O último aqualouco

Li ontem essa matéria que saiu na Revista Piauí de janeiro de 2007 (de modo que dá pra notar como tá difícil colocar minha leitura em dia)…

É a história de Oswaldo Fiore e seus “aqualoucos”. Leitura saborosíssima sobre sua vida, reflexo de uma outra época, quando as coisas eram mais simples e os tons de preto e branco eram mais nítidos. A reportagem completa você pode encontrar aqui.

Mas o que me levou a escrever foi outra coisa. Já é um tema recorrente aqui o questionamento “se é a vida que imita a arte ou se é a arte que imita a vida”. Isso porque, ao chegar no final da leitura (eu já disse que é saborosíssima?), o último parágrafo me fez lembrar diretamente o terceiro filme dos Piratas do Caribe, o qual tem uma cena idêntica a essa descrita na reportagem. Segue abaixo sua transcrição e quem assistiu o filme me diga se não foi exatamente isso…

Oswaldo Lopes Fiore continua treinando em piscina com trampolim. Também continua ganhando medalhas – a última, de ouro, foi num campeonato masters de saltos ornamentais. Seu maior tesouro, porém, são as lembranças. “Saltei até de uma fragata de guerra no rio Amazonas”, começa. Parece conversa de pescador, reconhece. Mas mostra as fotos. Queriam que fizesse um salto. Mas, do barranco do rio? Não tinha graça. Tinha de ser no mastro. Subiu. Mas se pulasse de lá, se esborracharia no tombadilho. A solução: colocar uns trinta marinheiros correndo juntos, de um lado para outro do navio, uma, duas, dez vezes. “O navio foi se inclinando, o mastro também, baixando de um lado para outro, como um pêndulo ao contrário, e deu para pular na água! Pulei! Eu era jovem e louco.”

Jogos Olímpicos de 2016

Tá longe ainda?

Tem gente que não acha.

Pois saibam que o Governo brasileiro fornecerá R$ 85 milhões (é isso mesmo: oi-ten-ta-e-cin-co-mi-lhões) para a criação do comitê que preparará a candidatura do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Com esse dinheiro, além de outros gastos, poderão ser contratadas consultorias. Prazo da entrega dos trabalhos: até 12 de fevereiro de 2009.

Vamos ver. Considerando que ainda deve levar coisa de um a dois meses para esse dinheiro sair (na melhor das perspectivas), teremos então coisa de seis a sete meses para que isso seja gasto. Digamos seis meses. Numa conta rápida (arredondando pra baixo) isso daria cerca de uns quatorze contos por mês. Quatorze milhões de reais. Por mês. Para desenvolver um estudo. Para uma candidatura. Que pode sequer vir a se realizar.

Olhem, podem me chamar de antipatriótico, de neurótico, o escambau. Que os Jogos Olímpicos aqueceriam o mercado, melhorariam o cenário internacional, etc.

Mas, sinceramente, ainda assim acho que é muito dinheiro.

Isso sem contar que, caso os Jogos realmente ocorram aqui no Brasil, teremos um sem número de gastos com infra-estrutura, policiamento, material de apoio, hospedagem, etc, etc, etc. Isso, com certeza, fará que esses R$85 milhões pareçam dinheiro de pinga!

Viñetas de El Roto

Dica interessante do Bicarato. Não, não estou falando deste Bicarato, nem tampouco deste outro Bicarato. Ô família escrevinhadeira, sô!

Mas, falando sério, vamos falar de humor. O Bicarato da vez – no caso o Antonio Carlos – andou fuçando na Inernet e encontrou alguns desenhos bem legais, como contou aqui. Trata-se de um cartunista cujas charges costumam ser publicadas no jornal El País, da Espanha. Sua linha é meio para o humor negro e trabalha basicamente com o preto e branco, como mostra a charge aí embaixo. O nome do caboclo? El Roto.

Exacerbando a competência

Um de meus hobbies é colecionar certas frases ou expressões utilizadas no dia-a-dia das pessoas e que afrontam totalmente a língua portuguesa. Sabendo disso até mesmo os amigos – e, frise-se, amigas – costumam trazer material para essa “coleção” – o que, por exemplo, já foi utilizado em larga escala por aqui. Entretanto, muitas vezes, utilizar corretamente o vernáculo faz com que até o mais banal dos pedidos possa se tornar algo próximo do imcompreensível.

Pois bem.

Neste último fim-de-semana, tirando o pó das catacumbas do meu computador, encontrei algumas anotações que fiz sobre um ofício encaminhado a mando de um delegado no qual ele solicitava estagiários. Deveria ser simples. Coisa de meia dúzia de linhas. Entretanto, vejam só como saiu:

Senhor (…),

Ao saudá-lo cordialmente, elevo à superna apreciação de Vossa Excelência o tema que tem suscitado, por iníquo, justos reclamos do Delegado (…), relativamente à carencia de funcionários, para assegurar a eficiência e a agilidade dos serviços.

(…)

Todavia, este subscritor não envidou esforços para tentar suprir os quadros funcionais, da referida (…), apesar da carência existente, o que não foi e não será possível acomodação pessoal.

Assim, impossível subtrair-se à conclusão de que, se não houver uma acomodação de pessoal à vista da inelutável prevalência dos interesses da comunidade local sobre quaisquer outro, não se quedando em plano inferior à das demais repartições.

Não é a irrefutabilidade do argumento, todavia, que nos anima a essa postulação, mas sim a fidúcia no elevado senso de que ambos concorrem com os elementos de que dispõe para a rápida e eficiência na administração dos trabalhos colocados à disposiçaõ desta comunidade.

Destarte, ao concitar Vossa Excelência à apreciação deste pleito, com a habitual serenidade e sapiência, adotamos, ademais, a liberdade de solicitar quatro (4) estagiários para prestar serviços na (…), daria cobro a injusta situação ora imperante e abriria as portas da continuidade dos serviços prestados com boa eficiência.

Sendo o que me oferecia e renovando protestos de respeito, firmo-me.

Se conseguiu os estagiários? Sinceramente não tenho nem idéia…

“Quero que você me aqueça neste inverno…”

Tá passando frio? Não aguenta mais lavar louça com água gelada? Fica colando fita crepe nas frestinhas das janelas à noite? Seu banho é no estilo filete d’água com temperatura de descascar tomate? Não aguenta mais pagar aquele absurdo de conta de energia elétrica por causa disso?

Pois bem, SEUS PROBLEMAS ACABARAM!

Basta instalar um ASBC – Aquecedor Solar de Baixo Custo, cujo projeto é gratuito! Sim, eu disse gratuito. Todos os detalhes estão lá no site da Sociedade do Sol.

Agora, falando sério: é um projeto muito legal e que poderia ser bem mais divulgado e aplicado. E não só para esses tempos invernais, mas também para todo o resto do ano. Fica aí não só a dica como também a sugestão para que ajudem a divulgar. Quem sabe, para o próximo exercício, essa idéia não seja adotada pelo novos edis de sua cidade ou até mesmo pelo seu alcaide-mor?…

E ainda mais TSE…

Mais um pequeno capítulo acerca do perrengue sobre o qual falei antes por aqui…

Eis algumas migalhas lá do Migalhas:

O MP entrou com representação contra a editora Abril. A representação de ontem é devido à entrevista publicada com o prefeito Gilberto Kassab, candidato à reeleição, na edição de 18 de junho da revista “Veja São Paulo”. No entendimento do parquet, a entrevista representa propaganda eleitoral antecipada.

Vejo a aplicação dessas multas aos jornais e revistas, por entrevistas com pré-candidatos, com preocupação. A uma, porque pena – e a multa é modalidade de pena – somente a lei pode impo-la, é dizer, não há pena sem lei. A proibição, no caso, decorre de ato regulamentar, Resolução do TSE. A duas, porque a Resolução do TSE, que prevê a imposição de multas (pena) à imprensa escrita, na hipótese que cuidamos, parece-me inconstitucional, porque representa censura à imprensa, o que a Constituição não tolera (C.F., art. 5º, IX, IX; art.220, §§ 1º e 2º). Ressalte-se que a Lei das Eleições, Lei 9.504/97, art. 36, não permite a propaganda eleitoral antes do dia 5 de julho do ano da eleição. Não me consta, entretanto, que a citada lei imponha pena à imprensa escrita por publicar entrevista com pré-candidato. E, ao que me parece, assim procede tendo em consideração que a Constituição não tolera a censura, conforme acima foi dito. Considero necessário que a Res do TSE nº 22.718, de 2008, na linha da Res. 21.072, de 2006, seja alterada, voltando-se ao sistema da Resolução 21.610, de 5 de fevereiro de 2004, que disciplinou a propaganda nas eleições de 2004 e que estabelecia, no art. 27, que os pré-candidatos poderiam participar de entrevistas, debates e encontros antes de 6 de julho, desde que houvesse tratamento isonômico entre aqueles que se encontrassem em situações semelhantes. A Res. 21,610, de 2004, foi sábia, ao estabelecer, como condição de legitimidade das entrevistas, o tratamento isonômico entre os pré-candidatos. Não haveria, então, tratamento discriminatório, em termos de privilégio, para um pré-candidato. Ontem, em entrevista que concedi à Folha, disse que em todo o meu tempo de juiz eleitoral – mais de 10 anos – nunca vira caso igual ao que me fora descrito: imposição de pena ao jornal Folha de São Paulo pela publicação de entrevista de pré-candidato, com observância do princípio da igualdade (Migalhas 1.921). É que me aposentei (me aposentou, aliás, a Constituição, por implemento de idade), em janeiro de 2006. Até então tinha vigência a Res. 21.610, de 2004, art. 27, que permitia as entrevistas, desde que observado o princípio isonômico.Carlos Velloso

Fora mais um pouquinho lá da AASP:

A origem de toda a polêmica e das ações da promotoria de São Paulo contra a Folha de S. Paulo e a revista Veja – e agora contra o Estado – está na resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 2006, que valerá para as eleições deste ano. O texto, que impede os jornalistas de entrevistar pré-candidatos sobre suas propostas, afronta a Constituição, segundo o presidente do TSE e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto. “Eu entendo que ela se contrapõe à Constituição”, afirmou Britto ao Estado.

(…)

O ministro explicou que a Constituição estabeleceu ressalvas para o trabalho de rádios e televisões, mas não restringiu a atividade dos jornais. Assim, concorda um ex-presidente do TSE, a resolução teria exorbitado de seu alcance e seria inconstitucional.

Esse dispositivo, aprovado em 2006, determinou que jornais e revistas podem publicar entrevistas com os pré-candidatos, desde que as propostas dos políticos não sejam abordadas no texto. “Os pré-candidatos poderão participar de entrevistas, debates e encontros antes de 6 de julho de 2008, desde que não exponham propostas de campanha”, estabeleceu a norma.

É com base nessa resolução que os promotores eleitorais de São Paulo acionaram judicialmente a Folha de S. Paulo e a revista Veja por entrevistar a ex-prefeita Marta Suplicy, pré-candidata do PT à prefeitura. No caso do Estado, três promotoras representaram anteontem ao Tribunal Regional Eleitoral paulista contra o jornal e também contra o prefeito Gilberto Kassab, por entender que, em entrevista, ficou caracterizada propaganda eleitoral antecipada.

(…)

“Eu não entendo essa resolução. Não concordo com essa inovação”, afirmou o ex-ministro do TSE Fernando Neves. “Essa resolução é um equívoco jurídico”, concordou Admar Gonzaga, advogado do DEM.

Na opinião de ex-ministros do tribunal, a resolução de fato permite esse tipo de interpretação, mesmo que ela seja exagerada. “As promotoras não erraram, mas não tiveram bom senso”, argumentou Gonzaga.

“Considero necessário que a resolução seja alterada, voltando-se ao sistema da resolução de 2004”, defendeu o ex-presidente do TSE Carlos Velloso. “É salutar o eleitor saber, por meio da imprensa, o que pensa cada um dos pré-candidatos.”

Mas, de volta ao Migalhas, temos o seguinte fecho:

“É claro que o político tem de falar de seus programas. Ele não tem de dizer se gostou do Cirque du Soleil. Atribuo isso realmente à falta de escolaridade dos promotores e, sobretudo, do juiz, que aceita uma proposição inédita como essa. Como a falta de escolaridade é tão gritante, acho que os tribunais não podem nem debater isso, têm de anular imediatamente. Quando a gente fica velho, perde a paciência com os mais moços. A gente vê umas barbaridades assim e se irrita.” – Saulo Ramos hoje na Folha de S.Paulo, comentando a decisão que puniu a Abril e a Folha.