soltará leite pelos poros, terá veneno como as serpentes e um rabo chato, como de castores… Vou dar um nozinho de meio laço na sequência final do genoma pra também ser parente dos répteis…”

Assim tendo o feito, com o rascunho pronto na prancheta, ao final deus contemplou sua obra e…

…teve uma monumental crise de riso!

Não teria jeito. Para todos os padrões inimagináveis aquela criatura seria ridícula demais! Não tiraria aquele rascunho de sua prancheta de maneira alguma!

E foi ele, contemplando a si próprio – e ainda rindo a valer – tomar uminha e tirar um cochilo…

Nesse meio tempo um anjinho estagiário meia-boca que vivia querendo puxar o saco do patrão pra ver se ganhava alguns pontos – um tal de lúcifer – foi dar uma fuçada na mesa do chefe e viu aquela figura estranha. Pensou consigo mesmo que podia adiantar aquele novo projeto (por mais estranho que fosse) e deixaria o hômi feliz se já o levasse pra linha de produção.

Um tempinho depois, enquanto deus estava lá sentadão, naquele dorme-não-dorme, já ouvindo a musiquinha do Fantástico (que ainda não existia, mas para ele era fácil fazer o tempo curvar-se conforme queria), acabou baixando a guarda e se conectou via linha direta com Adão… E ouviu claramente, como o soar de mil gongos: “ORNITORRINCO!”

– Mas que ca…

Correu para a prancheta.

Encontrou o estagiário lúcifer lá, parado bem do lado, peito estufado e um sorriso besta na cara.

– Então, siôdeus, eu tava aqui e vi que o siô tinha deixado trabalho que o siô mesmo num criô, daí eu peguei e levei lá pra levar pra linha de produção, daí eu levei pro siô, porque eu sempre tô tentando me esforçá o máximo pro siô pra podê…

– MAS VOCÊ É MESMO UMA ANTA!!!

E na linha aberta que tinha ficado ouviu Adão falando: “Anta”

– Ô caramba! Assim não tem tatu que aguente!

“Tatu!”

Puto da vida, desconectou da ligação – sendo essa a primeira experiência de simplesmente dar as costas a um problema, o que mais tarde resolveria chamar de “livre arbítrio” – e espinafrou o anjo estagiário por um tempo considerável, terminando sua preleção com um memorável pé-na-bunda. E isso fez o anjo cair, cair e cair…

Ao chegar tão lá embaixo quanto podia, lúcifer encontrou os filhos de Lilith (mas isso é outra estória). Como o filme dele já estava queimado mesmo, mas lá eles ainda não sabiam nada do que tinha rolado, veio então com um conversê de ter se rebelado e lutado com as hostes angelicais… O que mais tarde lhe renderia o simpático apelido de Príncipe das Mentiras.

Quanto ao “ornitorrinco”, esse já estava criado mesmo e deus deixou todo esse imbróglio de lado e resolveu voltar pro cochilo.

Meio dormitando, ainda um último pensamento passou pela sua divina cabeça: “Adão está precisando é de mulher…”

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PS: Esta brincadeira sobre “como surgiu o ornitorrinco” foi pensada a partir de um peixinho de aquário que morreu e sua sólida base científica está associada ao estado etílico dos usuais Copoanheiros de Plantão. Tentei encontrar um pouco do sarcasmo do Marco Aurélio (de sua época do antigo Jesus Me Chicoteia) – mas não acho que tenha conseguido. Particularmente me parece que esse deus aí de cima tá muito mais pro deus do Laerte, que para qualquer outro…

O cravo não brigou com a rosa

Recortei e colei lá do Boteco Escola – como sempre, muito antenado em questões ligadas à educação. Me fez lembrar uma “discussão” recente sobre Monteiro Lobato ( que está aqui)…

Mas vamos ao texto.

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre os casais. Na nova letra “o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada”.

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: “Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas”. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.

Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém (não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda) foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magoo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão – o popular pintor de rodapé ou leão de chácara de baile infantil – de deficiente vertical . O crioulo – vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) – só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo – o famoso branco azedo ou Omo total – é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia – aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno – é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo – outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão – é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais… Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar (…), cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a “melhor idade”.

Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto

Luiz Antônio Simas
Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
e professor de História do ensino médio

Nota: Esse texto foi publicado originalmente em 28/12/2010 no blog do autor – Histórias Brasileiras – mas foi deletado. Entretanto ainda pode ser encontrado no cache do Google…

No frigir dos ovos…

Pergunta:

Alguém sabe me explicar, num português claro e direto, sem figuras de linguagem, o que quer dizer a expressão “no frigir dos ovos”?

Resposta:

Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem idéias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa.

E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas.

Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo. Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote.

Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.

Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese… etc). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou.

O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco…

A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.

Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda..

Entendeu agora o que significa “no frigir dos ovos”?

Guaraci Neves

Joelhaço

 (E olha que já tenho uma cicatriz no joelho direito desde que o arrebentei pulando um muro…)

Pois é.

Desde o acidente que o joelho esquerdo deste velho contador de causos que vos tecla não anda lá essas coisas (infame, inconsequente e inesperado trocadilho)…

E como o danado deu a doer nos últimos tempos – e juro que não é nenhuma influência Houseriana – resolvi tomar a mais inesperada das atitudes (vinda de mim): voltei ao médico.

Analisa daqui, cutuca dali, fuça acolá. Diagnóstico (que eu já sabia) é a do “engavetamento nível três”. Significa que tá no limite da manutenção. Mais ou menos como amortecedor estourado, mola vencida, pivô arrebentado – e isso sem nem falar da rebimboca da parafuseta (que vai muito bem, obrigado). Na prática quer dizer que meu ligamento cruzado posterior esgarçou que nem um elástico velho e já não garante a firmeza do conjunto. Não sabem o que é isso? É por isso que coloquei aquela imagem ali em cima, pô!

Bem, isso feito fui encaminhado para a ressonância. Prenderam, engaiolaram e transportaram minha perna para aquela caverna magnética que faz picadinho (virtual) de tudo que passa por ela. E comigo junto da perna. Já na posição e com tudo pronto, o médico sai da sala e tem a audácia de fazer uma última recomendação:

– Não vá se mexer, hein?

Pronto.

Era tudo que eu NÃO precisava ouvir.

Nos minutos que fiquei ali acorrentado minha cabeça mandou tudo que podia lá pro final da perna esquerda: coceira, cócegas, arrepio, caimbra e o que mais quer que seja possível pensar. Mas resisti estoicamente e consegui fazer o exame.

Resultado: “Alteração de sinal que pode estar relacionada a edema pós contusional acomentendo o côndilo femoral medial. / Degeneração do corpo do menisco medial, sem evidências de rotura. / Lesão parcial do ligamento cruzado posterior, sem descontinuidade completa de suas fibras, de acordo com a hipótese clínica. /  Pequeno derrame articular. / Importante edema da gordura supra-patelar, indicativo de hipersolicitação do mecanismo extensor.”

E sabem o que tudo isso significa?

Não?

Nem eu.

Entretanto não me parece que seja lá muito bom…

Mas, na realidade, não era nada disso que eu queria tratar aqui.

É que falando de joelho, lembrei-me do “joelhaço” (assim mesmo, com artigo definido). O famoso tratamento clínico do Analista de Bagé (personagem do Luís Fernando Veríssimo). Segue uma pequena estória para que possam entender…

Outra do Analista de Bagé

Existem muitas histórias sobre o analista de Bagé mas não sei se todas são verdadeiras. Seus métodos são certamente pouco ortodoxos, embora ele mesmo se descreva como “freudiano barbaridade”. E parece que dão certo, pois sua clientela aumenta. Foi ele que desenvolveu a terapia do joelhaço.

Diz que quando recebe um paciente novo no seu consultório a primeira coisa que o analista de Bagé faz é lhe dar um joelhaço. Em paciente homem, claro, pois em mulher, segundo ele, “só se bate pra descarregá energia”. Depois do joelhaço o paciente é levado, dobrado ao meio, para o divã coberto com um pelego.

– Te abanca, índio velho, que tá incluído no preço.

– Ai – diz o paciente.

– Toma um mate?

– Na-não… – geme o paciente.

– Respira fundo, tchê. Enche o bucho que passa.

O paciente respira fundo. O analista de Bagé pergunta:

– Agora, qual é o causo?

– É depressão, doutor.

O analista de Bagé tira uma palha de trás da orelha e começa a enrolar um cigarro.

– Tô te ouvindo – diz.

– É uma coisa existencial, entende?

– Continua, no más.

– Começo a pensar, assim, na finitude humana em contraste com o infinito cósmico…

– Mas tu é mais complicado que receita de creme Assis Brasil.

– E então tenho consciência do vazio da existência, da desesperança inerente à condição humana. E isso me angustia.

– Pois vamos dar um jeito nisso agorita – diz o analista de Bagé, com uma baforada.

– O senhor vai curar a minha angústia?

– Não, vou mudar o mundo. Cortar o mal pela mandioca.

– Mudar o mundo?

– Dou uns telefonemas aí e mudo a condição humana.

– Mas… Isso é impossível!

– Ainda bem que tu reconhece, animal!

– Entendi. O senhor quer dizer que é bobagem se angustiar com o inevitável.

– Bobagem é espirrá na farofa. Isso é burrice e da gorda.

– Mas acontece que eu me angustio. Me dá um aperto na garganta…

– Escuta aqui, tchê. Tu te alimenta bem?

– Me alimento.

– Tem casa com galpão?

– Bem… Apartamento.

– Não é veado?

– Não.

– Tá com os carnê em dia?

– Estou.

– Então, ó bagual. Te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito.

– O Freud não me diria isso.

– O que o Freud diria tu não ia entender mesmo. Ou tu sabe alemão?

– Não.

– Então te fecha. E olha os pés no meu pelego.

– Só sei que estou deprimido e isso é terrível. É pior do que tudo.

Aí o analista de Bagé chega a sua cadeira para perto do divã e pergunta:

– É pior que joelhaço?

Física da Busca

No final, comecei a acreditar em algo que chamo de “Física da Busca”. Uma força da natureza regida por leis tão reais quanto a lei da gravidade. A regra dessa “Física da Busca” é assim: se você tiver coragem de deixar para trás tudo o que lhe é familiar e que lhe conforta – que pode ser a sua própria casa ou velhos rancores – e embarcar em uma jornada em busca da verdade, seja ela externa ou interna; se estiver disposto a considerar que tudo que lhe aconteça nessa jornada como iluminação e aceitar todos que vier a conhecer nessa estrada como um professor; e se estiver preparado para enfrentar – e principalmente perdoar – algumas das duras realidades sobre si mesmo… Então… A verdade não lhe será negada!

Comer, Rezar, Amar (O Filme)

Idoso

  (Será que consigo?)

Idoso é a pessoa que tem muita idade; velha é a pessoa que perdeu a jovialidade. A idade causa degeneração das células; a velhice causa degeneração do espírito. Por isso, nem todo o idoso é velho e há velho que nem chegou a ser idoso.

O mesmo ocorre com as coisas: há coisas que são idosas (antigas) e há coisas que são velhas. Um vaso da dinastia Ming (1368-1644) pode ser uma antiguidade, uma relíquia que não tem preço; um outro, de apenas cinquenta anos ou menos, pode ser um vaso velho a ser relegado a um depósito. Você é idoso quando pergunta se vale a pena; você é velho quando sem pensar responde que não.

Você é idoso quando ainda aprende; você é velho quando já nem ensina. Você é idoso quanto pratica esportes ou de alguma forma se exercita; você é velho quando apenas descansa. Você é idoso quanto ainda sente amor; você é velho quando só sente ciúmes e possessividade. Você é idoso quando o dia de hoje é o primeiro do resto de sua vida; você é velho quando todos os dias parecem o último da longa jornada.

Você é idoso quando seu calendário tem amanhãs; você é velho quando seu calendário só tem ontens. Idosa é a pessoa que tem tido a felicidade de viver uma longa vida produtiva, de ter adquirido uma grande experiência; ela é uma porta entre o passado e o futuro e é no presente que os dois se encontram. O velho é aquele que tem carregado o peso dos anos; que em vez de transmitir experiência às gerações vindouras transmite pessimismo e a desilusão. Para ele, não existe ponte entre passado e presente, pois lá existe um fosso que o separa do presente, pelo apego ao passado.

O idoso se renova a cada dia que começa; o velho se acaba a cada noite que termina, pois enquanto o idoso tem os olhos postos no horizonte, de onde o sol desponta e a esperança se ilumina, o velho tem sua miopia voltada para os tempos que passaram. O idoso tem planos; o velho tem saudades.

O idoso se moderniza, dialoga com a juventude, procura compreender os novos tempos; o velho se emperra no seu tempo, se fecha em sua ostra e recusa a modernidade. O idoso leva uma vida ativa, plena de projetos e prenhe de esperança. Para ele, o tempo passa rápido e a velhice nunca chega. O velho cochila no vazio de sua vidinha e suas horas se arrastam, destituídas de sentido. As rugas do idoso são bonitas porque foram marcadas pelo sorriso; as rugas do velho são feias, porque foram vincadas pela amargura.

Em suma, o idoso e o velho são duas pessoas que até podem ter, no cartório, a mesma idade cronológica. Mas o que têm são idades diferentes no coração.

JORGE JOSÉ DE JESUS RICARDO – 69 ANOS
Vencedor do 1º Congresso Literário para a Terceira Idade