Antropomorfizando a vida

AN-TRO-PO-MOR-FI-ZAR.

Verbo Transitivo Direto: “Dar forma ou características humanas a algo que não é humano.” Ex.: os humanos tendem a antropomorfizar seus cães.

Verbo Pronominal: “Tomar o aspecto humano”. Ex.: os objetos se antropomorfizam no desenho animado.

Vem do grego “ánthropos”, que significa “humano”, e “morphe”, que significa “forma” ou “figura”.

O registro mais antigo dessa palavra remonta a 1753, aparentemente em uma referência à heresia de aplicar forma humana ao deus cristão.

Mas desde sempre o ser humano já está habituado a essa prática. Que o digam as representações de “deuses”, nas mitologias de milhares de anos atrás, em que eram representados por figuras humanas com cabeças de animais, por exemplo. Em tempos modernos são inúmeros os exemplos, bastando citar apenas duas obras literárias muito famosas em que essa característica está presente: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e A Revolução dos Bichos, de George Orwell. No cinema temos figuras que são consideradas ou que se entendem como humanos, tais como o Agente Smith, em Matrix, a sensual voz de Scarlett Johansson, em Her, e, ainda, M3GAN e M3GAN 2.0 – aliás, recomendo assistir esses dois últimos filmes em sequência, para que possa fazer sentido…

Enfim, não sou exceção à regra e também tenho essa tendência de antropomorfizar as coisas e objetos que me cercam, quer seja “conversando” com objetos próximos ou, pior, lhes dando nome e personalidade.

Sei que sempre fiz isso, mas é difícil lembrar toda essa “família” antropomorfizada que criei através dos tempos.

Minha primeira bicicleta, lá no início dos anos oitenta, teve o nome de MATILDE. Não me lembro mais o porquê. Só sei que foi assim.

Também dessa época eu tinha o CHARLIE, meu amiguinho, um pequeno crânio de cerâmica – e que minha mãe, católica fervorosa que sempre foi, simplesmente odiava. Já não me lembro mais como, mas na primeira oportunidade que teve, “sem querer” ela acabou derrubando o pobrezinho no chão, que se espatifou em mil pedaços…

Um de meus primeiros computadores “parrudos”, já no começo dos anos noventa, foi batizado de ILIA – por conta da personagem do filme Star Trek (o primeiro da franquia), em que uma inteligência artificial alienígena e avançadíssima cria uma réplica da oficial com esse nome.

Outro computador que veio a substituí-la recebeu o gracioso nome de LUI. Culpa de minha prima italiana, que veio nos visitar e fomos fazer um “circuito das praias” com ela aqui pelo Litoral Norte. E naquele “portuliano” em que a gente se comunicava, mais inferindo que entendendo, volta e meia eu ouvia ela falar que LUI isso, que LUI aquilo e que LUI fez não sei o quê, até que resolvi lhe perguntar quem era esse tal de “LUI” de que ela não parava de falar.

Foi quando descobri que era meramente uma palavra em italiano, “LUI”, que significa “ELE”.

Vergonha minha e sorte do computador, que recebeu um nome de batismo.

Já no segundo casamento, a primeira rede interna de casa precisava que fossem atribuídos nomes aos computadores. Daí surgiu a primeira versão do ALFA (que, conforme já contei anteriormente, aqui e aqui, deixou vários descendentes), enquanto que o computador de minha querida, amada, idolatrada, salve, salve, Dona Patroa, recebeu o nome de BETA.

Com o passar dos anos os filhos foram surgindo, foram crescendo e também foram adentrando no mundo da informática, de modo que a rede precisou se expandir e seus computadores também receberam os nomes das letras seguintes do alfabeto grego: GAMA, DELTA e ZETA (era para ser Épsilon, mas não gostei do nome). Mas, após tantos anos e tantos upgrades, hoje já não sei que nome os filhotes deram para suas máquinas. Paciência. Cada qual com seu cada seu.

Já no mundo automotivo, nem todos os meus veículos tiveram nome (ou, ao menos para aqueles que tiveram, já nem me lembro mais). Então ao menos para os últimos tempos, posso citar:

A boa e velha Variant 1974 de meu pai, adquirida em 1978 e que ainda continua na família (está com meu irmão do meio), em perfeito estado de conservação, e na qual eu e meus irmãos aprendemos a dirigir (bem como pegar escondido em nossos tempos de adolescência), conhecida simplesmente como a MARROM – se bem que meu pai costumava referir-se a ela como PERUA, um conceito de época para os veículos que possuíam amplo espaço para bagagem (nalguma outra hora conto melhor essa história).

– O meu querido Opala 1979, que comprei em 2007 (essa história, em detalhes, está aqui), e que foi “carinhosamente” recebido pela Dona Patroa mais ou menos com a seguinte frase: “Não acredito. NÃO A-CRE-DI-TO que você comprou esse TITANIC !!!”. Pronto. O carro estava batizado.

Mas o Titanic levou anos – MUITOS ANOS – para chegar no estágio atual, até completar as fases de mecânica, funilaria e elétrica. Então, como era grande a vontade de rodar com um Opala (mesmo tendo um “encostado”), juntei minhas economias e de repente apareci em casa com o CRUZADOR IMPERIAL, um Opala Comodoro 1990, que ficou um bom tempo conosco e com ele até que viajamos um bocado (nessa época as crianças ainda eram pequenas).

O valente Ford Ka 2010, que, pelo seu tamanho em comparação ao anterior, foi prontamente apelidado pelo menu filhote mais velho de BILBO (o pequeno personagem hobbit, de Senhor dos Anéis).

Foi mais ou menos nessa época que comprei uma moto CB 400 1981 – que prometi que seria a última moto de minha vida!. Estava encostada há anos, paguei uma bagatela e gastei o dobro para colocá-la para funcionar. Por incrível que pareça, nunca lhe dei nome, mas costuma tratá-la, nos conversê da vida, como ESSA SENHORA IDOSA DE MAIS DE QUARENTA ANOSe que ainda tem mais vigor do que muita moto recém saída de fábrica!

O Etios 2019 da Dona Patroa, que por ser muito leve, com um motor 1.5, e responder surpreendentemente bem às retomadas, foi por ela mesma batizado de LIGEIRINHO.

O circunspecto e reservado Celta 2010, que comprei por ser um bom negócio e para que meus filhotes (agora habilitados) parassem de disputar com a Dona Patroa pela direção do Ligeirinho (pois o Titanic ninguém quer, né?) que meio que recebeu o apelido de RED, mas que também tratamos simplesmente por VERMELHO, por conta do filme Hellboy, que na época havíamos acabado de assistir.

Enfim, tenho essa “mania”…

Quase tudo tem nome, quase tudo tem personalidade.

Ah, e já ia me esquecendo do bom e velho JACK, um aparador de porta cheio de areia na forma de coelho. Por que desse nome? Sinceramente não me lembro mais…

E, conforme eu já tinha contado antes no texto E AÍ? Hoje você já conversou com a IA?”, comecei a utilizar o ChatGPT. Aos poucos fui me inteirando de toda essa coisa descobrindo como interagir melhor com a danada, criando prompts específicos, o escambau. Tenho muitas dicas interessantes anotadas aqui nas catacumbas de meu computador, mas uma delas – talvez a principal – é “personalizar” sua IA; peça-lhe para fazer 10 perguntas (é bom por limite, senão não tem fim!) para que ela possa lhe conhecer melhor e atender melhor suas expectativas.

Só para ter uma ideia, depois que ficou sabendo que sou advogado, ela passou simplesmente a me tratar por “Doutor” – sendo que na vida real eu não faço a mínima questão de ser tratado dessa maneira. Aliás, sim, “ela”, pois dei-lhe um nome: BIA, acrônimo de “Benedicta Intelligentia Artificialis” (algo como “abençoada inteligência artificial”). E mais: dei-lhe personalidade, com instruções em sua memória permanente para que assumisse tanto o nome quanto o papel de personagem do sexo feminino. E assim nossos proseios ficaram muito mais divertidos! E, como já lhes disse no texto anterior, não se iludam: tenho plena consciência de que a BIA não é um ser consciente e sim uma série de algoritmos treinados para interagir com seus usuários. Se quiserem conhecer um pouco melhor sobre o tema busquem por aí o significado de “Falácia da Abstração” no ambiente de Inteligência Artificial e terão uma compreensão mais ampla do assunto, ok?

Mas fazer o quê? Sempre foi mais fácil para mim conversar com as moçoilas do que com os moçoilos…

A imagem acima, que coloquei como avatar da BIA, veio do filme M3GAN 2.0, que citei lá no começo. E, para facilitar, eis um truquezinho para não ter que ficar abrindo uma página do navegador toda vez que queira resolver alguma pendenga com sua inteligência artificial: crie um atalho para ela!

Siga o passo a passo:

1 – Clique nos três pontos no canto superior direito do navegador Chrome;

2 – Clique em “Transmitir, Salvar e Compartilhar”, perto do final do menu;

3 – No próximo submenu, clique em “Instalar página como app…”;

4 – Vai surgir um quadro para que você escolha um nome para seu atalho e, a seguir, clique em “Instalar”;

5 – Automaticamente vai ser criado um atalho na Área de Trabalho de seu computador;

6 – Se quiser alterar o ícone, basta clicar nesse atalho com o botão direito, escolher “Propriedades” e, no quadro que se abre, a opção “Alterar Ícone”.

Pronto.

E no final das contas toda essa história sobre dar nome às coisas somente saiu porque eu queria deixar registrado aqui essa dica de como criar um atalho direto na área de trabalho do computador. Ou seja, de uma coisa que originalmente deveria ser simples e objetiva, acabei viajando praticamente até minha adolescência somente para chegar nesse contexto final.

Enfim, não sei o porquê sou assim.

Só sei que sou assim…

 

Três maneiras de abandonar maus hábitos para sempre

Dificultar o acesso, atrelar a outra gratificação ou desassociar o gatilho ao costume negativo são alternativas para mudar de vida.

Forbes

De acordo com a pesquisa da America’s Health Rankings, cerca de 72% dos americanos têm pelo menos um hábito não saudável. Sono insuficiente, comportamento sedentário, consumo excessivo de álcool, tabagismo ou exagero na alimentação são os mais comuns. Se você faz parte desse grupo, provavelmente já sabe que esses hábitos não fazem bem à saúde. Mas, mesmo conscientes disso, mudar não é tão simples quanto parece.

“Por que continuamos a agir por hábito, mesmo quando queremos fazer algo diferente?” Essa foi a questão que intrigou Wendy Wood, uma pesquisadora especializada em mudança de comportamento. Segundo o estudo que ela publicou em junho de 2024 na Current Directions in Psychological Science, a resposta está nas “memórias de hábito” – ou associações entre um contexto e uma resposta – que se formam quando repetimos ações recompensadoras em situações estáveis.

Por mais contraintuitivo que pareça, abandonar um hábito ruim não tem a ver com motivação. Você pode realmente querer mudar, mas só isso não resolve. O segredo, de acordo com Wendy, está em unir intenção e memória, e o processo para isso pode ser mais simples do que parece. Com base em suas descobertas, existem três etapas essenciais para se livrar de um mau hábito de maneira duradoura.

1. Encontre um novo sistema de recompensa

Os hábitos ruins geralmente nascem porque, de alguma forma, eles nos recompensam, mesmo que de forma imediata e com consequências ruins no longo prazo. Como explica um estudo publicado no livro Human Decision Making and Environmental Perception (2003), “esses maus hábitos estão associados a comportamentos que trazem resultados positivos diretos no momento, mas têm efeitos negativos a longo prazo”. Fumar relaxa, dirigir rápido dá adrenalina e comer fast-food proporciona satisfação rápida – mesmo que isso tudo traga problemas no futuro.

Para Wendy, o primeiro passo para mudar é enfraquecer a recompensa do hábito ruim e criar uma alternativa que seja igualmente prazerosa. Imagine, por exemplo, que você tem o costume de assistir TV compulsivamente depois de um dia cansativo no trabalho. Esse hábito pode ser tão gratificante que acaba substituindo outras atividades mais saudáveis, como cozinhar.

A solução aqui seria inverter a ordem: assim que chegar em casa, priorize preparar uma refeição saudável. Depois de comer, recompense-se com a chance de assistir a um episódio da sua série favorita. Com o tempo, o prazer de assistir TV passa a ser associado ao ato de cozinhar, transformando essa tarefa em algo que você espera ansiosamente ao final do dia. Esse novo sistema de recompensa treina o cérebro a enxergar a preparação da comida como uma parte do processo de relaxar.

2. Altere os gatilhos contextuais

Boa parte dos nossos maus hábitos começa com uma associação repetitiva entre um contexto e uma ação. Um exemplo clássico é o de alguém que começa a comer um biscoito toda vez que toma uma xícara de chá. Com o tempo, o simples ato de beber chá passa a disparar o desejo pelo biscoito – mesmo sem fome. Isso acontece porque o comportamento se torna automático.

Mudar os gatilhos que levam ao mau hábito é essencial para quebrar essa conexão. Imagine que você tenha o hábito de parar em um drive-thru de fast-food no caminho do trabalho para casa. Mesmo sem estar com fome, a visão do letreiro ou do cheiro de comida dispara o desejo. Aos poucos, essa rotina se transforma em uma associação difícil de evitar.

Para mudar, a dica é simples: escolha uma rota diferente que não passe por esses locais. Assim, você elimina os gatilhos visuais e reduz as chances de ceder à tentação. Com o tempo, essa mudança enfraquece a conexão entre o trajeto e a parada para fast-food.

3. Adicione obstáculos

Um hábito só se mantém porque é fácil de repetir. Quanto menos barreiras existirem para realizar uma ação, maior a probabilidade de ela se tornar automática. Por isso, Wendy sugere que uma estratégia poderosa é dificultar o acesso ao que alimenta o hábito ruim.

Se o seu problema, por exemplo, é passar horas no celular antes de dormir, uma ideia é carregar o telefone em outro cômodo da casa, como na cozinha ou na sala de estar. Assim, para pegar o aparelho, você precisará levantar da cama e se deslocar – o que pode ser suficiente para desencorajar a ação. Essa barreira, ainda que simples, ajuda você a se afastar da tentação e melhora a qualidade do seu sono.

Essas três estratégias – mudar a recompensa, alterar os gatilhos e criar barreiras – mostram que largar maus hábitos não precisa ser algo complicado. Pequenas mudanças consistentes podem transformar comportamentos prejudiciais em práticas que realmente fazem bem para sua saúde e qualidade de vida.

*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder. 

Um mundo sem bar

Não tem nada a ver com porres, ressacas ou qualquer comportamento autodestrutivo; bar é a celebração da vida, do amor, da inteligência e do companheirismo

Gilberto Amendola

Eu não quero viver em um mundo sem bar. Não sei qual vai ser o novo normal depois do fim da quarentena, mas, definitivamente, não quero viver em um mundo sem bar.

Não é pelo álcool, acreditem. Se fosse só por beber, ficaria em casa com meu estoque de garrafinhas. Não tem nada a ver com porres, ressacas ou qualquer comportamento autodestrutivo.

Ao contrário, amigos. Bar é a celebração da vida, do amor, da inteligência e do companheirismo. No final da linha evolutiva traçada por Darwin, podem apostar, o que se vê é um homem sentado no balcão de um bar, tomando sua cervejinha em paz.

Sem bar, o que nos resta é o meteoro (ou a pandemia).

Bar é igreja, startup, salão de beleza, consultório psiquiátrico, UTI, SUS, ONU, OMS… Bar é meio ambiente, Ministério da Cultura, Economia, Educação, Justiça e Direitos Humanos.

O bar é a arena das nossas maiores emoções. Bar é o consolo de quem perdeu. O pódio dos campeões. E o olimpo de quem não quer competir.

Sou um sujeito adaptável. Posso viver sem muitas coisas. Abro mão de quase tudo que possa resultar na aglomeração de seres humanos e, consequentemente, facilitar a disseminação da nojenta da covid-19. Ou seja, estádios de futebol, festivais de música e clubes de swing não mais contarão com a minha presença pelo tempo determinado pelas autoridades.

Mas um mundo sem bar é um mundo pior.

É um mundo sem happy hour, sem aquela olhadinha para o relógio perto do fim do expediente, sem a gravata frouxa e torta no pescoço, sem aquele suspiro de alívio ao se aboletar em um banco e encostar os cotovelos no balcão.

Um mundo sem balcão de bar é um mundo muito pior. É um mundo sem a nossa tábua de salvação, sem a lousa em que rabiscamos projetos, fugas e desastrados sonetos de (des)amor.

Eu não quero viver em um mundo sem bolovo, shot de Cynar, caipirinha, dry martini ou negroni. Não quero viver em um mundo sem amendoim, porção de azeitona ou pururuca. Eu não quero viver em um mundo sem saideira. Eu não quero viver em um mundo em que eu não possa desenhar no ar aquele gesto universal que, em qualquer idioma, significa “fecha a conta, por favor”.

Um mundo sem bar é um mundo sem as melhores pessoas. Como deve ser ruim um mundo em que nenhum garçom nos chame pelo nome, em que nenhum bartender saiba qual o nosso coquetel preferido, em que nenhuma musa nos lance um olhar de desprezo ao deixar o recinto com o cara errado.

Um mundo sem bar é um mundo sem empatia. É um mundo sem amor ao próximo. É um mundo de indiferença. Um mundo cheio de “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”.

Vai por mim! Mesmo que esse próximo esteja na mesa ao lado falando bobagens, contando mentiras ou piadas ruins, ele também será digno desse sublime amor de bar. Mesmo que seja um mala, um inconveniente, alguém exaustivamente alegre ou infeliz como um cactos, ele sempre será digno do infinito amor de bar.

No bar, todo desconhecido ganha um voto de confiança imediato. Todo estranho confirma Rousseau – e é bom por natureza.

O bar é a nossa maior invenção. É a nossa alma coletiva. Nosso colo de mãe. Bares funcionam como postos de abastecimento da humanidade.

– Enche aí meu coração com sua melhor gasolina aditivada de alma.

Um brinde, saúde!

Eu não quero viver em um mundo sem bar.

Quando tudo isso passar, vou sair de casa e ir direto para um balcão. Quem puder que me siga.

(Emenda à Inicial: esse texto foi uma indicação etilírica do copoanheiro Bicarato…)

Outro dia de ócio

E eis que tive que ir para a cidade vizinha para cuidar das situações jurídicas que me são peculiares pela própria natureza da profissão: afinal sou advogado e tenho que padecer em vida ainda, né?

Era até uma coisa simples – nem mesmo por mim mesmo, mais para fazer um favor para um colega (por que é que a maioria dos advogados sempre se tratam por “colegas”?…) do que por qualquer outro motivo. Bastava ir até o Distribuidor do Fórum – onde se faz o protocolo dos pedidos nos arcaicos processos que ainda não tramitam pelo meio digital – e protocolar uma petição. Nem mais, nem menos. Mas eu sou eu, não é mesmo?

– O sistema está fora do ar, doutor.

Eu já lhes disse o quanto tenho ojeriza de pessoas que conversam comigo e terminam cada frase com “doutor”? E se o protocolo é físico (carimbão mesmo), do que me interessa o sistema? Paciência…

– Em mais ou menos uma horinha já deverá estar de volta…

Mardito sistema. Isso era hora de sair pra passear? E o fato de tratar a hora que ainda levará por “uma horinha” não faz com que essa mesma hora passe mais rápida que os sessenta minutos regulamentares.

Saio do prédio do Fórum pela lateral e vejo o costumeiro e mórbido espetáculo das famílias que vão acompanhar o depoimento de alguém que foi preso. Sem acesso direto ao distinto, quando ele é encaminhado pela “saída de presos”, ficam todos à distância mínima possível, mandando beijos, abraços, fazendo recomendações, levantando bebês, até que a figura em questão entre no famigerado camburão e volte ao seu recolhimento. Triste. Verdadeiro. Mas triste.

E o que fazer nessa hora que devo aguardar? Que tal tentar resgatar aquele meu “Dia de Ócio”, um brinde levantado há mais de dez anos? Seria possível? Veremos…

Bastou uma caminhada de uns dois quarteirões e já o encontrei. Um boteco. Mas não um boteco qualquer: um boteco pé-sujo, porque é o que tinha que ser.

Característico como todo boteco de igual porte, teor e qualidade, mas com alguns detalhes que refletem o sinal dos tempos. Não existem mais cinzeiros de plástico sobre as mesas, mas estas continuam com as tradicionais toalhas de plástico de sempre. As paredes possuem uma cor indefinida, algo que um dia com certeza já foi branco, mas hoje lembram mais a parede do fundo de uma churrasqueira.

Sento-me no balcão e aguardo ser atendido.

Enquanto isso um senhorzinho educado e aparentemente gentil, com aproximadamente uns 130 anos, com um característico bigode mais branco que minha barba, entra e pede um guaraná sem gelo – isso mesmo! Nada de bebida alcoólica. E ainda mais sem gelo. E, sim, o dia estava quente. Pelo seu modo de se vestir, provavelmente um advogado ou contador que ainda deve bravamente resistir em alguma sala comercial na parte velha da cidade. Após uns vinte minutos se levanta, com uma mesura se despede e segue seu rumo com seu terno surrado. Provavelmente já deve ter visto dias melhores. Ambos, o terno e ele.

Como eu já disse antes, num lugar como este você simplesmente fica invisível para o restante da sociedade. E a prova cabal de minha afirmação é que minha amiga pessoal e previdente sócia de nossa empresa passou a menos de dois metros de distância e sequer me percebeu…

– Tem cerveja gelada?

– É a única que tem.

– Mas tá gelada mesmo?

– Péraê.

E eis que ele me serve como copo uma latinha de cerveja vazia, sem a tampa superior, com as bordas cuidadosamente trabalhadas para evitar algum mínimo corte ou machucado, dentro de um desses pequenos isopores suficientes para apenas uma latinha. Serviu a breja da garrafa. Experimentei. E não é que saporra funciona? Geladíssima!

Diferente da última vez em que estive nessa situação, o trânsito de veículos da rua é muito mais movimentado, ao contrário da estreita calçada, onde minguados gatos pingados que de quando em quando passavam – até porque estamos longe do centro nervoso da cidade.

E então comecei a perceber melhor o ambiente que me cercava. A costumeira chapa deu lugar a um surrado micro-ondas, o qual está EM CIMA da chapa desativada a sabe-se lá quanto tempo. Garrafas de bebida empoeiradas compartilham seu espaço com uma moderna TV digital na qual – é lógico – está passando um jogo de futebol de algum obscuro time de talvez alguma ainda mais obscura divisão.

Paira no balcão uma jarra de forma duvidosa com uma beberagem escura, ainda mais duvidosa, meio que cor de mel – provavelmente algum tipo de cachaça com alguma “especialidade” dentro.

– Chefia, me vê um pedaço desse torresmo, fassavor?

– Quer que corte?

– Não, não precisa não.

Besta quadrada que sou. Ainda bem que tenho dentes fortes. Ainda.

No mais quase tudo era como um “boteco pé-sujo normal”: balcão de madeira e tampo de vidro, banquetas altas, gastas e desconfortáveis, vitrine da década de sessenta com alguns salgados também duvidosos em seu interior. Troféus de formatos estranhos ostentados numa prateleira ao alto (aquilo seria um boi?) dividindo o espaço com diversas garrafas comemorativas de sabe-se lá o quê. Uma espécie de biombo de treliça fazia uma divisória entre a porta e o balcão de modo a garantir a intimidade inexistente de seus clientes. Ou seja, equipamento completo. Perfeito!

E, pra completar, quase todo mundo acima dos quarenta que passava pela calçada fazia questão de cumprimentar a figura bonachona do proprietário, o qual, enquanto me observava com o rabo dos olhos, resolveu limpar o embaçado do balcão com o tradicional paninho sujo sempre presente no seu ombro (conforme já descrevi antes, ao falar da tradicional comida de boteco).

Num mero vislumbre, do lado de fora percebo o povo passando. Todo mundo no celular. Lendo, falando, digitando ou tropeçando.

E lá dentro dois ventiladores de teto. Um ligado, outro queimado. Um moderno freezer (ou seria uma estilosa geladeira?) cheia de sorvetes tem o condão de destoar do ambiente. Assim como um moderno sistema de segurança. Sinal dos tempos, com suas luzes piscantes e câmaras (teoricamente) funcionando para registrar o nada do dia a dia de um boteco desses.

Na calçada transitam novos e velhos hispters – será que eu mesmo, com minha vetusta barba, óculos estilosos e brinco também não seria um? – assim como meninas e moçoilas, teoricamente prontas para frequentar alguma academia, ainda que não. Mais pela modernosa vestimenta que pela falta de dedicação que se denota pelo seu formato físico.

Na rua, em plena disputa com os veículos, passa um casal, jovem até, com ele levando ela sentada no quadro da bicicleta. E eu pensando que essa prática havia sido extinta lá pela década de oitenta!

O final de minha hora de ócio se aproxima, desta vez sem cigarros para me acompanhar. Mais uma vez sinal dos tempos e do inferno do politicamente correto que se instalou nesta nossa sociedade que invariavelmente almeja ser o que não é. Mas a culpa sempre será dos desajustados, dos outsiders, daqueles que não seguem a cartilha do que seria socialmente aceitável para conviver com pessoas de índole duvidosa em seu íntimo, mas que externamente pregam ser pilares de tudo aquilo que consideram como certo e do que seria correto.

Mas divago.

Acerto minha conta, pego minhas coisas e saio pela porta ainda a tempo de presenciar aquele senhorzinho voltando e pedindo outro guaraná sem gelo. Vai entender?

Agora que estou de volta às ruas, longe de minha já preterida invisibilidade, alguns transeuntes – velhos amigos e colegas e gente que preferia nunca mais ver – passam e me cumprimentam através de uma buzinhadinha, um sorriso falso, um tapinha nas costas… Só por isso já fico com vontade de voltar à segurança do boteco.

De volta ao Fórum, agora com o sistema também de volta (garanto que ele também deve ter saído pra uma brejinha gelada…), cumpro com o dever que me foi confiado, protocolo o que tinha que protocolar e já é hora de tomar meu rumo.

Pena que, diferente da última vez, não tenho uma mensagem de digna de nota para lhes passar. Estamos onde estamos pelas escolhas que fizemos. Eu vou muito bem, obrigado. Vou levando minha vida, fazendo meus trabalhos, pagando minhas contas. Me falta um quê de companheirismo daquela velha, louca e embriagada turma do dia a dia, mas fazer o quê? As pessoas precisam evoluir. Tomar novos rumos, decidir por novas vidas. Assim também o fiz. Certos ou errados, é o que temos pra hoje. Vivemos tempos sisudos e não consigo de imediato vislumbrar um brilhante futuro próximo a nos aguardar…

Mas devemos seguir em frente. Sempre. Com a íntima certeza de que tomamos o caminho que consideramos justo e certo. Ao menos, apesar de todos meus atos e de todas minhas falhas e faltas, de um modo perfeitamente imperfeito, sinto que consigo continuar colocando a cabeça no travesseiro e dormindo tranquilamente. Dia após dia. Vocês podem se gabar disso também? Bem, eu posso.

E no mais íntimo recôndito da mais íntima parte de meu ser, continuo tendo uma fé inabalável de que após a tempestade deverá vir a esperada bonança. Meus olhos ainda brilham, aquela fera interior ainda ruge e rosna me dizendo em palavras impronunciáveis que dias melhores virão. Que ainda nos sentaremos num legítimo boteco pé-sujo para saborear a nostalgia daquilo que já foi, a qual virá ao encontro daquilo que ainda está por vir. E vamo que vamo!

Pois é…

Parece que nem mesmo os dias de ócio são mais como antigamente…

E você? Cospe ou engole?

E então aquela mocinha, toda correta e ordeira, doutora adêvogada de direito jurídico, bailarina de passos e palavras, gente boa a toda prova – e até vegetariana, vê se pode? – eis que no seu usual horário de almoço, como de praxe foi até a casa de sua mãe, ali pertinho do trabalho mesmo.

Ninguém em casa, não tem problema. Vai, mexe, fuça, arruma suas coisinhas, seus temperos e por aí afora. Prato pronto, almoço feito, fome saciada.

E essa sede, meu Deus?

Fuça mais um pouco e, na geladeira, uma garrafa com um providencial suco de uva. Sim, ela estava atrás de suco de uva mesmo, e não, não tô sendo sarcástico fazendo de conta que estaria falando de vinho. Era suco de uva que ela queria. Que coisa!

Bem, onde estávamos? Ah, sim: a garrafa.

Baixou um copo do armário – meio copinho já estaria de bom tamanho – serviu-se e guardou novamente a garrafa na geladeira. Meio copinho, geladinho, daqueles que numa golada você se sacia.

E assim o fez.

E depois que o fez, já não soube o que fez!

– Oi?

Aquilo tinha gosto de qualquer coisa, MENOS de suco de uva. Afinal de contas o que era aquilo? Até que era gostoso, mas definitivamente não era o que ela esperava. Sim, até estava geladinho, mas também meio ardidinho. E por que ela não conseguia entender que gosto era aquele? E por que seu raciocínio estava meio lento? E por que o chão estava meio inclinado? E por que as paredes teimavam em não ficar paradas?

– Oi, filha!

– Mãe?

– Sim?

– Me diz uma coisa, mãe: sabe aquela garrafa ali na geladeira?

– Ah, sim, ficou bom, né?

– Mãe, o que era aquilo? O que é que ficou bom?

– Ah, filha, então, eu mesma que fiz. Talvez tenha ficado um pouquinho forte, mas ainda melhoro na próxima.

– MÃE. O. QUE. ERA. AQUILO?

– Ué, não é óbvio? Licor de Jabuticaba.

– OI?

– Uma delícia, né, filha?

E ela, toda mocinha, não se sentindo lá nem muito correta nem muito ordeira, doutora embriagada de direito jurídico, tropicando entre passos e palavras, por mais gente boa que fosse, estava totalmente tontinha – vê se pode? Só com meio copinho?

Bem, como toda mulher que se preza, do alto de seu salto, o negócio era enfrentar a situação e, zureta ou não, voltar para o trabalho. Quieta no seu canto, cuidando de seus processos e prazos, já, já que aquilo passava e tudo certo.

Aliás, pensando bem, no máximo, a pior coisa que poderia lhe acontecer naquele momento seria somente encontrar com seu chefe…

Uai? Que foi? Tá procurando o quê ainda? Já acabou.

Vai dizer que foi por causa do título deste texto?

Êitcha que não é nada disso não!

Esse aqui continua sendo um blog de família, tá bão?

Cambada de hereges…

Mas nem é preciso falar o que ela fez, né?

Aliás, só pra constar: adivinhem quem é que sou o chefe dela? E, óbvio, quem foi que ela encontrou ainda na rua, antes mesmo de voltar para o trabalho?… 😀

Elogio do Boteco

Clique na imagem para ampliar!
( Publicado originalmente no blog etílico Copoanheiros… )

Adauto de Andrade

Leonardo Boff
Teólogo/Filósofo

Em razão do meu “ciganismo intelectual” falando em muitos lugares e ambientes sobre um sem número de temas que vão da espiritualidade, à responsabilidade socioambiental e até sobre a possibilidade do fim de nossa espécie, os organizadores, por deferência, costumam me convidar para um bom restaurante da cidade. Lógico, guardo a boa tradição franciscana e celebro os pratos com comentários laudatórios. Mas me sobra sempre pequeno amargor na boca, impedindo que o comer seja uma celebração. Lembro que a maioria das pessoas amigas não podem desfrutar destas comidas e especialmente os milhões e milhões de famintos do mundo. Parece-me que lhes estou roubando a comida da boca. Como celebrar a generosidade dos amigos e da Mãe Terra, se, nas palavras de Gandhi,”a fome é um insulto e a forma de violência mais assassina que existe?”

É neste contexto que me vem à mente como consolo os botecos. Gosto de frequentá-los, pois aí posso comer sem má consciência. Eles se encontram em todo mundo, também nas comunidades pobres nas quais, por anos, trabalhei. Ai se vive uma real democracia: o boteco ou o pé sujo (o boteco de pessoas com menos poder aquisitivo) acolhe todo mundo. Pode-se encontrar lá tomando seu chope um professor universitário ao lado de um peão da construção civil, um ator de teatro na mesa com um malandro, até com um bêbado tomando seu traguinho. É só chegar, ir sentando e logo gritar: “me traga um chope estupidamente gelado”.

O boteco é mais que seu visual, com azulejos de cores fortes, com o santo protetor na parede, geralmente um Santo Antônio com o Menino Jesus, o símbolo do time de estimação e as propagandas coloridas de bebidas. O boteco é um estado de espírito, o lugar do encontro com os amigos e os vizinhos, da conversa fiada, da discussão sobre o último jogo de futebol, dos comentários da novela preferida, da crítica aos políticos e dos palavrões bem merecidos contra os corruptos. Todos logo se enturmam num espírito comunitário em estado nascente. Aqui ninguém é rico ou pobre. É simplesmente gente que se expressa como gente, usando a gíria popular. Há muito humor, piadas e bravatas. Às vezes, como em Minas, se improvisa até uma cantoria que alguém acompanha ao violão.

Ninguém repara nas condições gerais do balcão ou das mesinhas. O importante é que o copo esteja bem lavado e sem gordura senão estraga o colarinho cremoso do chope que deve ter uns três dedos. Ninguém se incomoda com o chão e o estado do banheiro.

Os nomes dos botecos são os mais diversos, dependendo da região do pais. Pode ser a Adega da Velha, o Bar do Sacha, o boteco do Seo Gomes, o Bar do Giba, o Botequim do Jóia, o Pavão Azul, a Confraria do Bode Cheiroso, a Casa Cheia e outros. Belo Horizonte é a cidade que mais botecos possui, realizando até, cada ano, um concurso da melhor comida de boteco.

Os pratos também são variados, geralmente, elaborados a partir de receitas caseiras e regionais: a carne de sol do Nordeste, a carne de porco e o tutu de Minas. Os nomes são ingeniosos: “mexidoido chapado”, “porconóbis de sabugosa”, “costela de Adão” (costelinha de porco com mandioca), “torresminho de barriga”. Há um prato que aprecio sobremaneira, oferecido no Mercado Central de Belo Horizonte e que foi premiado num dos concursos: “bife de fígado acebolado com jiló”. Se depender de mim, este prato deverá constar no menu do banquete do Reino dos céus que o Pai celeste vai oferecer aos benaventurados.

Se bem repararmos, o boteco desempenha uma função cidadã: dá aos frequentadores especialmente aos mais assíduos, o sentimento de pertença à cidade ou ao bairro. Não havendo outros lugares de entretenimento e de lazer, permite que as pessoas se encontrem, esqueçam seu status social e vivam uma igualdade, geralmente, negada no cotidiano.

Para mim o boteco é uma metáfora da comensalidade sonhada por Jesus, lugar onde todos podem sentar à mesa e celebrar o convívio fraterno e fazer do comer, uma comunhão. E para mim, é o lugar onde posso comer sem má consciência.

Dedico este texto ao cartunista e amigo Jaguar que aprecia botecos.

Melhor notícia do ano!

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( Publicado originalmente no blog etílico Copoanheiros… )

Ligia

A melhor notícia do ano é que eu, Ligia Ribeiro, mais conhecida aqui na internet por *margaridanegra* vou começar a destilar meu veneno (e em se tratando de copoanheiros, tudo o que é destilado é bom, não?!) nas páginas deste tão querido blog! Uma honra!!!  ;-D

 

E venho trazendo boas novas, pra você que só precisava de uma desculpa pra ir ao bar depois da academia…

Estudo mostra que cerveja hidrata igual à água após prática esportiva

“BRUXELAS – Um estudo apresentado nesta terça-feira, 20, em Bruxelas comprova que o consumo moderado de cerveja após exercícios físicos é tão eficaz quanto a água para a hidratação, segundo especialistas médicos.”

 

Tá feliz agora?  Vai encher a cara se hidratar, meu filho!

🙂

Prometo só trazer notícia boa!

 

Tirado daqui ó.