Eu e meus gibis

Quem me conhece um bocadinho apenas sabe o quanto sou apaixonado pela chamada “nona arte”.

Ou seja, por gibis.

Mas comecemos do princípio: o porquê do nome “gibi”.

Os quadrinhos tiveram início nos Estados Unidos aproximadamente em 1895, nos suplementos dominicais coloridos, usando a dimensão total do jornal. Segundo o especialista Ralph Luiz Solera, “Quadrinhos ou Histórias em Quadrinhos, as conhecidas HQs, são narrativas feitas com desenhos sequenciais, em geral no sentido horizontal, e normalmente acompanhados de textos curtos de diálogo e algumas descrições da situação, convencionalmente apresentados no interior de figuras chamadas ‘balões’.”

Ok. Tecnicamente acabamos de esclarecer o óbvio.

Numa apertadíssima síntese histórica dá pra dizer que lá pelos idos de 1933-1934 surgiram os chamados Comics Books em meio tablóide com estórias completas. No Brasil esse mesmo tipo de tablóide passou a ser conhecido popularmente pelo nome de gibi, por causa do lançamento da revista Gibi, com 32 páginas em papel jornal. Em 1940 começou a ser publicado o Gibi, uma revista com estórias completas, iguais aos Comics Books (inclusive “importando” as mesmas estórias), sendo que tudo indica que seu nomeestava voltado ao significado original da palavra gibi, ou seja, moleque ou negrinho (percebe-se pelo logotipo). Em função dessa revista, crianças e jovens da época passaram a chamar de “gibi” qualquer tipo de revista em quadrinhos – o que perdura até hoje (inclusive já catalogado pelos dicionários)…

Tá bom, agora vamos ao meu “primeiro contato” com os gibis (já tinha começado a falar um pouquinho sobre isso aqui).

Uma das minhas lembranças mais antigas no que diz respeito a quadrinhos me remete diretamente à Turma da Mônica, pois costumávamos ir até a casa de meu bisavô e lá havia uma espécie de hall onde sempre haviam alguns jornais da semana. Assim, em pleno início da década de 70, eu já chegava fuçando tudo e procurando pela Folhinha (era esse mesmo o nome?) para poder ver aqueles desenhos que me agradavam tanto. Sim, ver, pois eu sequer era alfabetizado…

Mais tarde, ainda na infância e assim que aprendi a ler (graças ao Adilson, meu irmão mais velho – valeu, cara!), nosso vizinho – cujo nome era “Seu João” (não é um nome perfeito para vizinhos?) – abriu para mim as portas de um tesouro. Em sua garagem haviam prateleiras e mais prateleiras de gibis dos mais variados tipos. Suas filhas haviam crescido, eram adolescentes, e aquilo já não lhes importava mais. Não sei dizer quantas horas eu devo ter passado dentro daquela garagem (pois ele, sabiamente, ele não permitia que as revistas saíssem de lá) onde lia, dentre outras, revistas do Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey, Gasparzinho, Riquinho, Brasinha, O Gigante Miudinho e, claro, Turma da Mônica ainda em suas primeiras estórias.

Passada essa “fase de alfabetização” meio que deixei os quadrinhos de lado no decorrer do restante de minha infância. Não que eu não lesse alguma coisa de quando em quando, mas num típico bairro tradicional de cidade do interior existem MUITAS outras coisas para serem feitas e exploradas por uma criança hiperativa…

Lembro-me que, bem no comecinho da adolescência passei a me interessar pela revista Mad – ainda com os desenhos originais americanos. Don Martin e Aragonés (com suas impagáveis “tiras de rodapé”) eram autores que me cativavam. Seções específicas, tais como “a sombra sabe” ou “respostas cretinas para perguntas imbecis” eram hilárias. A famosa dobradura da última página sempre tinha algo nonsense. Mas, mais do que tudo isso, aquele traço de caricatura das estórias principais, sempre tirando um sarro de filmes que eu adorava – ah, isso sim era o máximo!

Heh… Tocam sininhos na minha memória que, lá pela oitava série, devo ter aprontado uma das boas… Tanto, que minha mãe me fez vender TODA minha coleção para uma banca de revistas usadas e doar (sim, DOAR) esse dinheiro para a Igreja. Desse episódio a única coisa que me lembro bem foi de, com muito sacrifício, caminhar até a enorme urna verde que ficava bem no meio da igreja de Santana e depositar lá o envelopinho com todos os míseros trocados que foram pagos pelas revistas…

Nesse momento, já versado em estórias mais complexas e em traços mais refinados, a fase seguinte aconteceu naturalmente. Meu irmão mais velho – aquele que me ensinou a ler, lembram? – estudava engenharia na USP – Universidade de São Pauloe, durante as férias, fui passar uma semana com ele lá no CRUSP – Conjunto Residencial da USP. Mesmo já sendo um adolescente, eu ainda era muito novo para desventuras etílicas ou tabágicas, mas me recordo bem da incontável quantidade de bicho grilo por metro quadrado que encontrei por lá! Coisa de louco (literalmente falando). E, para um garoto nessas condições, entediado por não ter o que fazer, tudo que me restou foi fuçar nas coisas do brother para ver se encontrava algo interessante para ler. E o que achei? Nada mais, nada menos que Asterix e o Combate dos Chefes.

Nunca ri tanto sozinho por tanto tempo.

O traçado, as tiradas, as referências, os diálogos, o humor – simplesmente TUDO era ótimo naquela revista!

Fui irremediavelmente fisgado por esses personagens e não parei enquanto não consegui juntar todas as revistas da coleção. Aliás, nessa minha coleção, o exemplar que tenho do Combate dos Chefes é exatamente o mesmo que estava com meu irmão naquela época…

Pois bem, de volta à terrinha, fui cada vez mais entrando na adolescência e tendo todos aqueles interesses que todo adolescente costuma ter.

Exato.

Eu queria uma bicicleta! 😉

Como não dava pra comprar uma – pai mecânico, mãe costureira e um orçamento familiar apertado – fui dar uma de enxerido numa bicicletaria perto de casa e não sosseguei enquanto não me contrataram “para aprender o ofício”. Com meus pagamento ora em peças ora em dinheiro aos poucos pude construir minha primeira bicicleta (para curiosos de plantão, eis aqui uma imagem dela – a segunda foto).

E o que tem isso a ver com o assunto deste post?

É que o filho mais velho do dono da bicletaria, o Jesimiel (êita nominho!) costumava deixar no canto de uma das prateleiras os gibis que lia. E, lógico, lá fui eu fuçar. E encontrei algumas das primeiras edições de Conan, com traços do John Buscema!

Eu não conseguia compreender como era humanamente possível que alguém pudesse produzir aqueles desenhos somente com nanquim, sem se utilizar de nenhuma cor ou tonalidade de cinza, e ainda assim o produto final ser tão perfeito, cheio de vida e movimento. Parecia impossível, mas o mestre conhecia de seu traçado.

Estávamos em meados da década de oitenta e minha coleção durou exatos dez anos. Parei no número 120 da revista, pois as estórias acabaram ficando por demais repetitivas e a nova geração de desenhistas estava cada vez pior.

Por gostar desse tipo de arte – só nanquim – acabei me interessando pelos contos do Lobo Solitário – uma série recentemente relançada integralmente em 28 volumes.

Creio que é dessa época também minhas viagens nas estórias de alguns bons artistas brasileiros – em especial, é lógico, Angeli e Laerte.

O primeiro, dentre outros personagens, com o escrachado Bob Cuspe…

… e Laerte, também dentre outros, com os impagáveis Piratas do Tietê!

E, mais tarde tendo o Glauco se juntado à trupe, teríamos os fantasticabulosos Los Tres Amigos.

Tudo isso curti e curto até hoje.

Pois bem. Tendo aprendido a (tentar) ser mais criterioso em minhas escolhas, quase que sem querer, lá pelos idos de 86, veio parar em minhas mãos uma revista que fez toda a diferença. Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Num futuro caótico somente um personagem igualmente caótico poderia ser a solução. Não só a narrativa, nem tampouco os traços, mas, principalmente, a linguagem cinematográfica inserida naquele gibi tinha um quê de sensacional – era um storyboard completo!

Desde então passei a colecionar a linha DC Comics. Passei a conviver com os dramas de Superman, Batman, Lanterna Verde (EXCELENTE personagem) e todos demais heróis da linha. Com um pouco de trabalho e um tanto de teimosia, em bancas de revistas usadas consegui voltar até o ano de 84 e resgatar todo o início das tiragens pela Editora Abril. Aliás, não parei mais. Coleciono até hoje.

Mas, em especial a partir desse Batman, passei a me interessar também por muitas das chamadas – à época – “revistas alternativas”. Aquelas que ninguém comprava e que mais tarde se tornariam cult. Só pra citar o básico do básico é desse período V de Vingança e Watchmen – pra se ter uma idéia…

E então veio Sandman.

Neil Gaiman, no que considero seu melhor trabalho, criou todo um universo – com começo, meio e fim – tendo por base tudo que já existe. E essa é a maravilha da coisa. Tratavam-se de estórias tão fortes que superavam os artistas que a desenhavam. Mesmo quando o desenho não agradava, o conto era perfeito. Com a exata dose de suspense, de mistérios e de segredos (Caim e Abel que o digam), somada à capacidade de deixar nas estórias algumas pontas soltas que seriam novamente amarradas em algum outro momento, tornavam fascinante a leitura dessa revista.

A narrativa toda girava em torno de Sandman, um dos Perpétuos, sete irmãos que não são deuses, nem mortais, mas aos quais todos se curvam – Sonho, Morte, Desejo, Delírio, Desespero, Destruição e Destino (ou, do original, Dream, Death, Desire, Delirium, Despair, Destruction e Destiny).

Foram exatas 75 edições.

E fim.

Tal como Bill Watterson, uma vez dito tudo que tinha para dizer, Gaiman calou-se. Ou quase. Sempre houveram – e talvez continue assim – edições especiais e alguns contos complementares. Por exemplo, Daniel, que substitui Morpheus, já apareceu em algumas edições da Liga da Justiça; Caim e Abel volta e meia surgem em alguma revista com estórias específicas; mas, em especial, a Morte sempre retorna!

Talvez um dos personagens mais carismáticos surgidos dentro desse universo compacto tenha sido a irmã mais velha de Sonho, uma linda goticazinha com um bom humor insuportável! Simplesmente cativante…

Enfim, as revistas de Sandman me apresentaram, coexistindo nesse mesmo universo, vários outros excelentes personagens – quase tão interessantes quanto o próprio. Estamos falando da linha Vertigo. Para não me estender, ficarei com Tim Hunter, uma espécie de Harry Potter antes de Harry Potter, da série Livros da Magia…

… e, obviamente, aquele arrogante, negligente, enganador, safardana e mestre do ocultismo conhecido como John Constantine.

Enfim, gosto de tudo isso e muito mais.

Não posso deixar de citar outros tantos quadrinhos que admiro, tais como Calvin, Garfield, Snoopy, Hagar, etc. Talvez, também, uma pitadinha de Marvel…

Porém não se enganem! Não deixo de ler um bom livro – quer seja técnico, clássico ou contemporâneo – mas definitivamente não abro mão de meus gibis.

Projeto 676

Bem, para aqueles que (ainda) não sabem, eu tenho um Opala.

Ou melhor, dois Opalas.

Um deles é o que utilizo no dia-a-dia, um respeitável Comodoro 90.

O outro – também conhecido como A Lenda – é um 79 que estou reformando. Há anos.

Tudo isso vinha sendo contado num subdomínio aqui do Legal, mas resolvi dar-lhe vida própria – quem sabe assim também não me empenho um bocadinho mais nessa reforma…

Enfim, trata-se do Projeto 676 (quem conhece do traçado sabe o porquê desse nome), cujo link está aí na barra do lado e também pode ser acessado por aqui.

Aos interessados, divirtam-se!

Como não fazer Powerpoint

Sei que a poeira estática tem se acumulado nos cantos aqui no Legal, mas – fazer o quê? Garanto que não é falta de inspiração e sim falta de tempo para escrever algo que realmente valha a pena (certo, Cacá?). Tudo bem, tudo bem, “o ótimo é inimigo do bom” era o que o Davi sempre dizia. Mas, enquanto fico nesta entressafra critativa, utilizando o bom e velho esquema do recortar-e-colar, vamos compartilhando os textos de quem efetivamente vale a pena.

No caso é do Jarbas, um copoanheiro virtual, que em poucas palavras transmitiu tudo que eu sempre quis dizer acerca dos Powerpoint (royalties, please, Bill…) da vida. O original tá bem aqui.

Você certamente já viu slides de Powerpoint hiper poluídos. Quem os faz acha que é moderno e bom comunicador. Quem os vê acha que está diante de uma chateação.

Num Powerpoint o que importa é a imagem. Nada de detalhes. Cada slide é um convite para destacar um ponto, para ilustrar uma idéia. Por isso, texto excessivo nos slides nada comunica. Por isso, imagens poluídas aborrecem a platéia. Essas descobertas não são novas. Os modernistas da antiga União Soviética sabiam disso. Nessa linha, produziam cartazes com imagens simples e poucos detalhes, com pouco ou nenhum texto.

Tentei encontrar um cartaz de Kandinsky sobre o exército vermelho. Na obra, o pintor mostra uma cunha vermelha que penetra numa superfície branca (o exército branco combatido pelas forças revolucionárias). Poucas palavras. Algo assim: o vermelho derrota o branco. Nada mais. Bem diferente de certos cartazes nos quais os comunicadores querem colocar “todas” as informações. Excesso em cartazes acaba não chamando atenção das pessoas. Acaba nada comunicando. Como não encontrei o cartaz de Kandinsky, coloco aqui um outro exemplo mais recente: cartaz que mostra a força dos aliados no combate ao nazismo [nota: a imagem à qual o Jarbas se refere é aquela lá de cima, tirada daqui].

Volto ao Powerpoint. Em recente exposição sobre a Guerra no Afeganistão, o exército americano produziu uma obra prima de como não produzir slides em Powerpoint. Reproduzo aqui figura publicada no The New York Times sobre complexidade da estratégia americana na guerra. Alguém comenta que o material não é uma “figura informativa, é um tigela de espaguete”. Não preciso dizer que o slide é exemplo acabado de não-informação.

Governo dos EUA conclui que a maioria dos estudos sobre a pirataria são bobagem

Direto daqui:

Sabe aqueles estudos financiados pela RIAA, BSA, MPAA e outros representantes dos grandes estúdios e distribuidores de conteúdo? Eles aparentemente acabam de ser desmoralizados por uma instância que talvez tenham que levar a sério: um relatório do GAO, braço investigativo, avaliador e auditor pertencente ao legislativo federal dos EUA.

A matéria do OS News é um pouco longa, e meu resumo traduzido não lhe fará justiça, por isso recomendo que você a leia integralmente, e siga os links dela para mais informações.

Ainda assim, para resumir, o Congresso dos EUA decidiu, há cerca de um ano, mandar o GAO pesquisar sobre a inundação de relatórios das entidades representantes dos estúdios descrevendo os malefícios que a pirataria causa à economia, fartamente reproduzidos na imprensa e certamente influenciando as políticas públicas a respeito.

E a investigação mostrou que (a) estes estudos estão recheados de imprecisões, inverdades e opiniões não comprovadas, e (b) não há certeza de que a pirataria é ruim para a economia como um todo – é até possível que ela traga efeitos positivos gerais, e inclusive para os estúdios.

Uma das afirmações cuja veracidade não foi confirmada pelo relatório é a velha história de que cada música copiada era uma música que deixava de ser vendida. E há muito mais, leia lá!

Mas vale destacar: embora questione todos os estudos que analisou, o GAO não está dizendo que a pirataria não é um problema. Hoje ela é um aglomerado de problemas – especialmente quando ocorre em escala industrial, eu acrescentaria – MAS as quantificações e conclusões já apresentadas sobre ela são falhas, ao contrário do que seus autores querem que eu, você e o governo acreditemos. (via osnews.com)