Volta ao Mundo em 80 Horas – I

(Resolvi lhes contar um pouco do recente perrengue que passei. Não, não se assustem nem se preocupem, pois já tá tudo bem, mas acho que todos por aqui também já sabem o quanto eu não consigo resistir ao dramático… Então, crianças, é isso mesmo: senta que lá vem história!) 😉

I – Meu reino por um balão

Terça-feira, 25 de outubro de 2016.

O dia até que começou tranquilo. Um tanto quanto abafado, com aquela sensação de se estar dentro de uma panela de pressão e que normalmente antecede uma daquelas chuvas das boas. No trabalho, apesar de algumas “missões impossíveis” (nada de novo sob o sol da Dinamarca), tudo relativamente tranquilo. Tanto, que me dei ao luxo de me atrasar um bocadinho só para dar continuidade a uma reorganização que estou fazendo no escritório lá em casa…

Coisa de uma hora e meia depois do habitual, já tendo tomado meu cafezinho com um bom pão com manteiga (lá pelas seizóra) e deixado a criançada na escola… #partiutrabalho

Rota de sempre, caminho de sempre, trânsito de sempre – talvez até um pouco mais leve que o normal.

E eis que, lá pelas nove e quinze, cadê o ar?

Não faltava muito pra chegar, tinha acabado de entrar numa das avenidas principais da cidade e, por mais que tentasse, por mais que puxasse, o ar teimava em não entrar nos pulmões! Pensei no posto do Corpo de Bombeiros que havia ficado há pouco mais de um quilômetro atrás. Sem chance de retorno.

E essa tontura, meu Deus?

Lembrei das crianças.

Lembrei da minha família.

Lembrei dos trabalhos pendentes.

Lembrei que meu carro não tem seguro.

Ou seja, desmaiar NÃO seria uma opção!

Abri os vidros totalmente, liguei o ventilador no máximo (ah, se eu tivesse um ar condicionado!) e, resoluto, segui até o trabalho – que nem estava tão longe assim.

Entrei no estacionamento como de praxe, parei o carro como de praxe, debaixo da árvore de praxe e, sob a sombra de praxe, saí, me espreguicei, me contorci, me alonguei e tentei respirar profundamente. Até que miorô um cadinho… Mas a tontura ainda me deixava tonto. “Deve ser fome”, murmurei para comigo mesmo.

Cheguei no prédio, fui entrando, passando sala por sala e dando um “oi” mais seco que o tradicional. Abri a janela de minha sala e, mais uma vez, com os braços abertos, ainda segurando os trincos, tentei puxar o ar para dentro dos pulmões.

– Merda.

Meio que tomado por aqueles atos mecânicos do dia-a-dia, liguei o computador, abri o jornal por sobre a mesa, vislumbrei a caixa de entrada (a real, não a virtual), peguei um café, duas bolachas de maizena, resmunguei algo para quem estava na sala, voltei para minha mesa, vislumbrei a caixa de entrada (a virtual, não a real), retornei uma ligação de uma amiga (trabalho, trabalho, trabalho – desde cedo!) que precisava de ajuda para outra amiga e que, por fim, ainda acabei delegando para uma terceira amiga. Confuso, eu sei, mas ao contrário do que imaginam, nem sempre sei de tudo!

Respirei fundo e…

– Merda!

Cadê o ar, meu Deus? Fui até o banheiro, lavei o rosto com água em abundância e nem me dei ao trabalho de enxugar. Sentei no sofazinho que tem na minha sala (porcaria de sofá baixo!) e tentei relaxar.

Nisso, Mitchel veio falar comigo. Um caso, outro caso, uma preocupação daqui, um alerta dali e tudo que eu conseguia era ver sua boca se mexendo e um ligeiro murmúrio ao fundo, sem conseguir me concentrar e sentindo os ouvidos começarem a ficar ligeiramente tapados, como se estivesse num carro, descendo a serra, rumo ao mar.

– Cê tá bem, cara?

– Sei lá, tô meio zoado…

– Por que você não vai num médico, então?

– Se ficar ruim, eu vou.

– TEIMOSO!

Disse e saiu.

Imagina! Teimoso, eu? Talvez um pouco turrão. Ligeiramente cabeça dura, às vezes. Dono da verdade, quase sempre. Mas teimoso? Ah, não, isso não!

Foi mais ou menos nesse momento que um invisível filhote de elefante resolveu que deveria ficar sentado bem em cima do meu peito, pressionando e dificultando ainda mais o que já estava difícil: respirar.

Daí comecei a suar frio.

E, então, disse para mim mesmo: “Mim mesmo, tô começando a achar que tem algo de errado comigo…” Ainda zonzo, desci um andar e, da porta da sala do Mitchel, já soltei:

– Cara, você tem razão, não tô legal. E ói que já é a terceira vez este ano que você tem razão, hein? Parabéns! Vou dar um pulinho aqui na Santa Casa e já volto. Má, vamcomigo?

“Má” era a Marcela, que trabalha na Saúde, e há dias estava acampada na sala do Mitchel, ajudando num processo.

– Oi? Não, péra. Deixa eu arrumar minhas coisas…

– Tô indo, fui.

E, de fato, fui.

Mais dois lances de escada, meio bêbado de zonzeira (que, garanto, é diferente de estar meio zonzo de bebedeira), passei pela porta e tomei o caminho da Santa Casa, em plenos e firmes passos trôpegos. Demorou só uns cem metros para ela, ofegante, me alcançar.

E, cerca de quinhentos metros depois, após quase ter sido atropelado ao atravessar a rua e tropeçado algumas vezes (“toma cuidado, pois se você cair, vai ficar no chão mesmo, até porque não aguento com um homem desse tamanho”, foi a recomendação que vagamente lembro ter ouvido), ainda tendo recebido uma ligação da secretária da Chefa (“não, lamento, não posso dar um pulinho aí, pois neste exato momento estou dando um pulinho no hospital”), chegamos na recepção da Santa Casa.

No balcão de atendimento provavelmente devo ter balbuciado algo sem sentido, porque o atendente ficou me olhando com aquela mais profunda cara de “ahn?”… Pôxa, não era óbvio que eu estava passando mal, tonto, suando frio e sem ar? Bastava olhar pra mim, catzo! Minha vontade era falar “me dá um balão de oxigênio e tá tudo certo”, mas, sabe-se lá como, tive forças (e, principalmente, paciência) para acabar de passar meus dados, nome, RG, CPF, endereço, etc, etc, etc.

Foi então que o mundo ficou mudo e, aos poucos, tudo foi ficando leve, leve, muito leve, branco, branco, cada vez mais branco, até acabar sumindo de vez…

(Continua…)

O Velho e o Moço

O velho é rabugento; o moço é vivaz. O moço prefere a guerra; o velho prefere a paz. O velho está sempre cansado; o moço está sempre com disposição. O moço quer se apaixonar; o velho já esqueceu o que é paixão. O velho tem um coração lacrimoso; o moço sequer sabe o que é um pranto. O moço quer somente agitação; o velho quer a quietude de um canto. O velho se sente sozinho; o moço sempre está com alguém. O moço é ganancioso; o velho contenta-se com o que tem. O velho gosta de perder-se nos pensamentos; o moço quase nunca pensa pra falar. O moço quer a corredeira do rio; o velho quer a profundidade do mar. O velho sabe apreciar a brisa; o moço gosta da força da ventania. O moço cavalga com fúria os campos; o velho com calma conduz sua montaria. O velho se encanta com o perfume das flores; o moço aprecia sua delicadeza. O moço quer a luxúria; o velho quer a beleza. O velho sabe enxergar o que é belo; o moço é cego e sem calma. O moço corre atrás de um momento; o velho fica na procura da alma. O velho adora crianças; o moço demonstra paciência. O moço prefere a loucura; o velho prefere a prudência. O velho se sente preso; o moço só vê liberdade. O moço quer a vida noturna; o velho quer fugir da cidade.

O velho e o moço; o moço e o velho…

Mas o que é do velho sem o moço? Faltar-lhe-ia a fagulha da vivência. Mas o que é do moço sem o velho? Faltar-lhe-ia a sabedoria da prudência. É certo que o moço muitas vezes exagera; mas não é tão diferente do que o velho faz. De quando em quando o velho ensimesma-se em seu mundinho; e o moço tem que suportar as consequências que isso traz. O que ambos, moço e velho, velho e moço, precisam aprender é a ter equilíbrio em suas vidas. Pois, ainda que não percebam, mesmo feita de opostos, ambas são muito parecidas. Um precisa do outro, o outro precisa do um; sem se completar não chegarão a lugar nenhum!

O moço e o velho; o velho e o moço…

O que lhes falta é tempo; o que lhes falta é alento.

Conseguirão?

Suportarão a carga de sua própria lambança?

É o que pergunto aos meus botões e em resposta somente um silêncio de amarga esperança…

Cicatrizes

Hoje, logo após me levantar, já tendo enxaguado o rosto com água em abundância, comecei a olhar aquele sujeito que me mirava do outro lado do espelho. Aquela vetusta barba branca (outrora preta, num longínquo passado), o cabelo mais grisalho do que se poderia esperar (cada nova preocupação na vida, um novo fio de cabelo branco), olheiras cansadas, já denotando o acúmulo de responsabilidades dos últimos anos… Enfim, estava à procura de mim mesmo quando a percebi, ali, onde sempre estivera: uma pequena cicatriz do lado de meu olho esquerdo.

Não sem um sorriso me lembrei de quando adquiri essa, que talvez tenha sido a primeira de muitas outras. Criança, uns cinco anos eu acho, correndo desembestado e olhando pra trás, provavelmente por conta de alguma brincadeira ou traquinagem (sendo a segunda opção a mais provável), quando resolvi olhar pra frente… BONC! Tá, não foi bem esse o barulho, mas vocês pegaram o espírito da coisa. Dei de cara com o muro do vizinho, daqueles com chapiscão grosso, com pedra e tudo, formando uma camada totalmente não uniforme, com pelotas de cimento sobressaindo por todos os lados. É lógico que cheguei em casa aos berros, com um olho a mais no rosto. Do pouco que me lembro, sei que meu pai decidiu que não iria me levar para nenhum lugar para dar pontos, pois ficou com receio que, de alguma forma, aquilo afetasse minha vista.

E essa foi só a primeira de muitas outras cicatrizes…

Provavelmente a seguinte deva ser uma outra que tenho também no rosto, também do lado esquerdo, na base inferior da bochecha. Hoje, quando imberbe, muitas vezes quem olha acha que alguém me deixou uma marca de batom… Mas quando a adquiri, era bem diferente! Numa festa de casamento num local cheio de escuridões chamado Piraquara Clube, à beira do Rio Paraíba, a criançada se divertia na brincadeira de pega-pega. Eu inclusive. Devia ter uns sete, talvez oito anos… E, naquela correria no meio da escuridão, não mais que de repente senti bater em alguma coisa que esticou e me jogou pra trás, tal qual a corda de um arco que se retesasse antes de disparar a flecha. E a flecha era eu. Imaginei que fosse algum tipo de varal – que, de fato, era – mas após colocar a mão no rosto e vê-la voltar totalmente ensanguentada, só sei que saí aos berros a procurar meus pais, para desespero de todos na festa que viam aquele moleque gorducho empapado em sangue passando a seu lado. Mais tarde vim a saber que se tratava realmente de um varal, só que, conforme o costume dos antigos, de arame farpado (que era pra não precisar de prendedores). Isso me custou sete pontos na parte mais profunda da contusão e pequeninas outras cicatrizes que foram desaparecendo com o tempo, que vinham desde a orelha até o queixo, bem próximo de meu lábio inferior.

Após alguns anos de relativo bom comportamento, foi na adolescência que arrebentei meu joelho direito. A tropinha da época “rachava” uma cinquentinha para uso de todos e fui atrás do rapaz que estava com ela naquele dia. Casa bonita, com grades baixas, muros e paredes de ardósia. Bati a mão na grade e pulei para o lado de dentro para tocar a campainha. Toca, toca, toca… Nada! Ninguém em casa. Paciência. Do mesmo jeito que entrei foi o mesmo jeito que resolvi sair: pulando sobre a grade baixa. Mas calculei mal a distância e quando me arremessei por sobre a gradezinha enfiei o meio do joelho bem na quina da coluna de ardósia. Foi como abrir um livro. Só que no joelho. Apenas cinco pontos desta vez e a consciência de que voltar a dobrar a perna após um longo período de imobilidade é simplesmente uma droga.

Não muito tempo depois outra cicatriz, dessa vez por queimadura, na minha mão esquerda (ô ladozinho ativo!). Basicamente em decorrência de Longa Sina de Desastres, acho que uma de minhas mais arraigadas características desde que me conheço por gente. Pra todos efeitos foi por conta de prender a mão num escapamento quente enquanto consertava uma moto. Só pra constar: outra de igual monta e quase a mesma justificativa encontra-se hoje no peito de meu pé. Desta vez o direito.

A cicatriz seguinte foi mais “bem comportada”, digamos assim… É que fui acometido de um troço chamado cisto cóccix lombar, uma espécie de espinha eterna que fica bem em cima do último ossinho da coluna, quase lá na porta do… Bem, vocês sabem onde. Uma porcaria que dói pra diabo e não termina nunca, por mais que se esprema a maldita espinha. A remoção desse coiso é cirúrgica e – pasmem! – a cicatrização tem que ser feita de dentro pra fora, com trocas diárias de curativo, sem poder dar um ponto sequer. Foi quando fiquei uma temporada comportado em casa, de quina pra lua, lendo tudo que tinha pra ler, sob os cuidados de um enfermeiro amigo meu. E foi também quando, na época, minha cunhada entrou no meu quarto para “conferir o material” e poder esfregar na cara de meu irmão: “Isso sim é que é bunda! Não é como você, que tem que andar com uma carteira em cada bolso pra poder dar enchimento!”

Passada a vergonha – e a cicatriz – daquele momento, a próxima, clássica, dar-se-ia, muitos anos e uma ou duas vidas depois, quando do acidente, matéria exaustivamente explorada nas entranhas deste blog. Basta lembrar que dormi ao volante e atropelei uma desavisada árvore que passeava no meio da rua lá pelas onze e meia da noite. Me rendeu uma senhora de uma cicatriz na perna esquerda (garanto-lhes que ver o próprio osso enquanto sua pele cicatriza não é das experiências mais agradáveis), uma outra no pulso direito, decorrente de uma cirurgia que tive que fazer para remover um cisto que se formou por conta da trombada e, por fim, uma outra, longa, esqueci quantos pontos, no próprio joelho esquerdo, para uma vã tentativa de reaujuntar os ligamentos posteriores rompidos. Religou, mas a porra dói. O. Tempo. Todo. Às vezes mais, normalmente menos. Verdadeiro House encarnado, este sou eu, hoje.

Mas existem também cicatrizes totalmente ocultas que incomodam muito mais que qualquer uma das que citei. Cicatrizes do coração são dessas: perturbam quando não mais queremos lhes dar atenção e se fazem presentes nos piores momentos possíveis. E saibam que cicatrizes de paixões mal resolvidas são piores que as de amores sepultados. Enquanto estas somente coçam de vez em quando, aquelas não fecham, ficam expostas, doem quando querem e fazem nosso peito quase explodir. São difíceis de administrar, quase impossíveis de controlar. Somente com o tempo e com boa dose de indiferença (ou de uísque) conseguimos colocá-las em seu devido lugar.

E mais uma vez olhando para aquele espelho e me achando tão imperfeito quanto poderia me achar, encontrei meus próprios olhos. E também encontrei aquele meu próprio olhar que, mesmo nitidamente cansado, ainda era o mesmo olhar de dez, vinte, trinta anos atrás! Reconheci naqueles combalidos olhos o mesmo olhar de quando acordava quando criança, mirando outros espelhos, antes de sair para minhas estripulias.

Mas, apesar daquele meu olhar ainda estar ali presente, uma singela faísca num templo que caminha para a ruína e para o esquecimento, ainda assim os olhos são espelhos da alma

E quem meus olhos hoje vê, acaba por não perceber mais aquele meu olhar (mérito apenas de quem sabe me enxergar). Percebe apenas as cicatrizes. Da alma.

Cicatrizes causadas pelos desapontamentos, pelas desilusões, pelos fracassos. Sempre por conta de outrem – e, sim, tenho consciência de minhas culpas e responsabilidades, mas o que efetivamente marca a alma são as atitudes daqueles que logram nossas expectativas.

E por acreditar – porque sempre vou tentar buscar o melhor de cada ser humano que conheço – também sempre acabo por me machucar. Reiteradamente. De novo, de novo e de novo. Queria voltar a ter a singeleza da ignorância, que me permitia passar incólume a tudo e a todos: ignorava os pré-conceitos, ignorava as arrogâncias, ignorava as atitudes vis, ignorava as mesquinharias, ignorava as mentiras, enfim, ignorava a parte mais baixa que cada ser humano – sem exceção – possui dentro de si e utiliza para satisfazer suas próprias vontades, suas próprias crenças, seus próprios interesses.

E a vida em harmonia com a sociedade me parece algo cada vez mais distante…

As instituições estão falidas? Não, meus caros, o ser humano está falido.

Simples assim.

E mais uma vez, agora exausto por tantas conclusões, volto minha face para o espelho. Sim, estou velho. Velho e cansado. Como as estrelas…

Mas…

Mesmo as estrelas, ainda que velhas e cansadas – até as que já deixaram de existir – ainda assim não cumprem sua tarefa? Não são elas que existem para brilhar e dar vida e compartilhar vida? Não quero – não posso – crer que somos meros frutos do acaso, que meramente habitamos a terceira rocha que circunda um sistema solar periférico por conta de algum capricho da natureza, que nos tenha feito brotar de um nada só para que a esse nada voltemos. Creio, sim, no sagrado, no sentido traçado, no destino planejado. Que há Alguém lá do outro lado que se ri da infantilidade de todas essas minhas incertezas.

E, derradeira, vez, olho para o espelho. E lá está ele. Aquele meu olhar. Não mais fagulha, não mais mortiço. Agora ressurge pleno, vívido, sagaz, brilhando, fechando e dissipando as cicatrizes de minha alma. Dissipando minhas dúvidas. Gritando para mim que não devo me deixar abater. Não vou. Não por conta de outrem – jamais! A vida é, sim, bela – e azar daqueles que não sabem apreciá-la, presos que estão em suas próprias torpezas!

E, assim, nesse embaçado espelho, nesta fria manhã, por trás da barba e cabelos brancos, das rugas e das olheiras, consigo finalmente (re)encontrar meu ponto de fé, em tudo e em todos. E volto a enxergar novamente minha alma que brilha: criança que sou e sempre serei.

Até o fim de meus dias.

Quando eu fiz Magistério…

Década de oitenta… O ano exato? 1984. George Orwell havia falhado em suas previsões (a chegada do “Big Brother” ainda levaria umas duas décadas) e nós, adolescentes da época, feromônios à flor da pele, ainda estávamos em busca de nossos caminhos…

Numa época em que já havia aprendido a não levar a vida tão a sério (por que será que me esqueci como é que se faz isso?) e recém formado na oitava série, o passo seguinte seria o segundo grau. Eu e o amigo inseparável da época resolvemos estudar na ETEP (Mecânica, vejam só!) e, para tanto, havia um “vestibulinho” a ser superado. Que, dentre farras e brejas, é lógico, não passamos. Mas nem tudo estava perdido: havia o chamado “Reforço”, que era um cursinho de seis meses, na própria ETEP, que iria nos preparar para o exame seguinte.

À noite.

Ou seja, teríamos seis meses de dias ociosos pela frente, fazendo somente um curso noturno e numa época em que na ETEP o percentual de meninas por metro quadrado era inferior aos piores prognósticos da Polícia Militar em contagem de multidões. Isso mesmo. Praticamente só cueca. Buscando pela memória eu diria que a proporção “normal” naqueles tempos deveria ser coisa de uma moçoila para cada vinte espinhentos.

E como desde sempre “cabeça vazia é a oficina do diabo” (ainda mais na adolescência!), eis que engedramos mais um dos nossos “planos perfeitos”. Na verdade acho que, pela proficuidade de nossas desventuras, nossas cabeças até que não eram vazias, não… Talvez o funcionamento de nossas mentes estivesse mais para um saco de gatos que para qualquer outra coisa…

Mas divago.

O negócio é que lá no nosso bairro, em Santana, havia uma escola estadual que no segundo grau ministrava também o curso de… Magistério! Naqueles tempos ainda não era necessário um superior em Pedagogia para lecionar e era maciça a procura desse curso pelas meninas da região. Ou seja, a relação entre garotos e garotas provavelmente seria justamente o inverso daquela da ETEP! Teríamos uns seis meses para ficar por lá e de repente ver o que poderia rolar com uma ou outra menina, ao menos até que acabassem as aulas noturnas de Reforço e a nossa jornada na ETEP passasse a ser integral. Ali também seria necessário realizar uma prova para admissão e nós, que havíamos recentemente levado bomba numa, passamos em terceiro e quarto lugares nesta. As diferenças de conteúdo eram brutais! E conosco arrastamos mais uns dois idiotas que acharam que aquela nossa era uma boa ideia…

E foi quando começamos o curso de Magistério!

E eis que começaram as aulas!

Na sala tínhamos algo entre umas trinta a quarenta pessoas, sendo seis rapazes (dois deles REALMENTE estavam ali para fazer Magistério), cerca de umas dez tiazinhas (qualquer um com mais de trinta – o dobro de nossa idade – por nós já era praticamente considerado um tiozinho ou uma tiazinha) e o restante… Ah, o restante! Lindas meninas, jovens, moçoilas, cada qual com uma beleza própria, um mistério a decifrar um desafio a sobrepujar! E que ao econtrarem aquele quarteto fantástico, totalmente deslocado e desesperado para se misturar com a turma toda, fizeram exatamente o que tinha que ser feito!

Nos ignoraram completamente.

QUEM eram aqueles sujeitos e O QUE estavam fazendo por ali?

Não, não, não.

Melhor ignorar.

E toda essa “ignorância” deve ter durado umas três, talvez quatro semanas. Aos poucos foram percebendo que, apesar de toda nossa cafajestice, não deixávamos de participar das aulas (e pra quem estava fazendo um reforço nível ETEP, surfávamos por ali). Mas não esmoreciam.

Até que um dia nós, usualmente loucos e retardados – que invariavelmente pulávamos um muro de uns quatro metros para fugir dali e jogar bilhar até a hora do almoço -, estávamos aguardando uma janela entre uma aula e outra sem professor algum na classe. Ou será que foi durante uma greve de professores? Bem, não importa: o fato é que estávamos sozinhos na sala de aula. E com uma lâmpada, daquelas longas, fluorescentes, piscando irritantemente no fundo da sala. Um de nós (não eu), que até gostava de brincar com a parte elétrica e eletrônica das coisas, subiu na carteira e pôs-se a mexer, cutucar, tentando resolver um imaginário mau contato – e nada. Até que removeu-a e ficou naquela pose sobre a carteira, com a lâmpada numa mão, a outra mão no queixo, olhando para o teto, conjecturando o que poderia ser.

Nisso, como não consertava nem desempatava, outro dos idiotas foi à frente da turma e começou a tirar um sarro do caboclo.

– Óóóóiii…

– Quié?

– Melhor parar…

– Ah, é? Por quê?

– Tô te falando…

E eis que o desinfeliz subiu na mesa do professor, bateu a mão no peito e soltou algo como “Qualé? Vai fazer o quê?”

Imaginem um atleta olímpico. Aquele que arremessa a lança (ou o dardo, se preferirem). Em câmera lenta, ainda sobre a carteira, o rapagote fez toda a cerimônia de lançamento e, num piscar de olhos, uma lâmpada foi arremessada e ato contínuo já estava voando de uma ponta a outra da sala, na exata direção do peito do já citado desinfeliz!

Foi por um triz!

O tempo necessário de ele se desvencilhar, assim meio de lado, se desequilibrar e cair da mesa, de costas, pranchando no assoalho de madeira. E a lâmpada explodiu na lousa. Já ouviram uma lâmpada dessas sendo quebrada? É, sim, uma explosão. O barulho corresponde praticamente a um tiro. Entre risadas, acusações, deixa disso, tá todo mundo bem, ninguém se machucou, cê viu a cara dele, eu ainda no chão gargalhando, eis que ouvimos, não sem um arrepio de congelar a espinha:

– O QUE É QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI???

Era o inspetor de alunos. Sim, as escolas tinham essa figura (será que ainda existe?). E esse em especial meio que já tinha percebido que nós não estávamos ali – como direi? – “com as mais puras intenções”… E os quatro idiotas apalermaram-se todo. “FO-DEU” – foi o nosso imediato pensamento.

– E ENTÃO? ESTOU ESPERANDO UMA RESPOSTA! OU SERÁ QUE VOU TER QUE SUSPENDER TODA A CLASSE???

Antes que sequer pudéssemos começar ao menos balbuciar alguma desculpa, uma das meninas tomou as rédeas da situação e já foi explicando:

– O senhor não viu? Escapou a lâmpada do teto! Por um triz não cai na cabeça dele! O coitado até se estatelou no chão, pra desviar! É um absurdo que a escola não tome uma providência pra trocar esse material de quinta categoria que colocaram nas salas de aula! E os bebedouros, então? Quando funciona, sai água demais ou de menos! É vergonhoso! E lá no pátio…

Sinceramente parei de absorver o inesperado discurso que aquela baixinha foi fazendo, dedo em riste, pra cima do inspetor que por sua vez foi se afastando, sendo acuado, saindo da sala, tentando explicar entre um gaguejar e outro alguma coisa parecida com falta de recursos e por aí afora.

Mal passou um minuto e ela voltou com olhar brilhante e um sorriso triunfante no rosto! Ovacionada por praticamente toda a classe a única coisa que se limitou a dizer foi:

– Ainda bem que aquele lerdo não olhou pra cima! Senão ia ser muito difícil tentar explicar como é que uma lâmpada que está faltando no fundo da sala veio cair e quebrar bem aqui na frente… NÃO É, SENHORES?

Os “senhores” éramos nós quatro…

Enfim, nada como passar por um belo de um apuro juntos para unir uma turma desunida… E com alguns meses ainda pela frente eu posso garantir que o relacionamento entre nós e elas (várias delas) melhorou – E MUITO!

Mas tudo que é bom um dia acaba. E antes mesmo da chegada das férias juninas nos vimos abandonando aquela escola para seguirmos outros rumos, outros cursos, outras histórias, outras encrencas, outras vidas.

Mas isso, por si só, já é uma outra história.

Conecte-se!

Entenda uma coisa:
Não existe mulher que “dá” no primeiro encontro
Existe mulher que faz sexo quando está com vontade.
Ela não te “deu”
Ela nunca te pertenceu
Então não venha com essa de “ela deu pra mim”
Porque na verdade, ela não foi sua.
Ela não conta primeiro, segundo ou terceiro encontro
Ela valoriza os momentos
Ela valoriza as conversas
Os sorrisos
Os olhares
Ela valoriza aquilo que desperta vontade
Aquilo que desperta tesão em viver.
Se ela fez SEXO com você
É porque ela quis.
Não pense que ela faz sexo com todos
Ou pense se quiser
Até porque isso não é da sua conta.
Você não “comeu” ela
Ela ainda está inteira
Ainda ri de coisas bobas na TV
Ainda lê um livro antes de dormir
Ainda sai com suas amigas no sábado a noite
E almoça na casa dos pais no domingo.
Você não “comeu” ela
Porque gente não se come
Se sente.
Ela não saiu por aí gritando para todos
O quanto a transa de vocês foi ruim
Ou o quanto você foi grosso com ela
Ela não precisa dividir isso com ninguém
Então porque você precisa?
Pra se sentir mais “macho” ?
Pra se sentir mais “homem”?
Não, cara
Ela não é metade do que você pensa
Ela é tão extraordinária
Que nem cabe dentro dos seus pensamentos.
Ela não te ligou
E ela não estava esperando você ligar
Ela não precisa da sua aprovação
Ela não precisa saber se foi bom pra você
Porque se tiver sido bom para ela
Ela vai fazer acontecer de novo.
Não, ela não estava bêbada
Nem drogada
Ela fez porque quis
Porque tava afim.
Quando ela se arrumou naquela noite
Ela já sabia que seria pra enlouquecer
Ou enlouquecer alguém
E pode ter certeza que você não a enlouqueceu.
Você não ganhou ela na sua conversa fiada
Ela foi porque tava a fim
Porque ela te escolheu.
Não saia por aí dizendo que você a ganhou
E que você ganha a hora que quiser.
Ela não te viu como um pedaço de carne
Ela não enxerga ninguém assim
Ela gosta de conexões
Nem que seja só por uma noite
Ela gosta de se sentir ligada à alma de alguém
De sentir o calor
De olhar nos olhos
De sentir prazer físico e emocional
E se ela tiver te achado vazio demais
Não vai rolar de novo.
Você pode rezar
Implorar
Mandar flores
Ela é decidida
Tem personalidade forte.
E no dia em que ela se casar
Vai ser com um cara de muita sorte
Porque de todas as conexões
Aquela terá sido a mais forte
Ele terá sido a alma que ela escolheu
E os dois serão eternamente enlouquecidos
Um pelo outro.
E você?
Ah, cara,
Você vai continuar perdendo tempo
Falando por aí das mulheres que você acha que comeu
Vai continuar perdendo tempo achando que ganhou alguém
Você vai acabar sozinho
Porque nunca soube se conectar
Nunca soube sentir a alma de alguém.

Helena Ferreira

O difícil é manter o espírito…

Já fiz essa dolorosa pergunta por aqui mais de uma vez: “a criança que eu fui teria orgulho do adulto que me tornei”?

Não sei, não sei, sério que não sei…

Adoraria dizer que sim, que sou fruto do que pretendia ser – mas, na verdade, sou resultado de tudo pelo que já passei, não necessariamente que quisesse ter passado. Mas um passado é tanto inevitável quanto necessário.

E vendo esse vídeo do 2CELLOS (“Wake me up”) ficou claro qual o futuro que me aguarda… Mas, tal qual no vídeo, talvez também não necessariamente eu queira ter um futuro tal qual como se me apresenta. Afinal de contas, já não hackeei meu passado? Por um acaso já não dou jump no meu presente? Então, por que não desvirtuar meu futuro? Tudo em prol de tentar deixar aquela criança lá de trás orgulhosa.

Confiram por si mesmos!

É disso que estou falando!!! 😀