Liber Testamentorum

Histórias inusitadas ocorreram nos últimos tempos… Gente querida de gente querida faleceu, deixando um histórico de saudade, dor, surpresa, alívio – não necessariamente nessa ordem.

Casos e casos. Morte inusitada, que ninguém espera. Morte estúpida, que ninguém aceita. Morte sofrida, que ninguém compreende. Morte distante, que traz um vazio. E, talvez pior que tudo – até onde posso compreender – morte em vida, que traz um grande sofrimento.

E, em todos os casos – sem exceção – pontuada é a tristeza dos familiares, amigos e mesmo conhecidos.

E isso dá no que pensar: e quando minha hora chegar?

Então, pois bem, está decidido.

Nada disso quero para mim.

Sem, absolutamente, faltar com o respeito para com a dor que cada um sente, quero deixar bem clara minha intenção: nada de tristeza!

Minha vez há de chegar – eis que somente não escapamos de duas coisas nesta vida: do imposto de renda e do encontro com a ceifeira. Então, vamos combinar? Faço desde já meu testamento: tudo, eu disse absolutamente tudo, que tenho de material vai para meus filhos. Em caráter irrevogável, irretratável e irretocável. E o que tenho de “imaterial” – representado pelas minhas idéias, filosofias, doideiras, entendimentos, convicções, memórias e tudo mais nesse sentido – num primeiro momento a eles pertence, eis que mesmo com uma dedicada vida inteira jamais eu conseguiria lhes transmitir tanta coisa de ordem personalíssima. Mas, neste caso, há uma condição sine qua non para que se tornem senhores de tais bens: a obrigação indissolúvel de compartilhar isso com, somente, o restante da humanidade. Quer queiram ou não. Quer desejem ouvir minhas palavras ou não. Quer dê trabalho ou não.

E é assim que procuro garantir efetivamente meu acesso à imortalidade: mantendo vivo meu pensamento, ainda que seja na cabeça do mais obscuro ser humano, do mais distante lugar, na mais improvável situação. Enquanto isso acontecer, enquanto meus ditos forem citados, enquanto minhas convicções permearem ao menos uma pessoa das geraçãoes futuras – quer sejam descendentes ou não, quer saibam serem minhas ou não – lá estarei.

E se isso não vier a acontecer?

Sem problemas. Minha passagem por este plano já teve o condão de afetar vidas alheias, quer seja por minha direta intervenção ou não. Nem todas para o bem, infelizmente, eu sei, mas tal qual um “efeito borboleta”, minha marca já foi indelevelmente fixada nas vidas de outrem.

Assim, de resto, resta o encontro final em si.

Façam-me o favor: sem choradeira!

Já ouviram falar em “beber o morto”? Antiquíssima tradição funerária?

Pois é.

Comprem uns barris de chopp, uns engradados de cerveja, umas boas e velhas cachaças da terra e passem comigo minha última e derradeira noite bebendo e (re)lembrando tudo de bom e de ruim que fiz. Onde quer que eu esteja quero ouvir risadas, gracejos, lampejos de sarcasmo e brincadeiras como sempre costumei aprontar. E volto para puxar o pé de quem este desejo não respeitar!

Aliás, sim, eu disse “comigo” – ou acham que eu iria faltar à minha própria festa? Doem o que tiverem que doar (ao menos aquilo que ainda for “aproveitável”), me homenageiem como tiverem que homenagear e, depois, queimem o que sobrar. E espalhem ao léu o que restar.

Simples assim.

Minhas idéias haverão que ser mais fortes e permanentes que um mero marco fixado no chão.

Ou não.

E, independentemente disso, que tudo seja rápido, certeiro e indolor.

Ah, sim!

E a conta disso tudo?

Quem paga?

Vocês, é lógico!

Ou já se esqueceram para quem vai todos meus bens materiais?…

De resto já deixo uma sugestão de música para a ocasião – Rolando Boldrin, como não podia deixar de ser!

 
😀

O Turista

Apesar dos protagonistas, não esperem nada no estilo Tomb Raider. Muito menos algo como Piratas do Caribe.

Não é um filme de ação como eles costumam fazer – apesar de, sim, ter alguma ação…

Mas, no geral (e apesar de algumas críticas contrárias que ouvi), achei um bom filme.

Assim, bem descompromissado.

Algum suspense. Um pouco de humor. Um toque de ação. Um bom desfecho.

Isso sem nem sequer falar das maravilhosas paisagens de Veneza!

Sim, vale assistir, numa boa.

Senão pelo filme, ao menos pela pipoca!

Ah! Sim! Já estava esquecendo o principal!

Tem a Angelina

😀

Só enquanto eu respirar…

De quando em quando me deparo com ilustres desconhecidos que, com suas músicas, textos e poemas, acabam por me chamar a atenção pela beleza e originalidade de suas composições…

E é esse o caso do Fernando Anitelli, lá d’O Teatro Mágico, que compôs a bela música O Anjo Mais Velho.

Músicas como essa são verdadeiros repositórios de nossas lembranças, reavivando medos, anseios, sentimentos – enfim, emoções de um modo geral…

Insustentável sustentabilidade – ou SWU: que foi, de verdade, aquilo?

Relativamente longo (entenda-se: para os padrões internetísticos-bloguísticos de hoje), mas realmente excelente texto. Escrito pela Marjorie e vindo diretamente lá do Idelber.

Ano passado, fui a um evento em que várias bandas nacionais e internacionais se apresentaram numa fazenda no interior de São Paulo. Para assistir aos shows, era necessário comprar um ingresso que custava, se não me falha a memória, trezentos reais. Isso para ficar a vários metros de distância dos palcos. Quem quisesse ver as apresentações de perto, num cercadinho chamado de área VIP, teria de pagar o dobro. É mais do que o atual salário mínimo brasileiro, de R$510. Lá dentro, a água custava 6 reais, a cerveja uns oito. O evento foi patrocinado por quatro empresas: duas multinacionais do ramo de bebidas, uma multinacional do ramo de alimentos e uma nacional do setor de telefonia.

Tem toda a cara de um festival de música como outro qualquer, voltado para consumidores de classe média/alta, certo? Errado. Segundo os organizadores e os patrocinadores, o que estava acontecendo não era um show, bobinho, era um movimento social pela conscientização ambiental, chamado “starts with you” (começa com você). Oi? Movimento social. Tipo o feminista, o negro, o indígena e o sem-terra, sabe? Mesma coisa.

Uma das multinacionais do setor de bebidas que patrocinaram o evento foi multada em 47 milhões de dólares por poluir lençóis freáticos na Índia. Ela produz uma bebida com 18 colheres de açúcar a cada dois litros. Apenas uma de suas usinas de engarrafamento no Brasil é capaz de produzir 27 mil garrafas por hora. Outra das patrocinadoras engarrafa milhões de litros de água mineral, mesmo que muitos governos locais já tratem a água e a ofereçam gratuitamente aos cidadãos (e sem garrafa). Para competir com a água tratada e gratuita nos países onde ela é disponível, a propaganda classifica a água engarrafada como “mais confiável”, o que nem sempre é verdade.

Entretanto, nos telões do festival, ambas as empresas alardeavam sua preocupação em manter operações sustentáveis, na medida em que reciclam e/ou reutilizam parte das garrafas PET desnecessárias que produzem. A mensagem era clara: “já estamos fazendo a nossa parte, agora faça você a sua. Starts with you! Feche a torneira ao escovar os dentes, desligue os aparelhos eletrônicos da tomada quando sair de casa e seja um consumidor consciente”. E, com “consumidor consciente”, lá vem a mensagem subliminar: “ao comprar um refrigerante de uma empresa responsável como a nossa, você está ajudando o planeta. Não compre dos outros, compre da gente!”.

Nesta semana, em São Paulo, a maior editora de revistas do Brasil promove, pelo quarto ano consecutivo, um evento de sustentabilidade. A mensagem é a mesma do SWU: feche a torneira, faça xixi durante o banho, use os dois lados da folha sulfite, apague a luz. Decorando o evento, esculturas de papelão feitas com as bobinas que envolvem os rolos de papel utilizados na fabricação das revistas. E aí as pessoas vão passeando por ali e pensando “uau, que legal! Um material que normalmente seria jogado fora serviu para produzir algo belo!”. E eis que a editora de revistas se sai como uma puta empresa bacana. Mas ninguém pára para pensar, afinal, para quê todas aquelas bobinas de papel sequer foram produzidas. Ninguém se faz aquela perguntinha do Caetano: quem lê tanta notícia? A humanidade precisa mesmo de tanta revista? Pra quê tanto papel para falar dez mil vezes a mesma coisa? Não parece um contrassenso pagar de gatinho da sustentabilidade reciclando e reutilizando toneladas de papel que foram usados, principalmente, para estimular o consumo? Afinal, hábitos de consumo são a principal coisa vendida por esse tipo de veículo em particular, a revista.

Citei esses dois exemplos, mas poderia citar outros vários. Cada vez mais empresas, de todos os ramos do mercado, têm se apropriado do discurso da sustentabilidade ou patrocinado eventos de “conscientização”. E isso não é à toa. Nada mais insustentável do que o discurso da sustentabilidade. Trata-se de um discurso deliberado de alienação, que foca a resolução da questão ambiental sobre as nossas pequenas ações cotidianas e não sobre a raiz a ser extirpada: o modelo de produção e consumo vigente. É claro que nossas pequenas ações cotidianas têm sim seu peso (ninguém está dizendo que fechar a torneira enquanto escovamos os dentes é uma coisa ruim), mas vamos combinar: não somos nós que jogamos milhões de litros de óleo no Golfo do México. Não somos nós que poluímos ar e água com substâncias cancerígenas. Não somos nós os responsáveis por socar partículas de sacolinhas e garrafas PET no bucho dos animais marinhos. Então, não é à toa que tantas empresas que nunca deram a mínima para o meio-ambiente de repente tenham virado sustentáveis desde criancinha. Não é à toa que o nome do tal festival, ou melhor, do “movimento social”, é starts with you. Começa aí com você, seu trouxa. Afinal, enquanto a gente fica aqui criando consciência, as grandes empresas, responsáveis pelo grosso do problema, ganham tempo. Adia-se mais um pouco o debate sobre a sociedade de consumo que construímos.

Outro problema desse discurso da sustentabilidade, tão em voga, tão na moda, é que ele nos convida a ser benevolentes com o planeta, quase como se estivéssemos lhe fazendo um favor: “salve a planeta! Salve os ursos polares! Salve as florestas!”. Meu filho, a questão é salvar a nós mesmos. É o nosso que tá na reta. O planeta se vira sem a gente. Se isso aqui virar tudo uma grande sauna inabitável, o planeta continua existindo. Numa boa. Como todos os outros planetas inabitáveis universo afora. Não é a Terra que vai se foder (pode palavrão aqui, Idelber?), é você. Você.

O terceiro (e, muito provavelmente, não o último) problema desse discurso é que ele limita a nossa esfera de ação ao consumo. O único poder das pessoas de salvar o planeta (e não a si mesmas) é enquanto consumidoras, nunca enquanto cidadãs, nunca através do fazer político. Enfiamo-nos nessa enrascada consumindo e consumindo sairemos dela. É apenas uma questão de mudar o jeito como se consome, tornando-se um consumidor “responsável”. Mas o que é ser um consumidor responsável? Ora, é consumir na mesma quantidade e das mesmas empresas de sempre (como as patrocinadoras do SWU…), só que com a consciência tranquila porque as empresas estão reciclando uma coisinha aqui e ali, utilizando circuito fechado de água numa fábrica aqui, noutra ali. Ah, e enquanto você consome uma coisa e outra, apague a luz.

Mas devo chamar atenção para uma coisinha mais. É que muitas empresas inserem o pilar social no seu conceito de sustentabilidade. E aí, a meu ver, mora um grande, gigantesco perigo. Através de fundações e institutos associados ao terceiro setor, empresas privadas querem substituir o Estado, tomando para si atividades que devem ser de responsabilidade dele (como educação, saúde, combate à pobreza, etc). Ou então, sequestram o rótulo de sociedade civil e passam a dizer ao Estado quais são as necessidades das comunidades, o que deve ser feito e como. Essa do SWU assumir o rótulo de “movimento social”, por mais ridículo que pareça, é uma coisa que as fundações e institutos, associados ao terceiro setor, já têm feito há tempos. Aí, o próprio Estado passa a dar dinheiro a empresas privadas, para que o capital se encarregue de dar um tapa nas desigualdades que ele mesmo gera.

Por isso, desconfio de toda e qualquer empresa que vem com discurso sustentável para cima de moi. Não votei em Marina, por mais que simpatize com vários aspectos de sua biografia e atuação política, justamente por causa disso. Pode me chamar de comunista barbuda, mas a solução dos problemas gerados pelo capital não virá pelas mãos do próprio capital. Há uma óbvia incompatibilidade de interesses. A mobilização, querido, realmente starts with you: não são as empresas que têm de criar consciência na gente. É a gente que tem de criar consciência, coletivamente, sem mediação privada alguma. É a gente que tem de questionar o modo como se vive, a maneira como as coisas são produzidas e, a partir daí, peitar as empresas.

PS – Mais um obrigada gigante ao querido Idelber pelo convite para escrever aqui, mesmo que a minha escrita seja assim, tão mequetrefe.

PPS – Agora o merchan. Blog: www.marjorierodrigues.com e twitter: www.twitter.com/marjerodrigues