Minha trajetória

Eis um pouco de minha história, de como o tempo passou nestes meus 46 anos, contada em imagens e amigos… Porque cada um de vocês, a seu próprio modo, em maior ou menor grau, por mais ou por menos tempo, fez parte e esteve presente em algum momento de minha vida e certamente teve lá também sua influência para que eu me tornasse o que hoje sou. E se você não apareceu em nenhuma foto – não se preocupe! Tenha certeza que também faz parte deste seleto grupo. No fundo, no fundo, você já sabia disso… Porque a todos, sem exceção, apareçam aqui ou não, independentemente de qual tenha sido nossa história, saibam que lhes devo – e muito!

Quando eu andava de bicicleta…

Quando eu andava de bicicleta, o que nesta versão paquidérmica e sedentária que vos tecla já chega a uma distância temporal de séculos, o mundo e a vida eram assaz diferentes…

Nunca ganhei uma bicicleta. A primeira que tive comprei com o dinheirinho arrecadado vendendo jornais velhos em açougues. Por incrível que pareça, à época, era um mercado lucrativo! Uma bela Monareta (a marca da bicicleta). Já nem lembro mais de quem comprei – tinha lá meus onze anos, se não me engano. Comprei e entoquei num quartinho de bagunças no fundo de casa. Uma bicicleta velha, enferrujada, mais propícia ao ferro velho que ao uso. Mas, para mim, aquilo era ouro puro! Eu via possibilidades onde outros veriam lixo. Eu enxergava adaptações onde outros enxergariam dor de cabeça. E meu pai, tanto zeloso quanto cético quanto tradicional, proferiu uma das primeiras sentenças de minha vida: “Livre-se disso.”

Sentença essa a qual, honrosamente, jamais cumpri.

A primeira reforma – até por desconhecimento próprio – veio por intermédio de meu irmão do meio (eu sou o caçula). Serramos o quadro, estirpando-lhe o bagageiro, foi pintada de verde (única tinta que tinha disponível no tal do quartinho), foi engraxada e remontada. Inclusive, na época, quem mais usava a bicicleta era ele mesmo, pois estudava na ETEP e a usava para ir às aulas todos os dias – morávamos em Santana e a escola ficava no Esplanada, a alguns quilômetros de distância…

Mas, bicho irrequieto que sou, logo dei um jeito de reformá-la novamente. Cheguei à conclusão que precisava de conhecimento e de peças – imprescindíveis para tal empreitada! Com uma cara de pau que hoje já não reconheço mais, fui até uma bicicletaria próxima de casa e pedi emprego. “Mas você sabe consertar bicicletas?” perguntou-me o Seo Márcio, dono da bicicletaria familiar, que tocava com seus dois filhos e duas filhas, num tom entre cético e desacreditando que aquele fedelho estava ali a pedir-lhe emprego. “Não tenho nem ideia, mas tenho muita disposição e vontade, e quando e se o senhor não gostar de meus serviços pode me dispensar que tá tudo certo!” Até hoje não sei se por dó ou por confiança ele resolveu me dar a vaga que não existia. E eu, com todo meu afinco, me pus a aprender o que era aquele dia-a-dia pseudo-mecânico do mundo das bicicletas. De cara me dei muito bem com o filho mais velho – Jezimiel – e, simultaneamente, arranjei treta atrás de treta com o segundo filho – Cadimiel. A Vânia e a Valéria, as outras filhas, fica para alguma outra história…

Mas nada disso me impediu de avançar no meu projeto: aprender o que podia e arranjar peças para reformar minha valorosa bike!

Eu não recebia salário, mas o serviço que eu havia feito durante a semana era mensurado e computávamos aquilo num valor referente a peças de bicicleta, as quais eu arrematava e levava para a segunda reforma do meu futuro portentoso veículo. Logo, logo, já com know-how o suficiente, desmontei-a, pintei-a de preto, adaptei cinco marchas na bichinha, coloquei um garfo telescópico, dobrei a capacidade de resistência do aro e raios e cheguei no “produto final”. Foi batizada de “Matilde”.

Pois bem. Mais ou menos à mesma época, quando estava começando a despontar o bicicross na molecada, dei um jeito de arranjar uma bicicleta desse tipo para mim. O preço de uma Caloicross “de verdade” era proibitivo – mesmo usada -, então, com meus rolos acabei conseguindo uma BMX. Era como uma caloicross mas com acessórios que foram imediatamente dispensados, tais como os pára-lamas, as laterais, o banco e – especialmente – o tanquinho. A merda era o maldito freio contrapedal. Bastava descuidar que brecava. Empinar, então, nem pensar!

Mas o tempo passa e as pessoas crescem. A boa e velha Matilde, aro vinte, tão prestimosa durante tanto tempo, já não comportava aquele adolescente de mais de um metro e setenta de altura. Comprei uma nova bicicleta velha, desta vez uma Barra Circular, da Monark, aro vinte e seis, que já era mais condizente com meu nada nobre porte. Nesse meio tempo acabei me tornando amigo inseparável do Cadimiel, sujeito revoltado e incompreendido, que tinha tudo a ver comigo na época. Essa bicicleta não durou muito, pois, também nesse meio tempo, aperfeiçoei – e muito – a adorável arte de empinar e, numa dessas, meio que me exibindo para uma família de loirinhas que moravam lá na boa e velha Vila Paiva, ao descer com a bicicleta ladeira abaixo ela simplesmente partiu-se em dois. Só não foi um desastre total porque os cabos de aço das marchas (coroa e catraca) seguraram a onda.

E lá vai o Jamanta atrás de outra bicicleta.

Desta vez arranjei uma Barra Forte, da Caloi – com direito a um confortável assento almofadado entre o selim e o guidão! Uma das primeiras atitudes foi soldar um barra de reforço no quadro para impedir que a desgraçada quebrasse como a anterior. Já com mais de um metro e oitenta, lá pelos meus quinze anos, instalei também um garfo telescópico e adaptei dez marchas na criança. Selim projetado para dar conforto nas pedaladas, duplo reforço nos cubos, raios e aro, um sistema duplo de freios e alavanca de mudança de marchas no guidão – ambos inventados e construídos por mim! Sucesso com a meninada – que preferia andar na bicicleta mais confortável, com almofadinha no quadro e tudo o mais – e imbatível nas competições de empinada (hoje chamam de “wheeling”), pois eu tinha domínio absoluto da bicicleta. Modéstia às favas eu tinha a capacidade de andar mais de quilômetro em apenas uma roda – já contando curvas, descidas e subidas. Apenas duas pessoas, reconheço, eram melhores que eu: o próprio Cadimiel, com sua bicicleta azul-celeste também construída sob medida – a “Heroína”, e o Nelil, um caboclinho que eu nem conhecia direito, mas que tinha um domínio muito melhor que nós dois sobre a bike.

Sinal dos tempos. Ambos morreram. Ambos de forma idiota e não tendo nada a ver com aqueles adolescentes destemidos da época.

Depois disso é história. Casei, separei, casei de novo e tive filhos.

Mais de trinta anos me separam desde aquele primeiro momento com minha primeira bicicleta.

Dessa nova era a lembrança mais carinhosa que tenho é quando, já no segundo casamento, montei (sim, eu mesmo as construi) novas bicicletas para mim e para a Dona Patroa. Uma Barra Circular e uma Ceci (uma bicicleta exclusivamente “feminina” e com um quadro elaborado com uma engenharia de dar inveja). Quando o filhote mais velho tinha lá entre seus seis meses e um ano, invariavelmente nos sábados a Dona Patroa resolvia fazer a faxina semanal na casa. Toca tudo de pernas para o ar, mangueira em praticamente todos os aposentos, e muita água e sabão na parte externa. Eu não tinha dúvidas: pegava a cadeirinha que se adaptava em qualquer uma de nossas bicicletas, colocava o filhote e simplesmente sumia pelas horas seguintes. Muitas vezes o pequerrucho começava a dormitar no seu assento e eu tinha que fazer uma pusta ginástica para acomodar sua cabecinha no meu braço enquanto continuava a pedalar…

Mas esse tempo já passou.

Hoje, com três filhotes, a lembrança marcante que fica foi quando ele, justamente o mais velho, numa bela manhã de sol, simplesmente pediu para que tirasse as rodinhas da bicicleta dele. Com receio e temor o fiz e, ato seguinte, o fiudumaégua saiu pedalando como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo! O caçula, a seu tempo, também aprendeu a pedalar com a mesma desenvoltura. Somente o do meio é, ainda, reticente com tudo isso até hoje.

Minha bicicleta? É a mesma Barra Circular do início desse casamento. E que, provavelmente, não vê graxa nova desde então. E tudo isso, todo esse “causo”, foi só pra lembrar que preciso desmontá-la, engraxá-la e lubrificá-la a contento para sair desse sedentarismo paquidérmico do qual não consigo me livrar…

São Paulo: sua história por seus rios (pobres rios)

Roubartilhado lá do blog da Cynara Menezes. Ainda que tenha sido publicado já há uns dois anos, continua sendo muito bom! Ainda mais na nossa atual “crise hidríca”… São aproximadamente 25 minutos de um vídeo que realmente vale a pena assistir. Confiram!

Para homenagear o aniversário de São Paulo, Cine Morena orgulhosamente apresenta o documentário Entre Rios, dirigido por Caio Ferraz. O filme conta a história da cidade a partir dos rios que circulam debaixo dela. Há 1500 km de rios, córregos e nascentes no território de São Paulo, não é incrível? Alguns rios ainda a céu aberto e infelizmente fétidos e poluídos, como o Tietê e o Pinheiros. Outros, encobertos pelo asfalto, como o Anhangabaú e o Tamanduateí.

O documentário mostra como tudo podia ser diferente se tivessem deixado os rios fazerem parte da cidade em vez de canalizá-los e encobri-los. Será que ainda dá para voltar atrás?

O Bar do Português

Neste admirável mundo novo em que vivemos, cheio de tralhas e traquitanas tecnológicas que nos obriga permite ficar sempre conectados à vida virtual, foi através de um SMS do amigo e copoanheiro sempre de plantão que recebi a notícia: “Português – sim, o bom e velho e chato Adolfo – foi atender noutros balcões…”

Nada chato (a não ser com quem o merecia), nem tão velho, mas sempre bom – e bem humorado – esse era o Português. Que, aliás, de “português” não tinha nada! Esse era o nome que o bar já tinha quando ele o comprou. Como ele não mudou esse nome e o povo começou a chamá-lo assim, a coisa foi ficando… E assim tocava o bar, invariavelmente com a ajuda de sua mulher, de seu filho e de sua filha. E já não me lembro mais como foi que fui parar pela primeira vez ali naquele boteco, no Largo Riachuelo, nem tampouco quando começou minha amizade com ela. Mas conversávamos, às vezes, por horas a fio! Sabem daquelas pessoas com quem o assunto nunca acaba? Pois é. Essa era a filha do Português. E naturalmente acabei criando um afeto por toda a família.

Foi ali, naquelas mesinhas e cadeiras de madeira espalhadas pela calçada, que cunhamos “o código”. Ainda no trabalho, advogados e cervejeiros de praxe, ao final do expediente perguntávamos um ao outro: “E aí? Ainda vai passar no escritório hoje?” – ao que se respondia que sim, pois teria que despachar pelo menos uns dois processos. Quem nos ouvia às vezes se admirava. Afinal, vejam só! Trabalharam o dia inteiro e ainda iriam pro escritório depois do serviço. Isso é que era determinação. Pois bem, na verdade “escritório” significava o boteco e “processos” era a quantidade de garrafas de cerveja…

Foi ali que, por mais de uma vez, se reuniram os grandes caciques políticos da cidade para prosear, contar causos e, lógico, resolver todos os problemas do mundo. Tudo regado a uma boa cerveja gelada na mesa, cuja garrafa jamais esvaziava sob o atento olhar do Português.

Foi ali que diversas vezes, com a Dona Patroa, levei meus filhotes para comer o “peixinho frito” que a mulher do Português preparava com zelo e carinho. Traíra sem espinhos? Ali era o melhor lugar, com a melhor porção e com o melhor tempero que se poderia encontrar. Juntávamos as mesas, distribuíamos a criançada e nos saciávamos com aquela delícia! E o casal sempre por perto, invariavelmente elogiando aqueles meninos que cresciam tão rápido!

Foi ali que já vi romances começarem e terminarem – e para todas as situações sempre havia alguma palavra de apoio ou de consolo do experiente dono de bar que a tudo prestava atenção.

Foi ali que de quando em sempre eu ia para tomar a sagrada cervejinha (e cachacinha) do pós expediente. Às vezes sozinho, às vezes com o copoanheiro, às vezes a tríade completa de Los Três Amigos – hoje para sempre incompleta. E, também, muitas vezes palavras eram desnecessárias. O que nos bastava era estar em território conhecido, onde sabíamos que éramos bem-vindos. E disso o Português fazia questão de deixar claro e evidente.

Foi ali que deixou de ser o bar do Português para ser apenas mais um boteco qualquer sem graça depois que o “seo” Adolfo vendeu o bar. Ainda que, mais uma vez, tenha mantido o mesmo nome, definitivamente não era mais a mesma coisa. Não era mais “do Português”. Perdeu o charme, perdeu o encanto, perdeu a familiaridade.

E perdemos o contato.

E não mais o vimos.

Até que tive essa notícia hoje de madrugada.

E o mundo, mais uma vez, vai ficando mais chato…

Vai em paz, meu amigo.

Tatoo de tatu?

– E então, galera o que é que vocês acham?

E lá estava o fanfarrão, gente boa à toda prova, em sua sala, com a turma do trabalho, num animado proseio. Uma roda de uns quatro ou cinco.

– Mas, como assim? Outra, cara?

– Ah, gente, nem vem! Tá, tá certo que eu já tenho uma tatuagem, mas tô pensando em fazer outra, aqui assim, mais pra cima no ombro.

– Pô, até que ele tem razão, acho que vai ficar da hora.

– Aí, tão vendo. Escutem esse rapaz que ele sabe o que fala! Obrigado, viu, meu querido!

– Já eu vejo com reservas… Pode até ser que fique bacana, mas tem que achar um desenho bem legal.

– E você acha que eu já não tenho umas ideias em mente? Ichi! E você, Ma? Tá aí, com a cabecinha longe… Que é que você acha?

– Oi?

– Tatoo, sua linda. Que é que você acha de tatoo?

– Ah, eu gosto. Acho muito legal. Um bichinho bem bonitinho – não foi ele o símbolo da Copa?

(…)

Depois disso o clima na sala ficou insustentável. Após os 17 minutos de risadas até as lágrimas, resolveram que o negócio era voltar ao trabalho, pois não tinham mais como retomar aquela conversa…

Emenda à Inicial: Ainda conseguiram chegar à conclusão que nosso outro amigo do grupo, mestre zen em tiradas ingênuas e fora de hora, inadvertidamente baixou no corpo da moça quando ela foi responder. Desde então ficou, dali pra sempre, criada uma nova hashtag: #aponísticas…