Depois que acabou

  (Friiiioooo…)

“Depois que acabou” é um livro de Daniela Abade e faz parte da Coleção Interletras, da Editora Gênese, que, tendo percebido que a Internet tem sido um local onde escritores novos têm ensaiado seus primeiros contatos com os leitores, decidiu por uma série que busca apresentar autores inéditos revelados através de blogs e sites.

A seguir, alguns trechos do livro, trechos que gostei ou me que chamaram a atenção – não sei o porquê. Mais detalhes lá em Lendo de Tudo

Nos dias que se seguiram eu li todos os livros que tinha. Era uma urgência em reter todas aquelas informações. Eu reconhecia que tinha até sido um tanto relapsa com algumas obras, com bons autores. Mas não porque não sentia curiosidade em lê-los. Só não comecei a leitura antes porque sempre comprei mais livros do que podia ler, achava que em alguma hora teria tempo e sabia que os que não estavam sendo lidos estariam lá, na estante, esperando por mim. Mas naquele momento eu precisava lidar com a perda. Eles não estariam mais lá, não seriam mais meus. Acabar a leitura dos livros deixados momentaneamente de lado foi uma forma de ser justa com todos os autores. Eu me lembraria das histórias, fossem elas boas ou ruins. E lembrar da história já é muito mais do que lembrar de um nome na estante.

E eles eram assim, cada um tentava surpreender o outro com coisas boas, mesmo que não fosse na data de aniversário. Eles não deixavam que a vida os jogasse numa rotina. (…)

(…) Ele estava morando na cobertura. Ela não chegava a ser muito grande, tinha dois quartos, mas havia sido decorada para propositadamente parecer um lugar de gente com dinheiro, tinha aquela ostentação de quem quer mostrar poder sem saber como. (…)

Como é que se supera uma desilusão amorosa desse tamanho depois de morta? Não podia cortar os pulsos, não podia encher a lata, conversar com um terapeuta, dar pro primeiro que aparecesse.

Foi assim que comecei a contar essa história. Por algum motivo – que eu tenho certeza nunca serei capaz de descobrir qual – eu estou aqui escrevendo. (…) Não sei o que continuo fazendo aqui, escrevendo. Acho que foi um jeito de desabafar. De me fazer ouvir, nem que fosse por uma máquina.

O Sermão da Montanha (versão para educadores)

Diretamente lá do Boteco Escola, uma comprovação de que nem Jesus Cristo aguentaria ser um professor nos dias de hoje…

=============================================

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem.

Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens.

Tomando a palavra, disse-lhes:
– Em verdade, em verdade vos digo:
– Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
– Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
– Felizes os misericordiosos, porque eles…?

Pedro o interrompeu:
– Mestre, vamos ter que saber isso de cor?

André perguntou:
– É pra copiar?

Filipe lamentou-se:
– Esqueci meu papiro!

Bartolomeu quis saber:
– Vai cair na prova?

João levantou a mão:
– Posso ir ao banheiro?

Judas Iscariotes resmungou:
– O que é que a gente vai ganhar com isso?

Judas Tadeu defendeu-se:
– Foi o outro Judas que perguntou!

Tomé questionou:
– Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?

Tiago Maior indagou:
– Vai valer nota?

Tiago Menor reclamou:
– Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.

Simão Zelote gritou, nervoso:
– Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?

Mateus queixou-se:
– Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!

Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
– Isso que o senhor está fazendo é uma aula?
– Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica?
– Quais são os objetivos gerais e específicos?
– Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?

Caifás emendou:
– Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas?
– E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais?
– Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?

Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus:
– Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade.
– Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto.
– E vê lá se não vai reprovar alguém!

E, foi nesse momento que Jesus disse:
“Senhor, por que me abandonastes?…”

=============================================

OBSERVAÇÃO: Não dá uma impressãozinha de que Pilatos, desde aquela época, já seria integrante do PSDB? Especificamente do Estado de São Paulo?…

😀

Se você me esquecer

Quero que você saiba uma coisa
Você sabe como é:
Se eu olhar a lua de cristal, pelo galho vermelho
do lento outono em minha janela,
Se eu tocar, próximo ao fogo, a intocável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva a você,
como se tudo o que existe: perfumes, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
rumo às tuas ilhas que me esperam.

Bem, agora,
se pouco a pouco você deixar de me amar
eu deixarei de te amar, pouco a pouco.

Se, de repente, você me esquecer
não me procure
pois já terei te esquecido.

Se você considera longo e louco
o vento das bandeiras
que passa pela minha vida,
e decide me deixar na margem do coração
em que tenho raízes,
lembre-se que neste dia,
nesta hora,
levantarei meus braços
e minhas raízes sairão a buscar outra terra.

Mas
Se cada dia,
cada hora,
você sentir que é destinada a mim
com implacável doçura,
se cada dia uma flor
escalar os teus lábios a me procurar,
ah meu amor, ah meu próprio eu,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem é esquecido
meu amor se nutre no seu amor, amada,
e enquanto você viver, estará você em seus braços,
sem deixar os meus…

O problema

O problema deste mundo são esses amores não-correspondidos e desperdiçados a toda hora, entende? Como paixões que são despertadas negligentemente, ilusões platônicas que acabam com gosto de soco na alma, noites de sexo mal intepretadas, amores exilados que não encontram seu lugar no mundo, como peças extraviadas de um quebra-cabeça. O problema todo se resume nisso: corações e cérebros não falam a mesma língua. A vida seria muito menos dolorida se a gente tivesse o dom de se apaixonar por aquela pessoa que nos oferece o coração. (…)

Alexandre Inagaki
De seu texto “Bons Amigos”
No livro Blog de Papel

Proseio

– E aí?

– E aí…

– Quanto tempo, hein?

– Acho que sim…

– Êêêê… Já vi que a coisa tá pegando…

– Cumassim?

– Primeiro. Você só aparece por aqui quando tem algum enrosco – você sabe muito bem que nem precisava, mas acho que talvez assim você se sinta, sei lá, mais confortável dessa maneira. Segundo. Essas respostinhas evasivas, do tipo “não quero falar, mas se você perguntar, eu falo”. Larga mão de bobagem! Terceiro. OLHA PRA MIM QUANDO EU FALAR COM VOCÊ!!!

– Oi, tá. Pronto, pronto. Desculpa aí…

– Tá. Agora desembucha.

– Sei lá. Às vezes acho que só quero mesmo é uma companhia… Daí eu venho aqui prosear um bocadinho. Mas, da mesma maneira, às vezes, tenho certeza absoluta de que quero ficar absolutamente sozinho. Entende essa pseudo-confusão?

– É mais comum do que você imagina… A metade das pessoas com quem falo não quer falar comigo, e a outra metade acha que me ouve, mas na verdade não ouve absolutamente nada. Às vezes é frustrante…

– Ei, quem é que tá com problemas aqui?

– Ei! Péraê! Por um acaso tá me achando com cara de psicólogo? Bem, pelo menos você admitiu que tá com algum tipo de problema…

– É. Na prática acho que tô sim.

– E?…

– Tá. Então. Eu vou levando aqui minha vidinha, sabe? Pago minhas contas, meus carnezinhos, gosto de meu trabalho, tenho bons amigos, amo meus filhos, curto minhas paixões, sempre me entrego de coração aberto, não sacaneio ninguém, tento ser um cara legal, enfim, nada demais, certo?

– Certo…

– Então será que tem como explicar o porquê de, ainda assim, eu estar com essa sensação de “vazio”? Você está sempre na área quando eu preciso de ajuda – tá, e quando não preciso também – então queria saber se tem alguma dica, algum toque, algo pra eu me apegar, entende?

– Você sabe muito bem qual será minha resposta, não sabe?…

– Acho que sei… Que eu mesmo tenho todas as respostas que preciso, né? Só preciso descobrir qual é a pergunta certa…

– Pois é. Assim como qualquer outra pessoa, você tem um potencial enorme. Tanto para o bem quanto para o mal. Tanto para o sucesso quanto para o desastre. Só depende de você. Fique centrado, busque seu equilíbrio, descarte os pensamentos inúteis que ficam ocupando o lugar dos úteis. Reveja seus posicionamentos. Reinvente-se! Mas ficar aí lamuriando é que não vai te ajudar mesmo!

– É. Eu sei. Sempre soube, né? Mas acho que às vezes a gente tem que ouvir isso de outra pessoa. E, sinceramente? É muito mais fácil se essa outra pessoa for Você…

– Heh… Você até parece aquele personagem, o House. Só procura o Wilson quando tá ferrado…

Você assiste House?

– Adoro! Noutra situação eu até não seria capaz de acreditar nele.

– Faz sentido… Bom, valeu pelo proseio. Vou indo. Um monte de coisas pra fazer, Você sabe, né? O de sempre.

– Eu sei, eu sei. Fica bem. Quando e se quiser pode voltar aqui. Mas você sabe que tem muitos outros lugares onde a gente pode se encontrar. Acho que você sabe que não sou muito chegado nisso aqui não. Muita ostentação…

– É, agora que falou, realmente isso não tem muito sua cara, não…

– Pois é… Mas esse povo é teimoso. É como costumo dizer: “corte uma madeira e lá estarei; levante uma pedra e lá me encontrarás; não estou em altares de madeira ou em estátuas de ouro – você é o meu verdadeiro templo”… Mas parece que não adianta!

– É… Então ficamos assim. Valeu!

– Vai em paz, criança… Se precisar, já sabe, né?

– Sei sim. Sempre comigo, né?

– É.

Elpidio Reali Junior

Sei que não é num “bom momento”. Mas simplesmente venero a maneira como esse caboclo sabe trabalhar com as palavras…

A morte de um jornalista
MINO CARTA

Um amigo partiu desta vida, e dizer amigo sem adjetivos basta, são poucos os amigos cuja lealdade não admite dúvidas e cuja lembrança é para sempre. Elpidio Reali Jr., que nunca chamei Elpidio, era o Reali e ponto final, pertencia e pertence a esta categoria. Faz pouco tempo saiu o livro das suas memórias, Às Margens do Sena, longo depoimento recolhido por meu filho, Gianni, e prefaciado pelo acima assinado. E ali eu dizia que quando nos encontrávamos, frequentemente nas cercanias de uma garrafa de bom vinho, podíamos conversar horas a fio sem tropeçar em um único, escasso ponto de discordância. Conhecíamos um ao outro passo a passo no espaço alastrado entre o coração e a alma.

Sim, verdade factual é que já tivemos opiniões diferentes no confronto entre vinhos franceses e italianos, mas também a respeito desta questão crucial acabamos por convergir para uma posição comum. A amizade tinha raízes. Meu pai, Giannino, conhecera em 1947 o pai do Reali, o primeiro Elpidio, então diretor da Interpol, policial culto e competente. Ambos estavam em ação por causa do rapto presumido de um filho de Francisco Matarazzo II, cada qual ao sabor de suas funções, o policial e o jornalista.

Descobriu-se finalmente que o plano do sequestro era da lavra do sequestrado, Eduardo, e contava com a desastrada colaboração de dois empregados italianos das IRFM, Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, os engenheiros Malavasi e Comelli dispostos a arcar com o papel de sequestradores. Resgate entregue, tramoia revelada logo após. Eduardo, o filho que pretendia extorquir dinheiro do pai Chiquinho, safou-se incólume, embora cuidasse de levar vida apartada. Os italianos, em compensação, passaram uma esticada temporada na cadeia. O policial e o jornalista lamentaram o desfecho e ficaram amigos.

Quanto a mim, dei com o Reali pela primeira vez no vídeo. Eu acabava de regressar da Itália, onde havia exercido a profissão por três anos e meio, primeira metade de 1960, e o Reali era repórter de campo em jogos de futebol televisados, o repórter Canarinho da Record como o apelidara Silvio Luiz. Acabamos por nos conhecer em Paris, na década de 70, onde ele voluntariamente se exilara com a mulher, sua eterna companheira Amelinha, e filhas, depois de receber o Prêmio Governador do Estado de São Paulo como melhor radialista esportivo. Na hora da entrega, dedicou-o aos colegas presos pelo terror de Estado, infelizmente impossibilitados de concorrer.

Há o indivíduo, o cidadão, o profissional. Entre eles, os elos indissolúveis da coe-rência no respeito dos princípios e dos valores. Leio nos obituários que Reali foi um grande jornalista. Eu diria que, sobretudo, foi raro, jornalistas que honram a profissão há poucos. Pouquíssimos. A maioria vive no terror de perder o emprego, quando não se trata de um daqueles que se aboletaram em posições de comando na qualidade de sabujos do patrão. Pergunto-me se têm consciência da adulação desbragada a que se entregaram, se ao se olharem no espelho percebem o lacaio, ou se são sinceros na submissão porque a carregam no sangue ou se compartilham em harmonia integral das ideias de quem lhes paga o salário e lutam bravamente a favor dos interesses do próprio.

Por exemplo. O que vai pelas entranhas da revista Época, que há duas semanas dedicou uma reportagem de capa ao relatório da PF sobre o famigerado valerioduto para divulgar uma versão manipulada, esconder a personagem principal do enredo, o banqueiro Daniel Dantas, e esquecer a Globo, também envolvida no episódio? Sei tão somente que a mídia nativa reservou estrondoso silêncio ao texto autêntico publicado por CartaCapital, em seus trechos principais na semanal e integralmente pela internet. Não é surpresa, está claro, que Época não peça desculpas aos seus leitores, ou que a mídia nativa não repercuta a verdade factual, a soletrar o que até hoje impávida sustenta, ou seja, a existência do mensalão que o relatório nega. Contra esta caterva de escribas e oradores a soldo do privilégio não há verdade factual que resista.

A diferença, no caso de Reali, e a raridade estão no fato de que ele serviu antes de mais nada à sua consciência. E eu aqui estou, saudoso, e de súbito me ocorre a imagem do jovem loiro a correr à margem de um gramado com os cachos ao vento.