Infância Perdida

– Paiê?

– Oi, filho.

– Quando você era pequeno, o que você queria ser quando crescesse?

– Hmmm… Eu? Deixa eu ver. Quando eu era pequeno… Bem, teve uma época – não, isso foi depois. Quando o papai era pequeno… Eu… Eu… Putz! Não lembro…

– Não? Bom, a mamãe queria ser cabeleireira (vocês não têm noção do trabalho que deu pra ele falar essa palavra). Quando você lembrar, você me conta?

– Tãotáintão…

E lá foi ele, lépido e lampeiro de volta para suas brincadeiras de criança, deixando a besta que vos escreve se sentindo ainda mais velho…

Síndrome de Jerry Magüire

Nos últimos tempos (últimos dias, para ser bem exato), tenho me questionado acerca da “validade” de tudo aquilo que faço na minha área de atuação – Direito. Como recentemente ouvi de um colega, a nossa profissão traz uma carga de responsabilidade muito grande, pois atuamos exatamente na defesa de três áreas cruciais do ser humano: de seu patrimônio, de sua liberdade e de suas relações para com a sociedade.

E o que fica para trás? Qual meu registro no mundo? Na sociedade em que vivo? Papel, papel e mais papel. Tá certo que existe ainda a memória daqueles com quem convivemos e com quem trabalhamos. Mas quanto tempo isso dura? Alguns anos? Algumas décadas – se muito? Comecei a me questionar sobre o quê exatamente estou deixando para a posteridade, para a sociedade, para meus filhos, enfim.

E senti um grande vazio.

Há não muito tempo fui com meus pais no pequeno sítio de uma tia em Tremembé. Conversa daqui, fuça dali, eis que de repente meu tio surge com uns arreios e outros instrumentos – trançados de couro – que haviam sido feitos pelo meu pai em sua mocidade! E olha que meu pai já está no final de sua idade mais sexy (sexagenário), pois conta com seus recém-completados sessenta e nove anos.

Achei aquilo ao mesmo tempo tão bonito quanto surreal… Era um pedacinho da energia de meu pai que estava ali, materializado na minha frente. Guardado para a posteridade. Tudo bem, pode-se perguntar também “Mas por quanto tempo? Alguns anos? Algumas décadas?” – mas só aquilo já era mais do que tudo que eu já fiz…

Talvez seja a questão do trabalho manual, entendem? O confeccionar, o lapidar da coisa. Talvez seja a ânsia de provar que estive aqui, de existência de um legado de fato. Talvez também seja só mais algum sintoma da meia-idade, pois como diria um amigo, o Nanau, se a expectativa de vida de um homem é de, em média, setenta anos, já passei da metade disso e estou começando a fase descendente!

Provavelmente é por isso que tenho essa necessidade compulsória de escrever, de deixar um registro, de provar pro mundo que “Ei, estou aqui, eu existo!”. Apesar do ceticismo de pessoas próximas que vêem essas narrativas de Internet como a mais pura ficção (certo, Carreirinha?), posso garantir que a grande maioria traduz a verdade da vida de seus escribas – até porque (assim como eu) são levados pelo seu demônio interior a exteriorizar seus mais profundos sentimentos de uma maneira pública, muitas vezes anônima – ou “pseudônima” – para conseguirem descarregar a carga emocional represada em seu (nosso) dia-a-dia.

Voltando ao assunto, então por que não faço algo de concreto? Sei lá, uma escultura, uma pintura, por que não construo uma casa? Talvez (sempre esse maldito advérbio!) seja porque não tenho a habilidade – ou mesmo paciência – para tanto. Talvez eu tenha receio de começar algo assim e descobrir tarde demais que eu não conseguiria. Talvez porque eu, afinal de contas, ame a escrita e utilize a palavra como ferramenta e meio para perpetuar minhas idéias, esculpindo detalhadamente os textos, neles pintando as cores, tons, nuances e matizes de meus mais desvairados pensamentos, construindo um sólido e imaginário edifício composto de argumentações, pontos de vista e experiências de vida.

E nesse edifício, construído da mesma frágil e perpétua matéria que se tecem os sonhos, muitas vezes o leitor consegue explorar seus corredores e, independente do tempo ou ou da distância, compartilhar lado a lado comigo tudo pelo que eu já passei e que queria demonstrar – inclusive descobrindo sutilezas que sequer eu havia percebido quando assentava os tijolos de suas paredes, ou palavras de suas frases, como queiram.

Isso me lembra algo que li recentemente numa entrevista dada em uma nova revista sobre a Língua Portuguesa (aliás o Bicarato ficou encantado com essa tirada). Foi o Ziraldo quem declarou: “Sou fascinado pela palavra. Imagina você quando percebi que, em português, a palavra ‘palavra’ contém em si os termos ‘pá’ e ‘lavra’. Ela é a matéria-prima e ao mesmo tempo o instrumento para trabalhá-la.”

Enfim, é por tudo isso – e mais um pouco – que escrevo: essa necessidade primitiva, herdada dos ancestrais homens das cavernas, de deixar algum registro nas paredes das grutas para a posteridade. E esse anseio vem se tornando cada vez maior em mim: os meros sussurros de antigamente se tornaram bigornas martelando em minha cabeça, clamando por ação.

Não consigo deixar de perceber a ironia e futilidade de minha profissão – pelo menos no sentido de legado – o que acaba me levando àquele vazio que de início citei. E isso vem tomando uma proporção ainda maior na medida em que meus filhos crescem. Eles estão escrevendo sua própria história de vida, com suas próprias experiências, seus pequenos acidentes e mazelas, e a impressão que tenho é que algo está se perdendo e tenho que tomar alguma atitude…

Tá certo que algo já venho fazendo, ao ler alguns contos à noite para as crianças – que vêm demonstrando interesse crescente no desenrolar da estória. Na realidade, por falta de uma orientação religiosa mais específica (não vou muito com a cara desse negócio de trabalhar com a culpa do fiel), tenho lido a Bíblia para eles, reescrevendo o Velho Testamento num linguajar mais acessível para suas cabecinhas de dois, quatro e seis anos. Mas que não é fácil, isso lá não é. Mais uma vez, nas palavras de Ziraldo, sobre a dificuldade em se escrever um texto infantil: “O pior é o autor desavisado ter medo de recorrer a idéias difíceis por achar que criança não vai entender. Ter a tentação de ‘tatibitatizar’ a linguagem. Autor nenhum pode abrir mão das idéias de difícil alcance, mas deve anunciá-las de forma compreensível. (…) Consciência política em história infantil é babaquice. Um autor deve ser cúmplice da criança, não esclarecê-la.”

O conceito é tão simples quanto genial. Algo como dizer o óbvio. O que nos falta é capacidade de enxergar esse óbvio. Mas vou continuar tentando. Ainda chego lá. Pois se ele, com seus setenta e quatro, chegou; eu, com meus trinta e sete, ainda tenho algum tempo pela frente…

Auto-ajuda ajuda?

Achei o artigo a seguir bastante interessante. É certo que o mundo – aliás, a vida como um todo – não se divide necessariamente em preto e branco: existem diversas nuances de cinza nessa composição. Ainda assim, temos aqueles que enxergam tudo cor-de-rosa…

Em que crê quem não lê?
Obras de auto-ajuda administrativa usam mecanismos de conquista das religiões

Por Luís Adonis Valente Correia
Publicado na Revista Língua Portuguesa nº 5, de março de 2006

Muitos apontam a falta de leitura como a grande culpada pelo nível dos informativos e comunicados nas empresas. Igualmente culpada é a própria leitura: o nível de publicação de lixo em administração é bem alto. A leitura, convenhamos, faz falta, mas seria melhor não ler as toneladas de bobagens, auto-ajuda e falsas teorias de gestão que grassam no mundo corporativo.

Admito que o vazio dessas publicações é apaziguador. Não há quem vá empreender esforços de análise nem de reflexão devido a essas publicações. Os profissionais se sentem bem achando que a vida nas empresas vai melhorar com aquelas palavras de ordem, frases destituídas de sentido, truísmos e aqueles “ensinamentos” ao alcance de todos. Acredite: eles acreditam.

A ausência de significado, de embasamento, de vínculo com o real, na maioria das publicações de administração, permite que cada um crie sua versão e adote uma interpretação qualquer, até a da mídia de venda. Isso ocorre ainda que não se compreenda o livro. Aliás, ocorre ainda que não se leia, o que sublinha a mudança de tratamento das editoras: referem-se ao cliente e não ao leitor – leitor é quem lê; cliente é quem compra.

Não me surpreendem as pessoas que compram e não lêem. Além dos impulsos consumistas, a pergunta é: preciso ler um livro de abordagem inútil, irrelevante? Não, decerto. Também não precisaria tê-lo comprado. Precisar, não precisa. Ter o livro, entretanto, cria o sentimento de pertencer ao grupo que está mais antenado com o que se passa nas organizações. Na perspectiva de quem? Das pessoas desse próprio grupo. Perdoai-os, Senhor: eles não sabem o que fazem. São crentes. Crentes que descobriram a verdade.

Os autores dessas bobagens não se aprofundam nas questões da realização do trabalho. Seus empenhos se concentram na busca de uma metáfora, de uma figura de linguagem que seja aceita, que soe próxima, para que seja usada e abusada. É um abuso. Mas vende bem. Cada cliente (leitor?) usa a “metáfora” da maneira que mais lhe aprouver, sem que as interpretações distintas causem qualquer polêmica. Onde houver discórdia, que a auto-ajuda leve a união.

O conteúdo infundado, vazio de significação, respalda esse comportamento e acaba por afetar e afastar outras leituras de negócios com material de discussão interessante.

O bombardeamento da mídia com auto-ajuda em administração empobrece e emburrece o ambiente organizacional. No entanto, vivemos no mundo das aparências, e comentários sobre o que está em voga fazem com que o profissional pareça atualizado. Ele está na moda, mas o resultado é fútil. É fashion.

Deputados reclamam e Câmara compra MS Office

A notícia já é meio velha, mas ainda assim interessante. Que cada um chegue às próprias conclusões…

Quarta-feira, 21 dezembro de 2005 – 12:47

IDG Now!

Depois de uma experiência de dois anos com o software livre OpenOffice, a Câmara dos Deputados está adquirindo licenças da suíte de aplicativos proprietários Microsoft Office para os computadores da casa.

Reclamações dos usuários sobre incompatibilidades entre a plataforma exclusiva de softwares livres com as atividades e necessidades da instituição obrigam a aquisição do Microsoft Office, de acordo com a Câmara.

O OpenOffice continuará a ser usado, mas os deputados, comissões, lideranças partidárias e setores técnicos da Câmara terão a opção de usar também o produto da Microsoft.

Para realizar a compra, a Câmara obteve da fabricante o desconto mais alto que a empresa oferece em nível mundial, o que vai permitir a aquisição das licenças por cerca de metade do preço de mercado.

Os níveis de descontos variam da categoria A (mais baixo) até D (mais alto). A Câmara, assim como a maioria dos órgãos do serviço público federal, possui normalmente um nível de desconto C, mas na aquisição atual conseguiu um nível de desconto D.

Com isso, o preço de mercado das 7.587 licenças, estimado em 11 milhões de reais, deve baixar para aproximadamente 6 milhões de reais, já que as revendedoras Microsoft poderão competir entre si pela melhor oferta.

O pregão para aquisição das licenças ocorreu entre 15h00 e 18h40 da terça-feira (20/12), mas, como não foi concluído, será retomado às 14h00 da quinta-feira (21/12).

Dores de cabeça

Segundo a Câmara, a adoção do OpenOffice trouxe uma economia significativa de recursos, porém ocasionou problemas no envio e recebimento de documentos de outros órgãos, além de exigir um investimento maior em treinamento.

Além disso, não é possível implantar o OpenOffice em todos os equipamentos da Câmara, em razão de limitações do software, dependência de determinadas aplicações e uso avançado de recursos do pacote da Microsoft.

É o caso, por exemplo, do deputado Júlio Lopes (PP-RJ). “Nós trabalhamos com Word no escritório no Rio. Não há compatibilidade entre os programas. Prefiro a funcionalidade do Microsoft Office”, resumiu.

Explicações semelhantes foram fornecidas pelas assessorias de outros deputados, como Ivan Ranzolin (PFL-SC), Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Ricarte de Freitas (PTB-MT), Jorge Alberto (PMDB-SE) e Coronel Alves (PL-AP).

Reclamações

A Câmara iniciou o uso do OpenOffice em 2003. Ao longo de 2005, a direção da Câmara recebeu 79 pedidos de aquisição do Microsoft Office, vindos de deputados, comissões, lideranças partidárias e órgãos da Casa para os quais o OpenOffice não era suficiente para atender as necessidades administrativas.

As principais reclamações se referem a dificuldades de operação do OpenOffice, perda de formatação ocorrida no recebimento de documentos externos e no envio de documentos para fora do ambiente da Câmara dos Deputados, assim como a incompatibilidade entre documentos do MS-Office e OpenOffice.

“Não estamos substituindo o OpenOffice pelo MS-Office, mas oferecendo ao usuário aqui da Câmara a possibilidade de optar entre as duas plataformas”, resumiu o diretor do Centro de Informática, Luiz Antonio da Eira.

Ponto pro estagiário!

Bem no meio de uma das inúmeras crises de estresse diário pelo qual eu e minha subprocuradora passamos, o estagiário pergunta:

– Posso sair pra tomar um lanche? Se quiserem que eu traga alguma coisa é só falar…

– Uma Coca Diet – ela brincou.

– Uma cachaça – eu completei.

– Brincadeira. Não precisa de nada, não.

– Calma gente – disse o menino – não fiquem nervosos. Se quiserem, então, eu trago uma cuba libre…

Heh… Esse garoto vai longe…

Pra completar ele ainda mandou um e-mail com doze pérolas jurídicas, o qual transcrevo abaixo (essas eu não conhecia):

1. Dama de muitos leitos

“Nunca se disse que a mãe requerente era uma donzela ingênua, mocinha nova, debutante. Mas também pintar como querem os suplicados, achando que ela ‘dava mais do que xuxu na serra’, isso é uma grande inverdade.”

Da peça de alegações finais, numa ação de investigação de paternidade, julgada procedente no TJ-SC.

2. Escapadelas perdoadas

“Nesses anos todos de união estável, não houve traição praticada pelo réu, nem novos romances que ele tivesse mantido a ponto de desnaturar a relação de marido e mulher, que mantinha com a autora. Foram apenas frugais escapadelas, ‘namoricos’ inconsequentes – que seguramente jamais desbordaram em relacionamento sexual”.

De uma réplica, em ação de dissolução de sociedade de fato, em Montenegro – RS.

3. Barbear em local não-recomendado

“Informamos que o aparelho trabalha com lâminas que cortam bem rente à pele. O saco escrotal possui uma pele bem fina e sensível, além de ser bem enrugado também, e por este motivo o consumidor alegadamente sentiu ardência, e teve pequenos cortes. Recomendamos que o aparelho seja usado apenas para o barbear da face, a fim de evitar o risco de resultados não desejados”.

Teor de documento que instrui contestação em ação indenizatória no 1º JEC de Porto Alegre.

4. Quadril flácido

“Consta que o delegado teria chamado a autora da ação, em duas oportunidades distintas, de ‘juíza bunda mole’, porque ela mandava soltar os infratores por ele detidos, além de insinuar que ela mantinha relações sexuais com ditas pessoas, usando a expressão que a magistrada ‘andava dando’ a eles”.

Trecho do voto do relator, em um acórdão de ação indenizatória contra o Estado do RS, na 5ª Câmara Cível do TJRS.

5. Massagens eróticas

“O cheque que é objeto dos embargos foi, mesmo, emitido pelo devedor e serviu como paga aos serviços profissionais de massagens prestados pela credora ao executado, várias vezes, ao longo do ano de 2001. De nada adianta ao devedor querer escusar-se imiscuindo assuntos de sexo, porque a cártula sustada é um título formal, perfeito, sobre a qual o emitente sequer questiona que sua assinatura seja a própria”.

De uma impugnação a embargos do devedor, na 7ª Vara Cível de Porto Alegre.

6. Senhor juiz, aperte o devedor !

“Pedimos então a V. Exª que entenda que a única maneira de se conseguir receber é apertar o reclamado contra a parede, pois o mesmo não tem palavra para cumprir qualquer tipo de acerto. Excelência faça pela melhor forma possível, porque não tenho mais condições de olhar a fisionomia do reclamado, por não ter mais confiança no mesmo.”

De uma petição na Vara do Trabalho, em Palmeira das Missões (RS)

7. Inseticida no rol de testemunhas

“Discordam do entendimento que cinge importante decisão recorrida em simples decisão interlocutória quando é sabido que a decisão desapontou a lei acenando a antecipação da sentença, no momento em que sucintamente em desrespeito aos atos processuais programático põe um pá de inseticida no rol das testemunhas oferecidas nos rigores da lei ao juízo da causa”.

De uma petição, reclamando contra o indeferimento da oitiva de testemunhas, na comarca de Criciuma-SC.

8. Falecimento sem certidão

“A inventariante deixa por ora de juntar a certidão de óbito de seu finado esposo, por não dispor dela no momento. Protesta pelo deferimento de prazo. Como comprovação junta foto do ‘de cujus’ dentro do caixão.”

De uma petição de abertura de inventário em Barreiras (BA).

9. Quem entender, é favor explicar…

“Diagnosticada a mazela, põe-se a querela a avocar o poliglotismo. A solvência, a nosso sentir, divorcia-se de qualquer iniciativa legiferante. Viceja na dialética meditabunda, ao inverso da almejada simplicidade teleológica, semiótica e sintática, a rabulegência tautológica, transfigurada em plurilingüismo ululante indecifrável”.

De uma petição judicial, transcrita no site da AMB, na campanha em prol da simplificação da linguagem jurídica.

10. Vontade de vomitar

“O firmatário ficou tomado de revolta e impotência ao ler a sentença. Dá vontade de partir para outra profissão e rasgar a carteira da OAB. O advogado patrono do recorrente se recusa a analisar item por item todos os acontecimentos deste feito, e principalmente dos depoimentos prestados pelas testemunhas do reclamado. Dá vontade de vomitar”.

De uma peça de razões de recurso ordinário, oriunda de Caxias do Sul, protocolada no TRT-4.

11. Tropa canina

“Certifico e dou fé que se torna impossível fazer a citação do réu porque o portão da fazenda encontra-se fechado a cadeados. Suspeitando que o réu se ocultasse, pulei a cerca, tendo que correr em retirada, porque alguém atiçou uma tropa de quatro ou cinco cachorros contra mim. Escapei por pouco”.

De uma certidão de oficial de Justiça, em São Gabriel-RS.

12. Réu escorregadio

“Deixei de citar o réu porque, apesar de o ter visto, inclusive tentando se esconder atrás do poste, constatei ser o mesmo muito escorregadio. Quando me aproximei, esgueirou-se no meio dos veículos estacionados nas proximidades e sumiu como que por encanto”.

De uma certidão de oficial de Justiça na comarca de Canoas.

“Sonho”

Esse foi um feliz post da Ju Geve em seu site Respira pela Barriga :

Muita gente sabe o que é ter um sonho e trabalhar por ele.
Muita gente aprende desde cedo que se não tratar de concretizá-lo, ninguém fará isso em seu lugar.
Muita gente sabe o que é chegar bem pertinho e ser obrigado a abrir mão mais de uma vez, pelos mais variados motivos.
Muita gente, com o tempo, com a idade, com as contas para pagar e os filhos para criar, guarda o sonho com cuidado num cantinho acolchoado da vida – não abandonado, não esquecido – protegido de maiores frustrações.
Muita gente desiste.
Muita gente releva.
Muita gente se acostuma.

E o sonho fica lá, cochilando, incomodando cada vez menos.
E a vida segue seu rumo.
De vez em quando, muita gente ouve de outros que realizaram um sonho igual e sente o próprio sonho latejar.
Mas passa.
E em vez de viver para o sonho, muita gente passa a viver para o fim do mês, para a próxima prestação, para mais uma conta quitada.
Com as obrigações, vem o pragmatismo e muita gente se sente culpada até por acalentar um sonho.
O tempo continua passando e, não raro, muita gente passa a viver do sonho de outras gentes que foram aparecendo pelo caminho.
E a trabalhar para realizar os sonhos dos outros.

Eu só sei que muito pouca gente tem o privilégio de um dia, ouvir alguém dizer: “ei, sabe aquele seu sonho? Aquele, de mais de vinte anos? Pois é. Eu vou realizar.”
Assim. Do nada.
E, de repente, aquele sonho adormecido transborda com tanta força, que tira muita gente do rumo.
O sonho tira o sono, tira o foco, tira a fome e vai invadindo tudo até que não sobre espaço para mais nada, a não ser para a iminência da realização do sonho.
E eu aqui, em plena segunda-feira, ouvindo acordeons!