Pedaços e Pedacinhos

Um livro simplesmente delicioso!

“Pedaços e Pedacinhos”, uma coletânea dos escritos e pensamentos de Brasílio Duarte (1915-1998), que traz a viva lembrança de uma São José dos Campos de outrora, ainda estância climática, de uma vida mais simples e de uma gente mais tranquila. Ou de uma vida mais tranquila e de gente mais simples, como queiram!

Sobre esse livro, disse Altino Bondesan em carta ao autor: “A leitura dos originais de seu livro ‘Pedaços e Pedacinhos’ me empolgou e confortou. Fiquei conhecendo pormenores de sua vida, edificantes, dignos de menção. Vejo que você construiu o edifício de sua existência com muita fé, trabalho, persistência e honestidade. / Seu livro merece ser lido pelas novas gerações, tão carentes de exemplos de religiosidade, de idealismo, de espírito de luta, coisas que se encontram em abundância nas belas páginas de sua obra.”

Bem, para que tenham uma idéia, eis um trechinho:

Um Fato Decisivo e a Primeira Lição

No ano de 1925, com nove anos de idade completos, fui matriculado no Grupo Escolar Olímpio Catão.

Antecedendo a este fato, ocorre uma cena bastante singular e até pitoresca, resultando daí que se tornasse meu protetor, simplesmente o Prefeito Cel. João Cursino. Foi assim:

Sem que alguém soubesse, saí para a rua, determinado a pedir que me pusessem na escola.

Vinha sentindo essa vontade, ao ver, todos os dias, que os outros meninos iam às aulas e voltavam alegres e tagarelas. Grandemente ocupados com os muitos problemas da Santa Casa, meus pais [adotivos] não havia podido, até esse tempo, conseguir uma documentação legal para a minha matrícula escolar, uma vez que eu não tinha nem o registro de nascimento.

E era a primeira vez que eu saía sozinho na rua.

Na primeira esquina (antiga residência do Dr. Nelson), deparo com um roceiro e lhe pergunto: “O sr. sabe quem é o dono da cidade?”

E ele rindo, me diz: – “não é dono da cidade que se diz, é Perfeito. Ele mora perto do Mercado!”

Agradeci e andei para os lados da igreja Matriz.

Bem adiante, pergunto novamente a uma pessoa: “o sr. sabe onde mora o Perfeito?”

Rindo também, ele me ensina: “menino, não diga perfeito, diga Prefeito que é assim que se fala”, “ele mora ali ao lado do Mercado.”

Essa foi a primeira lição que recebi, e caminhei, pensando em como alcançar o que estava procurando.

Finalmente, chego ao lugar que me foram indicando.

Batendo palmas, logo me aparece um senhor gordo, de colete, meio calvo, que me pergunta:

“O que você quer?”

“Eu quero falar com o Perfeito.”

“Pode entrar.

Entrei. Havia um pequeno portão e a seguir, uma escada.

Fiquei olhando.

“Pode falar, eu sou o Prefeito!”

“Vim pedir para o sr. me pôr na escola.”

“Onde você mora?”

“Na Santa Casa.”

“Muito bem. Volte para lá, bem direitinho, eu vou tratar do seu caso.”

Agradeci e fui saindo. Parei, voltando-me para ele, advertindo-o que, se não fosse atendido, sairia de casa.

“Para onde você vai?”

“Não sei, mas creio que vou parar em algum lugar.”

“Vá sossegado. Amanhã mesmo você estará na escola.” E foi assim, mas antes saibam o que aconteceu. Ao chegar em casa, encontro o pessoal apavorado. Todos estavam me procurando.

Fui repreendido pela minha falta, mas não contei nada do que aconteceu. No dia seguinte, bem cedo e para espanto de todos, aparece o Sr. Zeca Bicudo, servente do Grupo Escolar, com ordem expressa do Prefeito para me levar à escola. Foi um corre-corre geral.

Cada um me fazia uma coisa, desde o banho, ao vestir e alimentar. Foi um dia de festa sem que alguém entendesse o porquê de tudo aquilo…

E os tempos foram passando…

Árvore de Costados

Ultimamente me dediquei a uma revisão de tudo aquilo que já escrevi. TUDO. Todos os quase dois mil posts pendurados neste blog pelos últimos anos. Vamos ver se disso ainda consigo fazer sair meu tão sonhado livro… Mas enquanto isso não ocorre, vamos falar de uma de minhas eternas paixões: genealogia.

Revendo alguns posts de 2005, lá nos comentários, percebi que há anos estavam pendentes algumas respostas. Ou pelo menos promessas de tentativas de respostas. A questão diz respeito a uma ilustre senhora chamada Maria Venância de Andrade, que foi irmã de Antônio Teodoro de Santana e de Joaquim Theodoro de Andrade (sendo estes dois meus antepassados diretos) – e, por sua vez, todos os três são filhos de Francisco Theodoro Teixeira e de Maria Emerenciana de Andrade.

Pois bem.

Essa Maria Venância casou-se com Diogo Joaquim Alves e, dentre outros filhos, tiveram Avelina Joaquina de Andrade. A pergunta feita pelo Euler lá em 2008 era a respeito dessa Avelina, pois teria sido casada com um certo Felisbino Rodrigues Teixeira (filho de Matheus Teixeira da Silva e neto de Antonio Teixeira da Silva). O primo Ademir também tinha dúvidas no mesmo sentido. A prima Maria Esther, autora do livro Carrancas – Laços e entrelaços familiares, também se colocou à disposição. E, ainda, o Homero, a Simone e a Célia, outros primos, demonstraram-se curiosos sobre o desfecho.

E, sim, em genealogia toooooodos somos primos…

Infelizmente não tenho muitas informações dessa linha de descendência – a da Avelina. Mas tenho muitas informações sobre a linha de ascendência e um bocado sobre os colaterais! Apesar de muito disso tudo estar contido em livros de minha modesta biblioteca, bem como em correspondências que troquei com outros genealogistas, depois de ver e rever minhas anotações baseadas em dados de terceiros, resolvi recriar toda essa linha através de “documentos primários”. Ou seja: ainda que alguém já tenham estudado e montado a árvore genealógica dessa linhagem, estou refazendo-a com as informações que consigo extrair diretamente de inventários, certidões de casamento, batistérios, etc. Então, caso ainda queiram, até podemos trocar umas figurinhas para completar nossos quadros genealógicos!

Mas, para os demais curiosos de plantão, antes de entrarmos propriamente no assunto, primeiramente vamos a uma pequena aula de cultura inútil sobre o que é uma “Árvore de Costados”.

Em genealogia existem, basicamente, dois tipos de árvores genealógicas, conforme ensina Werner Mabilde Dullius, em seu texto Comentários aos Sistemas de Numeração em Genealogia: a árvore de ascendentes e árvore de descendentes.

A árvore de ascendentes, também conhecida como árvore de costados, ou ainda como árvore genealógica inversa, é a árvore formada pelos antepassados de um indivíduo, partindo da atualidade e retroagindo no tempo, montando toda a linha de antepassados de um único indivíduo. Sua estrutura é geométrica e racional, pois para cada geração que subimos, dobra-se o número de antepassados: dois pais, quatro avós, oito bisavós, e assim por diante.

Já a árvore de descendentes, também conhecida como árvore de geração, ou ainda como árvore genealógica direta, é a árvore formada pelos descendentes de um indivíduo. Partindo do passado ela avança no tempo, multiplicando-se, geração após geração, e facilitando a visualização do antepassado comum de vários indivíduos na atualidade. Sua estrutura é orgânica e aleatória, pois não há como racionalizar o número de filhos de cada indivíduo.

Tradicionalmente existem duas maneiras de se representar os trabalhos genealógicos: graficamente, através de genogramas (diagramas genealógicos), e analiticamente, através da descrição detalhada de cada um dos indivíduos. Enquanto que naquele temos um trabalho quase que artístico, neste, para correta identificação de cada um dos componentes, é necessário lhes atribuir endereços ou códigos que permitam identificar corretamente sua posição dentro da estrutura familiar. Parece complicado, não? Mas até que não é.

Para atribuir esses endereços ou códigos de identificação, atualmente existem diversos sistemas de numeração, cada qual com suas vantagens e desvantagens. Para uma árvore de descendentes, por exemplo, existem os seguintes sistemas: de Registro, de Registro Modificado, Henry, Henry Modificado – Versão I, Henry Modificado – Versão II, D’Aboville I, Meurgey de Tupigny, Villiers/Pama, Felizardo/Carvalho/Xavier, Hunsche, Dullius/Stemmer. Sim, seus “inventores” modestamente lhe atribuíram o próprio nome… Só que a descrição de cada um desses sistemas foge ao escopo deste trabalho, pelo que recomendo a leitura de algum dos inúmeros sites especializados em genealogia que podem ser encontrados na Internet, nos quais poderão encontrar a explicação didática de cada um dos sistemas.

Para uma árvore de ascendentes, o sistema usualmente utilizado é a notação de Sosa-Stradonitz, equivocadamente conhecido como numeração de ahnentafel. Esse sistema foi utilizado em 1676 pelo sábio franciscano espanhol Jerónymo de Sosa (?-1711), tendo sido retomado mais tarde, em 1898, pelo genealogista e heraldista alemão Stephan Kekule von Stradonitz (1863-1933). A razão do equívoco quanto ao seu nome tem origem no fato de que a difusão desse sistema se deu com a publicação da obra deste último: o Ahnentafel Atlas, que acabou sendo adotado para descrevê-lo.

Na prática, funciona da seguinte maneira: dá-se ao indivíduo base o número 1 e ao pai deste o dobro de seu número, ou seja, 2 enquanto à sua mãe é atribuído o dobro mais um, ou seja, 3. Daí, a estes, repete-se o processo (os pais do homem 2 serão 4 e 5, enquanto que os pais da mulher 3 serão 6 e 7), e assim sucessivamente, retroagindo no tempo. Isso nos fornece um tipo de árvore infinita e contínua, onde todos os homens possuem número par e todas as mulheres ímpar, permitindo indefinidos acréscimos sem perturbação de sua rigorosa estrutura.

E esse é o sistema utilizado a seguir para que se possa visualizar a árvore de antepassados diretos relativos à minha linhagem, partindo de meus filhotes. Algumas sequências numéricas foram saltadas, ou melhor, interrompidas, simplesmente porque não tive (ainda) documentos para basear minhas pesquisas – mas em sua maioria são nomes e famílias tradicionais e conhecidas em outras obras genealógicas com as quais podem ser ligados.

Aliás, só pra adiantar: o “nó” se dá quando alguém casa com um parente e os pais de um e de outro começam a aparecer alternadamente nas gerações seguintes…

Primeira Geração
1. Kevin / Erik / Jean

Segunda Geração
2. Adauto de Andrade
3. Eliana Mieko Miura

Terceira Geração
4. José Bento de Andrade
5. Bernardete Nunes
6. Sussume Miura
7. Satiko Mizoguti

Quarta Geração
8. Antonio de Andrade
9. Sebastianna dos Santos
10. Bernardo Claudino Nunes
11. Maria Dionísia de Jesus
12. Hajime Miura
13. Hiro Miura
14. Narakiti Mizoguti
15. Tei Nadai

Quinta Geração
16. João Agnello de Andrade
17. Iria Rita de Bem
18. Alcindo de Paula Maia
19. Laura de Casaes Santos
20. Claudino de Moraes Nunes
21. Benedita Maria de Mello
22. Antonio Antunes Junior
23. Dyonísia Maria de Jesus
24. Kinemon Miura
25. Tsuru Miura
26. Kumaki Hamakiti
27. Massu Hamakiti
28. Massakiti
29. Rie

Sexta Geração
32. Joaquim Theodoro de Andrade
33. Maria da Glória Teixeira Guimarães – sobrinha de seu marido, Joaquim Theodoro de Andrade (32)
34. Braz Carneiro de Bem
35. Luiza Gonzaga de Novaes
36. Fausto de Magalhães Maia
37. Josephina Augusta de Paula
38. Antonio Carlos da Silva Santos
39. Olívia Augusta de Casaes
40. José Rodrigues de Moraes Nunes
41. Rufina Maria Sinhorinha
42. João Alves de Faria
43. ?
44. Antonio Antunes
45. Francisca de Paula Romana
48. Kinjirou Miura
49. Fushino Miura

Sétima Geração
64. Francisco Theodoro Teixeira
65. Maria Emerenciana de Andrade
66. Antônio Teodoro de Santana – irmão de Joaquim Theodoro de Andrade (32)
67. Margarida Teixeira Guimarães

Oitava Geração
128. Manuel Ribeiro Salgado
129. Margarida Teixeira de São José
130. Manuel Joaquim de Santana
131. Venância Constância de Andrade
132. Francisco Theodoro Teixeira #64
133. Maria Emerenciana de Andrade #65
134. Francisco de Paula Guimarães
135. Maria Venância Teixeira – irmã de Francisco Theodoro Teixeira (64)

Nona Geração
256. Bento Ribeiro Salgado
257. Ângela Ferreira Soares
260. José Garcia
261. Maria de Nazaré
262. Manoel Joaquim de Andrade
263. Lauriana de Souza Monteira
264. Manuel Ribeiro Salgado #128
265. Margarida Teixeira de São José #129
266. Manuel Joaquim de Santana #130
267. Venância Constância de Andrade #131
268. Pedro Custódio Guimarães
269. Theresa Maria de Jesus
270. Manuel Ribeiro Salgado #128
271. Margarida Teixeira de São José #129

Décima Geração
520. Diogo Garcia
521. Julia Maria da Caridade – uma das famosas Três Ilhoas…
522. José Rodrigues Goulart
523. Isabel Pedrosa
524. Antonio de Brito Peixoto
525. Maria de Moraes Ribeira
526. André Martins Ferreira
527. Maria de Souza Monteira
532. José Garcia #260
533. Maria de Nazaré #261
534. Manoel Joaquim de Andrade #262
535. Lauriana de Souza Monteira #263
536. Domingos da Costa Guimarães
537. Rita de Souza do Nascimento
538. Manoel Pereira do Amaral
539. Ana Maria do Nascimento

Décima Primeira Geração
1040. Matheus Luiz
1041. Ana Garcia
1048. Inácio de Andrade Peixoto – o mais antigo “Andrade” que encontrei em terras brasileiras, lá para o final do século XVII
1049. Clara de Brito
1050. André do Valle Ribeiro
1051. Tereza de Morais
1052. Manoel Martins
1053. Josefa Ferreira
1054. Domingos Monteiro Lopes
1055. Mariana de Souza Monteiro
1064. Diogo Garcia #520
1065. Julia Maria da Caridade #521
1066. José Rodrigues Goulart #522
1067. Isabel Pedrosa #523
1068. Antonio de Brito Peixoto #524
1069. Maria de Moraes Ribeira #525
1070. André Martins Ferreira #526
1071. Maria de Souza Monteira #527
1072. Cristóvão da Costa
1073. Felícia Guimarães
1074. José da Costa Fialho
1075. Maria de Souza Delgada
1076. Gonçalo Pereira
1077. Antonia do Amaral
1078. Diogo Garcia #520
1079. Julia Maria da Caridade #521

Décima Segunda Geração
2102. ?
2103. Francisca de Macedo e Moraes
2128. Matheus Luiz #1040
2129. Ana Garcia #1041
2138. André do Valle Ribeiro #1050
2139. Tereza de Morais #1051
2140. Manoel Martins #1052
2141. Josefa Ferreira #1053
2142. Domingos Monteiro Lopes #1054
2143. Mariana de Souza Monteiro #1055
2156. Matheus Luiz #1040
2157. Ana Garcia #1041

Quente, quente, muito quente

No meio desse marasmo criativo em que mergulhei, nada como lembrar de mergulhos de verdade…

========================================

Numa ligeira caminhada debaixo de um sol escaldante para pegar minha moto na oficina após uma indispensável retífica no motor (sim, motos precisam de óleo), pude rememorar com saudade meus tempos de infância.

Nos verões insuportáveis de outrora – há uns vinte e tantos anos atrás – a molecada costumava se reunir com suas bicicletas e pegar a chamada “Estradinha de Monteiro” (que vai pra cidade de Monteiro Lobato) pra dar uns mergulhos no rio.

Eram bicicletas de todos os tipos: Monareta, Berlineta, Barra-circular, Barra-forte, Caloi 10, Sprint 10, BMX (sem tanquinho) e as invejadas Caloicross… Toda a tropa pedalava coisa de uns cinco a dez quilômetros até chegar na hoje extinta ponte de madeira do Rio Buquira, onde nadávamos por toda a tarde.

Nós chegávamos, empilhávamos todas as bicicletas na margem do rio, arrancávamos a roupa (não toda, o short ficava), e nos posicionávamos sobre o corrimão da ponte para o merecido mergulho após toda aquela árdua pedalada.

Lembro-me como se fosse hoje. O sol quente batendo nas costas, ainda arfando e suando devido ao trajeto de bicicleta, eu subia no corrimão (sei lá a quantos metros de altura do rio) e preparava-me para o mergulho. Esticava-me todo, numa pseudo-preparativa (como um nadador olímpico), abaixava-me, jogando os braços para trás e… IMPULSO!

Indescritível aquele momento de vazio, em pleno ar, antevendo as águas geladas do rio…

O próprio “cair”, totalmente envolvido pelo vento, já era o início do processo para refrescar…

E então o choque!

O corpo mergulhava totalmente na água e – por um breve momento – todos os problemas do mundo simplesmente não existiam. Ainda submerso, tudo que importava era aquele frescor vivenciado num momento de puro êxtase.

É lógico que tínhamos que voltar à superfície algum dia. Muitas vezes perdíamos a noção do tempo e quando emergíamos já estávamos adiantados, sendo arrastados pela correnteza, além da curva do rio. O chato era ter que voltar até a ponte, pela margem, a pé. O divertido era que podíamos começar tudo de novo.

Ah, bons tempos…

Memórias…

Existem certas memórias que vamos mantendo e acalentando no decorrer de toda nossa vida e que estão sempre presentes, por ali, nos rondando… Volta e meia nos deparamos com essas memórias, sofremos – ou não – com elas, damos colo, cuidamos e as carregamos conosco. Sempre de quando em quando toda vez  mais ou menos…

E, de tanto “cuidar” dessas íntimas memórias que estão em nosso círculo de proximidade, acabamos deixando outras pra trás, que acabam ficando meio que soterradas pelas que estão mais presentes em nosso dia-a-dia – quer sejam úteis ou não.

Por motivos muitas vezes dos mais obscuros acabamos em algum momento de nossas vidas resgatando essas antigas memórias – pelo amor ou pela dor – e então convivemos com elas por mais um curto período (até que voltem para as catacumbas de onde vieram) ou então as transformamos e acabamos transferindo-as para o rol daquelas que nos circundam…

Falo disso porque algumas dessas antigas memórias têm voltado a conviver comigo, presentes e ao meu lado, exigindo seu espaço, sentando no meu lugar do sofá e pegando cerveja na geladeira sem sequer pedir ordem.

E ainda não decidi se elas vão ficar por aqui ou se as chuto de volta para os cantões mais soturnos de minha cabeça de onde nem sei se deveriam ter saído.

Mas uma delas veio com muito carinho…

Final da década de oitenta, começo dos anos noventa.

Morávamos numa casinha modesta e simpática, em eterna reforma (muitas vezes comigo mesmo como pedreiro/encanador/eletricista e pau-pra-toda-obra), um carrinho velho mas valente (sim, um Fusca) e nossas economias (economias?) eram o suficiente para levarmos a vida sem muitas pretensões – mas ainda assim felizes com nossas rotinas suburbanas e com um futuro bem distante e intangível.

E uma dessas rotinas era o levantar todas as manhãs, cuidar dos cachorros e gatos de casa (sim, sempre os tive) e sair para uma curta caminhada. Cerca de um quilômetro, creio eu. Saindo de casa seguia à esquerda até o final da rua, virava à direita, passava um quarteirão, outro, o posto de gasolina na esquina seguinte e dali já estava atravessando a ponte. Aquela, mais antiga, sobre o Rio Paraíba, ligando os bairros joseenses de Santana e Alto da Ponte. Mesmo ali do alto sempre tinha algum tranquilo pescador pra cumprimentar – “diiia!” – bem como outros tantos apressados em sua marcha logo cedo para o trabalho.

Passada a ponte – “Minas Gerais”, se não me engano – e beirando o rio, bastava já descer à direita para o Centro Comunitário, onde aos sábados costumávamos vir com outros amigos para ficarmos sentados no gramado da enconsta do morro e assistir as corridas de kart, quando invariavelmente algum daqueles carrinhos acabava fazendo uma curva reta e se enfiava dentro do rio…

Porém, durante a semana, a pista era livre para caminhadas e corridas. Era uma época em que o cooper estava na moda e sempre havia alguém com um walkman pendurado fazendo seu trote. Não, eu não tinha um walkman. E sim, eu ia lá diariamente para correr.

Não lembro mais qual era o tamanho da pista. Havia a “volta do lago” e a “pista estendida” e eu sempre fazia o circuito completo. Coisa de dez voltas ou mais. O suficiente para suar até perder o fôlego e, então, partir para outros exercícios / ginásticas nos “equipamentos” disponíveis. Na realidade um monte de troncos dispostos de forma a se tornarem os tais equipamentos, mas que ainda assim eram muito úteis.

Dali uma caminhada de volta pra casa, com direito a uma passada na padaria para levar um pão quentinho. Invariavelmente acordava minha esposa com um beijo (e às vezes algo mais, por que não?) e partia para meu diário banho gelado, não importava que tempo fosse. Não me perguntem o porquê, mas eu gostava muito da água fria – gelada mesmo – talvez por me deixar sempre com a sensação de estar numa das cachoeiras que tanto gostávamos de frequentar nos finais de semana. Simples assim.

Ao sair do banho o café já estava pronto e ela me esperava para um gostoso proseio antes que fôssemos para nossos assalariados trabalhos.

Sei que parece mero saudosismo, daquele tipo que costumamos ouvir de nossos pais, mas o fato é que nessa minha época o mundo realmente era mais ingênuo e a vida efetivamente bem mais simples. A atual complexidade de nosso dia-a-dia, a avalanche de informações com as quais somos bombardeados através dos inúmeros canais de comunicação amplamente disponíveis e as obrigações sobre as obrigações sobre as obrigações que assumimos acabam nos impedindo de uma vidinha um tanto quanto mais pacata e tranquila.

Pois é… E agora, depois de tantos anos com essas memórias soterradas, elas resolveram voltar com toda força nesses momentos em que minha cabeça tem encontrado tempo para pensar um pouco mais livremente…

Meu Bisavô

E eis que, graças às Redes Sociais da vida, fui encontrado pelo “primo” Mauro Maia que reconheceu seu próprio avô em um post antigo aqui do blog – na prática o meu bisavô – o ilustríssimo Alcindo de Paula Maia.

Dentre outras informações que temos trocado para atualizar a árvore genealógica de nossa família (calma, Mauro, ainda vou te mandar minhas anotações), ele me brindou com uma nova (nova?) foto de nosso antepassado em comum! Aliás, se a menina da esquerda aí embaixo realmente for a Dona Sebastiana, minha avó, que nasceu em 1920, dá pra gente chutar que essa foto tenha sido tirada em meados da década de vinte!

Observação: ainda vamos trocar mais figurinhas, mas parece-me que, na realidade, ele se chamava mesmo é Alcino…

Férias, uma viagem – “dia um”

Prólogo

Férias…

Ah, benfazejas férias!

Foram dez anos pinguepongueando períodos de quinze dias duas vezes ao ano. Hoje reconheço que essa prática nunca efetivamente me permitiu descansar o suficiente… Levava alguns dias para “desligar” do serviço, uma semana para começar a tentar pensar em querer relaxar e logo em seguida já emendava com a tensão dos poucos dias que faltavam para a volta ao trabalho. Mas desta vez não tive dúvidas: ainda que perdidas no mês de outubro (ou seja, longe de quaisquer férias escolares ou recessos forenses da Dona Patroa), antevi um longo mês pela frente.

Para que pudéssemos fazer um “programa em família” combinamos assim: aproveitaríamos o feriado do doze de outubro (o Dia das Crianças Dia de Nossa Senhora Aparecida), a Dona Patroa aproveitaria as “horas credoras” a que tem direito e a criançada, sem provas ou exames, simplesmente mataria dois dias de aula. Assim teríamos cinco longos dias para entrar no carro e seguir viagem para onde melhor nos aprouvesse.

A propósito, a respeito dessas horas credoras… Como o Tribunal de Justiça simplesmente não paga horas extras, então criaram a “fantástica” figura de “horas credoras”. Ou seja, “não te pago nada agora mas quando você quiser (e eu deixar) poderá tirar aquelas horas que trabalhou a mais”. Como ela já trabalha há vários anos no Fórum, eu diria que, caso ela resolvesse tirar tudo de uma vez, ela só voltaria ao trabalho lá pelo ano de 2013…

Mas voltemos ao foco.

Então na quarta sairíamos de carro com rumo certo definido para Minas, para o Sul ou para a praia. Ah, detalhes, detalhes, detalhes…

De quê?

No bom e velho Opalão 90, é lógico!

Para tanto o carro já tinha passado por uma bela revisão, com manutenção na planetária, alinhamento e balanceamento do cardã (passou a queimar pneu em terceira, dá pra acreditar?) e mais alguns detalhezinhos na parte elétrica, tais como ajustar os espelhos e consertar o acendedor de cigarros. E não, não era para eu acender meus cigarros dentro do carro, não! Cambada de descrentes… É que da última vez que fizemos uma viagem longa e emprestamos o GPS de alguém ficamos na mão simplesmente porque o acendedor de cigarros não funcionava e não dava carga no bichinho. Como eu resolvi botar alguns escorpiões pra correr e comprar (sim, eu disse comprar) um GPS, precisava que tudo estivesse em ordem para que a barca não ficasse a ver navios durante a viagem…

Então quarta-feira chegou e… nada.

Após a recente reforma – e a ainda mais recente (re)mudança – havia muita coisa para se colocar em ordem na casa. Então tiramos o dia para isso. Dai a noite poderíamos arrumar as malas e partir logo na manhã seguinte.

Dia Um propriamente dito

E é LÓGICO que a arrumação seguiu até tarde (e ainda faltou) e logo na manhã seguinte ainda estávamos descompensados de exaustão…

O que nos levou a uma séria discussão um pequeno intercolóquio se ainda iríamos ou não viajar. Mas daí prevaleceu minha teimosia nosso bom senso e resolvemos que iríamos para Minas Gerais, meio que serpenteando em parte do circuito histórico. Caxambu (Circuito das Águas), Santa Rita de Jacutinga (terra de meu pai e a maior concentração dos Andrade por metro quadrado desde lado da linha do Equador), São João Del Rey (cidade histórica) e Ouro Preto (histórica cidade).

Bem, mas seria só questão de arrumar as malas com o básico do básico e partir rapidinho, certo?

Certo!

Bem, “certo” para qualquer outro mortal na face da Terra.

Mas a Dona Patroa é a Dona Patroa…

E, por incrível que pareça, e por maior que seja, o porta-malas do Opala ficou totalmente tomado. Sim, eu disse totalmente. E olhe que estamos falando de um Comodoro, hein? Mas como as propriedades elásticas do metal que reveste o interior do veículo não estão funcionando para esta ocasião, então (felizmente) tivemos um limitador para as bagagens: a própria tampa do porta-malas.

E assim, após arrumar as malas, distribuir recomendações, passar no supermercado para uma comprinha básica (foi quando, eu, bem humorado como sempre, candidamente lembrei-lhe que “porra, mas o porta-malas já tá lotado!!!”), logo nos primeiros momentos da manhã (coisa de umas onze, onze e meia…) já pegamos a estrada.

Debaixo de uma tênue chuva, ao reconfortante som de Nightwish…

Como as horas passaram rapidamente e, surpreendentemente, quando vimos já era hora do almoço, resolvemos parar um pouco antes de Aparecida, lá no Frango Assado. Aqui só não aproveito para cobrar royalties pela propaganda gratuita porque o almoço não foi lá, mas sim numa ótima churrascaria que fica nos fundos. Bem, tá, não tão ótima assim (fiquei seriamente em dúvida se a picanha servida na realidade não seria coxão duro, algo similar ou, ainda, alguma variedade equina), mas pelo menos razoavelmente boa. Bão, a salada tava boa.

Enfim, revigorados (?), seguimos viagem.

Dei uma pisada de leve apenas para recuperar o tempo perdido, mas achei que talvez estivesse correndo um bocadinho com o bom e velho Opalão… Pelo menos foi o que o filhote do meio reclamou quando tentou abrir a janela…

É óbvio que desta vez o caminho não foi virar à direita, rumo à segunda estrela e seguir em frente até o amanhecer. Simplesmente seguimos adiante pela Via Dutra e eu já imaginando que na altura de Cruzeiro a Madame GPS nos avisaria para só então virar em algum ponto, pegando o caminho do assim chamado Circuito das Águas. E placa de Cruzeiro vem. E placa de Cruzeiro vai. E vem. E vai. E não veio mais. Só então caiu a ficha: a rota que a Madame programou era diferente da que eu imaginava! Táquiôspa! Bem, como dizia um antigo estagiário, “tá no inferno, abraça o capeta”. Depois de mais de dez quilômetros sem retorno e faltando vinte para o percurso “sugerido” pela fiadaputa Madame GPS, resolvemos simplesmente explorar aquele novo caminho. Afinal de contas, o que de pior poderia acontecer além de uma volta maior?…

Na altura de Queluz (e quase perdi a entrada de novo!) manobramos para uma bela duma estradinha – pavimentada e em reforma – e seguimos adiante pelos trocentos quilômetros sugeridos pela Madame. Ainda que ficasse com a pulga atrás da orelha quando aquela setinha no visor simplesmente seguia flutuando em linha reta enquanto o desenho da estrada calmamente se afastava para outro lado, por simples falta de opções, seguimos adiante. Longo trecho de serra conhecido como “Garganta” d’alguma coisa, com curvinhas pra lá de fechadas e com pirambeiras incríveis (ainda bem que, pelo menos, com um salutar asfalto sob o carro) – seguimos em frente, audaciosamente indo onde… não, não, péraê, essa é outra história! Bem, simplesmente seguimos adiante até que o cansaço (do joelho deste ser Houseriano que vos tecla) decidiu que já era hora de pedir arrego.

Paramos em Itamonte para esticar as pernas, um bom café, um ótimo sorvete e descansar um bocadinho.

Foi quando, entre o saborear de uma bocada e outra do sorvete, que o Jean, nosso caçulinha, me veio com essa:

“Hoje o dia tá grande, né?”

Nada como a boa e velha sabedoria infantil…

Seguimos viagem com a nau opalística – à qual carinhosamente impingi a alcunha de Posseidon – até que me peguei em puro deleite com as paisagens ao nosso redor. Foi quando dei o alerta: “Ei, sua cambada de cães sarnentos, de miolo mole que parece que não pensam! Eu não fiquei horas descarregando as máquinas e carregando as baterias pra voltar pra casa de mãos abanando! Tratem de registrar o que puderem!”

Não.

Péraê.

Essa foi do Jack Sparrow…

Na realidade foi algo mais assim: “Amor, se não der trabalho e a criançada concordar, que você acha de tentar tirar umas fotos dessa linda paisagem, hein?”. É. Acho que foi mais ou menos isso. Bem mais másculo.

Enfim, a Dona Patroa e o Erik (o do meio) se incumbiram das fotos enquanto que o Kevin, nosso cineasta de plantão, com sarcástica narrativa própria, assumiu seu posto junto à filmadora.

E o dia já começava a definhar quando finalmente chegamos a Caxambu, cidade criança, de apenas 110 anos de idade. Mas com boas histórias e estórias (inclusive algumas antigas deste ser que vos tecla).

Hotel ou pousada, não importava, era a primeira coisa a se localizar. Paramos num que, de cara, imaginei que fosse me custar os olhos da cara. Mas, na realidade – e para minha surpresa -, bem mais barato: apenas as córneas. Seguimos adiante mais um pouco e encontramos outro – fuleirinho, até – mas que tinha lá seu charme. E, vamos combinar? Cem contos a diária de um casal com três crianças já incluído o café da manhã, até que não está de todo mau…

Instalados e descarregados, saímos pra comer alguma coisa. Um bom lanche numa padoca já resolveu o assunto. Criançada cansada não queria saber mais de nada. Toca todo mundo de volta pro hotel para um bom banho e descansar o sono dos justos. Tá, pelo menos o dos cansados.

Como criança que é criança não sossega, entre os perrengues e algazarra (quarto enorme com três camas só pra eles) de repente me vem o caçula rachando de dar risada: “não foi culpa minha, juro que não foi!”. Ante minha cara de interrogação, logo em seguida aparece o do meio, com cara de tédio e ostentando um mal disfarçado sorriso no canto da boca, com um carrinho de corda preso nos cabelos…

Passado mais um tempinho, enquanto eu terminava este texto, fui surpreendido com um absurdo e aterrador silêncio! Corri para o quarto dos meninos. Perguntei pra mim mesmo: “mim mesmo, será que já dormiram?” E eis que me deparo com cada qual numa cama. Lendo. Simples assim.

Esses meus meninos…

Bem, hora do banho.

Amanhã tem mais.

Espero.

Em tempo: E não é que aquela merda de o chuveiro não sai água? Só um fiozinho! Putz, eu sósifôdo…