Confesso que essa tirada simples do Calvin me emocionou. De verdade. Traduz MUITO bem a imagem que nós, pais, representamos na cabecinha de nossas crianças…
Sicrano ou siclano?
Antes que alguém atire algum Houaiss ou Aurélio em minha pobre cabeça, saibam que essa dúvida (que não é minha) é mais comum do que parece. Talvez por alguma questão de fonética (pronúncia de “L” em vez de “R”), caipirismo, chinesismo, sei lá… Mas vamos ao que interessa: a grafia correta é com “erre”, ou seja, SICRANO. E já que estamos falando nisso, para que nos prendermos somente a este dos três sujeitos? O negócio é dar asas à imaginação, como o fez Guimarães Rosa, nesse trecho de seu conto Mechéu:
Sumo prazia-lhe ouvir debicarem alguém: que fulano fora à casa de baiano e a moça de lá não lhe abrira a porta; beltrano não ia à Vila à noite, por medo dos lobos; sicrano surrara peixano que sapecara terciano que sovara marrano, sucessos eis faziam-no rir a pagar, não risada gargalhal, somenos chiada entre quentes dentes, vai vezes engasgava-se até, da ocasiãozada. Malvadezas contra outros o confortavam. (…)
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Não sei por qual motivo, mas me identifiquei MUITO com esse personagem…
Talvez seja porque vai ao encontro de algo que sempre costumo dizer: pequenas malvadezas – nada como isso para alegrar o dia de alguém!
😉
S’HQs

HUNTRESS
Helena Bertinelli
Gerenciando tags

Quente, quente, muito quente (de novo)
Esse meu texto é de quase dois anos atrás, mas reflete EXATAMENTE o que se passa na minha cabeça no dia de hoje…
Nos verões insuportáveis de outrora – há uns vinte e tantos anos atrás – a molecada costumava se reunir com suas bicicletas e pegar a chamada “Estradinha de Monteiro” (que vai pra cidade de Monteiro Lobato) pra dar uns mergulhos no rio.
Eram bicicletas de todos os tipos: Monareta, Berlineta, Barra-circular, Barra-forte, Caloi 10, Sprint 10, BMX (sem tanquinho) e as invejadas Caloicross… Toda a tropa pedalava coisa de uns cinco a dez quilômetros até chegar na hoje extinta ponte de madeira do Rio Buquira, onde nadávamos por toda a tarde.
Nós chegávamos, empilhávamos todas as bicicletas na margem do rio, arrancávamos a roupa (não toda, o short ficava), e nos posicionávamos sobre o corrimão da ponte para o merecido mergulho após toda aquela árdua pedalada.
Lembro-me como se fosse hoje. O sol quente batendo nas costas, ainda arfando e suando devido ao trajeto de bicicleta, eu subia no corrimão (sei lá a quantos metros de altura do rio) e preparava-me para o mergulho. Esticava-me todo, numa pseudo-preparativa (como um nadador olímpico), abaixava-me, jogando os braços para trás e… IMPULSO!
Indescritível aquele momento de vazio, em pleno ar, antevendo as águas geladas do rio…
O próprio “cair”, totalmente envolvido pelo vento, já era o início do processo para refrescar…
E então o choque!
O corpo mergulhava totalmente na água e – por um breve momento – todos os problemas do mundo simplesmente não existiam. Ainda submerso, tudo que importava era aquele frescor vivenciado num momento de puro êxtase.
É lógico que tínhamos que voltar à superfície algum dia. Muitas vezes perdíamos a noção do tempo e quando emergíamos já estávamos adiantados, sendo arrastados pela correnteza, além da curva do rio. O chato era ter que voltar até a ponte, pela margem, a pé. O divertido era que podíamos começar tudo de novo.
Ah, bons tempos…![]()
Quebra-cabeças virtual
Essa eu já tinha visto antes lá no Blog do João David, mas somente hoje tive um tempinho para brincar – e gostei! Para quem se interessar basta dar uma passada no site http://www.flash-gear.com e se divertir. Alguém se habilita na montagem?…
Todo dia nasce um
– Aí madama, olha só, coisa fina aqui pra senhora!
Já fazia algum tempo que ela e a amiga estavam rodando pela Vinte e Cinco – aquela Meca brasileira da muamba e do descaminho – quando o caboclo a chamou. Trazia consigo uma caixa numa sacola. Ficou curiosa.
– Seguinte, madama, isso aqui é uma beleza. Filma, tira foto, grava em cedê, em devedê, dá pra ligar na televisão…
– Quanto?
– Negó é o seguin: acabei de levantá essa mercadoria ali do Carrefour. A placa lá dizia mil e setecentos contos. Deixo pra senhora por quatrocentos.
Sob os protestos da amiga, pegou a caixa, analisou, leu as funcionalidades da câmera (fazia tempo que queria uma assim), pensou um pouco.
– Duzentos eu dou.
– Quê isso, madama? A mercadoria é coisa fina! A senhora não acha isso em qualquer lugar não!
– Duzentos.
– Trezentinho, então…
– Duzentos e cinquenta. Pegar ou largar. Toma de volta.
– Não, não, tudo bem. Pode ficar. A senhora me convenceu. Dura na queda, hein? Dá os duzentos e cinquenta que eu vou zarpando, então.
Com um sorriso de vitória foi direto ao fundo da bolsa e, lá dentro mesmo, contou o dinheiro. Tirou a quantia certa e deu para o ansioso negociante. Este nem contou. Enfiou o dinheiro no bolso, olhou desconfiado para os lados, e sumiu no meio da turba que passava.
Feliz da vida com sua própria esperteza, chamou a emburrada amiga para um canto para ver se a máquina estaria com a bateria carregada para já estrear seu brinquedo novo. Abriu, rompeu o lacre, desempacotou, pegou seu brinquedo (mais leve do que imaginava) e procurou onde ligava, onde ficavam as baterias. De repente, com uma leve tontura, sentiu todo o sangue esvair do corpo enquanto lava derretida prenchia seu estômago – pois caiu em si e percebeu que seu brinquedo não passavo disso: um brinquedo.
Quase uma hora depois, ainda esbaforida e totalmente indignada, estava na delegacia mais próxima que encontrou acabando de contar para o delegado de plantão sobre o ultraje que acabara de sofrer. Terminado seu relato, olhou desafiadoramente para o sujeito que, incrédulo, a fitava bem nos olhos.
– Se me permite – começou ele, unindo as pontas dos dedos – acho que aqui temos duas situações que se complementam.
– Quais? – Empertigada, ela quis saber.
– Em primeiro lugar a senhora é BURRA!
– Como é que é???
– Aliás, minto. A senhora não é BURRA. A senhora é MUITO BURRA! Burra, porque saiu disposta a comprar muamba. Burra, porque comprou uma caixa sem ver o que tinha dentro. Burra, porque acreditou num cafajeste qualquer totalmente estranho. Burra, porque sabia que o que estava comprando poderia ser produto de roubo. Mas, sobretudo, MUITO BURRA porque teve a audácia de vir aqui na delegacia para reclamar de sua burrice.
– Mas, como assim…
– A senhora não tem noção, não é? Sabia que receptação é crime?
– Mas, mas…
– Vamos fazer o seguinte: como hoje eu estou bonzinho, a senhora vai sair daqui somente burra, tá bom? Contente-se com o papel que já conseguiu fazer. Porque se a gente continuar essa conversa, na realidade eu vou ter que pegar tudo isso que a senhora falou e usar como confissão. E quem vai pro xilindró é a senhora!
– E o…
– ADEUS!
Hora e meia depois, indignada, frustrada, com a amiga tentando lhe consolar – e duzentos e cinquenta reais mais pobre – eis que ela avista o malandro. Desta vez estava vendendo relógios “legítimos” para os passantes. Chegou até ele, desabafou, gritou, chorou, esperneeou. Queria seu dinheiro de volta.
Mas o caboclo, verdadeira face da indignação, enquanto apressado juntava sua mercadoria, limitava-se a categoricamente afirmar:
– Quê isso, madama? Num tenho nada com isso não! Nem te conheço! Nunca te vi antes!
E, mais uma vez, sumiu no meio da turba que passava.

