Ainda sobre mudanças

Apesar do romantismo no ar que tem assolado este humilde integrante de um CPLF (leia-se: Casal Pra Lá de Feliz), o tema “Mudanças” continua perene, impregnado à minha volta. E, curiosamente, ainda que por vias transversas, hoje tive contato com um texto muito bom que também tem a ver com o tema em pauta e foi publicado lá no Anjos de Prata, um site que vem disponibilizando textos desde 2000. Segue o conto.

Auto-retrato

Tem dias em que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Provavelmente o poeta urbano deve ter tido um dia daqueles quando versou esta preciosidade. Por outro lado, já sem o peso das laboriosas decisões que fazem a roda do nosso mundinho girar, peso que a morte me desobriga carregar agora, talvez eu consiga finalmente falar sinceramente sobre mim. Finalmente estou me sentindo mesmo como quem partiu ou morreu.

Cá estou eu, espectadora do meu próprio velório. Já acompanhei todo o perereco do transporte do meu corpo até São Paulo. Fui sentadinha no banco de passageiros tentando puxar conversa com o motorista que insistiu sistematicamente em ignorar-me. Não esqueçam meu último endereço em vida: Joinville/SC. Portanto, foram quase dez horas de rejeição até o velório municipal de Rio Claro/SP. Magnífico exercício de paciência para quem tem a mania da perfeição forjada pelo desejo irracional e constante de ser aceita neste mundo véio sem porteira. Interessante notar que a gente continua com exatamente os mesmos defeitos quando morre. Nem queria que ele me respondesse mesmo. Aposto que ele tinha bafo e um papo chatíssimo. Me desculpem o comentário maldoso, mas ainda estou ligada às coisas terrenas, sabem como é.

Passeando entre as pessoas presentes no meu velório, fico realmente espantada com a multidão. Será que sou mesmo uma defunta querida? Claro que a maior parte são curiosos cronicamente mórbidos que migraram dos velórios vizinhos. Morreu um bocado de gente esta noite. Mas de longe o meu velório parece ser o mais concorrido dentre as capelas. Afinal, sou uma defunta importada, vim do sul! Noto uma senhora de cabelos obviamente tingidos de loiro-escuro-médio-238 com um escandaloso avental florido. Descascando batatas duma bacia imensa aos seus pés, transborda-se numa torrente desatada e chorosa de lamúrias que parece ter origem num tempo em que o próprio tempo ainda ensaiava existir. “Merda, bosta e cagalhão, que gajo atropelou minha estrela? Também, sempre aluada, ensimesmada, menina calada, só podia dar com os burros, merda, bosta e cagalhão…”. Minha avó. Encosto a cabeça no seu colo e sorrio. Só ela sobre a terra foi capaz de colocar tanta porcaria na mesma frase. Salvo talvez George W. Bush.

Rindo dos poucos modos de minha avó, beijo-lhe as mãos e afasto-me atrapalhadamente. Assim como teria feito se estivesse viva: tropeçando em todos os pés que aparecem e que imagino aparecer no caminho. Uai, morto tropeça, sim! Estabanada a vida inteira não seria diferente na morte. Sempre tive coleção de hematomas pelo corpo. Um jeito pouco salutar mas eficaz de chamar a atenção: todos riam de mim enquanto eu imaginava que riam para mim. A necessidade atroz de ser aceita.

Pode até ser que minha auto-estima sempre foi meio baixa, mas por incrível que possa parecer, nunca tive problemas com ela. Bem, ou quase isso. Sentimentos que considerava menores nunca tomaram conta de mim. Mas não por possuir sentimentos ou alma elevados. Teimosia pura mesmo. Vou lá eu deixar de fazer minhas coisas por causa dessas bobagens? Meto o pé e vou em frente! Mas aviso ao navegantes: isso é ruim, viu? E agora que sou só alma e não tenho mais o corpo a reclamar por desejos imperiosos que desviam minha atenção das dores da alma… ui! A gente devia morrer e levar o analista junto, porque tudo é mais intenso agora.

Me vi no centro de um grupo de primos, muitos que não via há anos, contando piadas sujas e escondendo o riso das tias carpideiras. Eu mesma já participei desta rodinha muitas vezes. Era só tio fulano bater as botas e nos encontrávamos. Minha família é uma das famílias paulistanas mais espalhadas que já se viu. Todo mundo nasce e é enterrado em São Paulo (depois do meu irmão, sou o segundo membro da família que não é enterrado na capital!). Mas tem gente espalhada em Minas, Espírito Santo, Mato Grosso. Tem até um tio avô maluquérrimo, abandonado no altar pela noiva o que o levou a nunca mais bater bem dos pinos, que mora em Roraima. Velório e meio ele aparece. De repente bate um medo-pânico de ser citada na rodinha… É claro que gostavam de mim… precisam gostar de mim! Mas o tom das risadinhas e os olhares na direção do caixão não me encorajam a continuar por ali. Negar sempre foi muito mais confortável do que encarar a realidade. Mania a minha desistir de tudo que começa a ficar mais difícil. Meu mundo era cor-de-rosa sabiam? Estaria com uma taquicardia louca se meu coração não estivesse lá bem mortinho com o meu corpo no caixão. E por falar nisso (fuga estratégica), ainda não fui me espiar. Deixa ver.

Fora um roxão no queixo, tudo em ordem. Tô bonita lá! Tô usando aquele vestido de lã que guardei por anos e só consegui inaugurar quando me mudei para Santa Catarina. Nossa! Nunca pensei que tivesse olhos tão grandes… Todo mundo vive dizendo que são puxadinhos, e para mim puxadinhos ficaram sendo. Ou o espelho me enganou por anos, ou meus olhos cresceram depois que morri. Olha só, estou de batom! Ao menos tiveram o pudor de não usar os vermelhos que usava quando ainda era viva. Sempre achei melhor chamar atenção para a boca do que para o que saía dela. Vai que alguém descobrisse que eu era apenas normal? Vai que alguém descobrisse que nunca entendi nada sobre os arcos góticos perniceais na arquitetura ao sul de Flandres? Jamais!

Minha mãe está sentada na cabeceira de meu caixão. Séria, abatida, mas muito bonita. Sempre achei minha mãe bonita em meio a tragédias. Não que estar morta, para mim, seja uma tragédia. Não que minha família tenha passado por muitas. Até porque tragédias só o são quando acontecem com o vizinho. Ela não chora e fica linda assim. Aprendi com ela e por isso também não estou chorando agora, e olha que quem morreu fui eu, hein? Lágrimas desidratam a pele. Além do mais a gente nasce com um estoque limitado de água para chorar. Se chorar a toa, não sobra lágrima para chorar por um grande amor. Morri sem chorar por um grande amor.

E por falar em amor, olha lá meu primeiro namorado! Ah, se eu soubesse namorar na época teria dado um bom trato no sujeito. Ele parece muito envelhecido. Ou será que minha memória congelou aos 12 anos? Sabe por que nosso namoro acabou? Eu dei um soco nele. Bem no centro do nariz. Pau! Minhas amigas me disseram que ele estava espalhando que tinha me beijado de língua. Fiquei cega de raiva. Essa foi a primeira vez que me deixei dominar por um sentimento tão ruim. A segunda e última foi quando despejei uma menina que morava comigo. Abri a janela e joguei tudo que achei pela frente: copo, discos, livros, cama, vídeo cassete, só não joguei a menina porque a cegueira passou na hora H e sai correndo com ódio de mim e vergonha do mundo. Dentre vários outros fatores ainda não descobertos pela ciência, esses dois rasgos de irracionalidade me fizeram uma pessoa controlada. Emoção é coisa de gente de cortiço, oras!

Ih! Estão fechando o caixão! Ainda não vi meu marido, ou meu viúvo, ou sei lá eu. Imaginava-o compungido e chorando muito. Ele sempre chorou muito. Acho lindo homem que chora. Acho que foi por isso que me casei, alguém tinha que chorar na família, porra! Onde estará nesta…

Sinto alguém me segurando pela mão. Olho para trás. Um moço muito branco, de pestanas muito grandes, lábios muito vermelhos. Seus olhos são iluminados e tem um fio de sangue escorrendo pelo nariz. Meu irmão! Ele ri, e diz como se fosse a revelação que salvará a humanidade: “Se a gente coloca a letra B na frente de Estados Unidos fica ‘Bestados Unidos!’ Mas se a gente coloca a letra B na frente de Egito fica ‘Begito!'”. E me sapeca um em cada bochecha para que não restem dúvidas. Em seguida quase re-morre de falta de ar. Meu irmão sempre teve um senso de humor muito particular.

Saímos dali de mãos dadas. Ele me pergunta se não vou ver o enterro. Dou de ombros. Que diferença faz agora? Nada do que fui poderá ser mudado. O que me resta agora é esperar o próximo bonde. E rogar a Deus para que eu reencarne mais humilde da próxima vez.

Aviso: esta louca que lhes escreve encontra-se sob tratamento médico e sob o efeito de drogas fortíssimas; não representa nenhum perigo para integridade física, psicológica ou moral dos que convivem com ela ou para a sociedade.

Ainda não.

LUCIANA PRIOSTA

A transcrição / A coragem por baixo do pano

Tendo aprendido o caminho para o Blog do Mino Carta, por indicação do Zé Luiz, e pra não ter que repetir o que já foi dito pelo próprio lá no Lente do Zé do dia 15, bem como no Alfarrábio do dia 17 sobre o comentário do Luis Nassif acerca do episódio publicado na revista Carta Capital (e mais ainda pode ser visto no site Vermelho), seguem dois interessantes comentários do Mino feitos hoje:

Paulo Henrique Amorim divulga em seu blog, no iG, a transcrição da gravação da conversa do delegado Bruno com os repórteres da Globo, Folha, Estadão, O Globo e Jovem Pan. Naquela fatídica véspera do primeiro turno, quando o Jornal Nacional divulgou a foto do dinheiro do dossiê, antecipando a imagem à noticia do acidente com o avião da Gol. Ali morreram 154 pessoas, mas a turma do plim-plim achou a foto da lavra do próprio Bruno mais importante. Aqui vai outra informação das mais representativas dos comportamentos globais. No dia 28 de setembro, o infatigável delegado entregou as fotos ao repórter da Globo que atende pelo sobrenome de Tralli, o qual, solerte, as entregou aos superiores. Logo a emissora tomou a decisão de evitar ser acusada de repetir a ação golpista perpetrada contra Lula em 1989, na vergonhosa manipulação do debate com Collor. Donde, sugeriu ao Bruno que chamasse os repórteres de outros jornais e emissoras, e que repartisse o tesouro entre eles. Diligente, o delegado atendeu a sugestão no dia seguinte.

Estou a descobrir o valor da Internet. A reportagem de capa de Carta Capital, de autoria de Raimundo Pereira, conta aí com uma repercussão impressionante. para este velho jornalista ainda preso à Olivetti e temeroso do computador, capaz de engolir a humanidade em peso pela bocarra do vídeo, é surpresa encantadora. É deslumbre. Mesmo porque a larga maioria daqueles que se manifestam louva a reportagem de CartaCapital. Algo assim como 95%.

Além disso, o meio se oferece à aprovação de alguns entre os jornalistas que honram o jornalismo brasileiro, tão feroz na defesa dos interesses da minoria pela ação de tantos outros.

Cito, entre os colegas que respeito e agradeço, Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif, Tão Gomes Pinto, Teresa Cruvinel. Quero também citar Luiz Weiss, de quem não tenho, infelizmente, boas lembranças, remotas, a bem da verdade, e que neste momento porta-se, a meu ver, com extrema dignidade.

O jornalismo on-line, ao menos no Brasil, é melhor do que o impresso e o eletrônico.

Sobre as idéias de propriedade

Estudando alguns textos acerca de Creative Commons, deparei-me com o seguinte trecho, muito elucidativo e surpreendentemente atual:

Se a natureza fez alguma coisa menos suscetível que outras de tornar-se propriedade exclusiva, é a ação do poder pensante chamado ‘uma idéia’ que um indivíduo pode possuir com exclusividade, enquanto a mantiver para si próprio; desde que essa idéia é divulgada, ela se torna posse de todos, e o receptor não pode despossuir-se dela. É característica peculiar dessa idéia, também, que ninguém a possui em parte porque qualquer outro a possui no todo. Aquele que recebe de mim uma idéia tem aumentada a sua instrução sem que eu tenha diminuída a minha. Como aquele que acende sua vela na minha recebe luz sem apagar a minha. Que as idéias passem livremente de uns aos outros no planeta, para a instrução moral e mútua dos homens e a melhoria de sua condição, parece ter sido algo peculiar e benevolentemente desenhado pela natureza ao criá-las, como o fogo, expansível no espaço, sem diminuir sua densidade em nenhum ponto. Como o ar que respiramos, movem-se incapazes de serem confinadas ou apropriadas com exclusividade. Invenções, portanto, não podem, na natureza, ser sujeitas à propriedade.

Thomas Jefferson

Ainda voltaremos a falar mais sobre isso por aqui…

“Lobato na web”

Caríssimos, sempre que falo em compartilhar a informação, é mais ou menos isso que tenho em mente…

Publicado na revista Nossa História nº 36, Editora Vera Cruz, em OUT/2006, p. 11.

Cartas, desenhos e fotos são alguns dos elementos da vida do escritor disponíveis em novo site.

Armazenada no Centro de Documentação Alexandre Eulálio, em Campinas, boa parte do acervo de Monteiro Lobato já pode ser consultada de várias regiões do país. O projeto “Monteiro Lobato (1882-1948) e outros modernismos brasileiros” teve financiamento de Fapesp, CNPq e Unicamp para organização, digitalização e interpretação de documentos. Agora, o endereço eletrônico http://www.unicamp.br/iel/monteirolobato abriga correspondência, fotos de família, árvore genealógica, bibliografia, desenhos e pinturas do escritor, e banco de teses sobre sua obra. Um complemento valioso ao que já estava disponível no site www.lobato.com.br.

“Digitalizamos uma parte do acervo e a idéia é ir alimentando o site com mais material de tempos em tempos”, explica Marisa Lajolo, coordenadora da equipe do Instituto dos Estudos de Linguagem da Unicamp, que conversou com NH sobre as possibilidades que a internet dá para a divulgação de arquivos:

Nossa HistóriaPor que ainda é raro vermos arquivos de grandes escritores ou personagens da história brasileira disponíveis na internet?

Marisa Lajolo – A interação com a internet requer uma certa aclimatação, mais do que aprendizagem. Há séculos, a dupla papel-e-tinta vem sendo vista como suporte mais adequado/privilegiado para o registro da história e não é de um dia para outro que – pacificamente – vai dividir espaço com o suporte eletrônico. Além disso, há alguns problemas com a impossibilidade de versões eletrônicas de documentos darem conta da materialidade deles: se se quer estudar questões ligadas a papéis e a tintas é preciso ter acesso aos documentos propriamente ditos e não a cópias digitalizadas.

NHHá uma desconfiança dos pesquisadores em relação ao potencial e à segurança na rede ou é apenas uma questão de tempo e de verba?

ML – A questão da segurança na web não me parece, essencialmente, distinta da segurança necessária para acervos tradicionais. A questão maior, em meu ponto de vista, é mesmo a “cultura” da área. Arquivos disponíveis na internet democratizam o acesso à documentação e quebram a situação de privilégio de só ter acesso a documentos quem tem condições de se locomover até a instituição que abriga este ou aquele arquivo. E, no varejo, a internet libera o interessado dos horários e eventuais limitações materiais das intituições que preservam documentos.

NHHá a perspectiva de que o site sobre a obra de Monteiro Lobato sirva de exemplo para outros trabalhos deste tipo?

ML – Algumas instituições brasileiras já disponibilizam documentos em sites. Mas a prática precisa se ampliar e as universidades podem cumprir um grande papel nisso. Trata-se de uma questão de política cultural. Discute-se muito se o brasileiro não tem memória, mas a experiência com o site de Monteiro Lobato sugere que não é bem assim: várias pessoas procuram a Unicamp para doar cartas ou livros raros de Lobato. O mais belo exemplo disso foi da professora Therezinha Antunes, de Pelotas. Logo que soube que a Unicamp tinha a guarda de documentos de Monteiro Lobato, ela nos doou oito cartas que recebeu dele entre 1946 e 1947, quando o escritor morava na Argentina. As cartas são documentos preciosos de um intelectual auto-exilado, extremamente crítico da situação brasileira da época. Temos todo o apoio da família de Monteiro Lobato, mas para divulgarmos as cartas é preciso ter autorização dos demais envolvidos. Na seção de correspondência do site, há uma lista de todos os remetentes e destinatários das cartas do Fundo Monteiro Lobato. Quem sabe sobrinhos, filhos, netos e bisnetos dessa gente toda se animem e permitam a reprodução? Acho que a disponibilização de arquivos torna a história – mesmo aquela com agá maiúsculo – mais próxima de todos.

Palestra de Steve Jobs

Copy & Paste do bom e velho Alfarrábio. Realmente vale a pena ler até o final:

Veja a íntegra do discurso de Steve Jobs, o criador da Apple, para os formandos de Stanford:

Estou honrado de estar aqui, na formatura de uma das melhores universidades do mundo. Eu nunca me formei na universidade. Que a verdade seja seja dita, isso é o mais perto que eu já cheguei de uma cerimônia de formatura. Hoje, eu gostaria de contar a vocês três histórias da minha vida. E é isso. Nada demais. Apenas três histórias.

A primeira história é sobre ligar os pontos

Eu abandonei o Reed College depois de seis meses, mas fiquei enrolando por mais dezoito meses antes de realmente abandonar a escola. E por que eu a abandonei?

Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era uma jovem universitária solteira que decidiu me dar para a adoção. Ela queria muito que eu fosse adotado por pessoas com curso superior. Tudo estava armado para que eu fosse adotado no nascimento por um advogado e sua esposa. Mas, quando eu apareci, eles decidiram que queriam mesmo uma menina. Então meus pais, que estavam em uma lista de espera, receberam uma ligação no meio da noite com uma pergunta: “Apareceu um garoto. Vocês o querem?” Eles disseram: “É claro.” Minha mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe nunca tinha se formado na faculdade e que o meu pai nunca tinha completado o ensino médio. Ela se recusou a assinar os papéis da adoção. Ela só aceitou meses mais tarde quando os meus pais prometeram que algum dia eu iria para a faculdade.

E, 17 anos mais tarde, eu fui para a faculdade. Mas, inocentemente escolhi uma faculdade que era quase tão cara quanto Stanford. E todas as economias dos meus pais, que eram da classe trabalhadora, estavam sendo usados para pagar as mensalidades. Depois de 6 meses, eu não podia ver valor naquilo. Eu não tinha idéia do que queria fazer na minha vida e menos idéia ainda de como a universidade poderia me ajudar naquela escolha. E lá estava eu gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado durante toda a vida. E então decidi largar e acreditar que tudo ficaria OK. Foi muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que já fiz. No minuto em que larguei, eu pude parar de assistir às matérias obrigatórias que não me interessavam e comecei a frequentar aquelas que pareciam interessantes.

Não foi tudo assim romântico. Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava aquilo. Muito do que descobri naquele época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço.

Vou dar um exemplo: o Reed College oferecia naquela época a melhor formação de caligrafia do país. Em todo o campus, cada poster e cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela letra de mão. Como eu tinha largado o curso e não precisava frequentar as aulas normais, decidi assistir as aulas de caligrafia. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna uma tipografia boa. Aquilo era bonito, histórico e artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode entender. E eu achei aquilo tudo fascinante.

Nada daquilo tinha qualquer aplicação prática para a minha vida. Mas 10 anos mais tarde, quando estávamos criando o primeiro computador Macintosh, tudo voltou. E nós colocamos tudo aquilo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse. Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm. É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para a frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.

De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.

Minha segunda história é sobre amor e perda

Eu tive sorte porque descobri bem cedo o que queria fazer na minha vida. Woz e eu começamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhamos duro e, em 10 anos, a Apple se transformou em uma empresa de 2 bilhões de dólares e mais de 4 mil empregados. Um ano antes, tínhamos acabado de lançar nossa maior criação – o Macintosh – e eu tinha 30 anos. E aí fui demitido. Como é possível ser demitido da empresa que você criou? Bem, quando a Apple cresceu, contratamos alguém para dirigir a companhia. No primeiro ano, tudo deu certo, mas com o tempo nossas visões de futuro começaram a divergir. Quando isso aconteceu, o conselho de diretores ficou do lado dele. O que tinha sido o foco de toda a minha vida adulta tinha ido embora e isso foi devastador. Fiquei sem saber o que fazer por alguns meses. Senti que tinha decepcionado a geração anterior de empreendedores. Que tinha deixado cair o bastão no momento em que ele estava sendo passado para mim. Eu encontrei David Peckard e Bob Noyce e tentei me desculpar por ter estragado tudo daquela maneira. Foi um fracasso público e eu até mesmo pensei em deixar o Vale [do Silício]. Mas, lentamente, eu comecei a me dar conta de que eu ainda amava o que fazia. Foi quando decidi começar de novo.

Não enxerguei isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido para mim. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo. Isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia chamada NeXT, outra companhia chamada Pixar e me apaixonei por uma mulher maravilhosa que se tornou minha esposa. Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Em uma inacreditável guinada de eventos, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a empresa e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração do atual renascimento da Apple. E Lorene e eu temos uma família maravilhosa.

Tenho certeza de que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple. Foi um remédio horrível, mas eu entendo que o paciente precisava. Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que você ama. Seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer grande relacionamento, só fica melhor e melhor à medida que os anos passam. Então continue procurando até você achar. Não sossegue.

Minha terceira história é sobre morte

Quando eu tinha 17 anos, li uma frase que era algo assim: “Se você viver cada dia como se fosse o último, um dia ele realmente será o último”. Aquilo me impressionou, e desde então, nos últimos 33 anos, eu olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: “Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?” E se a resposta é “não” por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa.

Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.

Há um ano, eu fui diagnosticado com câncer. Era 7h30 da manhã e eu tinha uma imagem que mostrava claramente um tumor no pâncreas. Eu nem sabia o que era um pâncreas. Os médicos me disseram que aquilo era certamente um tipo de câncer incurável, e que eu não deveria esperar viver mais de 3 a 6 semanas. Meu médico me aconselhou a ir para casa e arrumar minhas coisas – que é o código dos médicos para “preparar para morrer”. Significa tentar dizer às suas crianças em alguns meses tudo aquilo que você pensou ter os próximos 10 anos para dizer. Significa dizer seu adeus. Eu vivi com aquele diagnóstico o dia inteiro. Depois, à tarde, eu fiz uma biópsia, em que eles enfiaram um endoscópio pela minha garganta abaixo, através do meu estômago e pelos intestinos. Colocaram uma agulha no meu pâncreas e tiraram algumas células do tumor. Eu estava sedado, mas minha mulher, que estava lá, contou que quando os médicos viram as células em um microscópio, começaram a chorar. Era uma forma muito rara de câncer pancreático que podia ser curada com cirurgia. Eu operei e estou bem. Isso foi o mais perto que eu estive de encarar a morte e eu espero que seja o mais perto que vou ficar pelas próximas décadas. Tendo passado por isso, posso agora dizer a vocês, com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito apenas abstrato: ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá. Ainda assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento, o novo é você. Mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se tornará um velho e será varrido. Desculpa ser tão dramático, mas isso é a verdade.

O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém. Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior. E o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário. Quando eu era pequeno, uma das bíblias da minha geração era o Whole Earth Catalog. Foi criado por um sujeito chamado Stewart Brand em Menlo Park, não muito longe daqui. Ele o trouxe à vida com seu toque poético. Isso foi no final dos anos 60, antes dos computadores e dos programas de paginação. Então tudo era feito com máquinas de escrever, tesouras e câmeras Polaroid. Era como o Google em forma de livro, 35 anos antes do Google aparecer. Era idealista e cheio de boas ferramentas e noções. Stewart e sua equipe publicaram várias edições de The Whole Earth Catalog e, quando ele já tinha cumprido sua missão, eles lançaram uma edição final. Isso foi em meados de 70 e eu tinha a idade de vocês. Na contracapa havia uma fotografia de uma estrada de interior ensolarada, daquele tipo onde você poderia se achar pedindo carona se fosse aventureiro. Abaixo, estavam as palavras: “Continue com fome, continue bobo”. Foi a mensagem de despedida deles. Continue com fome. Continue bobo. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam e começam de novo, eu desejo isso para vocês. Continuem com fome. Continuem bobos.

Obrigado.

Mais software livre nos Tribunais

TJ implantará Juizado Virtual

Publicado em 27 de Setembro de 2006 às 16h02 no clipping da Síntese Publicações

O Tribunal de Justiça do Estado de Roraima lança hoje (27.09) às 15 horas, no Fórum Advogado Sobral Pinto, a primeira fase do programa “Justiça sem papel” ou Juizado Virtual, voltado neste módulo, para a área cível.

A medida visa dar um passo significativo para a agilização e barateamento da tramitação processual.

Como parte da programação acontecerão duas palestras. A primeira será ministrada pelo Juiz Luiz Otávio, assessor da presidência do Tribunal de Justiça do Estado de Tocantins, com o tema ‘o ingresso do magistrado no mundo virtual’. A segunda palestra será feita pelo Juiz Sérgio Tejada, Secretário e Juiz Auxiliar da Presidência do Conselho Nacional de Justiça, com o tema ‘Juizado Virtual – uma meta do CNJ’. Na oportunidade será firmado um convênio de cooperação técnica, entre o TJRR e o Conselho Nacional de Justiça.

Para o Desembargador Mauro Campello, presidente do TJRR, dentre as diversas iniciativas da atual Administração, ressalta-se a de modernização para agilizar a prestação jurisdicional. “O processo de modernização se efetivará com a implantação do modelo de processo eletrônico nos Juizados Especiais Cíveis, que, com certeza, se expandirá por todo o Judiciário, alcançando, inclusive a fase recursal nas instâncias superiores e as Varas cujos procedimentos são complexos” afirmou Campello.

A experiência foi trazida do Tribunal Regional Federal da 5ª Região onde o mesmo já funciona. O TRF5 cedeu para TJ de Roraima o programa que operacionaliza o Juizado e a empresa que o desenvolveu, a Infofox, enviou um técnico, em julho passado, para apresentar o sistema aos servidores e magistrados e efetuar as mudanças e adaptações para atender as necessidades do judiciário local.

O Juizado Virtual trabalhará com ferramentas como internet, e-mail, scanner, fotografia digital, áudio e vídeo. Os juizados que já disponibilizam de gravação de audiências em áudio e vídeo, terão como adicionar as gravações ao “processo virtual” facilitando o trabalho das partes (advogados, defensores e Ministério Público) dos servidores e magistrados.

O Diretor de informática do TJRR, Pedro Vieira, afirmou que o programa adotado funciona com ferramentas de software livre, ou seja, o Tribunal não precisará gastar com licenças. “Temos em nossos quadros profissionais de informática que trabalham muito bem com essas ferramentas, de forma que não necessitaremos contratar empresas especializadas para manutenção do sistema”, frisou.

Como funciona

Os advogados, defensores e promotores de Justiça vão poder tramitar todo o processo através da Intranet do Tribunal de Justiça. O próprio advogado ajuizará o processo, procederá a distribuição, poderá mandar a sua petição por e-mail ou sistema, se não dispuser de computador e internet poderá se dirigir até a Central de Atendimento e Distribuição dos Juizados, onde lhe serão disponibilizados computadores e scanners.

No cartório o servidor estará apenas esperando a entrada do processo no sistema, fará a tramitação, enviará ao magistrado que poderá despachar ou sentenciar de acordo com o seu convencimento.

Poderão ser anexados ao processo vários tipos de formatos de documentos como /word/, PDF, fotos, vídeos, MP3. Qualquer tipo de mídia é suportado pelo sistema.

Segurança

Para ter acesso ao sistema os advogados, defensores, promotores de justiça e/ou a pessoa física que protocolizar a petição inicial fará um cadastro e gerará uma senha pessoal, assinando um termo de responsabilidade por ela. Assim somente essa pessoa terá acesso aos seus processos.

O programa também dispõe de mecanismos de criptografia, protegendo assim os andamentos mais importantes do processo virtual.

Fonte: Tribunal de Justiça de Roraima

Homossexualismo e adoção de crianças

Uma de minhas fontes de atualização na área de direito é o Boletim da AASP – Associação dos Advogados de São Paulo, que recebo semanalmente, e que por si só já faz valer a pena o pagamento da baixíssima mensalidade (alguém me lembre de mais tarde cobrar pela propaganda gratuita). Infelizmente nosso próprio órgão de classe, a OAB de São Paulo, apesar de cobrar uma das anuidades mais caras entre as categorias profissionais (seiscentos e trinta contos por ano), é, na MINHA opinião, a que menos faz pelos seus inscritos, principalmente em termos de literatura jurídica, serviços informatizados que realmente funcionem, cursos e palestras que sejam – de fato – interessantes, etc, etc, etc.

Mas voltemos ao nosso tema. Achei bastante interessante o acórdão abaixo, sendo de destacar que sim, tinha que ser do Sul do país, onde normalmente as cabeças pensantes costumam ser vanguardistas, caracterizadas mais pelo jusnaturalismo (“é direito o que é justo”) do que pelo positivismo (“é direito o que está na lei”). O texto foi extraído do Ementário do Boletim AASP nº 2476, de 19 a 25 de junho de 2006:

Adoção – Casal formado por duas pessoas de mesmo sexo – Possibilidade.

Reconhecida como entidade familiar, merecedora da proteção estatal, a união formada por pessoas do mesmo sexo, com características de duração, publicidade, continuidade e intenção de constituir família, decorrência inafastável é a possibilidade de que seus componentes possam adotar. Os estudos especializados não apontam qualquer inconveniente em que crianças sejam adotadas por casais homossexuais, mais importando a qualidade do vínculo e do afeto que permeia o meio familiar em que serão inseridas e que as liga aos seus cuidadores. É hora de abandonar de vez preconceitos e atitudes hipócritas desprovidas de base científica, adotando-se uma postura de firme defesa da absoluta prioridade que constitucionalmente é assegurada aos direitos das crianças e dos adolescentes (art. 227 da Constituição Federal). Caso em que o laudo especializado comprova o saudável vínculo existente entre as crianças e as adotantes. Negaram provimento. Unânime.

TJRS – 7ª Câm. Cível; ACi nº 70013801592 – Bagé – RS; Rel. Des. Luiz Felipe Brasil Santos; j. 5/4/2006; v.u.