Teclando sem parar (ou: para que serve a tecla Scroll Lock)

“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.”

Esse é o meu grau de satisfação de hoje…

Mas vamos por partes; deixa eu explicar melhor essa bagaça!

Pra começo de conversa, modéstia às favas, permitam-me explicar uma coisa: eu digito bem bagaráy!

Como já é de ampla sabedoria de quem já me conhece, sou daquelas criaturas do século, ou melhor, do milênio passado. Quando microcomputadores ainda estavam nas fraldas e celulares, como hoje os conhecemos, nem em filmes de ficção científica existiam. Sou da época da máquina de escrever e do “cursinho de datilografia” – no qual me diplomei em 1981 e com 8,5 de nota final!

Desse modo, quando a era digital chegou, teclados nunca foram um problema para mim. Vejam só, existem várias tabelas e parâmetros no que diz respeito à velocidade de digitação, sempre vinculados à taxa de precisão – afinal, não adianta nada digitar rápido e errado, né? Tirando uma média, temos que um usuário considerado “normal” digita aproximadamente numa taxa de 40 PPM (Palavras Por Minuto); um avançado chega a 60 PPM; o profissional já bate na casa dos 80 PPM; e daí pra cima as classificações ficam meio malucas… Mas basta saber que os digitadores mais rápidos do mundo, variando de acordo com seu idioma, conseguem, em média, digitar até 170 PPM, sempre considerando a utilização de um teclado QWERTY (depois eu explico).

Bem, de acordo com alguns desses testes online (fiz mais de um, só pra ter certeza), este nada modesto escriba que vos tecla consegue atingir uma média de 83 PPM com 98% de taxa de acerto. Ou seja, estou longe de ser um “astro”, mas tá pra lá de bom.

Só que para isso eu também sempre precisei de um teclado à altura, ou seja, um teclado que aguentasse o tranco – e da perspectiva de meu 1,90m de tamanho, com um par de mãos que parecem mais dois cachos de banana nanica, isso não é fácil não!

Foi por isso que meu primeiro teclado, que comprei em 1993 via “reembolso postal”, era um gigantesco DISMAC padrão ABNT2 (um dos primeiros do Brasil com essa disposição de teclas). Numa época em que cá na terrinha grassavam os 386 e o sonho de dez em cada dez engenheiros eram os 486 com coprocessador matemático, eu me contentava com o computador que estivesse à mão – mas sempre com o meu teclado me acompanhando. O que, naqueles tempos em que o usual eram os “teclados americanos”, sem o “Ç” (cê-cedilha), me dava uma trabalheira danada, pois eu sempre tinha que reconfigurar os arquivos de inicialização do MS-DOS – o Senhor Autoxec.bat e a Madame Config.sys – para “aceitarem” meu teclado diferentão…

E – pasmem! – ele me serviu muito bem durante 25 anos. Sério. Somente no ano de 2018 é que ele morreu de morte matada e não de morte morrida, por uma idiotice minha. É que o conector original desse teclado era do tipo DIN (cerca de 1cm de diâmetro e cinco pinos), de modo que por muito tempo eu o utilizei com um adaptador para PS/2 (mais moderno, com cerca de 0,5cm de diâmetro e seis pinos), mas eis que as placas dos computadores ainda mais modernos passaram a ter como porta de entrada somente o padrão USB (que hoje todo mundo conhece bem).

E apesar de estar muito feliz com meu teclado durante todo esse tempo, quando, em meados de 2018, meu querido Alfa-5 partiu para a “grande nuvem”, eu tive que buscar uma maneira de me (re)adaptar. Para quem não lembra, a história completa está neste link, na qual consta inclusive a seguinte notinha da época:

“NOTA DE FALECIMENTO: depois de sete anos de excelentes serviços prestados, comunico a passagem do meu aguerrido computador. Há tempos já vinha dando sinais de esgotamento nervoso, com eventuais lapsos de memória e desmaios repentinos. Passou por uma recente cirurgia de transplante, após uma súbita parada de fonte. Parecia estar bem, mas hoje, por volta de 06h10min, teve um colapso fulminante e não reagiu mais aos tratamentos de ressuscitação artificial. Deixará saudades e um grande vazio em minha mesa e outro maior ainda em meu bolso.“

Isso porque seu substituto, o Alfa-6 (que apesar de todos seus esforços de processamento, não teve vida longa), somente tinha portas de entradas no padrão USB, de modo que aquele monte de penduricalhos de adaptadores (do antigo para o moderno e deste para o atual) estava me incomodando – e muito!

Assim, pela primeira vez em toda sua longeva vida, levei meu teclado para um “técnico”, o qual havia me garantido ser possível fazer a troca daquele ultrapassado conector DIN por um novíssimo USB. Nunca antes tive que fazer nenhuma manutenção nele – exceto por uma única vez, quando pedi para minha querida amiga Ligia fazer uma profunda higienização no coitado e ela teve o zelo e cuidado de desmontá-lo inteirinho, limpar tecla por tecla, e tirar uma quantidade de imundície que resultou numa bola de sujeira do tamanho de uma bola de golfe!

Infelizmente o tal do técnico não teve o mesmo zelo e cuidado que ela…

Primeiro ele me disse que o teclado havia para de funcionar e estava tentando descobrir o porquê. Depois fechou a loja. Então se mudou pra roça. E a partir daí não tive mais notícias do falecido. O teclado, não o técnico.

Paciência. Vida que segue.

No início de 2019 rendi-me à modernidade e parti para o mundo dos notebooks. Um potente e modernoso Dell que veio a ser batizado de ALPHA7. E, como se pode imaginar, com aquele teclado do tamanho infantil, impossível para mim de utilizá-lo com desenvoltura, portanto fui experimentando o que tinha à mão: teclados com fio, teclados sem fio, de marca, sem marca, nada muito satisfatório (ou durável), mas que dava pro gasto. Ao menos por algum tempo.

Somente por sugestão do filhote mais velho é que lá pelos fins de 2023 resolvi testar um teclado mecânico gamer, teoricamente mais robusto do que tudo que eu vinha destruindo utilizando até então. Dei uma boa fuçada e numa razoável relação custo/benefício escolhi um da marca Aurum.

E não é que deu certo? Bastava desativar aquele árvore de natal de cores piscantes e pronto. Estava ali um teclado aparentemente resistente o suficiente para aguentar minhas extremamente longas marteladas diárias.

Já em meados de 2024, depois de cinco anos sofrendo na minha mão, o notebook começou a dar sinais de senilidade. Antes que fosse tarde demais, botei para correr os escorpiões de meus bolsos e comprei um novo notebook. Novamente da Dell. Gostei da marca, fazer o quê?

É meu equipamento atual, cuja designação Borg é ALPHA8, e tem superado minhas expectativas.

Porém, muito mais cedo do que eu esperava, esse “novo” teclado começou a dar um probleminha. Talvez uma coisa idiotamente irrelevante para qualquer outra pessoa, mas não para mim, que trabalho digitando e transcrevendo textos praticamente todos os dias, por horas a fio. De quando em quando, ao apertar a barra de espaços, em vez de dar um espaço, ele dava dois. Todo o resto funcionando perfeitamente, menos isso.

Até entendo do porquê dessa específica tecla apresentar defeito. Ela simplesmente é A MAIS UTILIZADA do teclado em qualquer texto, pois todas as 26 letras do alfabeto (mais acentos, números e outros símbolos) se alternam entre si para formação das palavras, mas entre elas SEMPRE vai ter um espaço. Ou seja, uma hora dessas tinha que dar xabu. E, no caso, se apresentou na forma desse soluço espacístico. Que nem seria tão relevante assim.

Mas, gente, eu sou perfeccionista. Ou, ao menos, tento ser.

Tá, somente talvez eu tenha um bocadinho de TOC também…

Mas já estava ficando insuportável ter que revisar tudo que eu digitava à caça dos espaços duplos!

Novamente conversei com o filhote mais velho – Técnico em Informática, Engenheiro da Computação, com formação em Marketing e prestes a se formar em Gastronomia (o_O) – e perguntei-lhe se não seria possível simplesmente fazer uma troca de switches, ou seja, da tecla da Barra de Espaço por uma outra que estivesse funcionando mas que não fosse utilizada, como, por exemplo, a tecla Scrol Lock.

(Cá entre nós: alguém NO MUNDO usa essa merda dessa tecla? Eu não uso. NUNCA usei. Aliás, nem sei pra que serve e o porquê de ainda continuar nos teclados atuais. E afinal de contas, para que serve a tecla Scroll Lock? Segundo o Sr. Google, ela remonta aos primórdios da computação, criada pela IBM com o objetivo de modificar o comportamento das teclas das setas direcionais. Num mundo de telas pequenas e ambientes baseados somente em texto, quando ativada, fazia com que as teclas de setas rolassem o texto sem precisar tirar o cursor do lugar. E nos dias de hoje? Como fazer essa “tão importante” tarefa? Basta usar a porra do botão de rolagem do mouse! Caráy! A tecla Scroll Lock é um anacronismo, uma relíquia desnecessária de um passado que ainda continua incorporada nos teclados e inútil para 99,9% de todas as pessoas DO MUNDO! E só não digo que é para 100%, porque vai que tem algum idiota preso no passado e que gosta de ficar usando funções e equipamentos de outra era…)

Enfim, o filhote disse que isso não era possível, pois o switch da barra de espaço era diferente dos das demais teclas e não seria intercambiável.

Dito isso, joguei a toalha e pedi para que ele escolhesse um teclado bão pra mim. Decidiu por um da Logitech. Déis vêiz sem juro no cartão e tá tudo certim. Inclusive já chegou, está aqui instalado e funcionando muito bem, obrigado.

Mas, ainda assim, permaneceu um gigantesco sifonáptero mordiscando na parte posterior de meu pavilhão auricular.

Pior do que estava não poderia ficar (na verdade, poderia sim, mas deixa pra lá), então resolvi desmontar o teclado defeituoso e verificar se ainda seria possível fazer alguma coisa com ele que não fosse usar de raquete para frescobol.

Pela segunda foto já deu para perceber que não existem diferenças entre as switches, né?

A única parte “complicada” é que a fixação de cada switch se dá através de duas perninhas soldadas na placa de circuito impresso. Ainda bem que meu pai me deu uma pistola de ferro de solda (a mais velhinha e detonada dentre as várias que ele tinha, mas zuzo bem), e mesmo com muito cagaço e pouca habilidade, consegui trocar as peças de lugar.

Depois de montado, conectei-o no note para testar.

Quinze minutos ininterruptos e cerca de 1.200 palavras depois, fui revisar o texto.

Sabem quantos espaços duplos?

NENHUM!

Baita orgulho de mim mesmo…

E já que estou MUITO satisfeito com meu novo teclado novo, sorte do filhote caçula, que ganhou um novo teclado velho em perfeito funcionamento!

*   *   *

Emenda à Inicial: Sobre o “Teclado QWERTY”. Imagino que para quem se depara com um teclado de computador pela primeira vez deve parecer um negócio bem esquisito. Por que todas as letras do alfabeto ficam assim “bagunçadas”? Não seria mais fácil – e mais lógico – simplesmente dispor essas letras em ordem, de modo a serem encontradas mais facilmente, sem precisar ficar decorando posições? Pois é. Mas isso é uma herança da época das máquinas de escrever. Para quem nunca se deparou com uma dessas “máquinas de digitação” (como contei aqui, quando meu filhote caçula tinha lá seus dez anos…), trata-se de um equipamento cujas teclas estão ligadas mecanicamente a hastes em cujas pontas estão os “tipos” (caracteres, como num carimbo); ao se pressionar a tecla a haste é movida para diante fazendo com que o tipo pressione uma fita com tinta e deixe sua marca no papel. Esse é o princípio básico da máquina de escrever. E, segundo diz a lenda, funcionaria muito bem se o datilógrafo teclasse DE-VA-GAR – o que, obviamente, não era o caso quando de sua criação, no longínquo século XIX, de modo que quanto maior a habilidade, mais as hastes simplesmente se encavalavam umas sobre as outras. Qual seria a solução? Rearranjar as teclas num padrão em que as hastes das letras mais utilizadas (na língua inglesa) ficassem distantes uma das outras, diminuindo a velocidade do operador e evitando o engarrafamento literário. Ou seja, o que se conta é que foi um padrão de disposição de letras criado para resolver um problema mecânico das máquinas de escrever. O que, de qualquer forma, não faz nenhum sentido para este nosso mundo digital!

Solução definitiva: legenda SRT aparece no computador e não na TV

Só para não deslembrar que há muito – muito – tempo atrás, este blog também costumava tratar de tecnologices, instalações complicadas e/ou impossíveis e assuntos afins. O que, na realidade, começou como lembretes de mim para mim mesmo, mas que tomou outra dimensão e utilidade…

Enfim, em casa não tenho sinal de TV aberta, não tenho TV a cabo e não assino nenhum serviço de streaming. Então me viro mesmo é com os torrents da vida, através dos quais baixo minhas séries recém lançadas lá fora, filmes ainda em cartaz e por aí vai. Sempre com o áudio original, na maciça maioria das vezes, em inglês. Mas, considerando meu inglês macarrônico, que é o suficiente para ultrapassar a fase “The book is on the table”, mas passa longe de qualquer ode shakespeariana, não abro mão de minhas legendas – as quais, às vezes, vem com problemas de sincronização, tradução ou simplesmente desaparecem (ainda que estejam lá).

Muito bem.

Peguei esta dica em um vídeo do Youtube (que já não lembro mais de quem era) e resolvi deixar guardada por aqui caso venha algum dia eu venha a precisar de novo – a memória já não é lá mais essas coisas… O “problema” é que no computador a legenda funciona, mas ainda assim não consegue ser reproduzida no filme na TV – mesmo apesar de os nomes dos arquivos estarem idênticos e corretas as extensões de cada um dos arquivos. O problema está no arquivo SRT, o da legenda. Todo arquivo SRT nada mais é que um arquivo de texto editável e para cada tela com legenda ele contém três linhas de informações:

1) número de ordem;
2) momento inicial e momento final; e
3) a legenda propriamente dita.

Esses “momentos” iniciais e finais correspondem à hora, minuto, segundo e milissegundo em que a legenda deve aparecer (inicial) e, logo em seguida, sumir (final). Exemplo (do filme Batman vs Superman):

1
00:00:17,684 – -> 00:00:20,353
Houve uma época…

2
00:00:20,520 – -> 00:00:22,939
uma época anterior…

3
00:00:23,106 – -> 00:00:25,859
em que as coisas eram perfeitas.

Os arquivos SRT são facilmente editáveis com qualquer editor de texto “puro” (Bloco de Notas, Wordpad, EditPad, etc), mas particularmente eu prefiro o programa Subtitle Edit (software livre, em português, disponível para Windows).

Ok, feitas essas considerações, onde está o problema da legenda que não aparece?

Pode ter duas causas (que eu saiba, pois aconteceram comigo em dois filmes distintos):

A primeira é que em algum momento, em alguma linha, foi colocado um TEMPO DE INÍCIO POSTERIOR, de modo que a leitura da legenda somente vai começar a partir desse tempo. No nosso exemplo aí de cima, seria como se a legenda nº 1 tivesse tempo de início em “00:21:00,000”, ou seja, a leitura começaria no bloco 1 e já pularia para o bloco 3 ignorando o bloco 2, cujo tempo, “ficou pra trás”. Se, numa legenda longa, essa informação equivocada estiver mais para o fim, então todas as legendas anteriores serão ignoradas.

A segunda causa é alguma legenda com TEMPO NEGATIVO, o que contamina todas anteriores. Mais uma vez em nosso exemplo, seria como se na legenda nº 3 o tempo de início fosse “00:00:23,106” e o de fim “00:00:03,106”, o que resulta em “- 00:00:20,000” e significa que vai dar um chabu geral na leitura da legenda…

De qualquer forma a solução é editar o arquivo SRT e procurar onde está o erro. Feita a devida correção e com os blocos e tempos linearmente corretos, provavelmente tudo deve funcionar a contento!

Pela atenção, obrigado.

O tempo dos escritórios: da banca individual às grandes firmas

Egon Bockmann Moreira
Professor Titular da Faculdade de Direito da UFPR.
Advogado.

Evolução da advocacia revela o desafio de conciliar modelos empresariais com a preservação da identidade e vínculo humano

Quando comecei a advogar, no século passado, vários escritórios de advocacia eram a extensão da casa de seus sócios. Poucas salas, armários escuros com uma mistura de livros novos e antigos, organizados segundo a memória do dono, máquinas de escrever e cinzeiros. O telefone soava poucas vezes ao dia. O advogado entrava na sala, se apresentava pelo nome e exercia sua profissão individualmente. As causas eram menos numerosas, mas bem pessoais: o cliente sentava-se, explicava o problema, e a relação se construía a partir da voz e do olhar. Os juízes sabiam quem éramos e com quem trabalhávamos. Todos – ou quase todos – se reconheciam no Fórum (ou nas livrarias). Era um ofício artesanal, intuitu personae, sustentado por reputação e palavra. Poucos eram os escritórios mais longevos do que seus fundadores.

Com o passar do tempo, e num ritmo impreciso, a paisagem se transformou. A multiplicação das normas, a especialização dos temas e a ampliação dos mercados tornaram insuficiente o modelo individual. A advocacia local, que cabia em uma sala, passou a exigir estrutura, coordenação e resposta imediata. Vieram as bancas de médio porte, depois as firmas quase-empresariais e, por fim, dezenas de organizações com centenas de advogados que se espalharam pelo mundo. Isso tudo aconteceu como muitas coisas acontecem na vida: rápido e devagar. “Como foi que você faliu?, Bill perguntou. De duas maneiras, respondeu Mike, primeiro lentamente e, depois, de um só golpe.” Essas linhas do O sol também se levanta, obra-prima de Hemingway, descrevem como se deu o crescimento e a multiplicação dos grandes escritórios de advocacia brasileiros: lentamente e de um só golpe. Então, as portas de madeira deram lugar às fachadas de vidro, às logomarcas de design estudado, à dispensa das gravatas, ao trabalho em poltronas de aviões e ao home-office. O sobrenome do fundador cedeu espaço à marca coletiva – uma sucessão de vogais e consoantes – e, com ela, à racionalidade da gestão de pessoas e processos.

Não me parece que essa transição tenha sido fruto de vaidade ou de modismo, mas tem causas econômicas e institucionais razoavelmente bem definidas. As empresas se tornaram complexas, as regulações se multiplicaram, os litígios aumentaram em valor e repercussão. Os tribunais cresceram e se multiplicaram. O cliente corporativo passou a exigir disponibilidade contínua, atendimento integrado, especialização técnica e padronização de condutas. As formas de comunicação instantânea – a crueldade do WhatsApp, que não respeita horários – a fazer com que tudo tenha de ser lido e respondido de modo breve, fugaz, em torrentes de pequenos monólogos. Não se olha no olho, mas na tela do celular. A advocacia entendeu o que se passava e reagiu criando estruturas compatíveis com essa demanda. O escritório deixou de ser apenas um espaço de trabalho para se converter em organização empresarial, com governança, controladoria, categorias de profissionais, metas e métricas de produtividade.

A racionalidade das grandes firmas de advocacia parece ser a da eficiência: coordenação de saberes, divisão de tarefas, gestão de riscos, receitas projetadas e remuneração com base em performance e captação. Nada disso é negativo em si. Permitiu que advogados e advogadas se tornassem interlocutores das maiores decisões empresariais e governamentais do país. Mas toda essa racionalidade de grandes negócios carrega um preço: as métricas e o controle substituíram a autonomia; a marca coletiva apagou a identidade pessoal; a estabilidade foi transformada em sucessão interminável de advogados e advogadas. A pessoa, que antes respondia apenas por suas convicções mais íntimas perante o seu cliente, passou a representar um conjunto institucional de políticas e procedimentos. O gesto de escrever uma petição, fazer uma audiência ou orientar um cliente tornou-se, muitas vezes, parte de um processo industrial despersonalizado de produção jurídica.

Há ganhos evidentes: clientes de envergadura, receitas colossais, qualidade constante, previsibilidade, integração multidisciplinar. Mas, também, pode haver perdas que não podem ser ignoradas. A primeira delas talvez seja a distância humana e a secura das vivências. Aquele vínculo personalíssimo, que nascia da escuta ativa e do conselho ponderado, foi substituído por fluxos de comunicação eletrônica impessoais, planilhas e reuniões com minuto para acabar. A segunda é a dispersão da responsabilidade intelectual: poucos sabem, de fato, quem concebeu a solução, elaborou a estratégia ou redigiu o documento. O trabalho coletivo é essencial, mas pode dissolver a autoria e, com ela, a consciência – e o orgulho – do ofício. Pode vir a neutralizar sentimentos que me parecem tão caros à advocacia.

Advogadas e advogados sempre viveram da confiança e da ética. Quando o cliente deixava um caso sobre a mesa, acreditava só naquela pessoa a quem entregava o seu destino. O tempo das grandes firmas inverteu, em parte, essa lógica: hoje se confia na estrutura, na capacidade de gerenciamento, na equipe e na reputação institucional de uma sigla. É natural que seja assim (seria ilusório desejar o retorno a um imaginado passado que não voltará jamais). O que importa é não perder de vista o sentido da profissão: oferecer orientação técnica e ética em nome do direito, e não apenas prestar um serviço eficiente pautado pelo volume de horas “biladas” (esse horrível anglicismo que hoje nos persegue).

A advocacia brasileira pode estar a atravessar, portanto, um paradoxo. Precisa das grandes firmas, que garantem escala, sofisticação e presença internacional. Mas, igualmente, necessita preservar o espírito das bancas pequenas, em que o advogado respondia pessoalmente por cada linha escrita e orgulhava-se de seus arroubos criativos, sendo identificado e identificando-se com o seu próprio trabalho. O desafio talvez esteja em conciliar essas dimensões: construir organizações que não percam a delicadeza do gesto individual, que saibam ser grandes sem se tornarem anônimas. Em que as pessoas valham mais dos que as métricas de performance. Depois de tantos anos, quem sabe o melhor escritório persista sendo aquele em que ainda se pode reconhecer pelo nome o advogado que entra na sala.

Nas asas da Graúna

Para quem ainda não conhece (assim como eu também não conhecia), esta é a galera que está à frente da Rede Graúna de Cultura, Diversidade e Solidariedade, atualmente capitaneada pela Sara e pela Stella. Sinceramente não sei bem como descrever essa entidade além daquilo que seu próprio nome já deixa bem evidente – mas, para simplificar, ela mesma se apresenta como uma “rede multiplicadora de afeto”.

Fundada em 13/10/2021, já foi anteriormente dirigida pela Vivian Pelodan e pelo Matheus Korting (foi o que acho que descobri, mas se eu estiver errado, me corrijam!), e o espaço que hoje ocupa foi inaugurado em 10/12/2021, onde, desde então, vem desenvolvendo suas atividades culturais, artísticas, sociais e outros quetais – às vezes aos trancos e barrancos, outras tantas, graças ao abnegado time do voluntariado, avançando a largos passos. Mas, vejam só: já passou de dois anos de existência, então provavelmente seu futuro deve, a cada vez mais, se estabilizar!

Mais do mesmo vocês podem encontrar no espaço virtual, em suas páginas do Facebook (aqui e aquimas algum dia alguém me explica do porquê de existirem duas…) e em sua conta no Instagram.

E em seu espaço físico, uma ampla dependência cedida pelo Carlos Alberto Leal (o CAL, ou CAU, ou CAO – eu nunca consigo me lembrar!), há um bom tempo já existia a Sala de Leitura Paulo Bicarato. Mas, pelo visto, a quantidade de livros foi crescendo, se avolumando, e, ao mesmo tempo, foram sendo organizados, chegando a um ponto que não fazia mais sentido ser tratada apenas como “sala de leitura”, pois já se tornara muito mais que isso. Era uma biblioteca. E, além: uma Biblioteca Comunitária!

Então, nada mais justo que essa árvore de livros, nascida daquelas sementes de leitura, permanecesse com o mesmo nome de seu patrono. Mas é preciso formalizar, é preciso inaugurar, é preciso ter festa, é preciso ter proseio, recordação e emoção!

E assim foi feito.

Bica, Bicarato, Paulo, Pô, Biquinha – e talvez até outras tantas alcunhas que eu ignoro -, esta é a mais justa homenagem para quem te conheceu. Você sabe. Você estava lá, conosco, comemorando e bebemorando. Um espaço que é a sua cara e, provavelmente, seria praticamente sua moradia se ainda estivesse por aqui. Nos reunimos e proseamos e rimos e rememoramos algumas de suas desventuras. De quando você foi “vendido” de uma redação de um jornal para outra pelo preço de duas cervejas; de uma de suas primeiras matérias – e ainda nem era contratado – que rendeu a primeira página do jornal (bem como uma rápida passagem pelo cárcere); de como você tão bem sabia escrever “com a letra dos outros” a partir do roteiro básico que lhe fosse dado (impossível não comparar, nos dias de hoje, com o prompt a ser passado para alguma inteligência artificial generativa executar suas tarefas); de suas sugestões, simples e desinteressadas, que acabavam rendendo a execução de projetos sociais e culturais que preenchiam a cidade; e de outros tantos causos que não vem ao caso elencar, pois aqui é um blog de família e não interessa a ninguém xeretar sobre essas histórias. Mas, se quiserem realmente saber, me perguntem no particular…

E confesso que foi com uma pontinha de orgulho (mas não muito, que é pra não estragar) que fiquei sabendo que algumas de minhas palavras, copiadas lá do prefácio  do seu livro O Alfarrábio – Elucubrações Diárias de um Roseano (2001 a 20204), acabaram integrando sua “minibiografia”:

Mas, afinal de contas, quem foi Paulo Bicarato? Ele foi um jornalista, fã incondicional da obra de Guimarães Rosa, riponga, palmeirense, ativista, canhoto, blogueiro das antigas, viajandão, mochileiro, temulento, amante da língua portuguesa, agitador de movimentos sociais, dono de um texto impecável, apaixonado pelo Brasil, de uma inteligência fora de série, um cara sincero, poeta de guardanapo de boteco, humilde, teimoso, com um coração de ouro, o senhor das crases, extremamente confiável, excelente copoanheiro, desapegado, de fina verve humorística e o melhor escritor que já conheci. Foi tudo isso e muito mais. Porém, sobretudo – ao menos para mim – o mais importante: Paulo Bicarato foi meu amigo.

Pô, Bica (e sua família, que estava presente, vai facilmente enxergar a redundância dessa expressão), foi uma noite muito Legal. E mesmo sabendo que você estava conosco, faltou você!

E eu não podia deixar de transcrever aqui a Balada para um Louco. Não vou nem explicar, pois só quem estava lá para entender…

Num dia desses ou, numa noite dessas
você sai pela sua rua ou, pela sua cidade ou,
ou, sei lá, pela sua vida, quando de repente,
por detrás de uma árvore, apareco eu!!!

Mescla rara de penúltimo mendigo
e primeiro astronauta a por os pés em vênus.
Meia melancia na cabeça, uma grossa meia sola em cada pé,
as flores da camisa desenhadas na própria pele
e uma bandeirinha de táxi livre em cada mão.

Ah! Ah! Ah! Você ri… Você ri porque só agora você me viu.
Mas eu flerto com os manequins,
o semáforo da esquina me abre três luzes celestes.
E as rosas da florista estao apaixonadas por mim, juro,
vem, vem, vamos passear.
E assim meio dançando, quase voando eu
te ofereço uma bandeirinha e te digo:

Já sei que já não sou, passei, passou.
A lua nos espera nessa rua é só tentar.
E um coro de astronautas, de anjos e crianças
bailando ao meu redor, te chama:
bem voar.

Já sei que já não sou, passei, passou.
Eu venho das calcadas que o tempo não guardou.
E vendo-te tão triste, te pergunto: O que te falta?
…talvez chegar ao sol, pois eu te levarei.

Ah! Ah! Ah! Ah!

Louco, louco, louco! Foi o que me disseram
quando disse que te amei.
Mas naveguei as águas puras dos teus olhos
e com versos tão antigos, eu quebrei teu coração.

Ah! Ah! Ah! Ah!

Louco, louco, louco, louco, louco!
Como um acrobata demente saltarei
dentro do abismo do teu beijo até sentir
que enlouqueci teu coração, e de tão livre, chorarei.

Vem voar comigo querida minha,
entra na minha ilusão super-esporte,
vamos correr pelos telhados com uma andorinha no motor.
Ah! Ah! Ah!
Do Vietnã nos aplaudem:
Viva! viva os loucos que inventaram o amor!
E um anjo, o soldado e uma criança repetem a ciranda
que eu já esqueci…
Vem, eu te ofereço a multidão, rostos brilhando, sorrisos brincando.
Que sou eu? Sei lá, um…
um tonto, um santo, ou um canto a meia voz.

Já sei que já não sou, nem sei quem sou.
Abraça essa ternura de louco que há em mim.
Derrete com teu beijo a pena de viver.
Angústias, nunca mais!!! Voar, enfim, voaaaarrr!!!

Ama-me como eu sou, passei, passou.
Sepulta os teus amores, vamos fugir, buscar,
numa corrida louca o instante que passou,
em busca do que foi, voar, enfim, voaaaarrr!!!

Ah! Ah! Ah! Ah!…

Viva! Viva os loucos!!! Viva!
Viva os loucos que inventaram o amor!
Viva! Viva! Viva!

Já que é Halloween: você é uma bruxa?

Texto (levemente) adaptado de uma publicação de 1971,
no Catálogo de Livros e Revistas Ocultistas,
da Editora Llewellyn Worldwide, Inc.

As atitudes sociais em relação às bruxas estão mudando rapidamente. Há apenas alguns anos, a palavra “bruxa” costumava evocar aquela imagem padrão de uma velha feia misturando alguma poção fétida sob uma lua nublada. Pensávamos em ingredientes fantásticos, como sangue de morcego engarrafado ou miniaturas rústicas de cera em forma de pessoas, e considerávamos a bruxaria absurda, maligna ou ambas.

Não mais! Socialmente, paramos a perseguição às bruxas e, em particular, começamos a nos perguntar do que se trata a bruxaria. A bruxa imunda dos contos foi substituída pela imagem da bruxa sedutora e glamourosa de Hollywood.

A bruxaria se tornou aceitável e, junto com a astrologia, passou a ser praticada com entusiasmo por devotos em praticamente todo os lugares.

Mas, afinal de contas, o que é uma bruxa? Algumas pessoas acreditam que uma verdadeira bruxa deve descender de uma longa linhagem de bruxas, tendo nascido em uma encruzilhada, com o Sol em Escorpião, ou então pertencer a um Coven (um grupo de bruxas sob o comando de um sumo sacerdote ou sacerdotisa); enquanto que outras pessoas afirmam com a mesma ênfase que qualquer pessoa que desejar pode se tornar uma bruxa. Todos concordam, no entanto, que uma bruxa é alguém que molda os eventos de acordo com sua própria vontade. Afinal de contas, uma bruxa pratica feitiçaria, quer seja para o bem, quer seja para o mal.

Independentemente do que se acredite sobre as qualificações necessárias de uma verdadeira bruxa, de alguma forma todos nós já conhecemos certas pessoas que parecem ter um grande magnetismo pessoal e que conseguem projetá-lo para exercer poder ou influência sobre aqueles ao seu redor. Essas pessoas podem ser encontradas nos lugares mais improváveis: no seu trabalho, durante as compras, em festas; até mesmo, talvez, em seu próprio espelho…

Afinal de contas, você é uma bruxa? Você conseguiria realizar um feitiço com sucesso? Se você puder responder sim à maioria das perguntas a seguir, provavelmente deve ter mais do que um mero interesse passageiro nessa arte ancestral e, quem sabe, já deve possuir algumas habilidades para a bruxaria!

– Você carrega amuletos para dar sorte?
– Há alguma marca de bruxa em algum lugar do seu corpo?
– Você já experimentou algum déjà vu, aquela sensação de já ter estado no mesmo local ou na mesma situação antes?
– Você acredita no poder da sua própria vontade?
– Você é essencialmente uma pessoa forte e magnética?
– Você já tentou usar sua força psíquica para tentar direcionar eventos (por exemplo, para conseguir que alguém diga ou faça algo que você quer)?
– Você acredita que as palavras têm poder?
– Você acredita no poder da sugestão?
– Você se sente atraída pelas ciências ocultas (talvez sentindo, simultaneamente, medo e encanto por elas)?
– Algum de seus ancestrais já esteve envolvido com o ocultismo?
– Você consegue respeitar a bruxaria, reconhecendo-a como uma espécie de religião antiga?
– Você é capaz de sentir sensações ou energias vindas de objetos pessoais de terceiros (como joias ou roupas)?
– Você acredita em superstições ligadas a como essas coisas são manuseadas e cuidadas?
– Você mantém um diário secreto?
– Você é fascinada pelo uso de ervas e especiarias, na culinária e acredita em seu antigo uso medicinal?
– É capaz de sentir que certos lugares têm um poder especial para você?
– Você se sente mais natural, mais confortável, mais você mesma, sem roupas (já que algumas bruxas fazem seus feitiços nuas)?
– Você acredita em reencarnação?
– Você tem um nome secreto pelo qual sempre se chamou ou que gostaria que fosse seu verdadeiro nome?
– Você conversa com suas plantas, seu gato ou cachorro e acredita que essas e outras coisas em sua casa têm suas personalidades e identidades próprias?
– Você acredita que um grupo de pessoas juntas (por exemplo, em oração) pode gerar uma força psíquica poderosa?
– Alguma vez alguém já se referiu a você como bruxa?
– Outras pessoas, às vezes até estranhas, procuram naturalmente sua companhia, expressando uma incompreensível confiança?
– Você já teve inexplicáveis crises absurdas de ciúme?
– Você acredita na existência de um Ser Supremo?