
Eu realmente gosto do jeito de escrever do advogado Egon Bockmann Moreira, que usualmente publica seus artigos lá no JOTA. Mas desta vez não roubartilhei o artigo inteiro, mas somente os trechos que achei interessantes ou, no mínimo, curiosos. O nome do artigo é “Advocacia e novas gerações: O desafio da adaptação recíproca“. Até porque, sendo quem eu sou e com a idade que tenho, conheci figuras de todas essas gerações descritas! Mas confiram por si próprios:
“A geração silenciosa, integrada por nascidos entre 1928 e 1945, estava presente no meio jurídico quando alguém começou a advogar em 1987. O seu traço mais visível, tomado com cautela, era a institucionalidade majoritariamente masculina: respeito à forma e à hierarquia, sobriedade de linguagem, disciplina na rotina e uma compreensão das profissões como ofício de longa duração. O contexto que ajuda a explicar isso é conhecido: infância na Grande Depressão ou nas Grandes Guerras, entrada na vida adulta no pós-guerra e um imaginário de conformidade cívica. Na advocacia, isso se traduzia em reverência à liturgia, centralidade da biblioteca, aprendizado por observação passiva e progressão lenta de autoridade.
Os baby boomers, nascidos entre 1946 e 1964, dominaram por muitos anos os quadros da advocacia e do ensino jurídico. Aqui, percebe-se a valorização do trabalho como eixo identitário, a crença em carreiras longas, o investimento em reputação e o senso de responsabilidade institucional. Os boomers foram moldados por um pós-guerra expansivo, pela massificação da televisão em um mundo profissional ainda organizado em hierarquias estáveis. No direito, isso coincidiu com a advocacia de papel (datilografado e, depois, impresso), de presença física e de ascensão baseada em tempo, confiança e capacidade de suportar demora.
A geração X, situada entre 1965 e 1980, tornou-se a grande ponte da profissão entre boomers e millennials. Aprendeu no analógico, amadureceu com a revolução digital e traduz um mundo ao outro. Seu traço é a adaptabilidade: menos nostalgia combinada com baixo fascínio pela velocidade do presente. Reúne autonomia, capacidade operacional e aptidão para fazer a travessia entre o arquivo físico e a nuvem.
Os millennials, vindos entre 1981 e 1996, chegaram em massa já no ambiente virtual (internet, e-mail, bases digitais e comunicação horizontal). O que os singulariza é a conectividade: passaram à vida adulta com maior escolarização e diversidade do que as anteriores e, no mercado de trabalho, aparecem associados à busca por significado, flexibilidade e reconhecimento (não somente a ascensão linear). O que ajuda a explicar a preferência por feedbacks frequentes, formação continuada, cultura menos opaca de escritório e maior conforto com situações colaborativas.
A geração Z, nascida a partir de 1997, é a que começa a entrar de modo mais nítido na advocacia a partir de 2020. O seu ponto de partida é a tecnologia: smartphones, plataformas, vídeos curtos, pandemia, ensino remoto e a IA generativa. Sua memória é toda deste século 21: são nativos do planeta digital. Começando agora nas profissões jurídicas, têm a tarefa de conferir legibilidade contemporânea a um mundo antigo, que é aplicado no modo digital, mas lecionado e ao vivo e impresso em preto e branco.
Ou seja, convivemos ativamente com múltiplas gerações diferentes entre si. Os mais velhos trabalhando mais tempo e os mais jovens a expressar como o mundo se transforma depressa demais. Afinal, se a televisão moldou os boomers e a revolução do computador marcou a geração X, a explosão da internet caracterizou os millennials e as redes sociais e smartphones se tornaram o pano de fundo da geração Z. Quando isso se combina com um Judiciário profundamente digitalizado, com escolas conectadas e a rápida incorporação da IA, o intervalo subjetivo entre seniores e iniciantes se encurta.”
“Mas, quem sabe, o tema das gerações seja menor do que parece. Ele importa, sim, mas apenas até o ponto em que nos ajuda a compreender como cada um foi moldado por seu tempo. Depois disso, há algo mais exigente e mais simples. A advocacia continua a pedir estudo, ética, lealdade, discrição e responsabilidade. O dever de honrar a profissão não se submete a modismos.”
