
Permitam-me contar-lhes um causo.
Era de manhã, creio que num sábado – mas talvez fosse domingo.
Estava na casa de meu pai, só que não era a casa de meu pai, mas, no momento, isso não importa.
E meu pai, técnico em consertar TVs que era, muitas vezes vinham pessoas que precisavam de ajuda para levá-las. E eu pensei que era somente uma TV um pouco maior que estava na bancada, mas tinham mais duas: uma média e outra pequena, que a acompanhavam. Todas antigas, daquelas de tubo.
De alguma maneira eu tinha conhecimento de que foi ela quem a havia trazido, mas as outras duas fiquei sabendo que foi sua irmã.
Prontifiquei-me a ajudá-la a levar os aparelhos, mas eu intimamente já sabia que só o fazia porque queria acompanhá-la, para onde quer que fosse.
E conosco seguiu a irmã, mais nova, mais magra e mais serelepe.
Fomos levar as TVs no restaurante da família.
Antes de atravessarmos a rua, parei para conversar com um senhor japonês, magro e bem mais alto que a maioria. Estávamos na orla de uma praça. Fumamos um cigarro enquanto conversávamos. Disse-lhe algum um gracejo sobre sua filha. Pois ela era filha dele. Ele concordou e riu. E por um momento fiquei surpreso com aquela abertura, mas intimamente achei bom que ele fosse mais propensoo ao proseio, afinal de contas, para eles, eu sou um mero gaijin.
Então ela surgiu. Veio em minha direção, atravessando a rua. Nem alta, nem baixa, cerca de um metro e sessenta e poucos? Talvez isso. Era fácil de perceber suas coxas grossas, mesmo pelas justas calças jeans que estava usando. Corpo bem torneado, mais que o usual no caso das japonesas. Seios exatos. Um rostinho de lua cheia rasgado por um par de estreitos olhos siameses, adornados por um corte de cabelo “semi chanel”. Não sei se existe um corte assim, mas era um corte assim. E uma irresistível boquinha, pequena, reta, com lábios bem desenhados, sutilmente compondo de maneira perfeita esse quadro.
Assim que elas se aproximou, no momento em que ficou ao meu alcance, abracei-a e beijei rápida e sucessivamente aqueles lábios, numa incontável sequência de selinhos, percebendo que, com isso, ela meio que sorria, quando então parei, olhei surpreso para seus olhos e lhe disse:
— Oh! É você?
Eu finalmente a reconhecera. Mas ainda não sei quem era.
A irmã dela, ali por perto, nos rondando, riu com gosto.
E ela sorriu, mas me olhou preocupada. Disse que precisávamos conversar.
De repente me vi como acho que hoje me vejo: velho, sábio e cansado. E explicando algumas realidades da vida para ela.
— Já estou muito velho pra isso. Já passei por isso antes. Deixe-me tentar lhe explicar. É certo que as pessoas, em sua grande maioria, gostam de pensar somente na sacanagem da coisa. Mas, para mim, é muito mais que isso. É, antes de mais nada, uma questão de confiança. De ambos os lados. Sequer precisa haver sexo. É preciso dividir o afeto que se dá para multiplicar o carinho que se recebe.
E me lembrei de um episódio da série House. Mas não não tenho nem ideia de qual episódio era.
MAS ISSO TUDO FOI APENAS UM SONHO !!!
Não sei de onde veio toda essa situação, mas veio com uma nitidez de detalhes, como uma lembrança de algo que realmente tenha acontecido. Lembro-me do dia agradável, nem quente, nem frio, de meus dedos transpassados em seus cabelos, de seu cheiro, de seus lábios, de seu sorriso contido.
E toda vez que tento pensar em seu nome, ele me foge. Sabe quando você tenta lembrar de uma música e não consegue? É quando se tem tem aquela música em que algumas notas ficam tocando lá no fundo de sua cabeça – mas, de repente, surge alguma outra música por cima e encobre a que você tentava lembrar. Quando penso em seu nome, tenho certeza que começa com a letra “O”, mas quando começo a focar, quando começa a surgir uma sonoridade, a palavra “ORIGAMI” invade minha mente, surgindo como um gigantesco carimbo numa folha de seda, encobrindo totalmente seu nome.
E ainda me soa estranho essa certeza, essa tranquilidade ao tratar de um tema, de uma situação, pela qual nunca passei.
Até porque foi um sonho.
Ou não?…







