Sonho meu

Um milhão de reais.

Nas minhas mãos. Em espécie. Pra fazer o que eu quisesse.

Um milhão de reais.

Já pensaram nisso?

Não só pensei, como, há apenas poucas horas, também os tive. Em pacotes cintados, com notas graúdas, embrulhado em grosso papel pardo. Mais alguns talões e papéis alheios junto. Mas a questão é que eu precisava levá-los de onde estava. Fui pegar o carro e, não sei o porquê, tinha esquecido de que havia o desmontado para reforma e, por pura falta de espaço, coloquei-o sobre a laje de casa. Não sei do telhado que deveria estar ali, mas sei que a carcaça do Opala ocupava um bom espaço por sobre toda a extensão da laje. Passei pela porta da escada de segurança e fui providenciar um outro veículo pra levar o dinheiro até o banco.

Enquanto isso, estranhamente, sinos tocavam distantes em algum lugar…

Enquanto descia – talvez até por alguma espécie de premonição – antevi uma cápsula que com muita dificuldade passava pela corrente sanguínea da Dona Patroa, indo parar no coração e de lá liberando não-sei-o-quê e que iria afetar todo o organismo. Enquanto corria escada abaixo, descendo os degraus de par em par (estranho que o joelho tivesse melhorado, não lembrava disso), no celular liguei para o número que todos nós já sabemos de cor para emergências – nove, um, um – e solicitei que fosse enviado um carro de resgate com toda urgência possível para casa, pois ela estava prestes a sofrer uma parada cardíaca mas ainda não sabia disso.

E, ao som de sinos, entrei na imensa cozinha onde ela estava.

Enquanto eu ali, lívido de preocupação pelo que estava por acontecer, ela calmamente fazia o almoço. Perguntei onde estava o marido dela, que também deveria estar ligando pra emergência (esquisito eu ser o marido dela e perguntar dele, que era outro, eu sabia, um rapaz magro, alto e de barba bem preta – quase que um arábe). Disse-me que estava na outra sala e que havia tido um probleminha. Fui ver. Meu Deus, ele estava morto! Um acidente, sem dúvidas, mas numa cena digna do Supernatural, uma grande alavanca havia transpassado seu corpo, que jazia espetado na parede. Um gigantesco espécime para algum entomologista, foi tudo que pude pensar naquele momento… Voltei ao outro cômodo e ela ali, calma, na certeza absoluta que bastava dar alguma explicação simples para a polícia que já estava chegando (não era a emergência?) e tudo ficaria bem. E o som das sirenes já estava na porta de casa quando resolvi sair, deixar que ela resolvesse tudo, pois tinha que levar o dinheiro até o banco.

Aliás, pensando melhor, não eram sirenes.

Eram sinos.

Sinos da praça que batiam desordenadamente enquanto eu acelerava a mini-picape escada acima até chegar na rua principal, onde ficava o banco. Só que no último lance de escada havia uma rede para impedir o acesso por ali. Diacho! Teria que dar a volta e subir por algum outro acesso! Coloquei o skate no chão e desci a mil, equilibrando o pacote como podia. Mas havia uma janela no meio do caminho. Vermelha. De ferro fundido. Talvez desse passagem, não custava tentar, certo? Me espremi por ela, junto com o pacote e a brisa do mar me clareou as idéias! Bastava mergulhar! O mar não estava muito abaixo, coisa de uns dez metros apenas. Pensei se a água estaria fria enquanto caía. Mas qual nada! Bastou emergir que, no submarino, tudo estava quente e seco! Mas o cronômetro estava correndo, com seus grandes números vermelhos. Faltavam poucos segundos e eu não consegui desarmar a bomba.

Enquanto isso, na ponte, o sino do contramestre tocava.

E foi pra ponte que corri, desviando do capitão (um cara meio que familiar, de barba preta, onde eu já o tinha visto antes?), subi pelas escadas vermelhas, abri a escotilha e dei uma última olhada para baixo. Eles iriam explodir e não havia nada que eu pudesse fazer. Na velocidade em que o submarino estava tudo que me restava era pular. Aproveitei que a enxurrada batia num pedaço de calçada e me lancei sobre aquela plataforma, ralando um pouco as mãos e o joelho. Enquanto isso o skate seguiu pela enxurrada, bueiro abaixo. Levantei-me e vi que estava bem em frente ao banco e o gerente me esperava na porta, com um sorriso.

E ESSES SINOS QUE NÃO PARAM DE TOCAR, CARAMBA???

Levantei-me. Não eram sinos. Era o despertador do celular. Fui até o escritório e não o encontrei. Apurei os ouvidos e percebi que estava na sala. Peguei-o. Apenas um por cento de carga. Melhor desligar. Estava travado e não desligava. Melhor então conectar no computador para dar carga suficiente para desligar. Desci até o porão para trocar o núcleo do reator, sem o que o computador não conseguiria se conecar à Internet. Mas o estabilizador que controlava o motor de fusão estava com mau contato no botão. Precisei ligar e desligar várias vezes. Nada. Uma pequena pancada deve resolver, pensei comigo mesmo. Peguei a pistola que sempre carrego comigo e dei uma coronhada no capacete do estabilizador, para ver se o andróide reinicializava. Estranho. Fez som de sinos.

Sinos?

Acordei de novo.

Desta vez de verdade.

E desliguei o celular que badalava há não sei quanto tempo tentando me arrastar pra fora desse mundo onírico.

Mas e quanto ao dinheiro?

Não era meu, era roubado. Limpinho, em notas não marcadas, não rastreável e que os ladrões não perceberam que haviam perdido e não sabiam com quem estava.

Mas, ainda assim, não era meu.

E, apesar de todas as dificuldades, tive certeza que consegui devolvê-lo.

E vocês?

Devolveriam?…

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Aliás, em tempo: não teve como não lembrar dessa música aí embaixo…

😀

S’HQs


DARKSEID

Que eu me lembre sempre gostei das estórias de heróis, bem como dos heróis e heroínas em si. Mas vamos combinar que um bom vilão também sempre atrai a atenção… Ainda mais os do tipo que tramam dentro das minúcias das próprias tramas!

Johnnie Walker X João Andante

Clique na imagem para ampliar!
( Publicado originalmente no blog etílico Copoanheiros… )

Bicarato

Quem capota primeiro? O lorde ou o caipira? Apostas ali no escritório, por favor.

Mas, caray, que porre! Esses gringos ainda não sacaram que cachaça é cachaça e uísque é uísque? E que, apesar do fraque e cartola, o lorde é muito mais cafona que o nosso legítimo e sincero e gente-boa e lesgal-pra-caramba e… eu-também-gosto-muitcho-docê-mas-ninguém-me-entende-você-é-um-amigão-mêsss! Dá-mais-uma-aí-Chefia!

Uísque Johnnie Walker tenta derrubar cachaça João Andante

A holding inglesa Diageo, detentora da marca do uísque Johnnie Walker, abriu processo administrativo no Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) contra a cachaça João Andante. A Diageo acusa a empresa mineira de ser “imitação” de sua marca –segundo ela, avaliada em US$ 3,5 bilhões.

Mas o processo gerou publicidade para a cachaça e fez suas vendas dispararem. Nas últimas duas semanas, os pedidos feitos via e-mail já chegam a mil garrafas. Até então, as vendas eram de apenas 200 garrafas por mês.

“Os pedidos estão aumentando muito e nós sempre trabalhamos com margem e volume pequenos”, disse Gabriel Lana, 25, um dos donos.

A João Andante foi organizada em 2008 por quatro jovens que viam a atividade mais como um hobby do que propriamente um negócio empresarial. Cada um deles segue com sua profissão.

O desenho das duas marcas é representado pela figura de um andarilho, embora de classes sociais distintas: enquanto um é lorde, o outro é um jeca, ou capiau, conforme o regionalismo mineiro.

“Apesar de ambos os personagens mostrarem algumas distinções, o uso da expressão ‘João Andante’, que é a tradução literal de ‘Johnnie Walker’, evidencia a intenção de criar uma ‘versão local’ da marca”, argumenta a holding inglesa por meio do escritório de advocacia Dannemann Siemsen.

Os mineiros negam que o uísque tenha sido a inspiração e sustentam que o Walker da marca inglesa nada tem a ver com andar ou caminhar –é um sobrenome.

Afirmam que a ideia é a de um caixeiro-viajante, que é um andarilho, segundo o escritório de advocacia Hidelbrando Pontes e Associados.

[Copy&Paste direto da Folha.com]

Esses gringos, sempre se achando... nhé!

Segunda dose: uai, mas é claro que o João Andante tem sítio-chácara sim. E é bem bacana, óia só aqui. E tem mais causo também lá no Dono do Bar

Do Bem

Nestes últimos tempos tem aparecido aqui neste nosso cantinho virtual as consciências “do bem” e “do mal”… O que me fez lembrar de um antigo post – este aqui – e que me faz concluir que 2006 realmente foi um ano profícuo em termos de bloguices de um modo geral.

Mas dos personagens recentes que tenho conhecido, indubitavelmente esse aí de baixo tem sido meu predileto.

😀

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Quente, quente, muito quente

No meio desse marasmo criativo em que mergulhei, nada como lembrar de mergulhos de verdade

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Numa ligeira caminhada debaixo de um sol escaldante para pegar minha moto na oficina após uma indispensável retífica no motor (sim, motos precisam de óleo), pude rememorar com saudade meus tempos de infância.

Nos verões insuportáveis de outrora – há uns vinte e tantos anos atrás – a molecada costumava se reunir com suas bicicletas e pegar a chamada “Estradinha de Monteiro” (que vai pra cidade de Monteiro Lobato) pra dar uns mergulhos no rio.

Eram bicicletas de todos os tipos: Monareta, Berlineta, Barra-circular, Barra-forte, Caloi 10, Sprint 10, BMX (sem tanquinho) e as invejadas Caloicross… Toda a tropa pedalava coisa de uns cinco a dez quilômetros até chegar na hoje extinta ponte de madeira do Rio Buquira, onde nadávamos por toda a tarde.

Nós chegávamos, empilhávamos todas as bicicletas na margem do rio, arrancávamos a roupa (não toda, o short ficava), e nos posicionávamos sobre o corrimão da ponte para o merecido mergulho após toda aquela árdua pedalada.

Lembro-me como se fosse hoje. O sol quente batendo nas costas, ainda arfando e suando devido ao trajeto de bicicleta, eu subia no corrimão (sei lá a quantos metros de altura do rio) e preparava-me para o mergulho. Esticava-me todo, numa pseudo-preparativa (como um nadador olímpico), abaixava-me, jogando os braços para trás e… IMPULSO!

Indescritível aquele momento de vazio, em pleno ar, antevendo as águas geladas do rio…

O próprio “cair”, totalmente envolvido pelo vento, já era o início do processo para refrescar…

E então o choque!

O corpo mergulhava totalmente na água e – por um breve momento – todos os problemas do mundo simplesmente não existiam. Ainda submerso, tudo que importava era aquele frescor vivenciado num momento de puro êxtase.

É lógico que tínhamos que voltar à superfície algum dia. Muitas vezes perdíamos a noção do tempo e quando emergíamos já estávamos adiantados, sendo arrastados pela correnteza, além da curva do rio. O chato era ter que voltar até a ponte, pela margem, a pé. O divertido era que podíamos começar tudo de novo.

Ah, bons tempos…