Escritores e escritores

Quem resolve se meter a escrever qualquer coisa que seja – um texto, um post, um livro, um parecer, um tratado, não importa! – tem que estar plenamente preparado para encarar o seguinte fato: alguém no mundo já escreveu exatamente sobre a mesma coisa que você.

E provavelmente melhor.

Ainda que os textos sejam completamente diferentes, a abordagem seja distinta e o próprio palavreado tenha suas próprias matizes, não há como negar a similaridade daquela centelha inicial que o levou a desenvolver algum raciocínio e escrever sobre determinado tema.

Tá certo que se considerarmos que centelhas são simples e, provavelmente, repetitivas, fica então razoavelmente fácil de perceber que o que importa mesmo é o fogo gerado a partir daquela centelha – pois esse fogo vai se comportar de maneira totalmente distinta daquele da fogueira do lado, quer seja pela posição, pela maneira que foi aceso, pelo material de combustão, enfim, mil ou mais motivos distintos.

Transporte essa comparação para o mundo da escrita e entenderão que estamos falando da mesma coisa!

Bem, tudo isso só pra dizer que senti certa familiaridade no tema abordado pelo Mario Prata em uma de suas crônicas. Já há um bom tempo escrevi este texto aqui. Mas agora parece que reconheço a mesma centelha inicial nesse a seguir…

Quem escreve as bulas?
Estadão, 30/03/1997

Quando me perguntam a profissão e eu digo que sou escritor, logo vem outra em cima: de quê? De tudo, minha senhora. De tudo, menos de bula. Romance, cinema, teatro, televisão, crônicas, ensaios, tudo-tudo, menos bula!

Uma vez, num barzinho, uma gatinha me perguntou o que eu escrevia e disse que escrevia bula. Ela não deu a menor atenção para mim. Se dissesse que era cronista do Estadão talvez tivesse mais sucesso. Por que o preconceito contra as geniais bulas? Quando é bula papal todo mundo leva a sério, mesmo que seja para dizer que não se pode fazer amor sem a intenção da procriação (que palavra mais animal!).

Não que eu não aprecie as bulas. Pelo contrário. Adoro lê-las. E com atenção. E, sempre, depois de ler uma, já começo a sentir todas as reações adversas.

Admiro, invejo esse colega que escreve bulas. Fico imaginando a cara dele, como deve ser a sua casa. Que papo tal escrivão deve levar com a mulher e com os vizinhos?

Tal remédio é contra-indicado a pacientes sensíveis a benzodiazepinas e em pacientes portadores de miastenia gravis. Dá vontade de telefonar para o autor e perguntar como é que eu vou saber se eu sou sensível e porador?

Quanto ele ganha por bula? Será que ele leva os obrigatórios 10% de direitos autorais? Merecem, são gênios.

Jamais, numa peça de teatro, num roteiro de filme ou mesmo numa simples crônica conseguiria a concisão seguinte: é apresentado sob forma de solução isotônica (que lindo!) de cloreto de sódio, que não altera a fisiologia das células da mucosa nasal, em associação com cloreto de benzalcônio. Sabe o que é? O velho e inocente Rinosoro.

Vejam o texto seguinte e sintam na narrativa como o autor é sádico: você poderá ter sonolência, fadiga transitória, sensação de inquietação, aumento de apetite, confusão acompanhada de desorientação e alucinações, estado de ansiedade, agitação, distúrbios do sono, mania, hipomania, agressividade, déficit de memória, bocejos, despersonalização, insônia, pesadelos, agravamento da depressão e concentração deficiente. Vertigens, delírios, tremores, distúrbios da fala, convulsões e ataxia. Pronto, tenho que ir ao dicionário ver o que é ataxia: incapacidade de coordenação dos movimentos musculares voluntários e que pode fazer parte do quadro clínico de numerosas doenças do sistema nervoso.

Já tá sentindo tudo que foi descrito acima?

Quem mandou ler?

E que tem úlcera pélvica não pode tomar remédio nenhum. Está condenado à morte? Toda bula odeia essa tal de úlcera pélvica. As demais úlceras entram como coadjuvantes nos textos dos autores buláticos (tem a palavra no Aurélio).

E as gestantes (é como os buláticos chamam a grávida)? Elas não podem tomar nenhum remédio. Os nobres coleguinhas protegem a gravidez.

Para todo remédio uma bula diferente, um estilo próprio, um jeito de colocar a vírgula diferente.

Tudo isso para dizer que outro dia, na cama, com a parceira amada, pego uma camisinha na mesinha e abro. Sabe o que estava escrito lá dentro? Parabéns! Você adquiriu o mais avançado e seguro preservativo do mercado brasileiro. Era uma bula. Escrita por algum conhecedor, é claro, dentro da caixinha da camisinha. Claro que me entusiasmei e segui a leitura deixando a amada de lado. Brochei, é claro. Mas, em compensação, fiquei sabendo que o agente espermicida nonoxinol é contra as DSTs.

Depois dessa informação, aí sim, voltei para a alcova. Mas e a amada, onde estava?

E lembre-se sempre: todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças. E não tome remédio sem o conhecimento do seu médico. Pode ser perigoso para a sua saúde.

E pra cabeça!

Agora, falando sério. Admiro os escritores de bula. Assim como invejo os poetas. Talvez por nunca ter sido convidado (nem teria experiência) para escrever uma e nunca tenha conseguido escrever um poema. Sempre gostei de escrever as linhas até o final do parágrafo.

Para mim o poeta é um talentoso preguiçoso. Nunca chega ao final da linha. Já repararam?

Já o bulático, esse sim, é um esforçado poeta!

Mario Prata
Cem Melhores Crônicas (que, na verdade, são 129)
2007

“Compartilhar”

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro

“Suave é viver só”

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

Um passeio no parque

“Você tem alguém na sua vida, Thomas? Atualmente, quero dizer.”

“Imagino que esteja perguntando de alguma mulher.”

“Sim. Está dormindo com alguma?”

“Quando você diz dormindo, quer dizer…?”

“Responda a pergunta de uma vez ou eu chamo a polícia.” Ela estava sorrindo. Por minha causa. Eu a fiz rir, e isso me fazia bem.

“Não, Ronnie. Não estou dormindo com nenhuma mulher no momento.”

“Algum homem?”

“Nem um homem. Ou animal. Nem nenhuma árvore conífera.”

“Por que não? Se não se importa de eu perguntar. E mesmo que se importe, por quê?”

Suspirei. Na verdade, eu mesmo não sabia bem a resposta, mas responder isso não iria satisfazê-la. Comecei a falar sem ter uma idéia clara do que iria dizer.

“Porque sexo causa mais tristeza do que prazer”, falei. “Porque homens e mulheres querem coisas diferentes, e um deles sempre fica desapontado no final. Porque não me pedem isso muitas vezes e eu detesto pedir para alguém. Porque não sou muito bom nisso. Porque estou acostumado a ficar só. E porque não consigo pensar em outras razões.” Fiz uma pausa para respirar.

“Tá bom”, ela disse e se virou e começou a andar de costas, assim conseguia olhar bem para o meu rosto. “Qual delas é a razão verdadeira?”

Diálogo – na minha opinião – interessante no livro O Vendedor de Armas, de autoria de Hugh Laurie.

A Senhora da Magia

– Onde estamos? Ah, sim, lembro-me, na caverna. Ora, já está amanhecendo. – Sorriu, e estendeu-lhe a mão. Morgana deixou que a puxasse para si e a beijasse, envolvendo-a com seus braços fortes.

– A noite passada você era a Deusa, mas acordo e vejo que é uma mulher.

Ela riu suavemente:

– E você não é o Deus, mas um homem?

– Acho que já chega de ser Deus, e, além disso, parece-me um tanto presunçoso isso, para um homem de carne e osso – disse, apertando-a contra o corpo. – Estou satisfeito por não ser mais do que um homem.

– Talvez haja um momento para ser Deusa e Deus, e um momento para ser apenas carne e osso – murmurou.

– Eu tive medo de você, a noite passada – confessou ele. – Pensei que fosse a Deusa, tão majestosa estava… e você é tão pequena! – De repente ele pestanejou: – Ora, você fala a minha língua, eu nem havia percebido isso… Então, não é desta tribo?

– Sou uma sacerdotisa da Ilha Sagrada.

– E a sacerdotisa é uma mulher. – Suas mãos continuaram explorando delicadamente os seios de Morgana, que se eriçaram com súbita vida e ânsia, ao seu toque. – Você acha que a Deusa ficará zangada comigo se eu preferir a mulher?

Ela riu, e respondeu:

– A Deusa conhece o comportamento dos homens.

– E sua sacerdotisa?

De repente, ela sentiu-se tímida:

– Não… Eu não havia conhecido homem, antes. E não fui eu, e sim a Deusa…

– Como o Deus e a Deusa conheceram o prazer – propôs ele na obscuridade, puxando-a ainda mais para si -, não deveriam o homem e a mulher experimentá-lo também? – As mãos tornavam-se mais ousadas, e ela puxou-o para cima de seu corpo.

– Acho que sim – respondeu.

Desta vez, em plena consciência, pôde saborear bem o prazer, a doçura e a dureza, as fortes mãos jovens e a surpreendente delicadeza atrás de sua atitude ousada. Ela riu com satisfação pelo prazer inesperado, abrindo-se totalmente para ele, sentindo também o prazer que lhe proporcionava. Nunca havia sido tão feliz em sua vida. Cansados, ficaram deitados, enlaçados, acariciando-se numa fadiga agradável.

(…)

– Não creio que voltarei a encontrá-la – disse ele -, pois você é uma sacerdotisa, dedicada à Deusa. Mas quero dizer-lhe que… – e inclinou-se para beijá-la entre os seios. – Você foi a primeira. Não importa quantas mulheres eu venha a ter, durante toda a minha vida, sempre me lembrarei de você, e a amarei e a abençoarei. Prometo-lhe isso.

Havia lágrimas em seu rosto. Morgana apanhou a roupa, e secou-as ternamente, embalando a cabeça do rapaz em seu peito.

(…)

– Artur – corrigiu ele.

Apertou-o nos braços, e depois de alguns instantes ele soluçou, ainda agarrado a ela.

– Era por isso que eu tinha a impressão de que a conhecia antes mesmo da criação do mundo – chorou ele. – Sempre a amei, e agora…

Trechinho do primeiro tomo de As Brumas de Avalon, de autoria de Marion Zimmer Bradley. Li essa obra pela primeira vez há quase uns trinta anos e até hoje – ainda que numa rápida releitura – continua me emocionando…

Fernando em Pessoa

E na correria quase que passa incólume: 123 anos do nascimento do poeta.

Para os que não conhecem, não vou perder tempo com apresentações. Tanto o Google, quanto o Twitter, assim como o Reader e, principalmente, pessoas queridas, não me deixaram esquecer. Então, caríssimos ignaros que jamais ouviram falar de Fernando Pessoa, procurem na Rede, ok? Para os demais, temos este post.

Aliás, mais: por melhor que seja a obra (e é) e por mais vastas que sejam as opções (e são), minha verve sarcástica me compele a não cair no senso comum e buscar algo diferente. Então, para provar que nada consegue matar a poesia, temos aqui o sempre excelente Laerte com sua obra “Piratas do Tietê – O Poeta – Com a participação de Fernando (em) Pessoa”. Direto da minha coleção pessoal, na já amarelada revista Piratas do Tietê nº 12 – de janeiro de 92 (vai, povo de sempre, aproveitem para a usual curtição com a minha cara…) – deleitem-se…

Referências Pessoais:

– 1ª vinheta da 1ª prancha: “(…) Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada” – Álvaro de Campos – “Tabacaria”;

-3ª vinheta, 1ª prancha: “(…) Eu nem sequer sou poeta: vejo./ Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:/ O valor está ali nos meus versos (…)” Alberto Caeiro – “A espantosa realidade das coisas”;

– 7ª vinheta, 1ª prancha: “(…) Sinto uma alegria enorme/ Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma (…)” – Alberto Caeiro – “Quando vier a Primavera”;

– 8ª vinheta, 1ª prancha: “(…) Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade./Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, (…)” – (Álvaro de Campos – “Tabacaria”);

– 4ª vinheta, 2ª prancha: “Com um lenço branco digo adeus/Aos meus versos que partem para a humanidade (…)/- Alberto Caeiro – “Da mais alta janela da minha casa”;

– 5ª vinheta, 2ª prancha: “Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre/a que foi sua/Passo e fico, como o Universo (..)” – Alberto Caeiro – “Da mais alta janela da minha casa”;

– 6ª vinheta, 2ª prancha: “(…) Ah, quem sabe, quem sabe/ Se não parti outrora, antes de mim/ Dum cais; Se não deixei, navio ao sol / Oblíquo de madrugada,/ Uma outra espécie de porto? – Álvaro de Campos – “Ode Marítima”.

Detalhe: Como pode se notar no rodapé da última prancha (ainda que existam outras referências não reveladas): “Todas as falas do personagem Fernando Pessoa – e também esta do ‘coro’ – são frases tiradas de poemas de Fernando Pessoa. (Pirataria é Cultura).”